

Donna Gehrke-Whjte

O rosto atrs do vu

As vrias faces das
mulheres muulmanas

Traduo
Dbora da Silva Guimares Isidoro

- 2006 by Donna Gehrke-White

Ttulo original: The Face Behind lhe Veil

Publicado sob acordo com Kensington Publishing Corp. NY, NY USA.
Todos os direitos reservados.
Diretora editorial: Janice Florido
Gerente editorial: Cana Fortino
Editora de arte: Ana Dobn
Preparao: Patrcia Nina Chaves
Reviso: Adriane Gozzo e Mauro de Barros
Projeto grfico: Dany Editora Ltda.
Imagem de capa: Getty Images
Impresso: So Paulo/Brasil
Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
(Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

ndices para catlogo sistemtico:
1. Estados Unidos : Muulmanas : Biografia 305.486970973
2006
Proibida a reproduo total ou parcial.
Os infratores sero processados na forma da lei.
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e-mal: edarx@edarx.com.br


Gehrke-White, Douna

O rosto atrs   do vu : as vrias faces das mulheres muulma na


/ Donna Gehrke-White ; traduo   Dbora da Silva Guimares
Isidoro. - So Paulo : Arx, 2006.

ISBN 85-7581-238-6


Obrigada, Tim, Nick e Alex,
por estarem a meu lado

SUMRIO

Prefcio11

Agradecimentos.13

Introduo . 17

PARTE 1: AS NEOTRADICIONALISTAS .33

1. Zarinah: Rainha do Colgio ao estilo islmico. 37

2. Por que o vu de Sireen significa tanto? 44

3. Michaela e a alta-costura para muslimah. 51

4. Maria e o pesadelo de um casamento arranjado. 62

5. Aysha: os perigos de ser muslimah. 70

6. Areej: usando hijab no mundo profissional. 75

7. Sakeena: encontrando na Amrica o caminho para casa82

8. Haseena e uma lio sobre diversidade. 87

9. Dra. Amena Haq: estetoscpio e hijab.90

10. O empreendimento de Edina. 99

PARTE11: AS INIDENTIFICVEIS. 105

11. Zainab: uma muslimah feminista e pioneira. 108

12. Luby ensina aos americanos sobre o islamismo. 116

13. Fay: bom corao  mais importante que regras religiosas. 124

14. A crise de Cassy: descobrir a cabea para ter a
filha de volta 131
15. Rahima: longe da burca - e da famlia 140
16. Shahida: ela vai  faculdade de medicina;
o marido torna-se o sr. me 143
17. Sabrina: me muulmana em movimento 151
PARTE11I: AS CONVERTIDAS 154
18. A converso de Cathy: me de minivan volta-se
ao islamismo 157
19. Samirah: o alto custo de tornar-se muulmana. 161
20. Emma: um novo beb e uma nova vida islmica ... 166
21. As lies de Leslie e a luta contra o cncer 171
22. Ftima renasce: de freqentadora de festas a
me muulmana. 179
23. A jornada de Juwayriah. 185
24. Patricia: extraordinria professora modificada
pelo islamismo. 191
25. Yuko anseia por famlia e f. 197
26. Zuly: uma latina encontra o islamismo. 204
27. Anisah: vivendo sob o vu na Dakota do Sul. 209
PARTE IV: AS PERSEGUIDAS 219

28. Quando votar  uma alegria 222
29. Senada: a refugiada que agora ajuda outros 225
30. A jornada de Farida de volta  liberdade 233
31. Tnia, a fugitiva. 244
32. Deman: salva dos bombardeios - e de Saddam... 249
33. O milagre de Sakina: do campo de refugiados ao
subrbio americano. 252

8

34. Shaima: recuperando-se do assassinato do marido. 257
35. A jornada de Salma. 260

36. Hawa: a rainha sai para caminhar. 266

91PARTE V: AS MODIFICADORAS. 269

37. Sarah: progressista com muito orgulho. 272

38. Ingrid: lder das mesquitas. 283

39. Sarwat: divulgando a palavra. 290

40. A pesada maleta de Laila: mdica com uma causa. 299

41. Paixes de Afeefa: poltica e educao. 307
42. Clareen no front. 312
43. A misso de W. L. Cati: salvar muulmanas vtimas de abuso 322

44. Aneesah: assistente social e acadmica. 331

45. Juza Zakia Mahasa: a corte est em sesso. 337

46. Azizah al-Hibri: defensora dos direitos humanos. 344

47. O dever de Deedra. 355

48. Dalia: lutando por direitos civis. 362.

49. A odissia de Okolo: fundar o primeiro museu muulmano dos Estados
Unidos. 368

50. Riffat: a vida com um propsito. 375

Glossrio. 381

9

PREFCIO

Como tantos outros reprteres que cobrem matrias sobre religio, fui
convidada a escrever a respeito dos muulmanos depois dos ataques
terroristas de 11 de Setembro de 2001. Mohammadd Shakir,
diretor-executivo do Conselho Asitico-Americano de Miami-Dade,
recomendou que eu examinasse uma tendncia notada por ele: mais mulheres
muulmanas adotavam o tradicional leno islmico para cobrir a cabea,
conhecido como hijab, embora na Amrica tal pea seja ainda
relativamente rara. A prpria filha dele, estudante de direito em
Michigan, era uma dessas "neotradicionalistas", apesar de a irm e a me
dela no usarem o leno em pblico.
Aceitei a sugesto de Mohammadd e fiquei fascinada com as mulheres que
conheci. Elas eram muulmanas devotas, mas tambm profissionais de
carreira, entre elas uma mdica, uma diretora de laboratrio de anlises
clnicas, uma assistente social e uma professora. Para uma histria em
particular, entrevistei uma estudante muulmana na Universidade de Miami
que no usava nenhuma cobertura, mas se identificava muito com o
islamismo. Ela e outras que no usavam o hijab haviam encontrado uma
forma de se adaptar queles aspectos da tradio islmica que
consideravam apropriados, conseguindo ajustar a "antiga" religio 
Amrica altamente tecnolgica de hoje.
A jornada espiritual dessas mulheres me encantou. Elas
podem chegar a diferentes prticas, mas ainda rezam a Al.

Muitas esto ajudando a transformar a mesquita em um lugar de adorao
que inclua totalmente as mulheres. Esto americanizando-a,
transformando-a em um local onde podem acontecer jantares beneficentes,
reunies de organizadoras de bazar e at sesses de grupos de
auto-ajuda, programas que igrejas e sinagogas americanas j oferecem.
Mesmo com o sentimento antimuulmano mais exacerbado que nunca nos
Estados Unidos, essas mulheres persistem em sua f. Usam vus, apesar
das vaias; freqentam mesquitas, mesmo sendo segregadas pelos homens. De
fato, o islamismo floresce, com novas mesquitas sendo abertas todos os
anos. Embora diversas mulheres americanas lutem por reformas dentro das
mesquitas, no desistem de sua f. No islamismo, encontram consolo.
Decidi descobrir por que isso acontece e quem so essas
mulheres.

AGRADECIMENTOS

Este livro jamais teria sido escrito no fosse por muitas
muulmanas que, com grande pacincia, responderam s minhas questes.
Obrigada, garotas, por terem compartilhado comigo suas vidas. Minha
gratido especial a Anisah David, por ter me contado no s sua
histria, mas tambm a de sua filha, inclusive por ter me ajudado a
encontrar outra fascinante muslimah e por ter oferecido valiosas
sugestes enquanto eu escrevia este livro. Sakeena Mirza, Sireen Sawaf,
Okolo Rashid e Deedra Abboud tambm recomendaram contatos para a
realizao do trabalho. Zamab Elberry, Ingrid Mattson e Luby Ismail
forneceram importantes informaes de fundo sobre o islamismo e os
muulmanos na Amrica. Tenho de agradecer a Zuly Martmez, que dividiu
comigo suas extraordinrias fotografias de mulheres muulmanas.
Mukit Hossain fez recomendaes semelhantes e ajudou a marcar as
entrevistas. Ele me auxiliou a localizar importante material de pesquisa
que me ajudou a compreender a ansiedade das mulheres muulmanas
americanas aps os ataques terroristas de 11 de Setembro, especialmente
aquelas que foram detidas ou que tiveram suas casas revistadas por
agentes federais. Mohammad Shakir, diretor-executivo do Conselho
Asitico-Americano de Miami-Dade, tambm foi extremamente til para
minha pesquisa. Jawaad Abdul Rahman, da Unity Productions Foundation,
foi de suma importncia ao recomendar mulheres fascinantes. O Professor

John G. Douglas, da Escola de Direito da Universidade de
Richmond, ajudou muito com sua pesquisa sobre como entidades de caridade
e lares muulmanos tornam-se objetos de investigao de agentes do
governo. Um livro como este no poderia ter sido escrito sem a
assistncia desses especialistas.

Tambm sou especialmente grata ao Dr. lhsan Bagby, da Universidade de
Kentucky, por sua importante pesquisa sobre muulmanos na Amrica, que
cito ao longo do livro. Agradecimentos especiais a Mohiaddin Mesbahi,
professor associado de Relaes Internacionais da Universidade da
Flrida, e a Stephen Sapp, presidente do Departamento de Estudos
Religiosos na Universidade de Miami. No incio, quando eu estava
escrevendo meu primeiro artigo sobre mulheres muulmanas para o Miami
Herald, eles me orientaram na direo certa.
Rosalind Rivera, diretora-executiva do Centro Comunitrio para
Refugiados no Arizona, abriu as portas e o corao para mim. Ela
arranjou vrias entrevistas e providenciou excelentes intrpretes.
Nem  preciso dizer que um livro desse tipo necessita de quem o
alimente, e agradeo  editora-chefe da Kensington, Michaela Hamilton,
pelas excelentes sugestes. Quero agradecer a ela por ter dividido
comigo o entusiasmo pelas fascinantes mulheres muulmanas e pela
pacincia com que trabalhou comigo enquanto eu organizava pesquisas e
entrevistas.
Este livro no existiria sem minha agente, Agnes Bimbaum.
Todos deveriam poder contar com algum como ela na vida.
Obrigada, Agnes, por me inspirar sempre.
Finalmente, agradeo s editoras do Miami Herald, Teresa Mears, Joan
Chrissos e Kathy Foster. Elas no s me incentivaram como me concederam
uma licena do trabalho para que eu escrevesse o livro. Teresa tambm se
empenhou em me enviar histrias e artigos sobre muulmanas e

14

tendncias islmicas e me ajudou com dicas sobre o uso do computador. A
fotgrafa do Herald, Marsha Halper, foi um presente divino e me auxiliou
a reunir as fotos para o livro.
Na questo dos nmeros, Amanda D. Rogers-Harper, do Departamento de
Estado, foi de grande valia ao me fornecer os dados mais recentes sobre
o nmero de refugiados que chegam aos Estados Unidos.
Minha gratido sincera a um editor paciente: meu marido, Tim White. Ele
me ajudou a editar o livro e o tornou melhor. Nick e Alex, vocs foram
maravilhosos ao relevar o estado dispersivo da mame durante os longos
meses de elaborao do trabalho.
Finalmente, obrigada a todas as pessoas que me incentivaram o tempo todo
a prosseguir e a concluir esta obra.

15

INTRODUO

Uma nipo-americana criada em uma igreja fundamentalista de Louisiana se
autodenomina muulmana.

Assim como uma premiada professora, uma ex-prostituta viciada em drogas
que se tornou conselheira, uma advogada de Nova York, uma feminista de
Nashville, uma mdica da Flrida e um grupo de refugiadas afegs em
Phoenix que esto aprendendo a ler.
Todas elas so muulmanas na Amrica ou, como elas mesmas se chamam,
muslimah. Elas se originam de pelo menos 77 pases diferentes. Milhares
de mulheres na Amrica, de todos os grupos tnicos, convertem-se ao
islamismo. De fato, os Estados Unidos tm a populao muulmana mais
diversificada do mundo.
As muslimah americanas de hoje vm de luxuosos subrbios de Los Angeles,
de campos de refugiados africanos, da rea rural de Dakota do Sul, de
Beirute, do deserto iraquiano e de uma cidade do Mar Adritico. Algumas
ainda esto aprendendo a usar a eletricidade e a gua encanada, coisas
que desconheciam. Outras so de classe mdia, mes que transportam os
filhos em carros confortveis e revezam a tarefa com outras mes, ou
lderes dos direitos humanos prestando servio de aconselhamento para a
Casa Branca.
Existem as que se destacam. Imigrantes africanas usando turbantes, as
asitico-americanas com lenos esvoaantes, as nascidas no Oriente Mdio
com vus, as convertidas com estilo prprio, algumas adotando algo mais
drstico -

as burcas que cobrem da cabea aos ps. No entanto, muitas muslimah
americanas no so fceis de localizar. No usam nenhum tipo de
cobertura para a cabea, o que as identificaria como muulmanas, e se
misturam  trama americana.
Quem so essas mulheres?
Os americanos sabem mais sobre as muslimah no Ir, na Arbia Saudita, no
Afeganisto e na Europa que sobre as prprias vizinhas. Mas as mulheres
muulmanas americanas forjaram a prpria identidade.
Voc vai conhecer essas muslimah americanas. Vai ler
sobre mais de 50 mulheres integrantes desse grupo complexo, diverso e
envolvente.
Elas esto muito distantes do esteretipo da muulmana forada a usar o
detestado vu, embora algumas estejam lutando como refugiadas enquanto
outras enfrentam violncia domstica, poligamia e batalhas pela custdia
dos filhos. Todavia, mesmo as muslimah que encaram desafios assustadores
tendem a se adaptar  atitude positiva e confiante da mulher americana,
o que, em outras partes do mundo, pode provocar crticas daqueles que
acusam nossas muslimah de serem americanas demais, ocidentalizadas. Seu
objetivo, entretanto,  ajudar a criar um islamismo vibrante e mostrar
como uma f to antiga pode se enquadrar em uma era de alta tecnologia.
Voc est prestes a conhecer:
- As neotradicionalistas. Mulheres que usam o vu ou um hijab,
adotando-o, em alguns casos, depois de uma ou mais geraes de mulheres
que o abandonaram. Aqui encontramos profissionais de carreira e mes em
tempo integral.
- As inidentificveis. Mulheres que no usam vu nem cobrem a cabea.
No parecem "muulmanas", mas

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ainda se consideram espirituais. So principalmente
imigrantes, a segunda gerao de americanas, e pro a fissionais de
carreira.
- As convertidas. Um nmero surpreendente de ameri canas de todas as
raas e grupos tnicos, converteram-
se ao islamismo. Esto entre as mais entusisticas, usando o traje
tradicional feminino, algumas delas adotando
inclusive luvas e vestidos longos, alm do vu.
 As perseguidas. Muitas muulmanas chegam  Amrica, fugindo da
violncia e da opresso, vindas de pases
como Afeganisto, Iraque, Sudo, Somlia, Bsnia e
ndia. Algumas tambm esto fugindo de abusos e
pedindo asilo para no terem de voltar ao pas onde
podem ser mortas por um homem enfurecido.
- As promotoras de mudanas. Essas mulheres esto
assumindo posies pblicas. Algumas se candidatam
a cargos pblicos ou fundam grupos humanitrios e
associaes sem fins lucrativos que auxiliam mulheres muulmanas
carentes ou vtimas de abuso. Outras
lutam dentro da mesquita por direitos iguais para
 as mulheres.
Graas  tendncia mundial entre diversas muslimah que
preferem algum tipo de cobertura, hoje em dia j se v nas
 ruas americanas um nmero maior de mulheres usando vu.
Muitas muulmanas nos Estados Unidos, cobertas ou
no pelo vu, dizem que no gostam de chamar ateno.
O motivo: so minoria religiosa em um pas que promete
 liberdade de credo, mas tem demonstrado ocasional hosti lidade com
aqueles que praticam novas ou "diferentes"
crenas.

Mas o islamismo tem sido parte de um retorno genera lizado da Amrica
ao espiritual, O nmero de muulmanos
dobrou em uma dcada, fazendo dessa uma das religies
- que mais rapidamente crescem nos Estados Unidos. Em

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geral, a nao  mais religiosa do que h duas dcadas. Prova disso so o
sucesso fenomenal do filme de Mel Gibson, A Paixao de Cristo, as dezenas
de milhares de pessoas que se dispuseram a ouvir o Dalai Lama e o
crescimento do judasmo ortodoxo. At a eleio presidencial de 2004 foi
afetada, com "valores de famlia" considerados de grande relevncia na
opinio dos eleitores.
Da mesma maneira, muitas muulmanas americanas
dizem que se tornaram mais espirituais h poucos anos. Essa
 uma das razes para o retorno a algum tipo de cobertura.
No passado, porm, vrias muulmanas parecem no ter sido includas em
diversas pesquisas religiosas, o que distorce as estimativas de quantos
muulmanos vivem na Amrica. Muitos estudos americanos baseiam seus
nmeros em quantos freqentam semanalmente algum tipo de templo
religioso. Como vrias mulheres muulmanas tradicionais ou imigrantes
no vo  mesquita, no foram consideradas.
Existem atualmente, talvez, 3 milhes de mulheres muulmanas nos Estados
Unidos. Ningum sabe ao certo. O censo dos Estados Unidos no pergunta
aos americanos qual  sua religio. A Pesquisa de Identidade Religiosa
Americana descobriu que o nmero total de muulmanos - 1,1 milho - mais
do que duplicou entre 1990 e 2001. No entanto, o Conselho de Relaes
Islmico-Americanas, um grupo de advocacia, acredita haver realmente
entre 6 e 7 milhes de muulmanos vivendo nos Estados Unidos, uma
estimativa baseada no nmero de mesquitas no pas.
No Canad, onde o governo inclui a religio no censo nacional, 2 por
cento so muulmanos. Se essa mesma porcentagem fosse vlida para os
Estados Unidos, cerca de 6 milhes de muulmanos chamariam esse pas de
lar. De fato, lhsan Bagby, professor associado de Estudos Islmicos na
Universidade de Kentucky, que conduziu pesquisas em mesquitas, cr que o
nmero de muulmanos americanos

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seja algo entre 5 e 6 milhes. Se esses nmeros forem corretos, existem
agora mais muulmanos na Amrica do que os 2 ou 3 milhes de membros que
a Igreja Episcopal afirma ter nos Estados Unidos.
A imigrao, como diz o Dr. Bagby, est abastecendo muito desse
crescimento. O jornal The New York Times publicou em fevereiro de 2005
uma matria dando conta de que, pela primeira vez, mais africanos,
muitos deles muulmanos, chegam s praias americanas em maior nmero do
que no tempo do trfico de escravos, O conflito internacional  o
fator-chave nos padres migratrios. De acordo com estatsticas do
governo, mais de 229 mil refugiados muulmanos de 77 pases chegaram aos
Estados Unidos entre 1990 e 30 de setembro de 2004, vindos de pases
tumultuados como Sudo, Bsnia, fr, Iraque, Afeganisto e Uzbequisto.
Algumas dessas refugiadas muslimah esto fugindo no s da violncia em
seus pases, mas de casamentos arranjados ou de homens abusivos. Uma de
minhas entrevistadas de 23 anos pode ser vtima de "morte pela honra" se
regressar a seu pas. O noivo ainda est furioso por ela o ter
"humilhado", deixando-o para viajar aos Estados Unidos e recusando-se a
voltar para casa. Ele chegou ao extremo de atacar membros da famlia
dela que permaneceram no pas, no Sul da sia. Hoje os Estados Unidos
oferecem asilo a essas mulheres ameaadas.
Tambm h uma nova gerao de muslimah - as filhas adultas das
recm-chegadas. Muitas nasceram na Amrica ou chegaram ainda muito
pequenas. Vrias j constituram famlia. A segunda gerao tambm
inclui filhas de convertidas. Algumas tm pai nascido em outro pas e
me americana convertida ao islamismo. Em outros casos, pai e me so
convertidos. Essa nova gerao de muslimah varia amplamente. Algumas
retomam o vu abandonado pelas mes. Outras so as primeiras na famlia
a no usar hijab. Muitas

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se irritam com as restries impostas pelos pais: no tm permisso para
namorar, por exemplo.
O que todas tm em comum  o grau de formao. Muitas tm empregos de
carreira. Tambm tendem a ser devotas, a orar regularmente e a observar
o Ramad e outras datas sagradas islmicas. Vrias consideram a mesquita
local como uma igreja, parte de sua vida social, no s um lugar para
culto semanal. Vo  mesquita para freqentar grupos de alfabetizao
domstica e organizao de grupos de ajuda aos pobres. Nisso, elas e as
convertidas ajudaram a americanizar a mesquita.
Muitas muslimah querem que suas mesquitas reflitam sobre como, na
Amrica, elas vivem em condies de igualdade com os homens. Querem ter
acesso aos mesmos cultos litrgicos freqentados pelos homens e
pleiteiam que as necessidades espirituais sejam igualmente consideradas.
Algumas so tidas como radicais. Uma liturgia mista foi realizada em
maro de 2005, em Nova York, na qual uma mulher comandou as preces e,
ainda mais escandaloso para diversos muulmanos, permitiu que homens e
mulheres orassem lado alado. A mudana est chegando, prev Ingrid
Mattson. E ela sabe o que diz:  a primeira mulher a tornar- se
vice-presidente da Sociedade Islmica da Amrica do Norte, a maior
organizao muulmana do continente.
Alimentando tambm a mudana e o crescimento do islamismo na Amrica,
esto as rnuslimah convertidas que, em sua maioria, esto entre as
praticantes mais entusisticas. Muitas dessas convertidas dizem que se
sentem aliviadas por finalmente encontrar uma doutrina coerente. Vrias
delas so ex-crists que tiveram problemas para aceitar a noo da
Santssima Trindade (Deus-Pai, Jesus e o Esprito Santo). O islamismo,
em oposio, reconhece apenas um Deus, mas aceita Jesus como profeta.
Muitas convertidas so afro-americanas que retomam
agora o que pode ter sido a f original de seus ancestrais.

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Historiadores e acadmicos da religio estimam que mais de 30 por cento
dos escravos africanos que chegaram ao Novo Mundo eram muulmanos. A
mais extensa pesquisa de lhsan Bagby indica que o nmero de escravos
muulmanos que chegaram s colnias americanas foi menor que o dos que
foram vendidos a compradores no Oeste da India e na Amrica Latina.
Mesmo assim, segundo ele, cerca de 10 por cento dos escravos
recm-chegados  Amrica eram muulmanos.
Assim que esses escravos chegavam  Amrica, os novos senhores
aboliam-lhes brutalmente a religio e os foravam ao cristianismo.
Centenas de anos mais tarde, seus descendentes retornaram o islamismo.
De fato, por dcadas, o islamismo tem sido parte de um movimento negro
como a Nao do Isl. Enquanto hoje diversos afro-americanos muulmanos
aderem ao islamismo mais ortodoxo, lhsan Bagby estima que cerca de 1
 a 4 parte da Nao. (A Nao do Isl no divulga quantos
membros possui.)
Por conta de certa curiosidade em torno do islamismo depois dos ataques
terroristas de 11 de Setembro, mais americanos esto indo s
mesquitas... e ficando nelas. Desde 200, o islamismo parece atrair mais
brancos e hispnicos. Em um estudo nas mesquitas de Detroit, Bagby
descobriu que brancos e hispano-americanos somam atualmente 40 por cento
dos convertidos mais recentes. Em um estudo nacional realizado em 2000,
brancos e hispnicos eram apenas
25 por cento dos convertidos, revela Bagby.
As musiimah convertidas que entrevistei so to diversificadas quanto
suas companheiras imigrantes. Uma mulher branca na rea rural de Dakota
do Sul converteu-se ainda na faculdade, coleciona hijabs e fundou uma
agncia de relacionamentos para muulmanos na internet. Uma jovem
fotgrafa mexicana do Texas foi uma das primeiras hispnicas em sua
mesquita. A juza Zakia Mahasa, que ocupa uma cadeira no tribunal
judicirio como Juza em Chancelana

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na Diviso de Famlia da Corte de Baltimore, converteu-se na
adolescncia, viajou para Meca em um haji e hoje lidera um movimento
nacional muulmano de caridade.
Surpreendentemente, muitos desses novos membros
dizem que foram atrados pelo islamismo, a princpio, por
perceberem na doutrina uma mensagem feminista.
Apesar da mensagem de alguns lderes no mundo muulmano que invocam o
islamismo para dominar as mulheres, muitas muulmanas nos Estados Unidos
consideram a religio uma fora de libertao. Elas dizem que a f as
tem ajudado a desenvolver espfrito e intelecto e consideram-se
feministas. De fato, algumas muslimah que entrevistei desempenhavam
papis de importncia no movimento dos direitos da mulher nos Estados
Unidos durante as dcadas de 60 e 70. Hoje, uma nova gerao de muslimah
sente que agora elas so as novas feministas americanas, julgam-se
integrantes de uma irmandade e afirmam ser mais capazes de equilibrar
trabalho e famlia do que outras mes e profissionais nos Estados Unidos,
porque sua religio requer que os homens sustentem os filhos. Elas
tambm apontam que a tradicional separao entre os sexos adotada pela
religio ajuda a mulher a realizar seus objetivos.
Deedra Abboud, ex-diretora executiva do captulo Arizona do Conselho de
Relaes Islmico-Americanas, um grupo de advocacia, diz que o islamismo
 mais orientado ao feminismo que ao cristianismo no qual ela crescera.
- Descobri que gosto do islamismo e do que ele prega - diz.
O islamismo no tem nenhum dos ensinamentos bblicos tradicionalmente
empregados por alguns cristos para maldizer a mulher, como Eva sendo
retratada no Livro do Gnesis como a tentadora que seduz Ado e o
convence a comer o fruto proibido.
Entrevistas e pesquisas indicam que as muslimah americanas esto em
melhor situao econmica do que as irms

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na Europa, normalmente relegadas aos nveis mais inferiores da fora de
trabalho. Pases europeus empregam muulmanas com poucos conhecimentos
ou habilidades para realizar trabalhos que o prprio povo local no
aceitaria fazer. Imigrantes muulmanas na Amrica, por outro lado,
demonstravam, at recentemente, tendncia para ter melhor educao
formal, entrando assim no mercado de trabalho como engenheiras, mdicas,
professoras ou estudantes de ps-graduao.
Suas filhas, a emergente segunda gerao de muulmanas na Amrica,
chegam ao mercado igualmente preparadas e bem-educadas. Filhas e filhos
so incentivados a cursar a faculdade. At mesmo os refugiados que
chegam aos Estados Unidos apenas com a roupa do corpo se esforam muito
para se juntar  classe mdia, e se no o conseguem muitos filhos desses
imigrantes realizaro a inteno dos pais. Os convertidos ao islamismo
nascidos na Amrica tambm gozam de situao financeira relativamente
confortvel, com vrios deles educados e ocupando posies de destaque
como profissionais liberais ou em nveis de administrao e liderana.
Em geral, os muulmanos americanos tendem a ser afluentes. A pesquisa de
2004 realizada por lhsan Bagby com 1298 homens e mulheres congregados em
mesquitas de Detroit revelou que o muulmano mediano tem 34 anos de
idade,  casado, tem filhos, possui pelo menos um diploma universitrio
e recebe salrio de cerca de 75 mil dlares anuais.
Como outras mulheres americanas, muitas muslimah trabalham fora para
contribuir com o rendimento familiar. So mulheres voltadas  carreira
que atuam na esfera da lei, vendem aplices de seguro, administram
agncias sem fins lucrativos e mantm negcios prprios ou organizaes
beneficentes. Elas variam muito, desde uma advogada novaiorquina que
nunca usou um vu, e jamais o usar, a uma convertida de Seattle que usa
o vu e criou uma empresa de roupas de grife para outras adeptas.

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Muitas jovens mes muslimah entrevistadas optam por permanecer em casa
com os filhos, pelo menos enquanto as crianas no vo  escola. Algumas
as alfabetizam em casa. Elas querem carreiras, porm adiam essa
realizao. O foco dessas mulheres  ter uma vida familiar rica, com
filhos bem-criados. Tendem a se casar jovens (algumas antes dos 20
anos) e tm filhos antes dos 30. Mais tarde, quando os filhos vo 
escola, dedicam-se  prpria educao, geralmente em nvel superior, ou
vo trabalhar.
As muslimah americanas costumam ter curso superior ao menos comeado
quando se casam. As excees so as mais recentes refugiadas, mas mesmo
essas mulheres, que no tm o direito de aprender a ler e a escrever em
seus pases de origem, agora freqentam entusiasmadas e pela primeira
vez os cursos de alfabetizao nos Estados Unidos. (Elas creditam a
voracidade que tm pelo aprendizado  nfase dada pelo Alcoro 
educao.)
De acordo com Mukit Hossain, presidente do Comit de Ao Poltica
Muulmano-Americano, as muslimah americanas demonstram tendncia de
votar em Democratas, como outras mulheres americanas. Tambm votam em
maior nmero, comparadas s suas contrapartes masculinas: 53 por cento
contra 47 por cento dos homens, segundo estudo do comit. De fato,
vrias mulheres esto se tornando politicamente ativas e se candidatando
a cargos pblicos, seja na assemblia do estado da Califrnia ou em um
escritrio no condado da Virginia.
No entanto, muitas muslimah mantm valores tradicionais de famlia que
esto mais associados aos Republicanos. Menos de 10 por cento das
muslimah entrevistadas nunca foram casadas, cerca de metade da
porcentagem das americanas em geral. Dentre aquelas com mais de 35 anos,
apenas duas muslimah entrevistadas no tinham filhos.
Diversas imigrantes entrevistadas viviam casamentos arranjados pelos
pais. Em sua maioria, muitas muslimah

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americanas, incluindo aquelas da segunda gerao e convertidas ainda
solteiras, no "namoravam" os maridos no sentido comum do termo. De
maneira intrigante, as convertidas demonstram maior entusiasmo em seguir
a tradio: uma mulher nem mesmo conheceu o marido at se casarem - um
idoso da mesquita o escolheu - e ela diz que o homem em questo se
mostrou um companheiro atencioso e zeloso.
Embora existam histrias de horror - como a de um casamento arranjado
que terminou em desastre em Miami para uma noiva sul-asitica -, muitas
muslimah americanas relatam que os casamentos tradicionais funcionaram
surpreendentemente bem. Elas e os maridos desfrutam de respeito e
afeio mtuos. Os maridos so, em geral, to religiosos quanto as
esposas e as tratam bem. Sarwat Husain, de San Antonio, no Texas, diz
que aceitar um casamento arranjado no Paquisto, seu pas natal, foi a
passagem para a Amrica, bem como um meio de conseguir um bom marido.
- Como o casamento no se baseia em paixo, aparncia ou dinheiro, o
ndice de divrcio  muito baixo naquela parte do mundo - conta Sarwat.
- E realmente meu marido e eu tivemos uma boa unio. Considero-me uma
pessoa hiperativa, e meu marido  bastante calmo e maduro. Ele sempre se
disps a me ouvir e me incentivou a fazer o que eu quis.

Como outras muslimah americanas, Sarwat est verbalizando mais seu ponto
de vista em relao  violao dos direitos civis nos Estados Unidos
desde o 11 de Setembro. Atualmente voluntria de um grupo de advocacia
de direitos civis, ela conhece bem a necessidade da existncia desses
grupos. Certa vez foi seguida at sua casa e molestada por um grupo de
homens antiislamismo. Outra muslimah com quem conversei relatou que ela
e a filha adolescente foram algemadas em casa, na Virginia, aps agentes
federais terem arrombado a porta da frente em plena luz do dia,

27


em 2002. Eles nunca foram acusados formalmente por nenhum crime.
Vrias muslimah que usam o hijab relatam ter sido molestadas de alguma
maneira, em geral com linguagem chula, ameaas ou exortaes do tipo
"voltem para casa". (Quando uma convertida sofreu esse tipo de injria
de um motorista, ela respondeu: "Estou em casa!".)
As muslimah americanas tambm esto cada vez mais preocupadas em ajudar
outras mulheres muulmanas nos Estados Unidos e no mundo todo. Formam
grupos, por exemplo, para ajudar vtimas de abuso domstico. Os
muulmanos tm os mesmos ndices de abuso encontrados entre outros
americanos, mas muitos relutam em discutir o assunto em pblico, como
contam algumas muslimah. Essas mulheres desejam poder falar abertamente
em sua comunidade sobre abuso e sobre como impedi-lo.
Diversas muslirnah tambm querem oferecer lares provisrios para
crianas muulmanas. De acordo com a poltica atual, crianas muulmanas
s vezes tm de ir para casas onde os pais temporrios so cristos
praticantes. Uma jovem me contou que no estava conseguindo ver os
irmos porque eles estavam em um lar provisrio cristo, o mesmo do qual
ela havia sido expulsa por se recusar a ir  igreja e a comer carne de
porco, o que o islamismo probe.
Uma muslimah com quem conversei queria poder falar abertamente sobre
poligamia, que o islamismo permite sob condies estritas. A grande
maioria dos muulmanos americanos pratica a monogamia, mas uma mulher
relata que foi enganada a fim de se casar com um homem que j tinha uma
esposa. Ela desejava prevenir outras mulheres sobre homens que usam o
islamismo como justificativa para terem vrias esposas.
Outra mulher relata ter voltado ao cristianismo por se
preocupar com o fato de o islamismo promover o abuso das
esposas pelos maridos, incluindo poligamia e espancamentos.

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Atualmente, ela ministra cultos em sua igreja e comeou uma misso
para ajudar mulheres muulmanas vtimas de abuso.

- Toda essa questo do abuso... ele dizia que eu o obrigava a isso -
acrescenta a mulher, que agora  conhecida pelo pseudnimo W. L. Cati. -
Ele dizia que a culpa era minha por ele me bater.
Algumas muulmanas americanas sofrem abusos. Uma mulher foi trazida de
uma localidade a milhares de quilmetros de Miami, em um casamento
arranjado, s para ser agredida pelo marido vrias vezes.
Posteriormente, ele a abandonou e a denunciou  polcia por negligncia
com os filhos do casal. Ela acabou presa e institucionalizada em um
hospital psiquitrico, at que muulmanas ultrajadas lutaram por sua
libertao. Uma das mulheres que trabalharam pela liberdade dessa
muulmana americana se preocupa com a possibilidade de crescimento do
nmero de homens que tiram proveito de esposas imigrantes, ignorantes de
seus direitos sob as leis americanas, abusando delas fsica, emocional e
financeiramente, at roubando-lhes o dote ou o dinheiro da famlia.
Mesmo assim, muitas das muslmah entrevistadas relatam viver casamentos
felizes, com maridos amorosos que as tratam com igualdade e apiam suas
carreiras. Um homem muulmano na Flrida cuida das duas filhas para que
a esposa possa freqentar a faculdade de medicina. Outro, um engenheiro,
cuida da filha e do filho enquanto a esposa obtm o doutorado na
Universidade de Chicago. Tambm existem parcerias profissionais, como a
de um consultrio mdico que pertence a um casal, marido e mulher. Com
alegria, essas mulheres contam que os maridos as apiam na questo da
igualdade da presena feminina nas mesquitas.
Mais do que nunca, as muulmanas na Amrica esto se
tornando parte integral da mesquita e da liderana islmica
americana que cria um novo estilo de islamismo, uma corrente

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que adere ao Alcoro e  herana do islamismo, mas tambm se
adapta s necessidades do mundo ocidental.
Julgo ser inevitvel que,  medida que mais muulmanos informados surjam
com novas interpretaes (do Alcoro e de outros livros religiosos), as
coisas mudem - diz Ishan Bagby.
Ingrid Mattson, por exemplo, tem certeza de que tempos melhores se
aproximam.
- Sempre haver mesquitas muito conservadoras - ela opina. - Mas se
tornaro marginalizadas.
As niuslinah tm certo impacto na sociedade americana por meio da
prtica aberta do islamismo. Clareen Menzies, de Minneapolis-St.Paul, 
uma convertida que lembra como os vizinhos em Uganda escondiam o fato de
estarem observando dias sagrados islmicos e orando as requeridas cinco
vezes ao dia, alm de comparecerem aos servios em uma igreja que os
recebia como imigrantes.
Emma Al-Aghbhary, do subrbio de Chicago, considera os Estados Unidos um
lugar melhor para praticar o islamismo que seu pas, a Nova Zelndia. Na
opinio dela, os americanos so mais tolerantes que os neozelandeses,
apesar dos incidentes de agresso e assdio que se seguiram ao 11 de
Setembro e s guerras no Iraque e no Afeganisto.
- Tenho usado o hijab, roupas recatadas e o abaya (vestimenta externa
longa, larga e simples) desde o incio de 2002 - ela conta. - As pessoas
no tm reagido mal em Chicago. Na Nova Zelndia, muita gente no sabe
como reagir. Alguns fazem comentrios ou gestos grosseiros. Aqui na
Amrica, as pessoas costumam cuidar da prpria vida.
Os muulmanos, ela afirma, so "tratados como todos
os outros". E isso  justamente o que querem as muslimah:
integrar a trama da Amrica.
- Elas desejam ardentemente se tornar envolvidas com a sociedade - relata
lhsan Bagby.
No entanto, muitas no acham que  fcil. Areej Abdallah
lutou durante nove meses para encontrar trabalho como

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engenheira de software. Ela tem trs filhos nascidos logo aps o
casamento e s depois foi estudar cincia da computao, obtendo o
diploma. Quando estava se formando, descobriu que grandes companhias
americanas a entrevistariam no campus da Universidade do Estado do
Arizona, em Tempe, mas nunca recebeu nenhuma notcia oficial. E ela no
desistiu.
- Eu pensava comigo:  o meu hijab - Areej recorda.
- Por isso no consigo encontrar emprego.
Quando a Boeing a convidou para uma posio na companhia, Areej aceitou
rapidamente, antes que a proposta
pudesse ser retirada.
- Pensei que teria um colapso - ela admite, rindo.
Outra muslimah diz que as mulheres muulmanas enfrentam duras
dificuldades no sistema judicirio americano, alegando que os filhos
foram tirados delas por juzes que viam com desconfiana a prtica do
islamismo. Uma muulmana convertida, americana que vive hoje em Nova
Jersey, conta:
- O sistema judicirio deu a custdia da minha filha ao pai aps uma
terrvel briga na qual minha religio, ao que tudo indica, teve papel
preponderante na deciso do juiz. Sempre tive a guarda da menina, at
que o juiz a entregou ao pai. - Mesmo assim, ela no considera abandonar
o islamismo. A religio significa muito para essa mulher.  seu lar
espiritual;  l que ela encontra foras para enfrentar muitos
problemas.
Ela e as outras muulmanas, ento, trazem uma viso mais clara sobre o
que tem confundido diversas americanas: como mulheres que vivem na
Amrica libertria ainda se mantm no islamismo, ou se convertem a ele,
uma vez que se trata de uma religio que, supostamente, discrimina as
mulheres?
A resposta delas: olhem para ns. Somos melhores por
sermos muulmanas.

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PARTE 1

As neotradicionalistas

pergunte a Sahar Shaikh sobre seu hjab e a jovem de vinte e poucos anos
dir que ele est relacionado  identidade. Usando-o, conta, "descobri
quem sou".
Mais e mais muslinah americanas esto adotando algum tipo de cobertura
como parte de sua jornada espiritual, desde um leno de cabea a um vu
que cobre boa parte do rosto. Diferente de outras mulheres no ocidente,
elas no consideram a cobertura um smbolo de inferioridade feminina. Na
verdade, muitas americanas que usam o hijab tm formao e educao
avanadas: praticam a lei, lecionam em universidades, desenvolvem
softwares ou tratam de doentes.
Como assistente social, Sahar usa hijab e vestido longo quando atende
clientes mais velhos. Ela quer esclarecer o que considera um engano
comum. Mulheres muulmanas usam o hi jab porque querem us-lo, no
porque os maridos ou os pais as obrigam a isso.
- Ele me faz sentir mais em paz com Deus - diz Sahar.
- E tambm me torna consciente da administrao do tempo: pergunto-me o
que eu devia estar fazendo, qual  Seu propsito?

Sahar cresceu no subrbio de Miami usando jeans, freqentando um grupo
de escoteiras e ouvindo rock. Mas sentia falta de alguma coisa na vida.
E encontrou o que faltava em uma quadra de tnis, no primeiro ano na
Universidade da Flrida, em Gainesville, cercada por amigos muulmanos.
As moas usavam hijabs mesmo quando corriam para rebater uma bola e
depois tinham de ajeitar novamente a cobertura sobre a cabea. Ela era a
nica a mostrar a cabea desnuda.
- Quem  a desajustada agora? - as outras brincavam.
- Foi uma revelao para mim - disse Sahar. - Eu estava tentando me
ajustar ao restante do mundo.
Ento, apesar do medo de ser rotulada "diferente" pelos demais colegas
de universidade, Sahar adotou um hijab. E ela diz ter descoberto a
calorosa intimidade de uma cultura to compartilhada.
Mohiaddin Mesbahi, professor associado de Relaes Internacionais da
Universidade Internacional da Flrida, ofereceu alguns esclarecimentos
sobre essa tendncia em desenvolvimento entre mulheres muulmanas
americanas. Nessa poca, eu trabalhava em um artigo para o Miami Herald.
- Elas esto retornando s suas identidades,  espiritualidade, mas
ainda so feministas - disse Mesbahi. - No ocidente,  difcil para as
pessoas compreenderem, mas uma mulher usando hijab no  smbolo de
represso, como o que se v pela televiso com as mulheres no
Afeganisto. Embora no tenhamos dados disponveis, um nmero
significativo de americanas est adotando essa cobertura.
Essas feministas cobertas por vus acreditam que as tradies islmicas
beneficiam as mulheres. Passagens do Alcoro, por exemplo, promovem a
educao feminina, enfatizando a aparncia fsica, diz Stephen Sapp,
presidente do

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Departamento de Estudos Religiosos na Universidade de Miami.
- Desde o incio, o islamismo enfatizou a importncia da segurana
econmica e do direito das mulheres - ele acrescenta. - O Alcoro d a
elas o direito de ter e de administrar propriedades. E isso  colocado
em detalhes.
Realmente, o vu, ou algum tipo de cobertura de cabea para uma mulher,
 anterior ao islamismo. Os antigos gregos, os judeus e os primeiros
cristos, inclusive, adotavam vus e lenos sobre a cabea como parte do
vesturio feminino. Em algumas sociedades antigas, ele  smbolo de
status:
apenas escravas e prostitutas tinham as cabeas desnudas. Hoje, 
verdade, muitas mulheres que usam coberturas
islmicas acreditam pagar um preo alto por sua espiritualidade. Vrias
entre as mais jovens se sentem solitrias como nicas a usar lenos de
cabea no ginsio ou no colgio. (Mais muslimah tendem a usar algum tipo
de cobertura na universidade.) Ao mesmo tempo, diversas mulheres mais
velhas que usam o hijab se sentem discriminadas no local de trabalho.
Outras dizem ser ofendidas ou molestadas nas ruas ou nos shoppings, em
uma retaliao errnea e injusta contra os terroristas que matam em nome
do islamismo. Por conta disso, algumas evitam se expor publicamente,
exceto para trabalhar ou orar na mesquita.
Mesmo assim, muitas acreditam que o incmodo poderia ser muito pior - e
 - em outros pases. Na Frana, por exemplo, as escolas probem as
alunas de usar hijab. Em sua maioria, as muslimah relatam que os
americanos so flexveis e at curiosos em relao ao islamismo.
Sakeena Mirza descobriu que se sente mais confortvel nos Estados Unidos
do que no Paquisto, pas de seu pai. Atualmente ela vive em Las Vegas.
A irm mais velha, Haseena Mirza, descobriu que pode usar o hijab mesmo
trabalhando em uma empresa predominantemente judia ortodoxa,

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sem ser discriminada. As muslimah americanas sentem-se to 
vontade que desenvolveram a prpria moda com um "toque ocidental", conta
a designer Michaela Corning, de Seattle, fornecedora de um nmero cada
vez maior de mulheres que adotam o hijab e outras roupas tradicionais
muulmanas. De fato, se voc olhar alm da extica pea, vai descobrir
que as neotradicionalistas, retratadas nas pginas seguintes, podem ser
sua vizinha, sua mdica ou sua advogada.
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1
ZARINAH: RAINHA DO COLGIO
AO ESTILO ISLMICO

Todos j sentimos o terror de estarmos sozinhos em um
corredor movimentado do colgio, de sermos, de alguma maneira,
diferentes. Experimentamos a humilhao de no nos enquadrarmos na
tribo, de no sermos "maneiros", seja por uma hora ou por todo o tempo
do curso.
Imagine o fardo de Zarinah Nadir, segunda gerao de muulmanas usando
hjab na escola quando ningum mais o fazia. Zarinah era uma das poucas
afro-americanas no estado predominantemente branco do Arizona. Alm
disso, ela tinha de usar um estranho leno anos antes do 11 de Setembro,
em uma poca em que no havia muita conscincia acerca dos muulmanos na
Amrica.
Atualmente com 24 anos de idade, ela lembra:
- Fui a nica, desde o ensino fundamental at o colgio, a usar hijab.
Usei a pea desde o primeiro ano. Sabia
que minha aparncia era diferente.
Outras meninas muulmanas lamentaram esse tipo de experincia. A me de
Zarinah, Aneesah Nadir, entrevistou para sua tese de doutorado algumas
jovens traumatizadas durante os anos de escola pblica, quando os pais,
muitos deles imigrantes e ignorantes dos costumes americanos, as
mandavam para o colgio usando o indispensvel leno, smbolo do recato
da mulher muulmana.
- Foi uma poca difcil - uma garota contou a Aneesha.
- Eu era a filha mais velha. No tinha ningum para me dar o exemplo.
No sabia o que esperar. Meus pais no tinham idia do que eu passava.
So de uma cultura diferente. Nunca estiveram naquela situao. Eles se
mostravam solidrios, mas se negavam a mudar as circunstncias do meu
desconforto.
Para Zarinah tambm no foi fcil. Ela no queria ser a nica usando o
hijab. Ocasionalmente, era xingada e excluda por ser "diferente". Mas,
por outro lado, no queria se voltar contra sua f. No podia deixar de
usar o leno. Naturalmente extrovertida, e orgulhosa com a converso dos
pais ao islamismo, ela decidiu enfrentar tudo com coragem.
- Usava jeans como todas as outras - conta. E todos querem se divertir,
certo? Ter amigos leais? Identifiquei essa oportunidade. No andava pela
escola de cabea baixa. Tinha muitas amigas no-muulmanas e tnhamos
coisas em comum. Eu gostava de me divertir com elas. amos ao cinema,
por exemplo. Eu no podia fazer todas as coisas que elas faziam; no
bebia, no ia a festas onde haveria rapazes e moas, e elas respeitavam
essas restries. Mas, para ser honesta, houve momentos difceis, sim. -
Um garoto fazia um comentrio estpido. Uma jovem a encarava com
espanto.
Em resposta, Zarinah e outras jovens muulmanas da
mesquita formaram um grupo prprio.
- Por exemplo, comeamos a organizar nossa festa de formatura - ela
relata. - Nossa filosofia : podemos fazer tudo, mas do jeito islmico.
Eu me divirto. No fui  formatura do colgio, nem aos churrascos ou s
festas em volta da piscina. Mas fui ao jogo de futebol para recepcionar
os veteranos no incio do ano. S no participei da formatura.
Nesse ponto, ela se corrige: participou de um evento da
escola. Uma vez.

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O que aconteceu foi que uma das colegas a indicou para concorrer ao
ttulo de Rainha do Colgio. A coroao acontecia no ltimo grande baile
antes da formatura. Zarinah ficou muito emocionada e contente, mas pediu
que a colega indicasse outra candidata, algum que freqentasse bailes.
- Elas se negaram a retirar minha candidatura - ela conta -, e poucos
dias depois ouvi meu nome entre os de outros indicados. Acabei
participando da reunio de coroao durante o horrio escolar.
A reunio foi importante para Zarinah, que reconhece nunca ter sido "o
tipo esguio e louro ideal para lder de torcida". Mais tarde ela teve de
lidar com a questo da permisso para ir ao baile. Ela e a me chegaram
juntas a uma concluso: Zarinah poderia comparecer, mas apenas para
ouvir o resultado da eleio. E ainda restava um detalhe a ser
resolvido. O que ela ia vestir?
- Sempre me vestia com cuidado para nossas festas muulmanas, onde s
havia garotas, e gostava dos vestidos elaborados usados em ocasies como
formaturas. Mas nunca havia estado em uma festa para rapazes e moas.
Aquela foi a escolha mais difcil que j tive de fazer em relao a uma
compra!
Ela acabou encontrando um vestido de noite bonito, mas
discreto.

Zarinah pediu ao irmo mais velho para acompanh-la ao baile, j que
jovens muulmanos no namoram nem saem em casais. Ele havia concludo os
estudos no mesmo colgio um ano antes e decidiu que seria divertido
voltar e rever alguns velhos amigos.
- Mas, sendo aquilo um colgio - Zarinah acrescenta rindo -, o
inevitvel tinha de acontecer. O rumor se espalhou. Todos sabiam que eu
iria ao baile com meu irmo. Quando minhas amigas indagaram sobre a
veracidade dos boatos, confirmei sem hesitar.

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Assim, Zarinah foi tranqilamente ao seu primeiro baile do colgio...
com o hijab e o irmo. Incomum, para dizer o
mnimo, mas Zarinah estava acostumada a ser diferente.
Foi quase um anticlmax quando algum anunciou seu
nome como Rainha do Colgio, a primeira a ser coroada
usando hijab e vestido abotoado at o pescoo, sem dvida.
- Acredito que esse evento serve como testemunho da minha vida e daquilo
em que acredito. Apesar de ter havido alguns dias em que me senti
diferente como nica garota da escola a usar um hijab, na maior parte do
tempo eu o utilizei como oportunidade para construir pontes e formar
laos, desde lderes de torcida e jogadores de futebol a todos aqueles
que se situavam em algum ponto intermedirio dessa extensa cadeia.
Hoje, ela acredita que a experincia a fez amadurecer, endurecer para
enfrentar situaes difceis. Ela atribui a atual segurana e confiana
 superao do medo de ser diferente.

- Felizmente, eu possua o que outras garotas no tinham: foco.
Alguns anos depois, Zarinah foi aceita como estudante de direito na
Universidade do Estado do Arizona, onde fundou a Associao de
Estudantes Muulmanos de Direito, uma espcie de ncora para jovens
muulmanos que tentavam concluir o curso. Desde ento, trabalha em um
escritrio de direito de famlia e quer trabalhar com imigrao. Ela no
se abstm de atuar em vrias reas do direito at encontrar sua
especialidade.
Zarinah sente que as amigas muslimah so igualmente fortes e orientadas
a um objetivo. Uma, ela prev, vai ter grande sucesso no jornalismo,
mesmo com o hijab, e acabar ancorando um telejornal. Outra pode se
tornar senadora dos Estados Unidos.
- O cu  o limite - ela decreta. - Estamos crescendo. Vejo boas coisas.
Vejo esperana. - Zarinah acredita que
tem havido distino entre como as mulheres muulmanas

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so tratadas em pases predominantemente muulmanos e como foram
tratadas um dia.
- As mulheres muulmanas j foram professoras, acadmicas, lderes no
campo de batalha e comandantes navais. Sinto que nossa gerao e a
prxima vo recuperar essa histria - profetiza ela.
Vivendo nos Estados Unidos, Zarinah sente ter desfrutado o melhor dos
dois mundos.  uma mulher americana, com toda a liberdade que isso
permite, e parte de uma comunidade muulmana de trama forte e
resistente.
- Adoro esse sentimento de comunidade proporcionado pelo islamismo - ela
confessa. - Todos so includos. Ns nos tratamos como irmos. Se so
mais velhos, os membros so tios. Temos esse lao forte como uma
famlia. Minha famlia no vive na mesma regio em que meus pais e eu
moramos. Isso  difcil. Mas temos construdo uma espcie de famlia
adotada por sermos muulmanos. So tios que me viram crescer e estiveram
presentes em todos os meus eventos especiais. Aprecio os elos forjados
pelo islamismo. Acredito em um poder superior. Acreditar nesse poder nos
liberta dos fardos do mundo. Freqentemente, as pessoas julgam umas as
outras e tornam a prpria vida difcil, preocupando-se com o que os
outros pensam. Mas o peso  removido de seus ombros se voc lembra que 
julgado apenas por seu Deus. Ningum pode usurpar esse poder. Se Deus
no escreveu alguma coisa para minha vida, ento no vai acontecer. Isso
me liberta de qualquer fardo. Eu me esforo tanto quanto posso, mas se,
por exemplo, no consigo aquele emprego no me preocupo com isso.
Zarinah continua:
- Sou da segunda gerao de muulmanas. Adoro ser o elo entre a cultura
americana e a islmica e  bom saber que ambas podem coexistir em mim.
Nossos pais no passaram pelo que ns passamos. Fomos criadas em solo
americano. Segunda gerao de muulmanas, filhas de imigrantes,

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temos uma ligao com a Amrica que nossos pais no possuem.
Zarinah sente uma distino entre muulmanas afroamericanas e as filhas
de imigrantes muulmanos. As ltimas sabem de onde vieram, ela diz; tm
noo da prpria histria. As afro-americanas sabem,  claro, que suas
origens esto na frica, mas muitas no tm outras informaes alm
dessa. A escravido roubou boa parte de seu passado, de sua herana, ela
observa.
Estima-se que entre 10 e 30 por cento dos escravos trazidos para as
Amricas eram muulmanos. Embora os proprietrios tenham suprimido o
islamismo, alguns escravos se negaram a abrir mo de sua f. Levaram na
memria as palavras do Alcoro e, secretamente, escreviam as passagens
sagradas em rabe quando estavam nas senzalas.
- Felizmente - Zarinah continua -, agora temos nossa histria contada.
Precisamos seguir adiante, continuar explorando nosso legado.  til
quando os indivduos conhecem a prpria histria, quando os
afro-americanos apartados dela tomam conhecimento de seu legado. Viemos
para a Amrica como princesas educadas, como acadmicas.
A prpria Zarinah quer se educar tanto quanto for possvel.
- Gosto da escola de direito na ASU - ela relata. - Sei que ela tem
reputao de escola partidria, mas  pequena e abriga uma comunidade
bastante unida. Todos os ativistas se conhecem.
Mesmo assim, ela admite, tem havido alguns incidentes assustadores, e um
deles a envolveu e a uma amiga pouco
depois do 11 de Setembro.
- Um homem tentou atropelar uma das minhas amigas com sua bicicleta -
Zarinah conta. - Conversvamos na calada. Eu a puxei para fora do
caminho da bicicleta, O homem ainda gritou: "Voc quer morrer?". 
inacreditvel.

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Ns mesmas no acreditamos no que havamos vivido. Algumas pessoas
denunciaram o atentado.
Zarinah sente-se aliviada pelo fato de a polcia ter considerado com
seriedade esse e outros incidentes. Sua mesquita foi atacada em 2004,
enquanto prosseguia a guerra no Iraque: uma sustica foi pintada na
porta principal. Em resposta, a polcia de Tempe, Arizona, organizou uma
coletiva de imprensa com o Conselho de Relaes Islmico-Americanas para
denunciar o crime. A mdia cobriu as investigaes, e logo um suspeito
foi detido, um homem que possua uma sustica tatuada no corpo.
Esses incidentes no impediram Zarinah de levar uma
vida normal. Hoje ela acredita integrar uma comunidade
mais segura.
Vandalismo no a teria convencido a deixar o Arizona.
- Estou ainda mais determinada. Sinto que sou respeitada nessa
comunidade - ela conta. - Temos aqui uma grande populao muulmana que
continua crescendo. Gostaria de melhorar as condies no Arizona. 
claro, tudo depende da minha futura carreira ou de quando eu me casar.
Mas sinto que o Arizona  meu lar. Adoraria ver nossa comunidade
progredir.
Ela acrescenta ainda:
- Quando as pessoas me perguntam se considero a possibilidade de tirar o
vu ou de abandonar minha f, penso na ocasio em que fui coroada Rainha
do Colgio com todo meu aparato muulmano e concluo que sucumbir 
presso e renunciar  minha f seria o mesmo que trair meus amigos que
no so muulmanos e seguem outras crenas, pessoas que me amaram, me
protegeram e me defenderam.
No usar o vu sobre a cabea seria trair a si mesma, ela

pensa.

- E essa  a pior traio - Zarinah conclui.

43

2
POR QUE o VU DE SIREEN
SIGNIFICA TANTO

Qtio de Sireen Sawaf era motorista de txi e comeou a
trabalhar no horrio matutino, pouco depois das cinco da manh, na
sonolenta West Covina, Califrnia, dois dias aps seu aniversrio de 49
anos. Como muitos outros muulmanos srios que emigraram para os Estados
Unidos na esperana de uma vida melhor para si e para a famlia, o homem
trabalhava quando e onde podia. No se importava com a carga horria; s
queria prover o sustento dos cinco filhos, o caula com apenas um ano de
idade. Mas o esforo no durou muito. Ele foi assassinado, alvejado por
tiros nas costas e na cabea.
Mais de um ano depois, a famlia, composta por americanos de origem
sria, mexicana, africana e britnica, ainda chora a perda e no
consegue entender o motivo do brbaro crime.
Para a sobrinha, Sireen, com 23 anos na poca, o assassinato foi um
lembrete chocante, uma indicao de quo a vida  preciosa e breve. Ela
decidiu fazer as coisas que considerava importantes, por mais que
parecessem inconvenientes ou difceis.
- No quero ter arrependimentos - ela afirma. - Percebi que desculpas
tolas e procrastinao no devem

permanecer no caminho das aes promovidas pelo conhecimento e por uma
profunda convico.
No funeral do tio, Sireen decidiu usar hijab sobre os cabelos, algo que
j desejava fazer, mas que sempre adiava por uma desculpa qualquer. Uma
das coisas que a impedira de usar o vu era a tendncia de outras
muulmanas o considerar uma espcie de teste de religiosidade. No final,
ela diz:

- Percebi que os padres e as expectativas de outras pessoas so
irrelevantes no panorama geral das coisas. - Mais de um ano depois, ela
pde afirmar orgulhosa: - Eu o adotei desde ento como parte do meu
vesturio.
Alguns membros da famlia se opuseram ou questionaram a razo do uso do
vu sobre a cabea. Muitas mulheres
dentre os familiares no costumam cobrir a cabea.
- Elas acreditavam que eu estava sendo passional e, de maneira
inconsciente, tentava reagir  morte trgica de meu tio. Pensavam que
tudo era apenas uma fase. No percebiam que eu considerava fazer do vu
parte da minha rotina diria, aumentando assim meu recato e sustentando
um conceito de feminismo por meio das minhas aes. Mas eu j havia
discutido essas idias com minha me.
A me de Sireen, que costuma usar cobertura parcial
sobre a cabea quando est em pblico, uma espcie de
adaptao pessoal do hijab, apoiou a deciso da filha.
E o noivo de Sireen tambm a apoiou.
- Foi dele a melhor reao, ela relata. - Meu noivo disse que, caso eu
adotasse o hijab, ele seria meu maior
defensor, mas o mesmo aconteceria se eu preferisse no o

usar.

Apesar dos ataques terroristas de 11 de Setembro e de toda a publicidade
desfavorvel aos muulmanos, Sireen se descobre todos os dias colocando
alguma pea de roupa que a distingue claramente como muulmana. Ela no
percebeu muitas reaes hostis, exceto por olhares persistentes no

45

trem, quando vai trabalhar no escritrio do Conselho de Assuntos
Pblicos Muulmanos em Los Angeles.
- Tento no reagir, mas percebo vrios olhares insistentes - ela relata.
- Um dia, quando notei que um homem olhava para mim de maneira
persistente e carrancuda, decidi retribuir o olhar.
Houve apenas um comentrio que, felizmente, ela no
escutou.
Em outra ocasio, Sireen estava em um elevador quando um homem
resmungou:
- Meu Deus, ela tem uma bomba.
Outro homem, um latino, o reprovou:
- Escute, isso no  apropriado para dizer.
Sireen teve de perguntar a esse defensor o que o outro homem havia dito.
Sentia-se grata pelo apoio do latino, especialmente porque, pela
primeira vez, no poderia ter se defendido sozinha, considerando que no
ouvira o ataque.
Sireen nasceu em Tquio, onde o pai, nascido na Sria, trabalhava no
ramo de comrcio exterior. Quando ela tinha 2 anos, a famlia se mudou
para a Califrnia, onde ela e os irmos cresceram.
Nos finais de semana, Sireen, o irmo mais velho e a irm caula iam a
uma escola especial aprender sobre o islamismo e o Alcoro e sobre a
lngua rabe. Os pais queriam ter certeza de que os filhos receberiam
educao formal acerca da cultura e da religio da famlia. Em uma
dessas aulas, Sireen ouviu o ritmo especial e as regras gramaticais
empregados na leitura do Alcoro.
Durante a semana, eles freqentavam uma escola pblica, onde Sireen
reconhece:
- Eu no me ajustava muito bem ao ambiente social. - Ela teve de se
adaptar a uma cultura popular estranha  dos pais. Embora tivesse vrios
amigos, nem sempre podia fazer o que eles faziam. Por exemplo, ela no
pde comparecer  formatura do ginsio. Em alguns lares tradicionais,

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adolescentes muulmanos no tinham permisso para freqentar eventos
sociais para moas e rapazes, como bailes. Os pais de Sireen queriam que
ela seguisse as regras da famlia: nada de namoros, formaturas ou
bailes.
- Naquela idade, eu me sentia definitivamente excluda - ela conta hoje.
- Ao mesmo tempo, podia sair com minhas amigas quando meus pais sentiam
que o ambiente era inofensivo. No era necessariamente privada, mas no
podia fazer tudo que queria.
Agora, ela analisa essa experincia do ginsio sob uma perspectiva
diferente. Na faculdade, ela se envolveu com causas polticas e de
direitos humanos. Fez amigos que compartilhavam seu desejo de lutar por
justia social e igualdade para todos os indivduos. Suas preocupaes
anteriores atualmente parecem superficiais.
- No perdi muita coisa - ela reconhece.
Sireen diz que cuida da irm mais nova, pois no quer que ela sofra ms
influncias ou sucumba  presso do grupo. Certa vez ela a encontrou
visitando um site de msicas e assistindo a um vdeo que acompanhava uma
cano discriminatria. No vdeo, mulheres seminuas em poses erticas
cantavam e fingiam usar uma marreta e outras ferramentas em uma obra.
- O vdeo conferia carter completamente sexual s mulheres e o
empregava de maneira ofensiva. Os seios pareciam saltar das blusas
curtas e justas, e os shorts mostravam metade do que deveriam cobrir -
Sireen conta. - Os seios balanavam enquanto elas se moviam imitando
movimentos sexuais.
Quando tentou explicar por que o vdeo era ofensivo e degradante para as
mulheres em geral, a irm dela a encarou perplexa. No entendia por que
tanta confuso. As amigas haviam mostrado aquele site em uma reunio
qualquer, e elas riram muito juntas. Sireen tentou explicar como no
vdeo as mulheres eram usadas como "pedaos de carne"

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e aproveitou para sugerir que uma das amigas da irm devia ter
tomado conhecimento de tudo aquilo por meio de um dos rapazes da escola,
que, provavelmente, estivera se divertindo com as imagens de seminudez.
Sireen se sentiu aliviada quando a irm compreendeu
seu ponto de vista.
Ela faz questo de dizer  irm quanto ela  bonita, ressaltando que seu
corpo  perfeito exatamente como . Sireen no quer que a menina se
sinta impelida a fazer dietas que no so saudveis ou seguras, ou a
odiar o prprio corpo como acontece com outras garotas nesse pas.
Ela se sente abenoada por ter conseguido evitar determinadas atitudes
letais. De fato, ao adotar o hijab, Sireen descobriu que ele a protege
da preocupao obsessiva com a beleza fsica. Ela afirma se sentir livre
de boa parte da presso exercida pela ditadura da beleza, sofrimento que
outras jovens americanas ainda tm de suportar.
- Meu hijab manda a mensagem: no vou me deixar sexualizar nem permitir
que minha aparncia seja exclusivamente valorizada. - O noivo, que
hoje  marido, a apoiou na deciso. - Ele sempre me diz que no h
ningum como eu.
Filho de pais srios tambm, ele a aprecia como uma mulher forte e
apaixonada por poltica e justia social. Eles se conheceram trabalhando
por causas polticas na faculdade, mas no tiveram namoro ao estilo
americano. Em vez disso, ele procurou o pai de Sireen e anunciou o
desejo de conhec-la melhor, tendo em vista um possvel casamento. O pai
da jovem concordou com a aproximao. Ele permitiu que o rapaz fosse
visitar Sireen e at que ambos sassem juntos, desde que houvesse outras
pessoas presentes. O amor floresceu, e Sireen est certa de ter
encontrado sua alma gmea. Os dois se casaram em maio de 2005.
Sireen est muito envolvida com o trabalho de advogada de mulheres
muulmanas, vocao que ela reconheceu
ainda na faculdade, quando realizava pesquisas para ajudar

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muulmanos a assegurar direitos civis na Amrica. Em alguns
sentidos, ela afirma que o trabalho antes do 11 de Setembro foi um
preldio sombrio aos contnuos protestos contra o Ato Patriota dos
Estados Unidos, que, ela acredita, destitui muulmanos e outros
indivduos de direitos constitucionais  privacidade e a processos
justos. Sireen estava preparando uma pesquisa para demonstrar que cerca
de duas dzias de indivduos, a maioria do Oriente Mdio, foram
inadequadamente acusados de terrorismo ou de afiliao a grupos
terroristas. O governo se negou a divulgar os resultados da investigao
sobre esses acusados, porque os procuradores alegaram necessidade de
sigilo a bem da segurana nacional.
- Essas pessoas estavam sendo processadas com base em evidncias
secretas - Sireen relata.
- Muitos desses acusados, bem como seus advogados, nem sabiam quais eram as acusaes, at que chegaram ao
tribunal.
Sireen ajudava a preparar o que ela considerava ser uma
forte alegao para convencer os legisladores da Califrnia
a votar pela proibio de tais tticas.
- Ento aconteceu o11 de Setembro, e esses esforos foram abandonados
ela conta.
- Em uma tendncia contrria, houve mais presso para que se
caassem terroristas, para que se instalassem mais escutas telefnicas e
se vasculhassem registros confidenciais (incluindo o uso de computadores
pblicos), alm de se implementar a realizao de invases e buscas em
residncias e estabelecimentos comerciais e escritrios.
Sireen acredita que o governo precisa ir atrs daqueles que prejudicaram
americanos e civis inocentes pelo mundo, independentemente de quem  o
opressor. Mas ela tambm acredita que as liberdades civis no devem nem
precisam ser comprometidas para que se mantenha a segurana
nacional.

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Sireen vai a escolas, a sesses de treinamento de agncias legais e a
fruns pblicos para ajudar a educar outras pessoas sobre o islamismo e
os muulmanos e a corrigir noes errneas. Ela est sempre pronta para
assegurar que os muulmanos da Amrica so pacficos e seguidores da
lei. Tambm fala a esses grupos sobre costumes e crenas religiosas dos
muulmanos e explica como o islamismo compartilha muitas crenas com o
judasmo e o cristianismo. Invariavelmente, ela ouve as mesmas perguntas
dos participantes: as mulheres muulmanas so oprimidas? Por que elas
tm de manter a cabea coberta? Agora, usando o prprio vu, Sireen pode
responder com confiana.
- Falar sobre isso  uma ferramenta de fortalecimento, porque, quanto
mais falo, mais se desenvolve e fortalece
minha convico - ela conclui.

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3
MICHAELA E A ALTA-COSTURA
PARA MUSLIMAH

Havia dois sculos, as mulheres americanas esperavam
navios aportarem para ver a ltima moda vinda de longe, como vestidos de
seda de Paris e elegantes chapus de Londres. Hoje, as mulheres
muulmanas na Amrica esto separadas apenas por um dique de lenos de
seda e vestidos esvoaantes disponveis em seus cyberportos favoritos,
peas originrias de locais to distantes quanto, digamos, Kuait e
Arbia Saudita.
Por outro lado, talvez elas prefiram as prprias criaes
americanas. Michaela Corning, de Seattle, fornece as duas
coisas.
Seja por leilo ciberntico (e-Bay) ou em seu site no Yahoo, Michaela
vende a ltima moda do Oriente Mdio e roupas com o estilo prprio
americano para mulheres muulmanas. Elas no se parecem nada com as
pesadas burcas de l pretas que as mulheres afegs eram foradas a usar
sob o Talib. Tambm no so os hijabs inteiramente negros e nada
atraentes que as americanas vem em mulheres iraquianas nos jornais da
televiso. Michaela oferece o que descreve como a moderna costura
muslimah. Afinal, as muulmanas tambm se preocupam com a moda. O
conceito se ajusta a sua f.

Tomemos como exemplo um grande vu de seda listrada em preto-e-branco
que Michaela ofereceu recentemente
em um e-Bay pela cotao inicial de $4,99.
- vu  excelente para a muslimah profissional e sofisticada - ela
aconselha.
Se uma mulher no gosta de hijabs pretos, Michaela oferece um xale com
franjas azul-cobalto ou um leno em estampa floral cor de pssego. E que
tal um hijab amarelo-ouro para uma ocasio especial? Para as realmente
experimentais, h um leno de seda bem leve, em listras rosa e laranja,
perfeito para as regies mais quentes da Amrica. Michaela tambm
oferece vrios hijab com as franjas de que ela tanto gosta.
No podemos deixar de mencionar os belos caftans em estilo saudita,
enriquecidos com belos bordados, em cores que vo do verde-floresta ao
prata. Ou as calas que a prpria Michaela confecciona com pernas bem
largas e tnica completando o conjunto.
- Criei algumas tendncias de moda em minha rea e tambm por meio de
e-Bay - ela conta. - Mulheres no Kansas, por exemplo, preferem meus aba
yas aos tradicionais importados da Arbia.
Ela tambm aconselha as clientes a respeito das ltimas tendncias da
moda no Oriente Mdio. Apesar de cores brilhantes estarem em voga, ela
sugere o preto bsico.
- Creio que h uma idia errada sobre o preto ser triste ou destitudo
de qualquer sentido de moda. Isso  o oposto da realidade - diz
Michaela.
- Mulheres em pases como Kuwait e Om, onde o preto  muito popular (ou mesmo na Arbia Saudita, onde a roupa negra  obrigatri a),
escolhem essa cor como uma declarao de moda por ser ela considerada
"elegante", no sombria. Quando viajei ao Kuait, foi esse sentimento que
testemunhei em diversas mulheres vestidas de preto. Elas acreditam que a
cor confere maior sofisticao  aparncia. Existem um milho de
escolhas em
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preto, de cortes diferentes a bordados distintos, aplicaes, recortes,
contas, lantejoulas e franjas At o abaya Khaliji (Golfo) que as
mulheres do Iraque (e muitas do Kuwait, tambm) usam pode ser um
acessrio de moda. No Iraque ele  provavelmente escolhido por ser fcil
de usar e por razes econmicas, mas no Kuwait existem muitas opes
nesse estilo (e uma ampla variedade de preos).
Michaela se sente satisfeita por oferecer essas roupas - e sua
experincia - s clientes muulmanas nos Estados Unidos. Ela sabe como o
islamismo a ajudou a emergir da confuso. E, como jovem mulher
muulmana, ela entende a necessidade de estilo, de tecidos suaves e de
cores atraentes.
Michaela tem 29 anos e foi apresentada ao islamismo ainda na infncia, e
considerou pela primeira vez a possibilidade de tornar-se muulmana
quando ainda cursava a faculdade. Ela ama a famlia, mas admite ter
ficado confusa e infeliz aps divrcio dos pais. O islamismo a ajudou a
encontrar um significado para a vida.
Como ela diz:
- Nasci em 1975 em uma famlia crist de classe mdia-alta, em uma
regio agrcola da zona leste de Washington. Tive uma infncia muito
feliz e tranqila... ocupada por mais lazer do que adorao, tanto que
mal me lembro de ter ido  igreja. Minha compreenso de Deus se limitava
a experincias como algumas poucas Pscoas, em que procurei dinheiro nos
fardos de feno do country clube, ou a comemoraes nas quais abri pilhas
enormes de presentes em torno da rvore de Natal. S muitos anos mais
tarde percebi qual era a razo religiosa por trs daquelas comemoraes.
Michaela continua:
- Em 1982, minha realidade desmoronou bruscamente com o divrcio de meus
pais. O mundo que eu havia conhecido passou a fazer parte do passado, e
eu passava muito tempo chorando e ressentida. Tinha a sensao de que
meus pais me haviam enganado e me tornei insegura em relao  vida.

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Grandes mudanas seguiram o divrcio: uma nova cidade, novos colegas de
escola, nova vizinhana, at um novo padrasto e um novo lar em uma ilha
na costa de Washington. Mas tambm houve acontecimentos positivos:
Michaela conheceu um irmo e uma irm que se tornaram bons amigos para
ela e para a irm.
- Como Mariam tinha a minha idade e Adam, irmo dela, era da idade de
minha irm, passvamos vrias tardes depois da escola brincando no
bosque e procurando formas de vida marinha nas praias rochosas da ilha.
Mariam me mostrava seu Alcoro e explicava o que significava ser
muulmana. Aos 10 anos, senti-me fascinada por tudo aquilo; na verdade,
sempre fui muito curiosa sobre outras culturas e religies. Ela tambm
me contava histrias incrveis sobre a vida do pai como jogador de
basquete do Sonics.
Quando a famlia de Michaela se mudou para outra parte
da ilha, ela fez amizade com um grupo diferente de crianas e passou a
encontrar Mariam com menor freqncia.
- Mas ainda a considerava uma amiga e a defendia quando crianas
imaturas faziam comentrios rudes sobre seu hijab e outros costumes
islmicos. Eu me orgulhava de compreender sua crena, embora no a
conhecesse extensivamente.
Ela conta que comeou a se aproximar de adolescentes cuja companhia no
era recomendvel, jovens que buscavam riscos, bebiam, fumavam e, alguns,
usavam drogas. Embora evitasse os vcios, ela se deixou envolver pela
atmosfera de protesto, clima que envolvia desde rebeldia contra os pais
at participao em protestos e manifestaes sobre os quais no tinham
nenhum conhecimento. Michaela se lembra de um dia, em 1990, quando saa
da escola com esses novos amigos e os Estados Unidos declararam guerra
contra o Iraque.
- Eu no sabia nada sobre a poltica da guerra, mas percorria as ruas e
me envolvia em protestos contra o

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envolvimento do pas naquela batalha. No sabia nada sobre os horrveis
crimes cometidos contra o povo do Kuwait. Estava apenas seguindo a
multido. Deus sempre esteve no fundo da minha mente, mas me perdi em
meu prprio egosmo e no sofrimento acumulado aps a separao de meus
pais.
Aos 17 anos, Michaela foi morar com o pai em Bellingham,
deciso que a ajudou a recomear, e ela confere ao pai o
crdito por t-la auxiliado a romper com aquela influncia e
mudar sua vida.
- Hemd'Allah (graas a Deus) ele estava l para me ajudar e curar
algumas daquelas feridas emocionais - conta
Michaela.
Naquele outono, ela entrou na Whatcom Community, a
faculdade onde cursou, entre outras disciplinas, histria do
Oriente Mdio.
- Fiz um extenso trabalho de pesquisa sobre a antiga civilizao egpcia
e aprendi a verdade sobre diversos esteretipos e falsas alegaes
relacionadas ao islamismo e aos muulmanos. A idia por trs de ter
homens como chefes da casa e mulheres sendo recatadas para evitar fortes
desejos sexuais masculinos realmente fazia sentido para mim. Tambm
aprendi que os muulmanos acreditam em Jesus, mas no o chamam de "Filho
de Deus", como fazem os cristos. O fato de os muulmanos acreditarem
que Al est acima das qualidades mortais de ter filhos foi o que
realmente me tocou.
Apesar de toda atrao pelo islamismo, Michaela no se comprometeu com
ele e, de fato, de 1992 a 1998, teve poucos encontros com muulmanos.
Ento ela conheceu na academia um nativo do Kuwait chamado Saleh, algum
apresentado por seu personal trainer.
Pensei que ele era bonito e simptico, mas parecia
bom demais para ser verdade, e automaticamente eu o rotulei um jogador -
ela lembra. - Quando descobri que ele

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era muulmano, meu desinteresse aumentou um pouco mais. Embora tivesse
naquela poca um conhecimento maior sobre o islamismo do que muitos
americanos, estava cega por meus preconceitos.
 medida que foi conhecendo Saleh melhor como amigo, ela percebeu quanto
aquele indivduo era realmente generoso e bom. Ele comeou a falar sobre
o islamismo e a contar histrias sobre o Profeta Maom.
- Ele inclusive rezou na minha presena, at eu me sentir confortvel
para falar abertamente a respeito de minhas concepes erradas sobre o
islamismo, em especial sobre o papel das mulheres - Michaela conta. -
Comecei a perceber que todo aquele tempo dedicado s festas, s bebidas
e s futilidades com meus supostos amigos havia sido um desperdcio.
Nada daquilo me faria sentir mais feliz comigo mesma e com a vida como
um todo. - Michaela cita o Alcoro (3:185): - "Que  a vida terrena
seno um prazer ilusrio?". Pode ser difcil para os no-muulmanos
aceitarem que escolhi o islamismo e que no fui forada ou persuadida
por meu amigo, Saleh - Michaela insiste. - Minha aceitao do islamismo
no foi um pr-requisito para a nossa amizade. No acreditei
automaticamente em tudo que ouvi ou li. Foi um lento processo de
aprendizado, e Saleh foi perfeito no sentido de ter me dito a coisa
certa no momento certo. Algumas das coisas que mais tive dificuldade em
aceitar foram as roupas islmicas para homens e mulheres, a poligamia e
a proibio do lcool. Sem mencionar que eu queria provas, evidncias
lgicas e razoveis, para entender por que Saleh se sentia obrigado a
rezar, jejuar e absterse de bebida e sexo. No incio, decidi que havia
muitas proibies e poucas concesses.
Michaela relembra essa fase e prossegue:
- Minha mais rdua luta interna foi revelar essas idias a meus pais e
familiares. O principal conceito que tive de
desmentir em minha famlia foi a crena incorreta de que as

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mulheres tm papel de subservincia aos homens no isla mismo. De uma perspectiva americana, essas idias se confundem
facilmente com a realidade, em especial se considerarmos que muitos
pases muulmanos erraram inibindo a educao das mulheres ou seu direito ao trabalho. Sempre
relato a histria da primeira esposa do Profeta, Khadija. Ela
era uma mulher rica que no s possua empreendimento
prprio, mas criava os filhos com grande sucesso. Muitos parecem esquecer esse fato, incluindo os muulmanos. As
pessoas tambm esquecem ou no entendem a aceitao da
poligamia. Esse no  o estilo de vida preferido de acordo
com a palavra de Al, mas uma opo. O Alcoro reitera essa
diferena, estabelecendo que  impossvel tratar igualmente
vrias esposas. A menos que o homem assim o faa, deve
se casar apenas com uma mulher. Antes de entender o islamismo,
sempre presumi que manter mltiplas escolhas era uma sugesto de vida de acordo com os ensinamentos islmicos, e confiar na influncia da mdia me cegou para a
realidade. O que realmente me fez abrir os olhos foi saber
que o Profeta foi casado com uma mulher durante 25 anos, e que s se casou novamente aps a
morte dessa esposa. Ele pde ter mais de quatro esposas, a
fim de ensinar o povo como tratar diferentes mulheres, fossem elas muito mais velhas ou jovens, judias ou crists. Ele
nos mostrou que desposar mulheres de outras religies era
aceito, e que desposar mulheres de outras etnias ou idades era bom aos olhos de Deus. Hoje em dia, muitos homens se
negam a aceitar em casamento mulheres de cor ou cultura
diferente. O Profeta Maom nos mostrou que esses preconceitos
devem ser evitados. Alm disso, ele se casou com duas
de suas mulheres porque os maridos haviam morrido na
guerra e ele queria prov-las e ser uma figura paterna para
seus filhos, O casamento no se baseava em desejo sexual.
A famlia de Michaela a crivou de perguntas: Saleh teria
um harm de esposas? E se ele roubasse seus filhos? E se

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ela tivesse de ir morar no Kuwait e fosse mantida cativa naquele pas?
- Foi preciso dar muitas explicaes para justificar minha escolha por
um amigo muulmano. Imagine quantas explicaes no tive de dar para
faz-los entender por que me converti ao islamismo! Insha'Allah (Se Deus
quiser), o islamismo me aproximar mais da famlia, como me ajudou a
recuperar a amizade perdida de minha irm. Ela  crist h anos, e agora
que acredito em um Deus, Al, temos vrias discusses espirituais e
religiosas a respeito de Deus. Parece que temos mais em comum agora do
que tnhamos antes.
Michaela admite que foi muito mais difcil contar ao pai sobre a deciso
de usar o hjab do que sobre a converso ao islamismo. Ele j sabia
sobre o interesse dela pelo islamismo. Isso no o perturbou ou o
incomodou. Ele fez algumas perguntas, mas tudo se resolveu de maneira
favorvel. Mas o hijab o preocupava. Ele argumentava afirmando que tinha
filhas lindas, que se orgulhava delas e que elas tambm deviam ter
orgulho de si mesmas.
- Meu pai no entendia que eu no tinha problemas relacionados a minha
aparncia, mas que meu propsito mudara. Agora fao as coisas de maneira
diferente e usar meu hijab  algo que me leva mais perto do meu
propsito em adorar Al - Michaela resume. E acrescenta: - Como muitos pais
americanos, ele no conseguia entender por que eu aceitava uma religio
que permite a poligamia. Disse a ele que o islamismo no inventou essa
idia e recitei fatos da Bblia e do mundo pr-islmico. Expliquei que a
situao pode funcionar para alguns, mas no daria certo comigo. Creio
que  uma opo, mas no sou forada a viver esse tipo de casamento. Ele
entendeu a diferena; s precisvamos esclarecer alguns pontos.
Agora que entende por que Michaela se converteu, ele
pode se concentrar em outras realizaes: escola, trabalho,

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idiomas e habilidade artstica. De fato, o pai e a irm de Michaela
ficariam ofendidos se as pessoas a olhassem de maneira reprovvel por
causa do hijab. Mesmo assim, isso no quer dizer que ele tenha desistido
de convenc-la a abandonar o vu. s vezes, quando assiste a um canal de
televiso rabe na casa dela, ele diz coisas como:
- Vi em outro canal mulheres que fazem isso e aquilo e no se cobrem
dessa maneira.
Michaela se limita a lembrar que, para ela, o hijab  uma obrigao.
Em muitos aspectos, sua me foi quem enfrentou as maiores dificuldades
para lidar com a converso. Mesmo passando muito tempo juntas costurando
e produzindo artesanato variado, uma habilidade que Michaela atribui 
criatividade herdada dos pais, elas evitam falar sobre religio.
- Mas - Michaela conta - minha me fez muitas concesses por mim. Por
exemplo, ela sempre tem o cuidado de no servir carne de porco ou
derivados. E tomou essa deciso sozinha. J disse a ela para no se
incomodar comigo, porque posso comer outra coisa, mas ela nunca deixa de
me apoiar nesse aspecto.
A irm de Michaela tambm a apia, mas admite que no foi fcil aceitar
a converso. Ela cursa o terceiro ano de medicina na Universidade de
Washington e mantm contato com vrios muulmanos da regio e viajantes
estrangeiros.
- Isso ajudou a reduzir a dimenso do problema - Michaela acredita. - Em
pblico, ela  capaz de me defender com veemncia quando percebe que
esto olhando para mim de jeito imprprio ou ofensivo. Sempre a
aconselho a relevar, mas ela insiste em reagir. Devo estar habituada aos
olhares, porque, normalmente, nem os percebo mais, a menos que sejam
muito ostensivos. Uma vez, em Nordstrom, eu estava fazendo compras e um
casal de idosos examinava os produtos na mesma seo em que eu me
encontrava, O

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marido estava ali, olhando para mim como se eu fosse um fantasma ou uma
aliengena. A mulher parou diante dele e disse em tom firme: "Ela  uma
pessoa, sabe?". Puxa, ele ficou muito constrangido. Eu me senti mal pelo
pobre homem. Talvez nem tenha percebido o que fazia.
A av paterna de Michaela, catlica devota e enftica aos 85 anos de
idade, foi um dos membros da famlia que mais a apoiou. Ela enviou um
e-mau para Michaela contando que, quando falou com o padre da parquia
sobre a converso da neta ao islamismo, ele respondeu:
- Bem, pelo menos ela acredita em Deus.
- Ela est sempre enviando cartes de Ramad e e-mails
- Michaela conta. - E j me perguntou se deve desejar Feliz Ramad ou
outra coisa qualquer. Expliquei que se deve dizer Ramada Mabruk e que
qualquer traduo que mantenha esse sentido de celebrao positiva pode
ser empregada sem nenhum problema.
Mchaela recorda:
- Uma vez, estava conversando com ela ao telefone, e vov falava sobre
ter perdido uma foto dela ainda criana. Ela me pediu para fazer uma
prece. Eu disse que faria. Ela sugeriu que a orao fosse mais ou menos
assim: "Oh, Al, ajude minha av Coming a encontrar sua foto!". Fiquei
chocada por ela ter dito Al em vez de Deus. De vez em quando ela faz
isso. E tambm apia minhas restries alimentares e gosta do meu hijab.
Ela me disse que aprecia o vesturio das muulmanas porque est cansada
de ver decotes por a. Acho que minha av realmente entende a
necessidade do ser humano por uma religio, especialmente uma com regras
e tradies. Como eu, ela tambm acorda bem cedo para fazer suas oraes
e a nica diferena  que tem seu rosrio e recita a Ave-Maria.
A famlia de Michaela est feliz por v-la usar seus talentos criativos.
Como designer para mulheres muulmanas, ela cria aba yas do tipo
pulver, com capuz ou colarinhos

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de mandarim. Adora escolher os tecidos, variando de chiffons bem
leves a brocados do tipo tapearia "para mulheres que desejam algo
extico".
- As convertidas americanas querem um estilo prprio que se ajuste ao
cdigo de vesturio islmico, mas que tambm tenha ar ocidental - ela
opina. - Sejam afro-americanas, caucasianas ou hispnicas convertidas ao
islamismo, essas mulheres ainda so americanas. No se converteram a uma
cultura diferente.
Algumas de ns nos sentimos ridculas em um shawar kameez (cala
tradicional e longa camisa larga que muitas mulheres paquistanesas
usam). Colocar um leno sobre a cabea j faz voc parecer uma
estrangeira (e no s muulmana), e por isso muitas que no so
imigrantes no querem dar a impresso de terem vindo de outro pas.
- No me entenda mal - ela acrescenta. - Uso qualquer tipo de roupa
muulmana de uma variedade de pases, mas quando entro no ateli no
quero parecer outra coisa se no uma muulmana que tambm  americana.
Essa  minha cultura.
O que mudou foi a crena, no a nacionalidade, ela diz.
Michaela converteu-se h cinco anos, revelou a deciso
 famlia h quatro e h trs anos e meio comeou a usar o
hijab. E ela se sente mais atrada que nunca pelo islamismo.
- s vezes tenho dvidas pequenas, insignificantes, mas elas logo passam
- Michaela conclui.

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4


MARIA E O PESADELO DE UM
CASAMENTO ARRANJADO

Afamlia do noivo era da Europa, uma prspera e cosmopolita famlia
muulmana que vivia nos Estados
Unidos e mantinha negcios na Amrica do Sul. Eles haviam ido at a sia
para arranjar um casamento para o filho de 29 anos. Ouviram falar sobre
Maria, adorvel estudante universitria de 19 anos. Ela era uma mulher
correta e recatada de uma famlia respeitada.
- Eles foram  nossa casa me ver - lembra a noiva.
Ela quer contar o que aconteceu, mas a jovem mulher que aqui chamamos
"Maria" est embaraada. Mais importante, ela deseja proteger os filhos,
que teme no ver novamente, e impedir que conheam as verdadeiras
circunstncias enfrentadas pela me.
Maria e a famlia no viram nada de errado quando convidaram aquela
prspera famlia para visit-los em casa. Em seu pas, muitos pais
arranjavam o casamento dos filhos. A prtica no  tanto costume
muulmano, mas hbito cultural de milhares de anos. Alm disso, a
famlia parecia bastante agradvel.
Os pais de Maria ouviram a proposta do outro casal.
Primeiro, eles disseram, haviam gostado de Maria e aprovavam o casamento
do filho com uma recatada mulher
muulmana. Era hora de ele se acomodar e cuidar da esposa e dos filhos.
Para Maria, tudo era quase um sonho que se realizava. Ia se casar com um
gentil muulmano europeu que a levaria para a Amrica, onde operava
parte dos negcios da famlia. Viveriam em Miami, cujo clima subtropical
se assemelhava ao de sua regio. A famlia tinha negcios na Amrica do
Sul, e Miami, o porto para a Amrica latina, fazia sentido como local
de moradia do novo casal. A famlia do noivo demonstrava ser prspera e
poderia dar uma boa vida a Maria. E, acima de tudo, mostravam-se
afetuosos e atenciosos.
Alguns pais arranjam o casamento dos filhos sem permitir que eles
conheam a outra pessoa at o dia da unio. Maria obteve permisso para
conhecer o noivo e os futuros sogros. No entanto, ela enfatiza, mal foi
apresentada a eles antes de ser retirada da sala.
Assim, com o consentimento de Maria, os pais dela aceitaram a proposta.
O casamento aconteceu na cidade natal, e em seguida ela atravessou o
mundo para comear a nova vida em Miami.

Na poca, Maria no deu importncia ao fato de ter se casado com um
homem dez anos mais velho - essa diferena para uma jovem de 19 anos
pode parecer imensa. Como ela havia viajado pouco, teve a impresso de
que o marido era um homem do mundo.

Maria usava hijab, e ainda o usa. Jamais pensou em sair de casa com os
cabelos descobertos. A jovem  fruto de uma famlia enraizada em sculos
de tradio, gente diferente do sofisticado marido e da famlia dele.

- Eu no sabia nada sobre casamento - Maria acrescenta. Mas agora ela
acredita que a diferena de idade e a
experincia dos noivos deveriam ter sido um aviso.
To logo se mudaram para Miami, o casamento se degenerou rpido. Maria
descobriu que o marido tinha uma

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namorada, uma americana. Os pais o queriam casado com uma mulher
muulmana e tradicional, mas ele no se sentia capaz de romper o antigo
romance.
Ele comeou a perder a calma e a agredir Maria. As surras comearam no
incio do casamento.
- Ele bebia e enlouquecia - ela relata.
Esse homem tinha absoluto controle sobre a esposa. O dinheiro era
suficiente apenas para as despesas da casa, quase insuficiente para sua
sobrevivncia. E ele manteve essa conduta miservel aps o nascimento
dos filhos. E tambm batia nas crianas.
Ela tentou falar com a famlia sobre os problemas que
enfrentava. Eles a censuraram por reclamar.
- Diziam que eu devia ter pacincia, que tal conduta era "normal" em um
casamento.
Era quase como se tudo aquilo fosse o destino de todas
as mulheres, um comportamento que Maria atribui  vida
que sempre tiveram em um pas retrgrado e antiquado.
-  assim que somos.
H trs anos, o marido a abandonou pela antiga namorada. Ele a
engravidara e Maria conta:
- Brigamos por causa disso, e ele foi viver com aquela mulher.
Na poca, Maria se sentiu aliviada. Pelo menos teria paz.
Mas no foi assim que aconteceu.
Embora nessa poca ela vivesse nos Estados Unidos havia cinco anos,
ainda no entendia muito sobre a vida americana, j que o marido sempre
a controlara e determinara quando ela devia sair de casa e aonde podia
ir. De repente, Maria se via sozinha para cuidar de si mesma, sem
trabalho ou famlia, em um pas que, para ela, ainda era estranho. Ela
tentou no se deixar abater. O marido ainda lhe dava dinheiro, mas a
quantia mal dava para aliment-la e aos filhos.

64

Ele mantinha uma chave da casa e podia entrar e sair sempre que
quisesse. Um dia, ele no gostou do que viu e a acusou de no ser boa
me. A queixa era de que os filhos estavam sujando paredes. Maria tentou
explicar que havia colocado papel nas paredes para que as crianas
pudessem desenhar e pintar. Ele a acusou de ser relaxada e suja. Maria
protestou, afirmando manter a casa limpa e arrumada de acordo com as
tradies da terra natal.
- Sou limpa... mas meus mtodos so diferentes - ela explica. - Cuidava
sozinha de duas crianas. Nem sempre tinha tempo para passar horas
fazendo limpeza. E s vezes me sentia cansada.
Um grupo de muulmanas em Miami teve conhecimento sobre a situao de
Maria e a resgatou. Essas pessoas acreditam que Maria estava deprimida
demais para lidar com as questes da rotina diria. No  incomum que
mulheres vtimas de abuso tenham baixa auto-estima. Maria tinha
dificuldade para conversar sobre o que acontecia com ela. Com os pais
insistindo para que aceitasse a situao, sentia-se no dever de manter
em segredo os problemas conjugais.
O marido via as coisas de outra maneira. Foi  polcia para relatar que
Maria negligenciava os filhos. Quando tomou conhecimento desse fato,
Maria j estava tendo a casa invadida por oficiais que acreditavam na
verso oferecida pelo marido.
Ela tentou dizer aos policiais que quem maltratava os filhos era o
marido, um homem violento que espancava as crianas. Os policiais no
acreditaram nela e levaram os filhos. Ela foi algemada e presa.
Apavorada, Maria ainda tentou contar sua verso dos fatos. As
autoridades continuavam se negando a ouvi-la.
Assim comeou sua provao no sistema judicirio dos
Estados Unidos.

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De acordo com Mohammad Shakir, diretor-executivo do Conselho
Asitico-Americano em Miami-Dade, Maria foi presa e internada em uma
instituio por ser considerada instvel.

- Ela ficou detida por quase quatro semanas - ele conta. - Foi posta com
criminosos perigosos. Quando saiu,
estava petrificada.
Esse abuso contra jovens mulheres casadas oriundas de culturas
tradicionais est ocorrendo com freqncia crescente em Miami, ele
acrescenta, onde homens muulmanos ou hindus com mais conhecimentos que
as esposas imigrantes usam o sistema legal americano para se livrar dos
casamentos, em alguns casos fugindo com o dote da mulher ou com o
dinheiro da famlia. As mulheres no sabem como se proteger, e por essa
razo Shakir est ajudando a fundar um grupo de apoio ao amparo e 
orientao dessas vtimas.
No caso de Maria, o pior ainda estava por vir: ela recebeu a designao
de um defensor pblico e concordou com a petio por uma acusao
reduzida por negligncia de menor incapaz e com o cumprimento da pena em
liberdade condicional. Mas no conseguiu cumprir a exigncia da corte de
comear a consultar um psiclogo e seguir o plano de tratamento.
- Eu no tinha dinheiro para a gasolina - ela diz. - E tambm no tinha
dinheiro para os remdios. - Assim, ela foi presa de novo por violao
da condicional. E dessa vez passou mais tempo na cadeia.
Quando a assistente da defensoria pblica, Rebecca Cox,
conheceu a nova cliente, ficou chocada.
- Ela tinha os cabelos sujos e engordurados; estava totalmente
descomposta e no estabelecia comunicao. - Maria mantinha os olhos
baixos e se mostrava retrada, dando a Cox a impresso de ser fraca e
indefesa.
O que salvou sua cliente, diz Cox, foi que o grupo de muulmanos
liderados por Shakir descobriu informaes

66

sobre sua situao, interferiu e a levou para a casa de um deles, onde
ela teria abrigo e cuidados. Eles atenderam a todos os procedimentos da
corte, e foram muitas sesses e audincias, porque a resoluo do caso
era continuamente adiada.

- Aquelas pessoas incrveis no se deixavam abater, sempre dispostas a
satisfazer s imposies do juiz para obter a libertao de Maria Cox
conta, enfatizando que nunca antes havia testemunhado to inabalvel
apoio em um grupo de estrangeiros.
Ultrajado com o que tinha acontecido a Maria, Shakir se sentiu impelido
a interferir. Ele e a esposa Shahida decidiram acolher a jovem em sua
casa enquanto resolviam os problemas dela. Quase catatnica quando os
encontrou pela primeira vez, Maria foi se abrindo aos poucos, falando
sobre o abuso que sofrera e sobre os problemas legais.
Ela ainda no sabe ao certo o que aconteceu nas audincias na corte,
como o marido foi capaz de se divorciar dela e
ficar com a custdia dos filhos.

- Eu no sabia muito a respeito do sistema americano
admite.
Os Shakir a trataram como a uma filha, certificando-se de que Maria
dormisse o suficiente e se alimentasse bem. Aos poucos, ela foi se
recuperando. Meses mais tarde, parecia totalmente recomposta; os olhos
brilhavam. Ela at aceitou ir a uma festa. Vestida com uma cala larga e
confortvel e com seu hijab, ela estava linda.
A depresso voltou trs meses mais tarde. Cansada, ela perdeu a
capacidade de acreditar que a vida poderia melhorar. Em conseqncia
dessa recada, Maria decidiu ir para casa. Os novos amigos protestaram,
mas no conseguiram convenc-la a permanecer na Amrica. O melhor que
puderam fazer foi reunir a quantia necessria para comprar a passagem
area para o pas de origem. Ela afirma que no

67

tem inteno de voltar aos Estados Unidos. E, mesmo que quisesse, no
poderia: Maria violou a condicional quando deixou o pas. O oficial a
preveniu sobre as conseqncias da violao, explicando que, se
insistisse em deixar o pas antes do final do perodo de liberdade
condicional, os Estados Unidos no a deixariam voltar nunca mais. Mas
Maria no via esperana ou propsito em permanecer no pas.
Atualmente, ela conta, o marido tem a custdia dos filhos e vive na
Amrica do Sul. Ele os levou para l quando ela estava presa. Agora que
recuperou a capacidade de raciocinar, Maria presume que ele tenha
planejado tudo com antecedncia. Resignada, acredita que nunca mais
voltar a ver os filhos.
Ela tenta no lamentar. Procura dizer a si mesma que o marido ama os
filhos e vai cuidar deles. Tenta no lembrar o passado e como ele
abusava das crianas e tambm se esf ora para no pensar nas fotos
recentes que ele levou en uma das visitas ao hospital psiquitrico,
quando ela ainda estava internada.
- Eles no pareciam felizes diz. - No pareciam felizes.
Mesmo assim, no h nada que Maria possa fazer. Ele est com os filhos e
os levou para outro continente. Ela  considerada criminosa e por isso no
ter a confiana das autoridades. Maria admite no saber o que vai fazer
no pas de onde se ausentou por oito anos. Ela tenta ser grata:
- Graas a Al, estou bem de sade - diz.
Os Shakir, entretanto, acreditam que  uma tragdia
o fato de ela ter se sentido impelida a voltar para casa.
Antes de partir, ela quis dar um conselho a outras
jovens para que nunca se vejam vivendo o mesmo pesadelo
que ela teve de enfrentar.
O mais importante, Maria acredita,  no aceitar um casamento
arranjado.

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- No se casem sem conhecer o homem - ela aconselha. E mais: - No se
casem cedo. Eu era jovem demais. - Finalmente, ela ainda acrescenta: -
No se casem com um homem mais velho, porque ele pode querer uma esposa
jovem e ingnua por uma razo: mant-la sob controle.

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AYSHA: OS PERIGOS DE
SER MUSLIMAH

Era manh de um dia de maro de 2002, e um novo refrigerador acabara de
ser entregue na casa de Aysha
Nudrat Unus. Quando ouviu um estrondo, ela pensou que o entregador havia
derrubado a velha geladeira que estava retirando.
Imagine a surpresa e o terror, quando ela viu um grupo
de homens vestidos de preto parados diante da porta. Eles
a espancavam, sem se dar ao trabalho de tocar a campainha.
- Abra! - um deles exigia aos gritos. Outro brandia uma arma.
- Ele estava perto da porta - Aysha relata. Ela se lembra de ter ficado
paralisada, apavorada, sem saber o que fazer. - No conseguia ir at a
porta, porque estava congelada de medo - recorda. A filha de 18 anos
conseguiu correr at o telefone e chamar a polcia.
Mas era tarde demais.
Os homens arrombaram a porta de sua casa.
- Eles gritavam muito, o que os tornava ainda mais assustadores - conta
Aysha. - Nunca imaginei que policiais pudessem berrar daquela maneira. -
O mundo mudou depois de 11 de Setembro de 2001. Aqueles homens estranhos
se identificaram como agentes federais e obrigaram

Aysha e a filha a se sentarem no cho com as mos para trs.
- Eles nos algemaram sem explicar nada.
E tambm no leram os direitos daquelas mulheres, evento conhecido pela
televiso, mas que nunca fizera parte da experincia de Aysha. Os
agentes comearam a vasculhar a casa, invadindo aposentos e revirando
armrios, abrindo gavetas e pastas.
A polcia local no tinha conhecimento da batida. Dois oficiais
atenderam  chamada telefnica feita pela filha de Aysha, acreditando
tratar-se de um assalto. Foram informados sobre a investigao federal
por um dos agentes, que os recebeu na porta da casa. Os federais
patrulhavam organizaes e casas muulmanas na Virginia e na Gergia,
indo de organizaes de caridade a casas como a de Aysha, como parte de
uma investigao sobre possveis ligaes financeiras com terroristas.
Nenhuma acusao formal foi feita. Ningum jamais se desculpou pelo
incidente.
No dia seguinte, o Conselho de Relaes Islmico-Americanas em
Washington condenou veementemente as patrulhas, chamando-as de
"expedies de pesca", alegando que faziam uso de "tticas prprias de
McCarthy na busca por evidncias de malfeitos que no existiam". Aysha
compareceu  coletiva de imprensa para tentar divulgar o que estava
acontecendo com os muulmanos.
John G. Douglas, ex-procurador e atualmente professor da Escola de
Direito da Universidade de Richmond, se diz preocupado com a divulgao
de informaes sobre essas patrulhas, bem como por instituies e
indivduos islmicos de respeito e prestgio terem sido maculados pela
artilharia continua da m publicidade.
"Um dos aspectos mais problemticos das investigaes
de maro de 2002  que o governo escolheu usar mandados
de busca em todos os casos", escreveu Douglas no Jornal of

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Law and Relgion, em 2003. "Em uma investigao focada em transaes
financeiras, o governo dispe de outros meios para obter os registros
necessrios para rastrear o dinheiro e identificar sua origem. O mais
simples, certamente,  solicitar essas informaes. Outro  obt-la por
meio de intimao judicial. Nas diversas investigaes financeiras que
realiza, o governo obtm a maior parte das informaes por meio desses
instrumentos, no com mandados de busca."
O artigo do Jornal tambm inclui a anlise da assistente social
Meredith McEver sobre como Aysha e outras mulheres sofreram com essas
investigaes.
McEver reportou que uma mulher (ela no citou nomes) no conseguia
apagar da mente as lembranas e sempre que ouvia batidas na porta
pensava estar na iminncia de mais uma batida policial. "Outra mulher
acordou s dez e meia da manh com dez homens enormes apontando rifles
em sua direo e agora, coincidentemente, olha para o relgio todas as
manhs, nesse mesmo horrio, e  tomada de assalto pelas recordaes da
invaso", escreveu McEver.
Diversas dessas mulheres apresentaram sintomas da sn
drome do estresse ps-traumtico e muitas, ela diz,
sofreram reaes fsicas s batidas policiais.
"Algumas tiveram arritmia cardaca", ela relaciona. "En graus variados,
passaram a ter dificuldade para dormir, tornaram-se irritveis,
apresentaram acessos de fria e perderam a capacidade de concentrao.
Uma mulher disse que ia para o trabalho e as pessoas acreditavam que ela
estava trabalhando, mas no estavava. Por mais que se esforass no
conseguia se concentrar, por isso apenas ficava ali sentada. A mulher
mencionou um constante estado de alerta mximo, sempre esperando pela
prxima batida policial.
Outra mulher contou a McEver que no consertava
a porta arrombada porque "o FBI a arrombaria novamente
na prxima vez em que mandasse os agentes".

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A quieta e delicada Aysha conta que ainda est chocada com a invaso a
sua casa. Nascida no Paquisto, ela  uma
dona de casa que reside nos Estados Unidos h 33 anos.
- Fui criada em escolas catlicas - ela conta. - Fiz curso superior. -
Aysha obteve o mestrado e mudou-se para os Estados Unidos recm-casada.
Ela e o marido so cidados americanos h anos.
Muulmana devota, ela usa um hijab. No dia da invaso a sua casa, ela se
sentiu violada pelos agentes, que no permitiram que ela cobrisse os
cabelos em sua presena. Ela e a filha passaram duas horas e meia
algemadas, com as mos atrs das costas. Quando a dor se tornou
intolervel, os agentes as autorizaram a usar as algemas com as mos
para a frente. Em geral, ambas permaneceram algemadas por quatro horas.
Aysha afirma que ela e a filha adolescente no foram informadas sobre os
motivos que levaram os agentes a escolher sua casa ou sobre o que
procuravam ali. Quando a filha protestou, um dos agentes disse em tom
furioso:
- Ns as tratamos melhor do que sua prpria polcia!
Aparentemente, ele havia presumido que as duas eram naturais de algum pas do Oriente Mdio governado pela
ditadura.
A menina ficou perplexa.
- Que polcia? - perguntou incrdula. Ela nascera em Indianpolis.
Os oficiais da polcia local foram prestativos e conseguiram convencer
os federais a permitir que as mulheres usassem seus lenos. Elas tambm
obtiveram permisso para orar, parte da rotina muulmana que inclui
cinco preces dirias.
As investigaes duraram a tarde toda, e os agentes permitiram que me e
filha deixassem a casa e retornassem mais tarde apenas depois de eles
terem partido. Compreensivelmente, Aysha preferiu ficar.

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Quando os agentes foram embora, ela e a filha puderam percorrer todos os
cmodos da casa. Examinaram o caos deixado pelos federais e imaginaram
todo o trabalho que teriam para pr o lugar em ordem.
Desde aquele dia de maro, elas no voltaram a ser visitadas. Tambm no
receberam explicaes ou justificativas
para aquela investigao policial.
O advogado da famlia est estudando o caso. Aysha espera que nenhuma
outra mulher tenha de passar por situao semelhante.
- Fomos tratadas de maneira injusta - ela reclama.
As invases e investigaes arbitrrias mobilizaram os muulmanos
daquela rea, que se envolveram mais nas questes polticas. Criaram a
prpria Plataforma para o Fortalecimento Civil Ativo, a fim de
contribuir com os candidatos polticos solidrios com os muulmanos. J
alcanaram algum sucesso com um nmero maior de muulmanos concorrendo a
cargos pblicos e esto obtendo maior cobertura da mdia. As batidas
policiais "foram o momento definitivo", como diz Mukit Hossain, um dos
organizadores. Nunca mais os muulmanos estaro novamente em posio de
fragilidade.  o que ele promete.

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6


AREEJ: USANDO HIJAB NO
MUNDO PROFISSIONAL

Como diversas outras mes que voltam ao mercado de
trabalho aps se terem afastado para criar trs filhos, Areej Abdallah
se preocupava com o que pensariam os eventuais empregadores. Ela
conclua o curso de cincia da computao e estava ansiosa para pr em
prtica os conhecimentos adquiridos. Queria ingressar em um escritrio e
fazer parte de alguns projetos estimulantes. A questo era: as
companhias americanas estavam prontas para ela?
Areej  uma palestina que cresceu no Kuwait e estudou e trabalhou na
Jordnia aps se casar. O marido tambm  palestino. Eles se mudaram
para os Estados Unidos no final da dcada de 1980, ainda jovens, e
atualmente moram no Arizona. Ela usa o vu cobrindo a cabea como parte
da f islmica. No incio teve receio de usar o hijab nas entrevistas de
seleo para o novo emprego, consciente de que ele a identificaria como
muulmana. Mesmo antes de 11 de Setembro, havia esteretipos sobre
muulmanas subservientes e castigadas, e no era essa a imagem que Areej
desejava projetar como ex-dona de casa e me em perodo integral.
Afinal, estava ingressando no campo da cincia da computao, rea de
predominncia masculina. Mas no podia desistir do hijab, que ela
considerava extenso de si


mesma. Aquela pessoa era ela, e orava para que uma boa companhia a
aceitasse.
Areej se preparou para as entrevistas, mas a experincia no foi
exatamente fcil. Grandes organizaes americanas a entrevistaram no
campus da Universidade do Estado do Arizona, em Tempo, mas ela nunca
obteve resposta. Apesar disso, continuou tentando, enviando seu
currculo com uma relao de impressionantes graduaes e realizaes
acadmicas. Ainda assim, ningum a procurava.
- Eu procurava emprego havia nove meses - ela conta. - J estava certa de
que o problema era o hijab. Por isso
no conseguia trabalhar.
Ento ela conheceu um representante da Boeing, a empresa de aeronaves. A
companhia precisava de engenheiros de software. Areej tinha certeza de
que no conseguiria o emprego, mas decidiu tentar assim mesmo. Ela se
apresentou para a entrevista bastante segura e preparada.
- Eu no tinha muitas esperanas - ela lembra. - Mas recebi um
telefonema dois ou trs dias mais tarde.
Durante o telefonema, que aconteceu em uma sexta-feira, a analista de
Recursos Humanos formulou a pergunta:
- Quando gostaria de comear a trabalhar?
Areej no hesitou.
- Segunda-feira!
A analista riu e sugeriu que ela tivesse calma, porque no era
necessrio que se apresentasse to depressa. Mas Areej insistiu em
comear a trabalhar na segunda-feira. Ela ri enquanto conta a histria.
- Tinha medo de que ela retirasse a proposta de emprego! Foi um momento
de intensa felicidade. Fiquei to
eufrica que tive medo de sofrer um colapso.
Trs dias depois, apesar do nervosismo, ela realmente
foi trabalhar na Boeing como engenheira de software e desde ento 
funcionria da companhia e se apresenta diariamente

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com os abundantes cabelos castanhos cobertos pelo hijab.
Alm de trabalhar com computadores na Boeing, Areej descobriu que possui
outros talentos. Tem ajudado a conduzir as aulas sobre diversidade que
acontecem na empresa, sesses de quatro horas nas quais ela discute sua
f e as roupas a ela relacionadas. Com o progresso desses encontros, ela
pde ver os participantes relaxarem e se tornarem mais simpticos,
enquanto ela os brinda com contos, piadas, anedotas e fatos sobre o
islamismo. Semanas, s vezes meses mais tarde, ela ainda  abordada por
funcionrios que freqentaram as aulas e querem agradecer pelos valiosos
esclarecimentos.
A Boeing se mostrou uma empresa compreensiva, que proporciona at o
tempo necessrio para que Areej faa as cinco sesses dirias de
oraes. Um chefe a ajudou a convencer o RH a ceder uma sala normalmente
utilizada para mes lactantes, e ela usa esse espao para rezar.
- Tenho estado cercada por pessoas maravilhosas - ela diz.
Areej lembra que um de seus chefes a contatou aps o 11 de Setembro e
sugeriu que ela o procurasse caso tivesse problemas de assdio de
qualquer natureza. No foi preciso recorrer ao supervisor, mas ela ainda
recorda como ele foi gentil e solidrio.
Areej tambm gozou de flexibilidade para organizar o horrio de
trabalho, alternando entre meio perodo e perodo integral. A Boeing
permite que ela trabalhe apenas meio perodo no ms do Ramad, de forma
que possa deixar a empresa mais cedo para preparar o jantar de
celebrao da famlia. A companhia tambm organiza sesses para orientar
os funcionrios sobre como atingir objetivos. Essas aulas causaram
grande impacto em Areej, que explica:
- O projeto me ajuda a decidir o que quero fazer.

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Tanto Areej quanto Aseel, a filha de 13 anos, sabem que devem estar
preparadas e fortes para refutar os esteretipos relacionados s
mulheres islmicas.
Por exemplo, Aseel conta que, quando se matriculou em uma escola pblica
e comeou a ir s aulas usando hijab, vrios alunos, por certo na
inteno de serem solidrios e simpticos, disseram que odiariam ter sua
religio. Eles acreditavam, erroneamente, que a menina preferiria ter
uma religio com menos regras e padres menos severos e que ela no
gostava de usar roupas que a distinguiam de outras adolescentes.
Como Aseel diz:
Eles pensam que sou pressionada. No  verdade.
Usar hijab  uma forma de manter uma vida espiritual, ela diz. Tambm 
um lembrete de que ela deixou de ser menina. To logo atingem a
puberdade, as muulmanas devem cobrir os cabelos, embora muitas nos
Estados Unidos optem por no usar o vu at conclurem o colgio ou a
faculdade, ou por nunca o adotarem.  cada vez maior o nmero de
mulheres que no considera a f relacionada ao vu com que cobrem os
cabelos. Mas Areej e Aseel respeitam essa relao. As duas consideram o
hijab sagrado. Tambm apreciam as preces muulmanas e as celebraes que
reforam sua espiritualidade.
O Ramad, por exemplo, celebrao que se estende por um ms e exige que
os muulmanos jejuem do nascer ao pr-do-sol. Aseel est feliz por poder
jejuar com os adultos. Ela e os amigos muulmanos abdicam da pizza e do
hambrguer na cantina da escola e usam o intervalo do lanche para
conversar e se entreter com outras coisas. O Ramad tambm  tempo para
ler o Alcoro e pensar em Deus, ela

aponta.

Ela e a me sentem que podem ser muulmanas devotas e mulheres
empreendedoras.

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Aseel, por exemplo, decidiu que vai se candidatar ao time de futebol
feminino da escola, mesmo usando hijab e calas compridas. (Ela pode
usar os shorts de ginstica durante os treinos, quando apenas as meninas
esto reunidas, mas nos jogos, quando houver representantes dos dois
sexos presentes, dever se cobrir.) Ela no desanimou quando foi
informada de que uma universitria de Orlando, Flrida, decidiu
abandonar o time de basquete ao sentir que se transformava em alvo de um
verdadeiro circo da midia. Todos discutiam se ela devia ou no usar o
hijab em quadra, durante os jogos. Do outro lado do pas, em Phoenix,
Aseel no acredita que ter de enfrentar algo parecido.
- Tenho certeza de que ningum vai se incomodar - afirma.
Como caloura no colgio, ela j se comprometeu com o
trabalho voluntrio em sua comunidade.
- Qualquer coisa que possa ser til - ela diz.
Aseel tambm considera o que quer fazer na vida. Como
a me, ela deseja se dividir entre a famlia e uma carreira.
- Antes eu queria ser professora - ela conta. - Depois quis ser
pediatra. Agora penso em algo diferente. Talvez uma grande maquiadora ou
chef de cozinha. Seria muito divertido.
A me dela adora criar pratos novos. Durante um recente Ramad, ela
preparava carneiro, zucchini recheado e uma salada tpica do Oriente
Mdio na enorme cozinha da confortvel casa no subrbio. Os filhos
famintos - os dois mais velhos haviam jejuado desde o amanhecer at o
ocaso
- mantinham-se por perto, esperando pelo anncio do jantar. Ento, com
longos e satisfeitos perodos de silncio, todos comeram com apetite e
impecvel educao, saboreando o delicioso banquete. Areej se retirou
para rezar e s ento voltou para comer o zucchini e a salada.
Ela afirma que sua especialidade  criar sobremesas elaboradas, doces de
todas as partes do mundo. Ela  conhecida


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pelas massas, desde baklava a tortas variadas. Areej sempre sonhou
abrir uma doceria e em 2005 decidiu realizar esse sonho, alugando a
ltima loja disponvel em um elegante shopping center que estava sendo
construdo perto de sua casa.
A animao e a alegria de ser empreendedora a mantm muito ocupada. Essa
agitao tambm serve para amenizar a tristeza que ela sente sempre que
pensa na terra natal e na violncia que parece nunca ter fim naquela
regio. Areej nasceu na Palestina, mas cresceu no Kuwait. A famlia teve
de se mudar: o pai, palestino, foi banido dos campos de flores e
morangos porque o ento recm-organizado Estado de Israel obteve
informaes sobre ele estar fornecendo munio aos parceiros rabes.
Felizmente, os meio-irmos de Areej puderam conservar a terra que
pertence  famlia, que se localiza dentro das fronteiras de Israel.

Hoje, a famlia de Areej - trs irmos e cinco irms - est separada.
Dois meio-irmos permanecem na propriedade da famlia em Israel, duas
irms vivem na Palestina e os outros esto na Jordnia. Os meio-irmos
no vem os familiares da Jordnia h anos, porque no podem entrar no
pas. Areej se sente grata por ter passaporte americano. Ele permite que
v visitar a Jordnia e Israel ou, em outras palavras, todos os irmos e
irms.
Areej e o marido j pensaram em voltar a viver e trabalhar na Jordnia.
Em alguns sentidos, a vida seria mais fcil l, mas, Areej explica, eles
sempre desistem, porque os filhos so americanos e sonham desenvolver
carreiras na Amrica. O filho mais velho, Saith, cursa o ginsio e est
dirigindo um filme baseado em um roteiro que ele mesmo criou.

- Ele  muito dedicado - elogia a irm, orgulhosa, que o ajuda com a
maquiagem dos atores, todos amigos da
famlia.

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A famlia gosta do sudoeste americano. Sempre saem para cavalgar e andar
de bicicleta. Apreciam os poentes rosados e as montanhas azuladas.
Tambm gostam de passear de carro pela rea rural do Arizona, aquelas
onde h mais cactos do que gente.
- O Arizona  lindo - diz Areej.
A famlia tambm se sente adaptada. Afinal, os ancestrais viviam em uma
regio de desertos.
- Amamos o Arizona.  um lugar muito parecido com aquele de onde viemos,
onde crescemos no Oriente Mdio.
Areej conclui dizendo que a paz que ela e a famlia encontraram ali no
tem preo.


7

SAKEENA: ENCONTRANDO NA AMRICA O CAMINHO PARA CASA

Aamericana Sakeena Mirza foi ao Paquisto com o marido e o filho pequeno
para ajudar a famlia em uma
emergncia.
- No sabamos quanto tempo seria necessrio para resolvermos o problema
e estvamos preparados para uma longa estada no Paquisto - ela conta.
Na verdade, eles pensavam em se instalar l. De certa forma, Sakeena e o
marido estariam "em casa". Ele ainda tinha irmos mais novos no
Paquisto e o pai de Sakeena havia emigrado muito antes para os Estados
Unidos, onde Sakeena cresceu ouvindo histrias sobre o velho pas.
- Sempre pensei em mim mesma como americana, mas minha herana
paquistanesa tambm comps grande parte
de quem sou - Sakeena relata.
Durante os meses que passou no Paquisto, Sakeena, ento com 20 e poucos
anos, descobriu quanto valorizava a riqueza da cultura daquele pas.
Adorava se sentir ajustada, especialmente porque no era a nica mulher
na rua usando hijab.
No entanto, ela descobriu algo mais que a deixou perplexa: sentia falta
do estilo de vida americano, com sua diversidade cultural, e sentia
tanta falta que queria ir para casa. No

Paquisto, ela diz, todos pareciam iguais, o que no acontecia com as
pessoas em Los Angeles, local onde ela cresceu.
- Senti saudade da comida mexicana.  engraado...
- ela opina.
Embora no Paquisto a famlia tenha tentado faz-la entender que muitas
pessoas ali se esforavam apenas para sobreviver, e por isso no
dispunham de tempo para questes "maiores" da vida, Sakeena sentia falta
particularmente da atitude confiante dos americanos, postura que se
reflete na segurana com que se empenham em mudar aquilo que no aceitam
ou no aprovam.
Diversos paquistaneses teriam trocado de lugar com ela
no mesmo instante: ser capaz de viver e trabalhar na Amrica, ter as
oportunidades que se pode encontrar ali.
- A experincia me fez sentir gratido - ela relata. - Sentia-me grata
por ser americana e por isso decidi no lutar contra a saudade de casa.
- Ela e o marido voltaram aos Estados Unidos.
Aps um perodo na Califrnia, Sakeena e o marido agora criaram razes
na progressista Las Vegas, em Nevada. Breve a irm mais velha dela se
mudar com a familia para Las Vegas do Arizona. Sakeena aprecia a
diversidade de Las Vegas. Trata-se de uma cidade jovem, onde muitos se
sentem confortveis, independentemente de etnia ou raa.
- Essa  uma das razes pelas quais gosto de Las Vegas
- ela conta.
Cinco meses depois de se mudar para l, Sakeena se v no meio da estao
de chuva do deserto de Nevada. A ironia da situao a diverte. Ela tem
mais chuva agora do que jamais teve em Los Angeles, onde cresceu.
Sakeena faz parte de um pequeno grupo de jovens mulheres muulmanas que
se rene em um centro recreativo, em um complexo de apartamentos, para
discutir o Alcoro. Todas so recm-chegadas em Las Vegas: Amanda, que
se Converteu ao islamismo,  do Arkansas. Myta nasceu na
83

Indonsia, mas cresceu em Washington. A irm mais velha de Sakeena,
Haseena, tambm se junta a elas de vez em quando. Elas riem enquanto
trocam notcias sobre o que estiveram fazendo.
s vezes, brinca Myta, quando vai levar a filha de 4 anos  pr-escola
ou sai para realizar alguma tarefa rpida, ela esquece de usar o hijab.
O uso do hijab no tem sido hbito para ela, nem o esvoaante leno
branco com que cobre completamente os cabelos negros.
A me dela tambm no usava o hijab, e quando Myta visita a Indonsia
nota quantas mulheres no pas predominantemente muulmano deixaram de
usar os tradicionais vus sobre a cabea e as roupas recatadas de mangas
longas. Mas Myta experimenta o renascimento espiritual nessa retomada s
razes muulmanas, nas oraes dirias.
- As preces passaram a integrar minha rotina - ela diz. Como resultado,
sente-se mais serena, mais generosa. Usar o hijab em pblico, ela
reafirma, s eleva seu bem-estar. - Minha mente est mais aberta.
Diferente de vrias americanas que se converteram ao islamismo, Amanda
no encontrou muita discriminao. Pelo contrrio, recebeu elogios de
gente que considera suas roupas recatadas mudana positiva em uma era na
qual as mulheres se vestem para provocar.
Todas as participantes do grupo dizem que podem praticar livremente o
islamismo na Amrica. Sakeena quer integrar os esforos de sua mesquita
para ajudar os sem-teto e os portadores de AIDS. Ela admira as mulheres
muulmanas que criaram um programa de alimentao implementado nas
manhs de domingo. As muulmanas, ela acrescenta orgulhosa, tambm se
reuniram para organizar escolas contratadas sob licena especial do
governo.
-  esse tipo de coisa que ns, muulmanos, devamof estar fazendo, e o
estamos,  medida que nos estabelecemos
plenamente.

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No passado, quando ainda era uma menina muulmana no sul da Califrnia,
Sakeena sempre se incomodava por ouvir tanta conversa sobre ajudar os
pobres, como prega o Alcoro, mas testemunhar pouca ao. O pai,
paquistans, e a me, americana, tambm convertida ao islamismo,
enfatizavam o estilo de vida muulmano. Eles mantinham relaes sociais
com outros indivduos da mesma f, que liam o Alcoro e tentavam passar
as tradies aos filhos.
- Todavia, quando eu olhava ao redor, notava que os muulmanos no
estavam realmente fazendo alguma coisa
- ela conta. - A falta de atitude me desiludia.
Agora ela percebe que, naquela poca, havia relativamente poucos
muulmanos em sua comunidade, gente que no estava organizada de maneira
suficiente para ajudar. Mas tudo isso est mudando  medida que a
crescente comunidade islmica de Las Vegas procura ajudar outras
pessoas, seja oferecendo comida no dia de Ao de Graas ou preparando
banquetes para os pobres ao final do Ramad.
Quando criana, Sakeena no se incomodava em fazer
parte de uma minoria religiosa. Sim, ela cantava canes de
Natal na escola.
- Mas meus pais fizeram um timo trabalho transmifindo as tradies
islmicas em nossa casa.
Sakeena  bastante prxima da famlia. Ela se sente feliz por Haseena
estar se mudando para Las Vegas. Mais velha e me de cinco filhas, Haseena
sempre foi apegada a Sakeena. Agora elas so jovens mes de boa formao
que criam os filhos  maneira islmica, usam confortavelmente seus
hijabs em pblico e se esforam para fazer dos filhos bons muulmanos.
- Existem certas diretrizes dadas por Deus - diz Sakeena. - Deus criou a
paz e a ordem, e nossa misso 
cumprir nosso papel a servio de Deus.
Um dia, ela acrescenta, isso pode incluir a volta ao Paquisto.

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- Creio que sempre sentirei o impulso de estar l com o restante da
famlia confessa ela. - Meu marido tem irmos mais novos no Paquisto, e
como a me dele faleceu h quatro anos estamos sempre nos perguntando se
devamos ou no estar l para ampar-los.
Mas, ela sabe, estar l pensando e sentindo como americana.
E conclui:
- Minha estada no Paquisto enfatizou que minha americanidade, se  que
existe essa palavra, ofusca a herana cultural transmitida por meus
pais.

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8

HASEENA E UMA LIO
SOBRE DIVERSIDADE

Haseena Mirza precisava fazer um estgio para concluir
a graduao. Mas o estabelecimento para onde foi alocada a surpreendeu:
ela, jovem muulmana coberta pelo hijab, fora indicada para uma unidade
de reabilitao na cidade de Nova York, estabelecimento administrado por
judeus ortodoxos. Embora isso tenha acontecido antes de palestinos
militantes terem iniciado sua Intifada contra Israel, a tenso era
grande e evidente. Haseena preocupava-se com isso, mas no tinha
escolha: precisava do estgio para se formar. Assim, ela se apresentou
com os cabelos cobertos para trabalhar na rea de reabilitao cardaca.
A constatao a que Haseena chegou com essa experincia foi bem
diferente da obtida pela irm dela, Sakeena, que viajou ao pas natal do
pai, o Paquisto, e l descobriu ser mais americana do que imaginava.
Haseena descobriu que os americanos so, antes de tudo, americanos.
Tenses no Oriente Mdio no fazem judeus americanos recusarem a ajuda
de uma muulmana americana.
Mesmo assim, ela deparou com alguma tenso e certa frico. Muitos
pacientes tinham famlia em Israel ou conheciam algum que morava l.
Outros, no entanto, recebiam bem sua ajuda. Logo passaram a confiar nela.

- Eles eram bastante simpticos, receptivos - ela conta. Haseena tambm
descobriu no centro de reabilitao
que, apesar de toda a luta no Oriente Mdio, os tradicionalistas das
duas religies so muito parecidos.
- So severos - ela lembra. Como muitos muulmanos. Homens e mulheres
tinham salas de espera separadas, como centros de tratamento e outras
instalaes, o que acontecia em estabelecimentos muulmanos. As mulheres
tambm deviam se vestir com recato, como as muulmanas. Haseena se
sentiu surpreendentemente  vontade usando mangas longas e calas
discretas.
Um dos pacientes mais idosos chegou a comentar:
- Sabe de uma coisa? Eu a respeito.

E isso era um elogio, certamente.

Haseena viu com clareza como os americanos podem se unir em torno de um
objetivo comum, mesmo que em outros pases esses parceiros sejam
terrveis inimigos. Ela manteve em mente essa lio enquanto conclua o
estgio e mais tarde, quando se casou e voltou para o oeste.
Atualmente, Haseena vive em uma pequena cidade perto da fronteira de
Nevada, no norte do Arizona, mas est se mudando para Las Vegas com o
marido e os dois filhos pequenos. Ela se prepara para comear o segundo
curso de mestrado, dando prosseguimento  formao de mdica-
assistente. O trabalho, ela conta, ser uma espcie de treinamento
mdico condensado. Como mdica-assistente, ela vai poder dar consultas e
prescrever medicamentos. Depois da experincia em Nova York, Haseena
est confiante de que os pacientes a aceitaro, apesar de sua f e do
hijab.
Haseena continua usando hijab publicamente, e no se incomoda com a
possibilidade de no se adaptar ao panorama geral. Tambm no  problema
para ela integrar a minoria religiosa nos Estados Unidos. Ela est
criando dois filhos em idade pr-escolar, um de 4 e outro de 2 anos,
para

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que se orgulhem de sua f e at agora no encontrou dificuldades.
s vezes, o mais velho aponta mulheres que no se vestem como a me.
- Simplesmente explico que elas no so muulmanas. Mesmo assim, so
boas pessoas. Quando ele for mais velho, voltaremos ao assunto e o
discutiremos melhor.

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DRA. AMENA HAQ:
ESTETOSCPIO E HIJAB

O segurana do comdomnio fechado de casas mveis
estava atnito com Amena Haq.
No por ela ser muulmana usando leno de seda em uma rea
predominantemente judia de Broward County, no sul da Flrida. No, ele
explicou, fascinado, O que o espantava era o fato de aquela mulher estar
prestando atendimento domiciliar.
- Hoje em dia no se v mais isso - o segurana opinou.
Amena, ou melhor, dra. Amena Haq, riu do espanto do vigia e sorriu
serenamente quando ele ergueu a cancela para permitir sua entrada com o
carro. Aos 50 anos, Amena reconhece ser uma mdica  moda antiga, que
ainda presta atendimento domiciliar, uma forma de acompanhar os
pacientes que no podem ir ao consultrio. Ela sente que se tornou mais
atenciosa aps um despertar espiritual que provocou uma peregrinao a
Meca e, posteriormente, a fez usar o hijab pela primeira vez. No
entanto, a recm-despertada espiritualidade no se manifesta sem riscos,
em especial aps os ataques terroristas de 11 de Setembro e as guerras
no Iraque e no Afeganisto.

Sua rotina percorre um caminho estreito: de casa para o consultrio, do
consultrio para casa. Ela se permite uma visita semanal  mesquita,
talvez um almoo rpido em um restaurante "seguro", de preferncia em um
estabelecimento muulmano, e afirma no se sentir particularmente segura
usando o hijab em outros lugares. Deixou de fazer compras em centros
comerciais, conta, onde as pessoas a olham com curiosidade. No era
assim antes de 11 de Setembro. (Em uma viagem a Washington, uma mulher
passou por ela na rua e a chamou de cadela.)
Os pacientes, muitos deles judias idosas e mulheres crists, no a
abandonaram. Apenas alguns novos pacientes desistiram de sua prtica
aps serem recebidos no consultrio por uma mulher coberta pelo vu
muulmano. Ela ainda se espanta com a hostilidade desses encontros.
Amena tambm se zanga com o que julga ser ignorncia sobre sua f.
Mesmo assim, tenta praticar o que acredita ser o islamismo correto: uma
religio baseada em amor e em considerao pelos outros. Amena trabalha
em um consultrio, em um bairro afastado cerca de meia hora a norte de
Fort Lauderdale. O marido tambm atende nesse mesmo lugar e cuida dos
pacientes do sexo masculino. Ambos estudaram medicina na India, onde
nasceram, e depois se mudaram para os Estados Unidos ainda jovens, com
menos de 30 anos, atrados pelo sistema de sade desse pas, que
consideram melhor.
- Ela  uma boa mdica - atesta uma paciente idosa que espera ser
retirada do consultrio na cadeira de rodas. A mulher  atendida por
Amena h seis anos. Outros antigos pacientes contam que j nem percebem
mais o vu cobrindo-lhe a cabea. O que importa para eles  que a dra.
Amena  uma mdica competente, em quem podem confiar.
- Ela  muito atenta - diz outra. - Examina tudo.

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Amena  to bondosa que diversos pacientes solicitam seus conselhos em
questes alheias  rea de sade. s vezes, a dra. os leva a um bom
restaurante indiano para conversar sobre os prprios problemas enquanto
almoam.
- Nenhum dos meus pacientes vai ao psiquiatra - ela brinca. - Eles me
procuram.
Protetores, alguns pacientes expressam preocupao por ela ainda
aparecer coberta em pblico, apesar das tenses provocadas pelo 11 de
Setembro. Ela no usa o tecido escuro e grosso que os americanos
associam s mulheres muulmanas. Prefere lenos de seda colorida.
Afinal, Amena sempre vai visitar a ndia nas frias e l compra tecidos
em uma butique de luxo e exclusiva que, dizem,  freqentada pela atriz
Jennifer Lopez. Mesmo assim, os pacientes se dizem apreensivos, pois
acreditam que os lenos chamam ateno para a f islmica. Apesar do
comportamento gentil, Amena pode ser direta. Ela agradece a todos pela
preocupao, mas diz:
- Prefiro morrer coberta a viver sem meus lenos.
Os cabelos cobertos de Amena so um lembrete constante de sua vida
espiritual islmica, algo que significa muito para ela. Sua f, ela
afirma, a transformou em uma pessoa melhor, lembrando-a, por exemplo, de
que  melhor morder a lngua a dizer alguma coisa desagradvel ou
indelicada e de que  preciso cuidar de quem no pode cuidar de si
mesmo.
Amena decidiu usar o hijab em tempo integral, mesmo no consultrio, h
cerca de dez anos. Durante o hajj, a peregrinao a Meca, ela adotou o
hijab indispensvel nas oraes em locais sagrados.
- A tradio (do hija ) pode ser libertadora; no nos vestimos pela
aprovao dos homens, mas por quem somos - acrescenta Haq. Ela diz que a
viagem mudou sua vida. - Encontrei muita paz. - Ela decidiu seguir todos
os mandamentos do bom muulmano, pois isso asseguraria a manuteno
daquela tranqilidade recm-encontrada. Foi

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um momento na vida no qual ela precisava de muita serenidade: a me e a
irm haviam morrido pouco antes de cncer. O pai falecera anos antes.
Ela agradece  f pela sustentao que encontrou nessa hora de dor.
Amena tambm afirma que o islamismo facilita sua vida como mulher. Por
exemplo, ela no se sente pressionada a ganhar dinheiro como muitas
outras americanas, O Alcoro requer que os homens muulmanos sejam
responsveis e sustentem as famlias. Ela trabalha meio perodo, pois
assim pode passar mais tempo com os filhos. E no volta para casa
exausta todas as noites, como outras americanas que trabalham o dia todo
e at fazem horas extras por um salrio melhor.
Mesmo assim, trabalhar d a Amena a oportunidade de estar em um ambiente
estimulante. O Alcoro, ela cr, d a ela o melhor de dois mundos:
famlia unida e uma carreira interessante, desafiadora.
Na opinio de Amena, o islamismo  parcialmente incompreendido nos
Estados Unidos porque, como ela coloca:
- O islamismo  mais que uma religio.  um estilo de vida. Tudo 
orientado  famlia.
 doloroso que sua f incomode alguns americanos. Um mero smbolo
islmico, como o hijab, pode causar tenso entre as pessoas. Mas os
leais pacientes compensam o incmodo provocado por aqueles que no so
capazes de ver alm do vu. A pedido de Amena, uma paciente, juza
aposentada e judia, aceitou ajudar uma mulher muulmana que tentava
conseguir o divrcio do marido abusivo. (Amena se preocupa com a jovem,
incentivando-a a ser independente, e a auxilia nos cuidados com o filho
pequeno. Ela tambm cuida do filho da empregada domstica que sustenta a
famlia desde que o marido se tornou incapacitado para o trabalho.)
Na comunidade muulmana do sul da Flrida, Amena
tem o afetuoso apelido de Apu, "irm mais velha", aquela

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que providencia para que tudo seja feito, assegurando o auxlio de que
todos precisam.
Em 2004, quando o Furaco Charley devastou Punta Gorda e outras
comunidades da Costa do Golfo na Flrida, Amena ajudou a liderar o
movimento de arrecadao de fundos em sua mesquita, para distribuir
suprimentos e uma centena de certificados no valor de $25 para compra de
mantimentos.
- Todos doavam $1.000 - ela relata, satisfeita. Auxiliar outras pessoas
fez a mdica esquecer o furaco de problemas que assolou sua famlia. Os
destroos deixados pelo Furaco Francs, o segundo dos quatro que
castigaram a Flrida no incio daquele ano, tambm estavam em seu
quintal; uma rvore tinha cado sobre a piscina da famlia. Mesmo assim,
Amena acordou s cinco da manh para preparar o jantar daquela noite.
Orgulhosa da habilidade de culinarista requintada, ela se negava a
deixar a famlia consumir fast-food e mesmo assim deixou a casa s sete
da manh para se unir  caravana de ajuda s vtimas do Furaco Charley.
Amena enfrentou seis horas de atividade contnua sem hesitao, porque,
como expressou de maneira resumida:
- As pessoas necessitam de ajuda.
Regularmente, ela d as boas-vindas a famlias de muulmanos que chegam
ao sul da Flrida. Amena recomendou uma obstetra para uma recm-chegada
grvida de nove meses. Ajudou a patrocinar um ch-de-beb para a
famlia, e depois ofereceu uma semana de refeies quentes aps o
nascimento da criana.
- Esse  seu papel na comunidade - aponta com tom carinhoso uma das
recm-chegadas, Salma. Ela mesma ficou surpresa quando Amena apareceu na
porta de sua casa para lhe dar as boas-vindas, apesar de ter se mudado
para uma vizinhana distante da rea onde reside a mdica. - Agora eu a
considero minha amiga, minha irm, minha me.

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- Alm de Salma, outras jovens mulheres reconhecem e
apreciam toda a ajuda que recebem de Amena.
- Ela acolheu cada uma de ns - confirma outra jo ve muulmana chamada
Nusrat.
Os pacientes tambm passam a integrar a enorme famlia de Apu. Alm de
fazer o atendimento domiciliar a uma
mulher de 90 anos chamada Mildred, portadora de doena
terminal, Amena tambm a apresentou a muitas de suas
amigas. Assim, ela se certificou de que Mildred, ento abso lutament
sozinha, teria companhia constante durante os
ltimos dias, quando teve de ser hospitalizada.
- Mildred tornou-se amiga de todos - conta Nusrat.
Antes de morrer, Mildred se interessou o suficiente pelo
islamismo para pedir  mdica uma cpia do Alcoro. Depois do trabalho,
Amena ia encontr-la para conversar com
o livro sagrado, repetindo o que havia aprendido na mes quita Porm, via
de regra, sua f no  assunto no consul trio porque ela prefere
respeitar a privacidade dos pacien tes. Aprendeu com os pais que 
preciso ter sempre respeito
pelo ser humano.
Amena  fruto de uma famlia muito unida de oito filhos. O pai era
professor educado na Inglaterra que retornou  ndia para lecionar. A
educao era ressaltada e a piedade instilada em todos os filhos. Amena
se lembra de ter
sido uma criana muito levada, motivo pelo qual chegou a
levar uma surra da me. Mas, diferente das crianas de hoje,
aceitava o castigo.
- Eu era terrvel, e ela precisava me disciplinar.
Amena superou a rebeldia ao atingir a adolescncia. Aos
16 anos, j iniciava a faculdade, preparando-se para ser m dica, e foi
nessa faculdade indiana que ela conheceu o mari do Saleem.
Mas no houve namoro. Ela nunca podia ficar sozinha
com ele. No iam jantar fora, no iam ao cinema nem saam
de casa sem companhia. Mesmo assim, ela decidiu que aquele


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seria o homem de sua vida... desde que os pais o aprovassem. Amena
afirma que no se teria casado sem a aprovao e a permisso dos pais, o
que, felizmente, conseguiu obter. As duas filhas e o filho do casal
acreditam que no poderiam tolerar esse costume. Mas Amena reconhece a
praticidade nele: os pais esto sempre zelando pelos interesses dos
filhos. E a tradio surtiu bons resultados. Os Haq esto casados h
quase trinta anos. Enquanto outros casais americanos com carreiras
estressantes vem desmoronar seus casamentos, o deles floresceu, mesmo
com a mudana da ndia para a Carolina do Sul, Chicago e Sul da Flrida.
Eles tiveram trs filhos e viajam freqentemente  ndia para manter
contato com as famlias.
O marido de Amena sempre a incentivou a buscar realizaes. Afinal, ela
foi excelente aluna na faculdade e conquistou trs medalhas de ouro.
Como os trs irmos j eram mdicos, a famlia aceitou com naturalidade
essa excelncia. Amena chegou aos Estados Unidos em meados da dcada de
70 para encontrar o pai, que estava na Carolina do Sul para se submeter
a uma cirurgia de remoo de um dos pulmes. Um dos irmos havia
arranjado tudo, cuidando para que a operao fosse realizada em um
hospital prximo de onde ele mantinha um consultrio. Como mdica
competente e interessada, Amena decidiu acompanhar de perto a
recuperao do pai.
- Eu era a queridinha - ela conta com um sorriso saudoso -, e ele me
queria por perto.
Aps iniciar residncia na Carolina do Sul com um cirurgio
cardiovascular indiano, Amena surpreendeu-se aprovando e apreciando o
sistema de sade americano. Viu que os pacientes eram tratados com
respeito e era por esse tipo de medicina que se interessava. Ela decidiu
aceitar outra residncia no hospital da Universidade de Illinois,
Chicago, onde o marido, Saleem, tambm poderia concluir o estgio.

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No incio, ela se especializou em pediatria, mas logo percebeu que havia
cometido um grande engano.
- Eu era incapaz de lidar com crianas realmente enfermas - conta.
Ao se transferir para o pronto-socorro, descobriu a verdadeira paixo.
Amena gostava do drama das situaes de vida ou morte que a obrigavam a
pensar rpido para salvar vidas.
- Adorava salvar as pessoas - ela conta. - Foi a melhor coisa que jamais
me aconteceu. - Mas os longos turnos e os plantes noturnos no eram
favorveis  vida familiar. Depois de ter os trs filhos e de se mudar
para a Flrida, ela passou a atender em um consultrio particular, com o
marido.
Amena ainda recorda a sensao mgica de se mudar para uma rea que
haviam visitado como turistas, um lugar onde se apaixonaram
imediatamente pelas palmeiras, pelo mar e pelo clima subtropical. Quando
procuravam uma boa casa, passaram pela comunidade em North Broward que
haviam admirado algum tempo antes. Anos mais tarde, foi como se um gnio
realizasse seu pedido: a nica casa  venda na vizinhana localizava-se
naquele mesmo quarteiro, e os Haq a compraram. O imvel transformou-se
em uma espcie de refgio familiar, uma paisagem perfeita com fonte,
riacho, carvalhos e palmeiras.
No perodo subseqente ao 11 de Setembro, Amena passou a entender a
repulsa dos americanos pelos terroristas extremistas rabes e
compartilha desse repdio. Em sua opinio, os homens que seqestraram os
avies dos quais dois foram arremessados contra o World Trade Center
eram incomensuravelmente cruis. Ela se revolta por eles terem matado em
nome do islamismo, uma f que, para ela,  pacfica e defensora da vida.
No, e ela faz essa declarao com absoluta firmeza, uma religio que
promove o terroris mo. Nem eram aqueles homens de f.

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- Eles foram mostrados bebendo em casas noturnas (em reportagens que a
televiso levou ao ar aps os atentados), e muulmanos no bebem.
Ela tambm no pode aceitar que terroristas que invoquem Al tenham
mantido refns aquelas crianas russas, pais e professores no vero de
2004. Os homens que dominaram a escola no eram verdadeiros muulmanos,
na opinio de Amena. Para ela, nenhuma pessoa de religio teria
patrocinado ou apoiado um seqestro em massa que causou a tragdia de
mais de 300 mortos, incluindo vrias crianas. Um assassinato em massa,
ela diz,  um ato de barbrie que nenhuma religio pode aceitar.
Os assassinatos terroristas no Iraque aumentam sua dor. H momentos que
ningum pode entender, ela observa. Mesmo assim, Amena e as outras vo
continuar espalhando o bem para amenizar os efeitos do mal que tanta dor
tm causado ao mundo.


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9


O EMPREENDIMENTO DE EDINA



H cinco anos, Edina Lekovic candidatava-se a um emprego de jornalista
em uma rede de televiso na Califrnia. Como editora-chefe do jornal dos
alunos da Uda, era evidente que ela possua as credenciais necessrias.
Foi com grande surpresa que Edina ouviu um chefe da emissora dizer:



- Voc deveria desistir da idia de aparecer diante das cmeras. No vai
acontecer.
O motivo:
- Eu usava um leno cobrindo a cabea - Edina revela.


Isso aconteceu antes de 11 de Setembro, mas a discriminao contra os
muulmanos j ocorria, a ponto de um executivo de televiso se sentir 
vontade para dizer a Edina que, como muulmana adepta do uso do hijab,
ela jamais encontraria emprego naquela rea.
Para Edina, o episdio representou um golpe. Mas o que
ela logo descobriu foi ainda pior: ele estava certo.
Apesar de todas as entrevistas a que comparecia, ela simplesmente no
conseguia emprego como reprter. dna acabou se tornando professora,
depois editora de uma revista muulmana e atualmente  diretora de
comunicaes do Conselho de Questes Pblicas Muulmanas, instituio de
poltica nacional com escritrios em Washington e Los

Angeles. Aos 27 anos, ela se sente realizada em sua posio no conselho.
 a fuso perfeita de todos os seus interesses
- jornalismo, educao, islamismo, questes internacionais -, e ela
ainda tem a possibilidade de advogar por pessoas com histrias
singulares (e hoje em dia, na opinio dela, os muulmanos so
especialmente vulnerveis).
Mesmo assim, Edina lembra que vive na Amrica, a terra onde todos podem
realizar seus sonhos, e considera difcil aceitar o fato de que algum
como ela pode encontrar na religio obstculo para essa realizao.
Afinal, os pais dela prosperaram nesse mesmo pas ao chegarem como
imigrantes do territrio ento conhecido por Iugoslvia.
A ironia disso  que ela provavelmente teria se tornado reprter de
televiso se abrisse mo do hijab, que ela j havia deixado de usar por
muito tempo. Edina e a irm decidiram retomar o costume depois de
conhecerem outros muulmanos no campus da Uda.
- Mas tirar o vu estava fora de cogitao - ela diz. E acrescenta: -
No tenho receios. No vou fazer concesses
em troca de um emprego.
No que ela considere indispensvel o uso do vu pelas muulmanas. Mas,
em seu caso, os cabelos cobertos so um lembrete constante do que ela
conquistou: a f. E essa f foi por muito tempo negada a seus pais na
antiga Iugoslvia comunista. O governo ps-Segunda Guerra, liderado por
Tito, baniu a religio, ou tentou banir, incluindo a o islamismo e o
cristianismo. Como mostraria mais tarde a chamada limpeza tnica dos
Blcs, a velha Iugoslvia permaneceria tnica e religiosamente
diversificada por muito tempo aps a morte de Tito.
Edina e a irm cresceram na Califrnia. Tinham a aparncia tpica, quase
estereotipada, da garota californiana:
olhos azuis e cabelos claros.
- Para nossos amigos, ramos como qualquer outra Becky ou Jody - conta
ela.

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No entanto, ela e a irm sabiam que eram diferentes. No comemoravam o
Natal como os colegas de escola e outros americanos, embora em uma
ocasio Edina tenha pedido o que chamou de "rvore de Ano-Novo".
- Nas datas de grandes celebraes amos para a mesquita, e s vezes na
sexta-feira para as preces, quando tnhamos tempo - dna recorda.
Todavia, a maneira como elas viam e praticavam o islamismo parecia ser
diferente do que viam pela televiso americana. Ambas sabiam que os
membros da famlia no eram terroristas fanticos do Oriente Mdio, e
esses pareciam ser os nicos muulmanos mostrados pela tev. Apesar de
os pais serem estritos, eles jamais haviam exigido que as filhas
cobrissem os cabelos. Tambm no haviam ordenado que as meninas no
usassem shorts em pblico. Agora, pensando no passado, Edina sente que,
durante os anos de escola, era estranho ser muulmana.
- No havia outros muulmanos no colgio em que eu estudava. Nunca tinha
conhecido ningum como eu. Sempre me senti sozinha em minha religio.
Tudo isso mudou quando ela foi para a Uda, seguida de perto pela irm,
que se transferiu para l de outra faculdade. No incio, ela ficou
perplexa ao conhecer no campus uma afro-americana que se convertera ao
islamismo.
- No compreendia como algum podia optar por algo que eu sempre
evitara.
Curiosa, Edina decidiu ler o Alcoro pela primeira vez na vida.
- Mudei drastcamente minha viso de mundo e meu , relacionamento com
Deus. - Ela comeou a rezar cinco
vezes por dia.
Um dia, ela e a irm passaram por uma barraca no
campus administrada por uma associao de alunos mumos.
Dissemos "ol" - lembra Edina.


101


O rapaz se mostrou um pouco constrangido diante das duas jovens vestindo
short e camiseta, mas, mesmo assim, elas se ofereceram para ajudar no
que fosse possvel. As irms contaram ao colega que tambm eram
muulmanas e demonstraram interesse em saber mais sobre a associao.
Ento o estudante ficou realmente surpreso.
- Ele nos disse que havia oraes s sextas-feiras. Era evidente que
estava tentando superar o choque - Edina
comenta, rindo. - Mas foi muito gentil e atencioso.
As irms comearam a freqentar as reunies de oraes e outros eventos
dos alunos muulmanos. A irm de Edina acabou se casando com aquele
mesmo voluntrio muulmano, filho de imigrantes egpcios e universitrio
graduado cursando ps-graduao.
No entanto, Edina pagou um preo pela reconquista
da f.
Quando estava prestes a ser nomeada editora-chefe do jornal da Uda,
surgiu um questionamento: ela era realmente capaz de fazer um bom
trabalho? No que no fosse competente, mas havia certo ceticismo em
relao  sua imparcialidade.
- At os membros da minha prpria equipe questionavam minha capacidade
de separar trabalho de crenas religiosas - ela conta.
Essas dvidas eram apenas uma pequena antecipao do que Edina
encontraria no mundo real. Quando se formou, decidiu ingressar na grande
imprensa; queria trabalhar na tev. Afinal, seu currculo era
impressionante! Mas encontrou resistncia  idia de contratar uma
mulher usando um hijab. Houve uma exceo, um editor que a tratou com
delicadeza. Os outros que a entrevistaram foram educados, mas ela jamais
ultrapassou a primeira etapa do processo seletivo.
- Ainda existe a velha noo de que nenhum reprter deve exibir sinais
externos de sua religio.

102

Mais tarde, porm, o sistema de escola pblica a contratou, e ela foi
lecionar ingls e histria para alunos de quinta
e sexta sries em Pasadena.
- Foi um ano bastante positivo - ela comenta antes de acrescentar rindo:
- Acho que foi o trabalho mais duro que
tive na vida.
Pouco depois, Edina recebeu uma proposta de emprego para ser editora de
uma revista muulmana, a Minaret. Foi timo voltar ao jornalismo e poder
explorar uma ampla variedade de assuntos. O trabalho na Minaret tambm
permitiu que Edina explorasse mais profundamente sua f e conversasse
com outros muulmanos pelo mundo. Em 2003, a Malsia a convidou para
participar de uma conferncia internacional de lderes muulmanos, que
inclua discusses sobre como os muulmanos podiam ajudar a deter a
violncia mundial. O evento abriu os olhos de Edina. Outros muulmanos
espalhados pelo mundo fizeram questo de abord-la para dizer quanto
desprezavam os Estados Unidos por terem enviado tropas ao Iraque e
causarem a morte de milhares de civis naquele pas. Edina se esforou
para explicar que muitos americanos concordavam com eles e eram
contrrios  poltica de guerra da administrao Bush.
Agora que passou a integrar o Conselho de Assuntos Pblicos Muulmanos
em loos Angeles, ela se ocupa com a comunidade, promovendo a imagem
positiva dos muulmanos e ajudando a proteg-los contra infraes aos
seus direitos civis.
- Tem sido um tempo muito difcil para a comunidade muulmana na Amrica
- ela conta.
Mas Edina estar l para ajud-los.

103



PARZFE11

As inidentificveis


os 20 e poucos anos, Sofia Shakir usa calas compridas elegantes e
soltas para trabalhar no Gabinete de
Advocacia do Estado em Miami-Dade. Dispensa o hi jab. Em seu lugar,
prefere as novidades da moda como qualquer outra jovem americana.
Todavia, ela se sente to atrada pela f islmica quanto a irm mais
nova, Sadia, que comeou a usar hijab quando cursava direito em
Michigan.
- O islamismo est no meu corao - Sofia sustenta.
- No preciso de roupas para demonstrar esse sentimento. Diversas outras
muslinah americanas so da mesma opinio. Elas so as
"inidentificveis". No se destacam em meio  trama do tecido americano.
Na verdade, os vizinhos e colegas de trabalho podem se surpreender
quando souberem que so muulmanas. Acadmicos acreditam que muitas
muslimahs na Amrica so inidentificveis. No cobrem os cabelos nem
adotam outras roupas tradicionalmente associadas ao islamismo.
As inidentificveis podem ser a primeira ou segunda gerao de
muulmanas americanas. Raramente incluem convertidas. As convertidas, ou
revertidas, como so chamadas nos crculos muulmanos, costumam ter mais
entusiasmo em relao ao uso do vu e dos trajes tradicionais.

Tambm se destacam na sociedade americana, ao contrrio das
inidentificveis, das quais muitas preferem o anonimato.
- Estou indo bem vivendo minha vida, obedecendo a meu Deus sem chamar
ateno - diz uma inidentificvel, professora de contabilidade de
Chicago. Ela diz que o hijab caa em desuso no Egito na dcada de 1950,
quando ela crescia. A me j no o usava nem era obrigada a isso. O
hbito era prprio, principalmente, das mulheres pobres da rea rural.
Agora, no entanto, a professora nota que o hijab est voltando. Em suas
viagens anuais ao Egito, ela v jovens elegantes cobertas com a pea. Em
Chicago, observa jovens muslimah com os cabelos cobertos. Ela aceita
tudo isso. Mas no quer usar o vu.
Ela e outras inidentificveis dizem ser to espirituais quanto as que
usam algum tipo de cobertura. Afirmam que no precisam mostrar sua
religio com "um pedao de pano". As inidentificveis dizem freqentar
os servios na mesquita tanto quanto as mulheres que adotam o
tradicional vu islmico sobre os cabelos. Todavia, esforam-se para
encontrar uma mesquita em que sero aceitas sem serem envolvidas em uma
"guerra de pano".
- Usar hijab no mostra minha f de muulmana praticante - sustenta
Sabrina Hossain. Ela tem um aliado: o
marido.
Algumas muslimah americanas so inidentificveis compulsrias. Gostariam
de usar hijab, mas temem sofrer assdio ou discriminao. De fato,
alguns empregadores reclamaram sobre refugiadas muulmanas terem se
apresentado para trabalhar usando hijab, como consta em um relatrio do
Centro de Recurso e Orientao Cultural em Washington, que recebe verba
federal para ajudar os refugiados. (As assistentes sociais dessas
refugiadas dizem aos empregadores que eles devem permitir que as
mulheres usem os vus.)
Vrias outras inidentificveis, no entanto, se irritam
com outras muulmanas que tentam ditar um cdigo de
vesturio.

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- Elas dizem que no podemos agir assim, mas por qu? - quer saber
Farrukah "Fay" Pershimam, que cresceu na ndia e mora atualmente na
Flrida. Ela prefere no cobrir a cabea. E acha que outras mulheres
tambm devem ter esse poder de deciso.
Como fundadora da Unio Muulmana Progressista da Amrica do Norte,
Sarah Eltantawi concorda com essa tese. Em um artigo denominado "Sim ou
No ao Hijab: A Resposta No Cabe Aos Homens", ela escreveu: "Temo que,
a menos que as mulheres muulmanas defendam o prprio direito de tomar
as prprias decises sobre o que vo vestir e usar... enquanto ainda tm
chance, os fundamentalistas tero alcanado o sucesso absoluto em
convencer um nmero ainda maior de mulheres de que o simples ato de usar
o que as faz sentir confortveis e ajustadas , de alguma maneira,
vergonhoso, uma traio, ou haram".
Ela mesma no usa hijab. Diz que pode ser religiosa sem
cobrir os cabelos. Diversos acadmicos religiosos apiam
sua afirmao.
"O Alcoro prescreve certo grau de segregao e o vu para as esposas do
Profeta, mas no h nada nele exigindo ovu para todas as mulheres ou
sua segregao a uma parte separada da casa", escreve a respeitada
acadmica religiosa Karen Armstrong em seu livro O Isla. "Esses costumes
foram adotados trs ou quatro geraes depois da morte do Profeta."
Alm disso, diz a feminista de Nashville, Zainab Elberry:
- O islamismo progrediu e mudou muito. Temos questes mais importantes a
discutir do que o que as pessoas
devem vestir.
De fato, ela e outras inidentificveis sobre as quais voc vai ler esto
entre as mais ativas em suas comunidades americanas, seja como
voluntrias em escolas ou lutando pelos direitos das mulheres.

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ZAINAB: UMA MUSLIMAH
FEMINISTA E PIONEIRA


Zainab Elberry, poeta, jovem me e emigrada egpcia, participava de uma
conferncia do governo em Nashville,
em meados da dcada de 70, ouvindo um orador dar conselhos sobre onde as
mulheres deviam procurar emprego, quando a rea de seguros foi sugerida.
Zainab, que pertencia a uma afluente famlia no Egito, lutava arduamente
em Nashville apenas para sobreviver, e por isso a possibilidade de um
emprego bem remunerado na rea de seguros soou como uma promessa
maravilhosa. Ela gostava do ramo. Imaginava que a rea oferecia horrios
flexveis, o que seria ideal para uma me.
Mal sabia ela como seria difcil para uma estrangeira
muulmana prosperar em Nashville.
- E falam sobre telhados de vidro - ela brinca agora.
- Eu era mulher, rabe e muulmana. Tive de aprender sobre frustrao.
Em 1984 ela falou francamente a uma revista local:
"Quando uma pessoa estrangeira, como um americano, por exemplo, est
morando no Oriente Mdio ou no Egito,  altamente respeitado, bem
remunerado e recebe bom tratamento. Neste pas ocorre o contrrio: um
estrangeiro j tem um ponto desfavorvel;  estrangeiro: tem sotaque.
Mas voc tem de enfrentar os problemas e conviver com eles".

Com grande determinao, ela ignorou as piadas, os comentrios, o
assdio e os salrios baixos. Jogou pelas regras do jogo, apesar de
todas serem desfavorveis a ela e a outras mulheres. Zainab ainda se
lembra de como seguiu cuidadosamente o guia "vista-se para o sucesso"
para mulheres, ou seja, vestir-se como executivo, mas de um jeito
"feminino". Isso se traduziu em tailleurs (jamais calas compridas) e
lenos de seda no pescoo, verso feminina para a gravata. Nesse
aspecto, ter nascido no Oriente Mdio a favoreceu: ela usou o charme do
velho mundo para dividir espao com homens que se sentiam mais  vontade
com mulheres convencionalmente femininas. Esse charme tambm a ajudou a
convencer empresrios a comprar aplices de seguro para seus
funcionrios.
Com 50 milhes de americanos ainda sem nenhuma cobertura ou
seguro-sade, esse  um assunto sobre o qual Zainab  passional, e essa
paixo a ajudou a criar um negcio prprio, incluindo uma rede de
profissionais e colegas do sexo feminino, que foi muito til. Ela ajudou
a fundar o primeiro clube de negcios para mulheres em Nashville, e
algumas afiliadas que acabaram criando empreendimentos prprios se
tornaram clientes de Zainab.
Ela se lembra de ter levado o filho pequeno ao escritrio: ele brincava,
ela trabalhava.
Zainab progrediu e tornou-se representante e corretora de uma companhia
de seguros da Fortune 500, em Nashville, e aps um tempo se tornou
administradora e membro do clube do milho de dlar em outra empresa de
ponta do pas, alm de ter sido relacionada na Who's Who. Ento, depois
de mais de vinte anos na companhia, ela foi convidada a se demitir.
Zainab moveu um processo de discriminao que acabou sendo resolvido com
um acordo oferecido s mulheres.
- O que foi feito me deixou enojada - ela conta atualmente. Mesmo assim,
se diz satisfeita por saber que o

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processo obrigou a companhia a concordar com uma lista de reformas de duas
pginas, que beneficiar as funcionrias no presente e no futuro.
Hoje, aps mais de duas dcadas no ramo, ela  presidente da prpria
corretora de seguros, a PINC Financial.  casada com um economista
nascido no Marrocos, Dr. Nour Naciri, tambm uma autoridade leiga em
islamismo. O filho do casal, Nadeam Elshami, integra a equipe de um
senador americano, aps ter servido como diretor de comunicaes e
subchefe de equipe para um congressista.
Em Nashville, Zainab  altamente comprometida com o trabalho para o
partido Democrata, a ponto de um assistente de Bili Clinton ter escrito
para ela uma vez: "Sua energia, devoo, compromisso e confiana nos
Estados Unidos s renova esse mesmo esprito em todos que a conhecem".
Em casa, ela exibe fotos autografadas do ex-presidente Clinton e do
vice-presidente Ai Gore, enviadas como forma de reconhecimento por seu
trabalho voluntrio. (Ela se tornou conhecida como a "senhora torta", por
manter a equipe de Gore sempre suprida de alimentos dessa natureza
durante a eleio de 2000.)
Zainab tambm integra a diretoria do Conselho Para o
Interesse Nacional do ex-representante Paul Findley.
- Ele  meu mentor poltico - diz Zainab. - Aprendi muito com ele sobre
nossa democracia durante os ltimos
quinze anos.
Zainab tem sido grande ativista em Nashville, onde um jornal j a
apelidou "embaixada de uma pessoa s" pelo trabalho voluntrio ajudando
a educar os habitantes sobre o Oriente Mdio e os muulmanos. (Ela
produziu desfiles de moda muulmana que destacam peas de vinte pases,
iniciou festivais gastronmicos e culturais e o festival internacional
anual de arte, e ajudou a promover exposies como "Imprio dos
Sultes", que ressalta a rica herana do Imprio Otomano.)

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Zainab  um sucesso impressionante em todos os sentidos. Mesmo assim, no
se deita sobre os louros. Ainda reorda o sofrimento que a levou a esse
sucesso. E cerca de 35 os depois de ter chegado na Amrica ela diz que
ainda luta contra as impresses equivocadas, tanto como rabeamericana
quanto como muulmana.
- A Amrica no  um lugar fcil para trabalhar - ela diz. -  preciso
ser forte.  muito difcil. Esse ainda  um
mundo dominado pelos homens.
Zainab se considera feminista e muulmana devota. No v incongruncia
entre esses dois aspectos da vida, O islamismo recomenda o aprendizado
igualmente para homens e mulheres. Ela ainda diz:
-  uma religio que espera que o devoto se aprimore, em especial pela
educao e pelo aprendizado.
Para as mulheres muulmanas, isso inclui administrar as prprias
heranas, doaes e salrios. O islamismo tambm d  mulher a opo de
preservar o nome de solteira, o que Elberry fez.
E h o hijab. Com exceo do leno com que cobre a cabea para ir 
mesquita e fazer as oraes, Elberry nunca
adotou o vu nem pretende us-lo.
- Os americanos - ela diz com pesar - tm uma "imagem infeliz" das
mulheres muulmanas eternamente cobertas, como "se tivssemos de ser
assim para sermos muulmanas". - Essa  uma noo que ela considera
"insana".
Zainab rejeita a idia de que o hijab permite  mulher o retorno s
chamadas bases do islamismo. A religio no mudou. Os princpios bsicos
ainda so os mesmos, como acreditar em um Deus, orar cinco vezes ao dia,
amar o prximo, dar aos pobres e perdoar os semelhantes.
- Essas coisas jamais mudaro - ela insiste.
O retorno ao hijab, em sua opinio,  um reflexo da busca de algumas
mulheres pela prpria essncia, de suas tentativas de examinar quem so.
Zainab reconhece e entende


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que algumas se sintam mais espirituais usando o hijab, mas esse  um
conceito com o qual no compartilha.
A conveno do uso de algum tipo de cobertura para as
mulheres comeou na poca de Maom, na Meca do sculo
sete, quando no existiam tantas leis.
- As mulheres - relata Zainab - precisam se vestir pensando na prpria
proteo. Em caso de perigo, outros muulmanos tinham de saber qual
seria sua aparncia para resgat-la, se fosse necessrio, e essa
identificao se dava pelo vu e pelas roupas. Hoje, no entanto, o
islamismo progrediu e mudou muito. Temos questes mais importantes a
tratar do que a roupa que as pessoas devem vestir, O islamismo no tem
uniforme, embora os muulmanos reconheam e respeitem certo cdigo de
vesturio.
Zainab nota que poucos homens tm barba, como dita a
tradio. Ento, por que deve haver padro distinto para as
mulheres?
- Devemos considerar menos muulmano um homem sem barba? - ela pergunta.
E responde: -  claro que no.
Zainab sente que os americanos precisam entender que, no mundo
muulmano, diversas mulheres no usam a cobertura para a cabea. Quando
ela era criana no Cairo, no via muitas mulheres com vus ou lenos, e
nesse tempo, em 1950, o Egito tinha populao de 2 milhes de
habitantes.
Freqentei o ento chamado Colgio Americano Para Moas, a nica escola
americana no Cairo. Fui matriculada aos 4 anos de idade e conclu o
colgio nesse estabelecimento.
Na juventude, ela desejava trabalhar para as Naes Unidas e,
considerando esse objetivo, aprendeu ingls fluentemente e um pouco de
francs. Quando comeou a cursar o mestrado em literatura comparativa na
Universidade Americana no Cairo, concentrou-se nas peas de Tennessee
Williams e em como ele retratava as mulheres sulistas.

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- A saga das sulistas se aproxima muito de como as muulmanas tm sido
tratadas pela sociedade, no pela religio - ela descobriu. Ningum
esperava que fossem politicamente ativas ou que trabalhassem fora de
casa.
Zainab no se sentia confortvel no Egito. O pas ainda tentava se
recuperar de trs guerras. O ento presidente, Gamal Abdel Nasser,
liderava o pas havia anos, orientando-o claramente para o socialismo.
Ele restringiu os direitos civis: dissidncias no eram toleradas.
Linhas de telefone eram grampeadas; cartas, abertas; lderes estudantis,
persegudos.
- Havia uma espcie de lavagem cerebral; crianas iam aos acampamentos
aprender sobre o socialismo - ela lamenta. - Opostores acabavam presos,
e familiares desconheciam o paradeiro dessas pessoas.
Zainab decidiu que estaria mais segura e mais livre nos Estados Unidos,
e assim foi concluir o mestrado na Universidade Vanderbilt. A emigrao
deixou nela profunda impresso.

- Voc vem para c e entende o que a Amrica possui. As pessoas precisam
ser livres. Tolerncia e compreenso:
nisso reside a fora do mundo.
Agora,  medida que os americanos respeitam mais a diversidade, Zainab
sustenta esse padro de respeito ajudando indiscriminadamente todos os
tipos de grupo. Quando foi convidada a organizar a arrecadao anual de
fundos para 11ie Links, grupo cvico afro-americano, Zainab no hesitou
.e ainda recrutou o auxlio de outras mulheres muulmanas.
Ela ficou bastante feliz quando um amigo comentou na
festa de casamento de seu filho:
- Isso aqui parece uma festa da ONU! Veja s todas
as comidas, os costumes, as pessoas!
- Ele estava certo - Eiberry escreveu posteriormente no jornal Nashvile
Banner. - Quando compus minha
lista de convidados, ela continha ampla variedade de nomes
americanos e estrangeiros, todos amigos ou familiares.

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Ela aprecia tanto a Amrica que se envolveu na poltica do pas. Como
vrias muulmanas, Zainab  uma leal Democrata. F em especial de Ai
Gore, nativo do Tennessee, ela participou de sua campanha em 2000 e foi
voluntria na base de campanha em Nashville.
Em 2002, aps atuar como voluntria em uma campanha para o governo, ela
escreveu um tributo afetuoso aos trabalhadores das campanhas polticas e
seu estilo de vida incansvel:

O calendrio com a contagem regressiva ocupa local de destaque. s
vezes, os dias contados tm siogans e fotos dos oponentes ou de membros
de sua equipe:
"Sally Olhos Sonolentos", "J Estpido", "Vamos surrar seu.... Don" etc.
Tudo muito divertido, nem sempre politicamente correto ou sbio, mas a
ttica satisfaz o propsito: entusiasmar e alegrar. Quando os ltimos
dias se aproximam e o Dia do Reconhecimento est prestes a chegar, todo
o panorama da campanha sofre drstica mudana. H sinais de que o fim
est prximo: um vestido de veludo negro com bordados em fios prateados
pendurado em uma das portas da sala da equipe, um traje que, espera-se,
ser usado na comemorao da vitria. Uma pifiata mexicana cheia de
guloseimas ficou pendurada no teto por um ms e agora ser atingida e
aberta. Uma garrafa de usque est guardada em um armrio de portas de
vidro, visvel para quem passar por ali...

Zainab ainda tem dificuldade para aceitar que Gore no chegou  Casa
Branca, mesmo tendo sido eleito pelo voto
popular. Mas tenta ser filosfica e aceitar a realidade.
Nesse esprito, ela integrou em Nashville um painel de
discusses sobre Ljnconstitutional, filme que explora como
os direitos dos muulmanos e das pessoas do Oriente Mdio

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tm sido violados depois da aprovao pelo Congresso americano ao
Ato Patriota. Ela tambm se juntou a grupos de protesto de Nashville
contra a guerra no Iraque. Como coloca em um poema:
- Temos medo, mas no devemos simplesmente seguir olhando apenas para
nossa vida, ignorando a realidade da
humanidade.

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12

LUBY ENSINA AOS AMERICANOS
SOBRE O ISLAMISMO

T obna "Luby" Ismail  esposa, filha, empresria, educadora
intercultural, voluntria PTA, americana de primeira gerao, muulmana,
graduada com curso superior, amante da natureza, ex-jogadora do Miss
Softball Amrica, dona de casa, me de um beb (aos 42 anos) e portadora
de esclerose mltipla.
Sua vida, e a de todas as mulheres muulmanas, ela comenta, envolve
muito mais que cobrir ou no os cabelos. Como fazem as muulmanas, Luby
cobre a cabea quando est em orao e em certos eventos religiosos ou
culturais. Mas no faz do uso do vu um hbito. Diferente de algumas
outras mulheres, ela no v o vu como parte integrante de sua f. Para
ela, diferenas na atitude perante o vu so parte da diversidade e da
rica trama da vida muulmana que, algumas vezes, no  compreendida.
Tradicionalmente, mulheres crists tambm j usaram algum tipo de
cobertura sobre a cabea. Est escrito na Bblia que as crists devem se
cobrir, e, de fato, at 1960, as catlicas compareciam  missa usando
vu sobre a cabea. As judias ortodoxas ainda cobrem os cabelos
verdadeiros com perucas.
Mas, Luby diz, apenas as muulmanas so definidas e
medidas por cobrir ou no os cabelos.

Ela aponta um artigo de Mona Eltahawy, outra mulher muulmana,
intitulado "Surrada por um Pedao de Pano". Nele, ela lamenta que, ao se
tornar a primeira mulher muulmana a receber o Prmio Nobel da Paz em
2003, a advogada iraniana Shirin Ebadi tenha sido notcia em artigos da
mdia, principalmente por no usar um leno cobrindo a cabea.
"Sonho com o dia", Eltahawy escreve, "em que a mulher muulmana no ser
a adio ou a ausncia de um vu."
Luby concorda com ela.
-  a presso, so os rtulos, as suposies sobre as muulmanas (que
nos restringem) - ela acrescenta, comentando sobre como o hijab reflete
a diversidade das muulmanas. - No somos um grupo monoltico, e existem
vrias interpretaes da prtica.
Realmente, hoje, apenas dois dentre os mais de cinqenta pases de
predominncia muulmana determinam que as mulheres usem o vu em
pblico: Arbia Saudita e Ir. O istante deixa a deciso a cargo das
mulheres, embora possa existir forte presso social para que elas adotem
o hijab, em especial nas reas rurais. Alguns governos seculares, como o
da Turquia, incentivam as mulheres a no usar nenhum tipo de vu.
- O islamismo fala sobre a diversidade de pessoas, sobre diferentes
naes e tribos - Luby acrescenta. Isso  algo
que ela conhece bem.
Luby  a primeira gerao de americanas na famlia. Os pais so egpcios
que foram para os Estados Unidos para concluir o doutorado. A av
materna de Luby fez questo de que as filhas tivessem curso superior, e
a me de Luby concluiu a ps-graduao, apesar de todas as barreiras
existentes nos Estados Unidos para a educao avanada das mulheres na
dcada de 60.
Os pais de Luby decidiram permanecer nos Estados
Unidos aps conclurem os estudos, porque havia guerras

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e muita agitao no Egito. O pai tornou-se cientista pesquisador no
estado da Flrida. Na verdade, era o maior especialista do estado em
ctricos, rea que hoje conta com indstrias de 1 bilho de dlares, e
acabou se tornando diretor do Citrus Experiment Center. Luby cresceu na
regio conhecida como cinturo ctrico do estado, distante trinta
minutos dos prazeres do esqui aqutico de Cypress Gardens, localizao
que ela considera "esplndida".
Ela e a famlia eram os nicos rabes e muulmanos da rea rural e por
isso no podiam freqentar uma mesquita. No entanto, os pais de Luby
ensinaram a f aos filhos. Com aquela etnia to incomum, logo a famlia
se tomou novidade na comunidade. Luby se lembra dos pais discursando em
clubes femininos, igrejas e outras reunies cvicas.
- Foi muito positivo - ela opina.
A famlia mergulhou na cultura americana, desfrutando
dos piqueniques do Quatro de Julho, das feiras rurais anuais
e das brincadeiras do Halloween.
Mesmo assim, houve momentos de estranheza. Luby foi para a escola em um
momento em que comeava a desagregao no Oriente e uma "grande
questo", como ela mesma diz, vinha  tona: de que "cor" era ela?
- Sou egpcia - ela respondia. - No sou negra nem

branca.

Ela no se sentiu diferente dos colegas de escola at chegar 
adolescncia. Foi ento que a f e as tradies culturais dos pais
comearam a distingui-la dos outros. No tinha permisso para namorar,
ir a bailes, beber cerveja ou comer o pepperoni na pizza (os muulmanos
no podem comer carne de porco).
- Os anos difceis do ginsio... - ela suspira. - De repente, todas as
garotas e rapazes iam a festas. Eu no me
enquadrava.
A soluo: Luby fez amizade com cristos evanglicos.
Quando os pais reagiram alarmados, ela os tranqilizou.

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Os cristos evanglicos tinham os mesmos valores que eles. Amavam Deus,
no namoravam, no bebiam nem usavam drogas.
- Eu podia ir aos eventos desse grupo de jovens - ela recorda. - Havia
conexo verdadeira. Hoje entendo que
eles eram leais  sua f e acreditavam realmente em Deus.
Assim, ela passou a participar dos grupos de orao na
sala da banda. Eles liam a Bblia, ela, o Alcoro.
Foi dessa maneira que ela desenvolveu o interesse pelo
dilogo inter-religioso e sobre como pessoas de diferentes
origens conseguem encontrar um denominador comum.
Ela at se tornou amiga dos filhos dos sacerdotes, ou pastores, e a
nica atividade que no compartilhava com eles era a "evangelizao".
Ainda hoje ela tem boas recordaes e grande respeito pelos cristos
evanglicos.
Luby acredita que eles tm muito em comum com os muulmanos. Por
exemplo, repudiam o jogo, incentivam o pudor e valorizam o sexo dentro
do casamento. As duas crenas podem ajudar suas congregaes a se
fortalecerem contra as presses sociais atuais.
Para Luby, a ironia  que os americanos falam das "pobres mulheres
muulmanas sempre oprimidas". Mas e a opresso e a presso que muitas
jovens americanas sofrem para manter determinado manequim ou certa
aparncia, ser sexualmente ativas, usar roupas provocantes e adotar
comportamento que compromete seus valores e intelecto? Luby se sente
grata pelos pais terem estabelecido limites que a protegeram contra esse
tipo de presso.  igualmente grata por ter sido incentivada a estudar.
Luby freqentou a Universidade Americana em Washington, onde obteve o
diploma de bacharel e conheceu o
Alexander Kronemer, atualmente produtor cinematogrfico e muulmano
convertido. (Ele  um dos produtos do documentrio da PBS, Muhammad:
Legacy of a Prophet.)

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Eles se reencontraram quando Alex foi para a Harvard e Luby, para a
Leslie Coilege, em Cambridge.
O islamismo, ela explica, ajudou o marido a integrar as tendncias
disparatadas de sua formao. Ele foi educado como cristo. Os pais eram
divorciados e a me o levava sempre  igreja. Mas o pai era judeu. O
islamismo associa as duas crenas, diz Luby, incluindo ensinamentos de
Jesus e da Tor.
Depois do casamento, Alex concordou em voltar com ela a Washington, onde
Luby poderia ser conselheira para estudantes estrangeiros na
Universidade Americana. Durante os primeiros dois anos, ela esteve
sufocada pelo trabalho. Ento, engravidou do primeiro filho, que nasceu
em 1990.
De repente, Luby vivia um dilema. Queria continuar a carreira, mas
tambm desejava ficar com o filho. No via um meio de continuar
trabalhando como antes e ainda conviver com a famlia. Mesmo assim,
queria as duas coisas.
- O fato de ser comprometida com a famlia no significa que no quero
uma carreira.
Luby se demitiu e decidiu fundar a prpria companhia, a Connecting
Cultures, que refletiria seu desejo de promover a compreenso
intercultural. A misso da companhia, ela diz, tambm  sua paixo:
ajudar as pessoas a compreender cultura e religio e o impacto que tm
ou como funcionam e se comunicam.
Hoje, a empresa cresceu e organiza seminrios internacionais.
- Nosso mercado inclui lderes de comunidade, educadores, oficiais da
lei, militares, funcionrios do governo, executivos e administradores.
Oferecemos treinamento nos Estados Unidos e no mundo.
Aps os ataques terroristas de 11 de Setembro, Luby teve
receio de que os negcios sofressem as conseqncias da
retaliao contra os muulmanos. Mas aconteceu o

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contrrio: os americanos ficaram mais curiosos do que nunca sob islamismo e os
muulmanos.
- De fato, Tio Sam foi um de seus maiores clientes. Um ms aps o 11 de
Setembro, o Servio de Relaes Comunitrias do Departamento de Justia
dos Estados Unidos contratou a companhia de Luby para comear a treinar
oficiais da polcia e lderes de comunidade.
- Depois do 11 de Setembro e das guerras no Afeganisto e no Iraque, tem
havido retaliaes contra rabes e muulmanos na Amrica. Nosso
treinamento proporciona as informaes mais importantes sobre a f e a
cultura islmicas e sobre como se comunicar e se relacionar efetivamente
com a comunidade - explica Luby. Tambm tem por objetivo acabar com o
vandalismo, a profanao, os ataques fsicos e incndios criminosos em
mesquitas e outras instalaes muulmanas.
Em uma de suas recentes sesses, em Fort Lauderdale, ela e um
representante Sikh falaram sobre suas crenas para oficiais da polcia,
a maioria da Flrida. Luby enfatizou que, se um policial precisar
remover o turbante ou o vu que cobre a cabea de um suspeito, isso
dever ser feito em ambiente privado, uma vez que se trata de smbolos
religiosos. Tambm quis sensibilizar os policiais para compreenderem que
um muulmano levando o Alcoro no carro no  necessariamente um
extremista.
- Queremos explicar o significado de smbolos, como roupas e prticas
religiosas, para reduzir o medo e as interpretaes errneas.
O governo federal tambm contratou a Connecting Cultures para ajudar
oficiais no Iraque que esto treinando iraquianos para realizar
patrulhas e outras tarefas da polcia. Ela os informa sobre a cultura do
Iraque e sobre como os iraquianos podem, por sua vez, acreditar em
esteretipos sobre os americanos.

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Pode ser doloroso, mas Luby recomenda que os oficiais conversem
abertamente sobre esses esteretipos, caracterizaes injustas dos
americanos como trabalhadores dedicados, mas tambm gananciosos,
egostas, agressivos, promscuos e sem nenhum interesse pelas famlias.
Luby acredita piamente que a compreenso cultural  uma via de mo
dupla. Para ela, uma das grandes foras do povo americano e de seu
governo  a disposio para entender melhor o islamismo e os muulmanos.
At corporaes da Fortune 500 esto procurando sua empresa para saber
mais a respeito de empregados muulmanos, interesse que d a Luby o que
ela chama de "grande esperana"
Ela acredita que os muulmanos americanos podem revigorar mundialmente o
islamismo com nfase no corao e na alma islmicos, e o intercmbio
entre diferentes crenas. Muulmanos americanos tambm podem ajudar a
reduzir o abismo entre os Estados Unidos e as naes muulmanas.
Luby se considera uma espcie de embaixadora. Tambm  me,
profissional, voluntria e motorista do time de futebol, uma vez que
sempre se dispe a dar carona a todos os garotos, tudo isso apesar da
esclerose mltipla. Diagnosticada como portadora da enfermidade h anos,
Luby tem surtos ocasionais. No consegue caminhar muito e precisa de
cadeira de rodas para percorrer distncias maiores. Mas ela no se
queixa nem questiona por que tem de enfrentar a doena. Prefere ver a
esclerose mltipla simplesmente como mais um desafio da vida, uma
ocorrncia que pode fazer dela uma pessoa melhor. Luby descobriu que
pode perseverar, apesar das limitaes fsicas, e no deixa de valorizar
nenhuma das conquistas. Seu personal trainer relata que ela tem mais
fora nos membros superiores do que muitas outras pessoas. E, embora no
seja capaz de esquiar, pode brincar na neve com a famlia. Seu sonho
para as prximas frias pode ser remar um caiaque em Creta.

122


Luby adora o esprito da Amrica, o sentimento de que, onde h vontade,
h possibilidade de realizao. Pelas viagens, ela sabe que no  assim
em outras partes do mundo, em especial para pessoas com incapacidades
fsicas. Nas sociedades muulmanas mais tradicionais, ela conta, no
existem organizaes ou instalaes para deficientes. Na Amrica, todos
acreditam que os deficientes podem e devem sair de casa e viver uma vida
plena. E ela  grata por essa cultura do "simplesmente faa", como ela
mesma a rotula.
Por mais estranho que possa parecer, a esclerose mltipla deu a Luby
profundo sentimento de gratido por tudo que ela tem: um marido amoroso,
dois filhos e agora a surpresa de um beb, uma menina chamada lZaila.
- Sou abenoada, realmente. Esse meu destino me fez mais consciente do
que tenho e de todos os motivos para
ser grata, graas a Deus.

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FAY: BOM CORAO  MAIS IMPORTANTE
QUE REGRAS RELIGIOSAS

Como tpica adolescente dos anos 60, Farrukh "Fay"
Peshimam adorava Beatles e minissaia. Certa vez, ela entrou em casa com
uma cala justa preta e vermelha, ltima moda naquela poca, mas um tabu
na comunidade muulmana em Bombaim, ndia. Os pais riram da ousadia, mas
ela no se incomodou. Sabia que era uma boa muulmana.
Atualmente, Fay  me de filhos adultos na Flrida e ainda desafia a
tradio usando maquiagem, esmalte para unhas e aparecendo em pblico
vestida com jeans e camiseta. (Ela d cosmticos de presente para as
primas na ndia, que clamam pelas ltimas aquisies.) Cabelos negros e
ondulados emolduram o rosto de traos delicados, e ela no adota nenhum
tipo de cobertura. E no se incomoda com as crticas que recebe dos mais
ortodoxos na comunidade muulmana na Flrida.
- No preciso usar hijab porque sei o que sou - Fay declarou
recentemente em seu estabelecimento, o Khana Kh'zana ("Tesouros da
Comida"), em Coral Springs, um sonho muito antigo. O hijab, acrescenta,
 uma relquia do passado, e ela se revolta contra a idia de que outros
tentem lhe dizer como deve viver a prpria vida.


- Dizem que no posso fazer isso ou aquilo, mas por qu?
E, pior ainda, Fay pergunta:
- Ter bom corao, mas nem sempre acatar todas as regras do islamismo
para provar ao mundo que se  "bom" muulmano? Ou ser "bom" muulmano em
pblico e, em particular, violar o mandamento do Alcoro sobre amar o
prximo?
Para ela, os piores hipcritas so os religiosos que fazem espetculo de
sua compaixo, mas tm coraes endurecidos, mentem e trapaceiam.
Segundo ela,  sinal de progresso que as muulmanas estejam usando as
roupas que querem, desde que sejam recatadas. Fay aplaude as mulheres
que recuperam os direitos no Afeganisto e aprecia saber que em outros
pases encontrem atualmente novas oportunidades de trabalho e educao.

- As mulheres esto acordando - ela afirma, apesar dos extremistas
islmicos que, espalhados pelo mundo, tentam impor seus valores. -
Existem muitos fanticos, ela opina. -  triste.
Vrios anos atrs, os pais de Fay s queriam ajud-la quando criticavam
as roupas ocidentais. Ela apontava para o corao em resposta. Como
chegou a dizer para certa tia mais crtica na ndia:
- Tenho corao limpo. Amo a todos.
De fato, ela reza todos os dias, como os familiares fazem
na ndia.
Os clientes no Khana Kh'zana apreciam no s a culinria tpica da ndia
(pratos retirados das prprias receitas, uma vez que a cozinha gourmet 
um hobby muito antigo de Fay). Apreciam tambm a proprietria, o afeto
com que ela os recebe e pergunta como tm passado. Ela fica no caixa e
conhece os freqentadores pelo nome. E, quando no os conhece, pergunta
como se chamam.

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Recentemente, um casal de indianos muito reservados esteve no
restaurante experimentando um de seus pratos. Antes de sair, eles
contaram de onde eram: o homem nascera em Bombaim, a mulher, em Nova
Dli. Logo os trs comearam a conversar sobre coisas da ndia e sobre
como sentiam falta da culinria de l. Fay contou histrias relacionadas
aos pratos, como ela mesma treina os cozinheiros e acompanha
pessoalmente o preparo de cada prato, todos retirados das receitas de
famlia. O casal riu muito. Quando a comida foi servida, j falava em
voltar.
- Fay  maravilhosa, doce - diz um cliente regular, apreciador de pratos
tnicos que nem sempre se sente  vontade em restaurantes dessa
natureza. Fay, por outro lado,  sempre agradvel e receptiva.
Ela diz que isso acontece naturalmente. Os pais eram
abertos a todos os povos e culturas.
- Meus pais eram pessoas de mente aberta, apesar de serem religiosos. -
O pai sempre apreciou um bom thriller; a me era assinante da Good
Housekeeping, uma revista americana. Como tantos outros pais indianos,
enfatizavam a educao. Fay freqentou um colgio de freiras e,
posteriormente, uma faculdade francesa tambm religiosa. Nessas escolas,
conheceu as datas sagradas do cristianismo, e por isso Fay aplica cinzas
na prpria testa na Quarta-Feira de Cinzas, celebra a Pscoa e canta
canes de Natal. Quando vivia na ndia dominada pelo hindusmo, ela se
habituou a celebrar tambm as festividades hindus. At hoje, essa
mistura multicultural a acompanha, e Fay monta todos os anos uma rvore
de Natal em sua casa na Flrida. Ela sabe que alguns muulmanos locais
estranham o costume, mas no se importa com as crticas.
- Adoro todos os feriados - ela conta. Afinal, Fay  conhecida pelos
banquetes que prepara durante o Ramad.  a ela que os amigos muulmanos
questionam sobre os planos para os jantares de Ramad.

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Na adolescncia, Fay se apaixonou por um garoto indiano cinco anos mais
velho que ela. O rapaz se preparava para ir estudar nos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, a me de Fay adoeceu gravemente e acabou falecendo,
vtima de um cncer. Sem a me, a defensora na cruzada pelo amor
verdadeiro, os familiares comearam a criticar o fato de "no haver
ningum em casa para cuidar dela". A soluo proposta: um casamento
arranjado. E eles j haviam at escolhido o noivo, um mdico. Fay se
negou a aceitar esses planos.

- Querem me casar com um mdico estpido - Fay choramingou para a me do
namorado. A mulher props uma soluo: cas-la antes com seu filho. Fay
fugiu com o rapaz. Na poca, ela contava 17 anos, e ele, 22. O
casal se mudou para a Amrica, primeiro para Washington, depois para a
Flrida.
Fay adaptou-se rpido  vida nos Estados Unidos.
- Tive a sensao de estar no nico pas do mundo onde imigrantes no se
sentiam cidados de segunda classe. - Por isso, ela no entende nem
aceita essa ladainha sobre imigrantes que choram de saudade de casa. Em
seu caso, ela s precisava lembrar as ruas sujas da ndia, o cu
poludo. - Aqui tudo  to limpo! - exclama.
Para Fay, os Estados Unidos so um lugar de oportunidades. Ela conseguiu
encontrar rapidamente um emprego em Washington e, mais tarde, trabalhou
na rea administrativa da Motorola na Flrida. Muito depressa, Fay
progrediu e alcanou o posto de gerente administrativa snior de
instalaes.

- Meu chefe costumava dizer que eu era a chefe - ela lembra, rindo. -
Amei cada dia que passei na Motorola.
Fui tratada muito bem.
A Motorola tinha a poltica de permitir que funcionrios islmicos se
reunissem em uma sala para as oraes

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nas sextas-feiras, dia tradicional em que os muulmanos vo  mesquita.
Fay guarda na lembrana aqueles preciosos momentos. Hoje, como
empresria que trabalha seis dias por semana, ela afirma no ter tempo
para ir aos servios religiosos.
Os supervisores tambm foram solidrios quando, durante os jejuns do
Ramad, ela perdia energia e dinamismo
no meio da tarde, aps ter passado o dia todo sem comer.
- s duas da tarde eu estava exausta, e meus superiores permitiam que eu
me retirasse para descansar um pouco. - Na verdade, essa era a
compensao pelos intervalos do caf e do almoo, momentos em que ela
continuava trabalhando. Fay voltava  mesa renovada e pronta para
concluir o expediente sem quebrar o jejum.
Depois do 11 de Setembro, colegas de trabalho a procuraram para oferecer
conforto. Ela ainda se recorda de como foram gentis afirmando saber que,
como muulmana, ela no havia participado de nenhuma trama terrorista.
Sabiam que os terroristas no eram como Fay e outros muulmanos
patriotas e esforados que conheciam e com quem conviviam na Motorola.
Fay permaneceu na companhia por 25 anos, at aceitar um acordo para
deixar a empresa e comprar o prprio restaurante. Ela  grata pelo tempo
que passou l, mas se sente feliz por ter conseguido realizar o sonho de
viver de um hobby, a cozinha indiana. Ela adora ter um negcio prprio.
No incio, o marido no quis que ela administrasse um restaurante, por
isso Fay se contentou com o servio de entrega em domiclio. Com todos
aqueles pratos to saborosos e bem preparados, o negcio floresceu
rpido. Quando o fiscal da vigilncia sanitria da regio a elogiou pela
cozinha, tambm sugeriu que Fay colocasse algumas mesas na frente da
casa, onde clientes preferenciais pudessem se sentar e apreciar todos
aqueles deliciosos pratos. Elaaceitou o conselho, e nove meses mais
tarde o Khana Kh'zana tomou-se

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to conhecido que Fay esgotou suprimento de cartes e quase todos os
cardpios.
Desde ento, um cliente muulmano comentou que vira apenas arte indiana
no restaurante. Fay protestou e apontou uma obra de arte muulmana em
uma parede prxima da cozinha. E se ofereceu para colocar todas as obras
que ele quisesse ceder. Se um cliente judeu levasse uma. estrelade-davi,
ela tambm a penduraria, acrescentou.
- Amo todas as culturas.
 medida que envelhece, Fay sente que  bastante apegada  tradio. Ela
testemunhou mudanas na famlia na ndia. Agora as mulheres usam
vestidos e calas prprias do estilo oriental. Fay no consegue ir to
longe, em especial quando vai visitar os parentes em Bombaim.
Principalmente a av! Nessas ocasies, ela usa as roupas tradicionais
indianas. Mas, nos Estados Unidos, veste as confortveis calas jeans.
Fay se entristece ao ver que seu pas de origem passou a favorecer o que
ela considera entretenimento barato e srdido, atividades que enfatizam
o nu feminino. Os indianos se tornaram piores que os ocidentais, ela
afirma. E isso, em sua opinio, no  progresso.
Fay j viu a tradio indiana funcionar em favor de sua famlia, mesmo
no novo milnio. O filho, um rapaz tmido e introvertido, no conseguia
encontrar uma esposa na Flrida, apesar de ser alto e bastante atraente.
Em dado momento, ele incentivou a me a procurar uma mulher para ele.
- Quem? Eu? - Fay disparou. Mesmo assim, decidiu ajudar. Na viagem
seguinte da famlia a Bombaim, eles marcaram uma reunio com uma famlia
que tinha uma filha solteira e jovem. O filho de Fay se encantou com ela
- e Fay tambm. Aps manter intensa correspondncia por e-mail, o jovem
casal se apaixonou no ciberespao. Hoje casados e felizes e tambm moram
e trabalham na Flrida.

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Tudo deu certo para Fay. Ela se sente grata por ter nascido e crescido
em um pas onde a famlia pde escolher como viver e onde ela mesma pde
vestir e fazer o que bem entendesse, alm de trabalhar e de se realizar
na carreira escolhida.
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A CRISE DE CASSY: DESCOBRIR A CABEA
PARA TER A FILHA DE VOLTA

Quem olha para Cassy David, uma jovem de 19 anos vestindo jeans, no v
mais que uma garota fazendo
os exames de admisso para a faculdade de enfermagem. Mas Cassy j
passou por diversas coisas, mais do que muitas pessoas enfrentam ao
longo de toda vida. Foi casada com um professor, viveu no Egito, onde
ele nasceu, teve uma filha, suportou abuso emocional em um pas estranho
e voltou para casa, em Dakota do Sul. E mesmo assim estava longe de se
sentir segura. Forada pelo ex-marido a se apresentar  corte americana
para defender a guarda da filha ainda pequena - e o juiz acabou
decidindo que o marido tinha melhor preparo para cuidar da menina, pelo
menos por enquanto -, Cassy ouviu a voz da filha pela ltima vez quando,
gritando pela me, a menina foi levada ao avio que a transportou para o
Cairo.
Foi horrvel, desesperador - Cassy admite. - Tenho
lembranas confusas, como se tudo tivesse acontecido ontem. Ainda ouo
os gritos da minha filha.
Enquanto tenta colocar a vida em ordem e recuperar a custdia da filha,
Cassy quer que outras muulmanas saibam que isso tambm pode acontecer
com elas, em especial se forem nascidas na Amrica.

Ela ainda  muulmana, mas desistiu do hijab. Tirou-o assim que deixou o
Egito e nunca mais voltou a p-lo. A maior razo para essa deciso 
prtica: quer um emprego e salrio suficiente para ir  faculdade e
pagar as visitas da filha por dez semanas no vero, como o juiz
estipulou na sentena final que deu ao pai a guarda da criana.
- Sei que seria mais difcil encontrar um emprego usando hijab - ela
explica.
Quando Cassy era criana, a me, uma mulher sozinha, Anisah David,
converteu-se ao islamismo e a menina foi criada em um lar muulmano. s
vezes era difcil se reconhecer diferente na rural Dakota do Sul.
Quando estava no primrio, Cassy colocou um discreto
leno sobre a cabea, uma espcie de hijab. No queria nada
muito grande.
- No queria chamar a ateno das outras crianas. - Aquela era uma
pequena escola rural onde todos se conheciam. Elas sabiam que eu era
diferente. Sabiam que eu no comia carne de porco, que tinha dieta
especial. Sabiam que eu saa mais cedo na sexta-feira para ir 
mesquita.
No final do ciclo escolar, ela estava preparada para ser educada em casa
pela me, universitria, como o irmo havia sido antes. Sentia-se
incomodada por constatar que os professores no conheciam os assuntos
sobre os quais falavam, em especial nas aulas de histria. Cassy conta
que reviu tpicos dessa disciplina, como as batalhas da Guerra Civil, e
aprendeu mais com a me que com os antigos professores.
Tive uma amiga que enfrentou problemas com um conselheiro que a
aborrecia por conta do vu - ela acrescenta. - Algumas vezes, colegas da
escola tentaram removlo. Eu no queria passar por isso.
Ao mesmo tempo, Cassy desejava um casamento rpido.

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- Aos 12 anos, eu j sabia que queria me casar jovem. No via nada de
errado nisso, desde que encontrasse a pessoa certa.
Aos 14 ou 15 anos, ela tentava seguir as regras do islamismo como as
conhecia e, assim, pediu  me para ajudla a encontrar um marido. O
primeiro candidato, um estudante universitrio, no foi escolhido: ele
decidiu que no poderia sustent-la enquanto no conclusse os estudos.
Ento, um amigo da famlia que fazia doutorado na Universidade de Dakota
do Sul se comprometeu a encontrar um marido para Cassy. At sugeriu o
prprio irmo, mas logo ficou sabendo que o rapaz mantinha envolvimento
secreto e srio.
O homem pediu muitas desculpas, dizendo a Cassy como a considerava bela
e mais do que adequada para esposa. A me da menina interferiu, dizendo
que ele no devia se sentir mal com o episdio. Rindo, ela havia
brincado:
- Por que voc mesmo no se casa com ela?
Poucos dias depois, esse mesmo homem apareceu na
casa de Cassy pedindo para falar com a me e o padrasto da
menina. Na verdade, ele queria se casar com ela.
A me deixou a deciso a cargo da filha. Cassy considerou a proposta por
duas semanas e acabou por aceit-la. Na poca, ele parecia ser o marido
ideal. Ela acreditava conhec-lo: afinal, ele visitava sua casa havia
cinco anos, j que era um dos poucos lares muulmanos em Dakota do Sul.
Como descobriu mais tarde, Cassy nunca o conhecera de verdade. Ele
visitava os adultos da casa, no ela, mas mesmo assim se deixara
impressionar por suas boas maneiras
- Sempre acreditei que aquele cavalheiro era bom e generoso - ela conta.
- Ele demonstrava ter natureza doce,
respeitosa. Parecia saber como tratar uma mulher.
Cassy esperou entusiasmada pelo casamento, que aconteceu seis dias
depois de seu aniversrio de 16 anos, em
fevereiro de 2002. O noivo tinha pouco mais de 30 anos, ou

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o dobro de sua idade. Cassy no pensou que a diferena poderia
representar problema, j que os avs haviam vivido um excelente
casamento, mesmo existindo vinte anos de diferena entre os dois.
Alm do mais, ela:
Sempre quis ir para o Egito.
Eles se mudaram para l poucos meses aps o casamento, quando o marido
concluiu o doutorado. Ele mandou construir um apartamento de trs
cmodos sobre a casa dos pais, de forma que a famlia dividia o quintal.
Cassy habituou-se ao Egito. Adorava ver o bfalo d'gua
que passava pela casa conduzido por um garoto. Ela se adaptou at mesmo
ao clima.
- No incio estranhei a umidade, mas depois me acostumei a ela. E passei
a adorar o clima. As nuvens so fofas e
grandes, mas quase no chove. Passei dois anos no Egito e
creio que s vi chuva umas quatro ou cinco vezes. Cassy no sabe
determinar quando o casamento comeou a decair; talvez ao engravidar,
cinco meses aps a chegada ao Egito. Ela e o marido desejavam esperar
para ter filhos quando ela fosse mais velha, mas era difcil conseguir
mtodos contraceptivos no Egito. Cassy reconhece que o casal assumiu os
riscos.
No outono de 2002 e incio de 2003, o marido comeou a expressar raiva
pelos Estados Unidos pela inteno de invadir o Iraque. Ele assistia s
emissoras rabes e fervia de indignao ao ver iraquianos sendo mortos.
- Ele estava comeando a odiar o governo americano
- diz Cassy. - De certa forma, imagino que esperasse o mesmo de mim, mas
eu no tinha esse sentimento. As coisas comearam a piorar. Creio que
tambm havia a presso representada pela gravidez.
O marido de Cassy era professor em uma universidade egpcia, mas no
ganhava muito dinheiro. Hoje, Cassy 
capaz de ganhar mais em uma semana como operria ou

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trabalhando em um escritrio qualquer nos Estados Unidos do que ele
recebe por um ms inteiro de trabalho no Oriente Mdio.
Cassy tentou se desculpar profusamente, sempre com o
objetivo de manter a paz domstica.
E - Ele me fazia pedir desculpas por nada ela conta.
E A me sempre havia ensinado a ela que um casal no deve ir para a cama
ressentido, e que a nica maneira de impedir tal coisa era se desculpar,
pois assim o marido no permaneceria zangado.
Ele tambm se aborrecia com Cassy por ela ter deixado de estudar. Exigia
que ela dedicasse horas do dia  matemtica e s cincias. Cassy obteve
o certificado de concluso do ciclo bsico e manifestou a inteno de
cursar uma faculdade no Egito. Ela queria estudar o primeiro estgio do
desenvolvimento infantil. Entretanto, na opinio do marido,
antes ela deveria estudar mais os assuntos que ele apreciava. O nico
problema era que Cassy odiava matemtica e cincias.
Como se no bastasse tudo isso, ele exigia que a casa
E fosse mantida imaculadamente limpa. Cassy devia passar
horas limpando o cho com um velho aspirador de p.
- Ele se preocupava muito com vrus e bactrias - ela E conta.
Ento, a me de Cassy foi visit-la. Havia ficado acertado que iria ao
Egito quando a filha estivesse nos ltimos
meses de gestao. Ela passou cerca de seis meses no apartamento
ajudando com o parto e, mais tarde, com os cuidados com o beb, situao
que s fez aumentar a crise.
Quando a me de Cassy voltou aos Estados Unidos, o
casamento estava em runas. Cassy sentia-se miservel.
Era incrvel, mas havia perdido treze quilos durante a gravidez. Com
1,67 de altura, ela pesava 68 quilos. Embora fosse positivo o fato de
ter perdido o sobrepeso, Cassy se preocupava com a possibilidade de no
estar obtendo os

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nutrientes necessrios, especialmente leite e derivados, para o beb. O
marido a colocara em uma dieta que consistia em uma xcara de arroz, 150
gramas de frango e salada.
Tambm a enervava com a persistncia em fazer dela a
pessoa que acreditava que devia ser.
- Ele achava que eu no tinha mtodo. E estava sempre dizendo que no se
pode administrar uma casa sem um bom mtodo. Ficava muito aborrecido
quando pensava que eu estava atrasada com as tarefas.

Ele tambm se preocupava com a possibilidade de Cassy no ser educada
suficiente para criar a filha, o que, talvez, acabaria acarretando na
necessidade de pedirem ajuda a outros membros da famlia.
O golpe final ocorreu em fevereiro de 2004. Cassy organizou em seu
apartamento um ch-de-beb para uma amiga americana que fora viver no
Egito. O sogro, a quem ela adorava, ficou irritado por ela passar tanto
tempo com a amiga e outros americanos expatriados.
- Ele parecia ter a idia de que eu no deveria confiar nas mulheres
americanas - Cassy imagina.

O marido perdeu a pacincia, mesmo tendo dado permisso para a pequena
reunio.
- Ele disse que eu era um fardo para minha famlia - lembra Cassy. - No
fosse por sua piedade, eu teria abandonado os estudos antes do ginsio.
E nem teria ido  faculdade, no fosse por ele.
Cassy chorou como j havia tantas vezes antes. Chegou
a pensar em suicdio, mas desistiu. A deciso foi abandonar
o marido e o casamento.
Ela telefonou e enviou e-mails para a famlia em Dakota
do Sul: estava farta e queria voltar para casa.

O padrasto de Cassy telefonou para o marido dela e, casualmente, o
convenceu a permitir que ela fosse visit-lo
por um tempo, mais ou menos sete semanas.

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Cassy estava com 18 anos.
Foi com grande desnimo que, levando nos braos a filha a pequena, ela
embarcou para os Estados Unidos. Uma semana mais tarde, Cassy j se
sentia mais forte, mais confiante.
- Depois da primeira semana - ela revela -, mandei um e-mail informando
meu marido sobre minha inteno de no retornar ao Egito. Queria o
divrcio. No suportava mais a presso.
Ele telefonou imediatamente, tentando convenc-la de
que a famlia a envenenava contra ele e at a "aprisionava".
Cassy ignorou o telefonema. Em trs semanas, conseguiu um emprego 
noite, em uma fbrica de componentes eletrnicos. Um ms e meio aps ter
retornado aos Estados Unidos, ela se mudou para um apartamento e,
posteriormente, conseguiu outro emprego, dessa vez no horrio diurno,
para satisfazer os parentes egpcios que a criticavam por trabalhar 
noite. Ela tentou cooperar com os sogros, que, quela altura, j haviam
contratado um advogado para poder ver a neta nos Estados Unidos. Pouco
tempo depois, o marido pediu a guarda da menina, e a primeira audincia
do caso ocorreu antes mesmo da deciso do divrcio.
O juiz no chegou a conhecer o marido. O depoimento dele foi dado por
meio de conferncia telefnica. No final, o juiz decidiu que o pai
poderia cuidar melhor da criana, porque tinha mais estudo e contava com
a ajuda da famlia prxima.
A me de Cassy foi informada sobre a deciso antes mesmo da prpria
Cassy. O advogado responsvel enviou um e-mail com a notificao do juiz
para a casa da me de sua cliente. Ela leu a deciso por telefone.
- Comecei a chorar - conta Cassy. - No queria ouvir aquilo... De
repente, ouvi os passos de minha filha na
escada. Senti sua mo em mim e ouvi a voz dela me chamando.

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Ela me ouvira chorar. No me contive: abracei-a com desespero.
A ao que se seguiu foi rpida: o advogado americano do marido
apresentou uma petio para que Cassy no deixasse o estado. O juiz
deveria ordenar que ela entregasse a menina  corte em poucos dias.
- Admito que pensei em fugir com ela. Estava disposta a isso - Cassy
relata. O que a deteve foi a idia de desrespeitar a lei. No queria que
os problemas conjugais a transformassem em uma fugitiva da justia. Em
vez disso, decidiu lutar dentro do sistema legal para recuperar
permanentemente a custdia da filha.
Assim, ela suportou o sofrimento de entregar a filha,
que chorava muito. Ainda di. Mas ela estava determinada. Como disse 
me, s tinha de confiar em Deus.
Agora, quase um ano mais tarde, ela no tem mais a mesma confiana em
Deus nem sabe exatamente como se sente em relao ao islamismo. Cassy
no compreende. Fez tudo que devia fazer, mas ainda vive longe da filha.
Na primavera de 2005, o ex-marido solicitou ao juiz que no o obrigasse
a enviar a filha para a visita de vero nos Estados Unidos, pelo menos
at ela completar seis anos. Em vez disso, ele props, Cassy deveria ir
visitar a menina no Egito. O juiz concordou com a solicitao, apesar de
Cassy ter argumentado que temia retornar ao Egito.
O juiz tambm sentenciou a favor do marido na questo da penso
alimentcia. Cassy paga $150 dlares mensais. O ex-marido permite que
ela telefone para a filha todos os dias, mas s pela manh. Cassy teme
que surjam problemas de comunicao nos prximos meses.
- Ela diz: "Oi, mame. Amo voc", mas, alm disso, mal fala ingls.
O nico ponto favorvel, Cassy acrescenta,  que conheceu pela internet
um muulmano convertido, Eric Payne,

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oficial da Marinha americana de 23 anos de idade. Eles se casaram, e
agora Cassy vive na Virginia, onde ele est servindo.
- Ele tem me ajudado a enfrentar a depresso - ela relata. - Reconheo
que, apesar de tudo, tenho muitos
motivos para me sentir grata.


15
RAHIMA: LONGE DA BURCA -
E DA FAMLIA

Rahima Mohammadullha no precisa mais usar a temida burca. Houve um
tempo no Afeganisto, seu pas
de origem, quando ela teve de adotar a cobertura integral. Mas agora
vive na Amrica e  livre para escolher o que quer vestir.
Adeus, burca. Adeus a todo tipo de cobertura. No haver mais leno,
vu, xador, burca ou qualquer outra coisa
parecida.
Hoje em dia, Rahima aparece em pblico com os brilhantes cabelos negros
 vista de todos.
No entanto, apesar de estar experimentando a liberdade essencial, algo
ainda mais precioso foi tirado dela nos Estados Unidos, algo que nem o
Talib tentou roubar dela:
Rahima no pode ver as duas irms mais novas e o irmo. Mais velha de
quatro filhos, ela foi excluda da criao dos mais novos. A irm mais
velha tem agora 15 anos, o irmo, 12, e a caula, 10. Eles esto
crescendo longe de Rahima, que no os v h mais de um ano.
- Choro muito - ela conta.
Rahima, hoje com 20 anos, e a famlia foram refugiados
afegos que, como muitos outros, fugiram para o Paquisto
para evitar as guerras, os russos e, mais recentemente, o

Talib. Eles se instalaram em um campo de refugiados pouco alm da
fronteira. As condies no eram boas, mas pelo menos estavam juntos,
diz Rahima.
Quando a me dela morreu no campo e as crianas ficaram rfs, os
Estados Unidos interferiram. Oficiais decidiram transportar os quatro de
avio para a Amrica, onde poderiam recomear a vida, freqentar a
escola e ter um futuro melhor. Em 2002, quando Rahima ainda era
adolescente, ela e os irmos chegaram a Michigan, onde foram colocados
em um lar provisrio. Logo surgiu um grande problema: a famlia que os
acolheu era crist.
Em todo o pas, esse tem sido um assunto de peso. Muitos muulmanos tm
protestado contra a adoo provisria de crianas muulmanas por
no-muulmanos, que as educam fora dos princpios islmicos. Um grupo em
Nova York solicitou que famlias muulmanas se ofeream para receber
crianas dessa religio. Em Ohio, lderes muulmanos procuraram a
justia para solicitar que a custdia de crianas muulmanas seja dada a
pessoas dessa religio, em particular os filhos pequenos de um imigrante
iemenita detido sob acusao de terrorismo. (Aps a priso, a esposa do
homem, uma americana, sofreu um colapso nervoso e teve de ser
hospitalizada; as crianas foram levadas para lares provisrios.)
Rahima diz que no teve ningum a quem recorrer quando os pais
provisrios insistiram em lev-la com os irmos menores  igreja. Todos
receberam Bblias no lugar do Alcoro. E havia refeies  base de carne
de porco. As cranas nunca receberam nada parecido com a dieta aprovada
pelo Alcoro, mas, para ser justa com as pessoas que os acolheram,
Rahima reconhece que eles provavelmente nem sabiam que havia princpios
a serem seguidos.
Rahima conta que no havia outros muulmanos na vizinhana, gente que
pudesse interceder ou a quem as crianas pudessem recorrer.

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queriam estar, e eles nem sabem por que acabaram sendo enviados para
aquela cidade predominantemente crist, sendo que Detroit abriga
grande populao muulmana.
Tudo que ela sabe  que suas queixas nem eram consideradas. A famlia
que os acolheu acabou se tornando hostil e a mandou embora. Eles a
acusaram de ter temperamento difcil e de no colaborar, ou, em resumo,
a rotularam de encrenqueira. Mas ficou com os irmos e a proibiu de
v-los.
Rahima acabou sendo mandada para outra casa perto da primeira, mas ainda
no tem permisso para visitar os irmos. Agora, ela se prepara para
iniciar um processo legal solicitando a reunio da famlia.
Recentemente, Rahima se casou com um refugiado afego com quem foi morar
no subrbio de Washington. Eles tm a companhia de outros refugiados
afegos e passam os finais de semana com os amigos. Rahima j fala
ingls razoavelmente bem e quer aprender mais. Alm disso, j se prepara
para cuidar da prpria famlia, pois logo ter um beb. Ela e o marido
esto bastante entusiasmados com a gravidez. E, se Rahima puder
convencer a corte a reuni-la com o irmo e as irms, ela os levar para
Washington, de forma que todos voltem a desfrutar da antiga unio
familiar. E dessa vez esperam poder criar o prprio sonho americano como
eles o vem.

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16
SHAHIDA: ELA VAI  FACULDADE DE
MEDICINA; O MARIDO TORNA-SE O SR. ME


Foi Mohammad, marido de Shahida Shakir, quem deu a
idia: l estava ela nos Estados Unidos, perto das escolas caribenhas
que a aceitariam no curso de medicina. Por
que no tentar? No era esse seu sonho? Ser mdica?
Sim, era, e ela o realizou.
Enquanto Mohammad assumia o papel de Sr. Me e, com a ajuda dos parentes
em Miami, cuidava das duas filhas pequenas, Shahida foi estudar medicina
na Universidade Americana do Caribe, em Montserrat. Era a realizao de
um sonho adiado desde que ela se mudara do Paquisto para os Estados
Unidos. Atualmente, ela participa da administrao dos laboratrios de
dois hospitais em Miami Beach.
- No Paquisto, sempre quis estudar medicina - ela reflete. - Mas minhas
notas no eram boas o bastante para me levar  faculdade de medicina
naquele pas. - Mas eram suficientes para que ela estudasse qumica, e,
ainda adolescente, Shahida concluiu o mestrado na Universidade de
Karachi.
Mohammad se sentia culpado pela esposa no ter conseguido estudar
medicina.
- Ela estava destinada a conquistar o diploma, mas abriu mo dele pelo
casamento - ele conta.

- Essa foi minha

maneira de recompens-la. Eu queria me casar, certamente, mas no
queria esperar cinco ou seis anos at que ela fosse para a faculdade de
medicina no Paquisto.
Mohammad, primeiro e nico namorado de Shahida, props casamento quando
ela ainda era adolescente. Nada de casamentos arranjados para os dois.
Shahida considerava esse costume ultrapassado e no aceitava que os
casais pudessem se conhecer apenas no dia em que profeririam os votos.
(Mas eles seguiram a tradio em certos aspectos, como, por exemplo, no
pedido de casamento: os idosos da famlia de Mohanimad foram procurar os
pais de Shahida para fazer o pedido.) Mesmo jovem, ela sabia que
Mohammad era o amor de sua vida. Ele era divertido, estava ansioso para
ver o mundo, como ela, e tambm era bondoso, responsvel e trabalhador,
o tipo de homem que saberia conciliar trabalho e estudos, que
economizaria tudo que pudesse para levar os irmos para os Estados
Unidos.
Foi atrao mtua: Mohammad gostava da proximidade entre Shahida e os
irmos. Ele tambm se sentiu atrado por sua personalidade calma e ainda
hoje a considera uma grande fonte de fora e vitalidade, um elemento que
preenche sua vida.
Shahida e Mohammad desejavam estudar e construir carreiras de sucesso.
Agora isso parece simples e bvio, mas, h trinta anos, a idia era
inovadora tanto no Paquisto quanto na Amrica. Mohammad foi o homem
raro que incentivou a esposa a buscar sua carreira. Na verdade, ele no
via nenhuma objeo a uma eventual conciliao entre trabalho e filhos.
Na adolescncia, os dois haviam sonhado viver nos Estados Unidos. Essa
era uma poca em que os afegos tinham os americanos em alta conta,
quando escolas, estradas e hospitais recebiam nomes de presidentes
americanos. (Uma estrada paquistanesa, por exemplo, recebeu o nome do
ex-presidente Eisenhower.)

144


Ento, Shahida aceitou a proposta de casamento de iammad. Eles se
casaram no Paquisto durante as frias escolares nos Estados Unidos, onde ele
j estudava. depois, foram viver na Amrica.
Era dcada de 70, quando os jovens americanos viviam
intensamente a moda oriental, consumindo comidas, rouriS e at mesmo a f do
Oriente, o que contribuiu muito para a boa adaptao de Shahida, que vestia tnicas de seda
e calas largas. Ela mantinha os longos cabelos  presos em um
rabo-de-cavalo e assim exibia aparncia
tpica de qualquer outra jovem americana. Como no costumava cobrir os
cabelos no Paquisto, tambm no os cobria
na Amrica. Acreditava que, enquanto usasse roupas
largas, seguia fielmente os mandamentos do Alcoro em relao ao
decoro. Os Shakir viveram um tempo em que diversos muulmanos de boa
educao se afastaram das tradies. Como judeus e cristos em posies
semelhantes, eles sentem que podem seguir e praticar sua f sem
necessariamente adotar antigos costumes. Apenas muitos anos mais tarde,
cristos, muulmanos e judeus em grande nmero retornaram  leitura
literal das Escrituras. Dcadas depois, a filha de Shahida, nascida e
criada nos Estados Unidos, faria parte da nova gerao que escolheria
retomar algum tipo de cobertura para os cabelos.
Os Shakir se instalaram em Miami, onde Mohammad havia estudado. Como
imigrante recente e portador de green card, devia se apresentar ao
comit de recrutamento e foi convencido pelos recrutadores a se alistar
na diviso de blindagem do Exrcito americano. A Guerra do Vietn perdia
fora, e os Shakir, que haviam sado de um pas do outro lado do mundo,
viram-se repentinamente envolvidos em um conflito controverso que pouco
entendiam. Mesmo assim, o patriota Mohammad sentiu que tinha o dever de
servir as Foras Armadas do novo pas.
- Levo essas questes a srio - ele explica.

145

Mohammad apresentou-se para o treinamento bsico e a esposa foi se
hospedar com parentes em Milwaukee. Ela ainda lembra uma reunio na
estao ferroviria de Chicago, quando ele obteve uma licena. Os dois
correram para um caloroso abrao ainda na plataforma.
- Foi como nos filmes - ela suspira.
Mohammad teria sido enviado ao Vietn depois do treinamento, mas o
destino interferiu no curso dos acontecimentos. Durante o treinamento,
ele caiu de costas de uma altura de quase trs metros. Mdicos do
Exrcito realizaram uma bateria de testes e descobriram que ele havia
nascido com um desvio de coluna; nem devia estar ali. Ele foi
respeitosamente dispensado.
Os Shakir voltaram a Miami, onde Mohammad poderia trabalhar e freqentar
a ento denominada Faculdade Comunitria de Miami-Dade. Ele matriculou a
esposa nas aulas de ingls para que pudesse praticar o idioma aprendido
ainda no Paquisto.
- Tambm aprendi a dirigir - ela acrescenta, rindo. - Odiei, mas
aprendi.
Quando adquiriu mais confiana e maior domnio da lngua inglesa,
Shahida comeou a procurar emprego. Porm, seu ingls ainda no era
fluente o bastante para que compreendesse complicados exames
cientficos, e ela foi reprovada no primeiro teste para tcnica de
laboratrio.
- Tive um desempenho horrvel porque no sabia o que eram questes de
mltipla escolha. - Mas ela conseguiu ser contratada como assistente em
um pequeno laboratrio familiar, estudou melhor os testes e conseguiu
ser aprovada em outros deles. Logo ela conquistou um emprego melhor,
salrio mais alto e amplas possibilidades de progresso em uma companhia
de porte considervel.
A essa altura, ela e Mohammad tinham duas filhas, Sofia e Sadia, de 5 e
4 anos, nascidas com um intervalo de
apenas 14 meses.

146


Foi ento que Mohammad a incentivou a candidatar-se  Universidade
Americana do Caribe, em Montserrat, onde ela foi aceita. A irm e os
irmos de Mohammad j viviam em Miami e concordaram prontamente com a
idia de cuidar das meninas enquanto Shahida ia para a universidade
caribenha nos semestres de outono e primavera.
Formada, Shahida estava pronta para se candidatar a estgios, mas a m
notcia a atingiu como um raio: o governo americano anunciou que no
mais aceitaria os diplomas obtidos na faculdade de medicina do Caribe.
Havia estourado um escndalo. Algumas escolas vendiam certificados para
quem no os conquistara honestamente. Apesar de todo esforo, Shahida
descobria que a graduao no a qualificava como mdica licenciada.
Desapontada, passou a se culpar. Hoje ela acredita que no deveria ter
sido to acanhada. Devia ter lutado mais arduamente pelo reconhecimento
do diploma. Outros de sua universidade agiram com essa perseverana e
hoje praticam a medicina nos Estados Unidos. (De fato, mais tarde, a
poltica foi revertida e vrios de seus colegas de classe tornaram-se
doutores.) Ela voltou a atuar como tcnica de laboratrio e chegou ao
Centro Mdico Monte Sinai, onde teve o trabalho reconhecido por uma
slida seqncia de promoes.
No entanto, como todas as outras mes e profissionais, Shahida teve de
equilibrar os dois aspectos de sua vida, especialmente porque ela e o
marido haviam decidido ajudar os irmos que emigravam para os Estados
Unidos. Houve uma ocasio, quando ela trabalhava em dois laboratrios,
em que Sofia, a filha mais velha, a procurou com ar hesitante e triste
para saber se a me tinha tempo para ela. Foi a gota d'gua. Shahida
demitiu-se de um emprego e assumiu o planto noturno no outro, porque
assim podia chegar em casa a tempo de levar as filhas para a escola e
dormir antes


147


de ir busc-las. Com essa agenda, ela conseguia passar horas com as
meninas antes de elas irem para a cama e Shahida, para o trabalho.
- Mantive esse arranjo por anos - ela diz.
O treinamento mdico foi muito til no Monte Sinai, onde ela foi posta
no comando do laboratrio do recm- adquirido Miami Heart Institute and
Medical Center. Ela tambm recebeu a responsabilidade adicional de
dirigir o centro de processamento do laboratrio do Monte Sinai.
- Aquilo era uma confuso, e eles decidiram que, se algum podia pr
tudo em ordem, esse algum era eu.
Hoje, ela supervisiona mais de sessenta tcnicos de laboratrio e outros
funcionrios.
- Sinto-me realizada - ela afirma.
As filhas de Shahida cresceram e tm carreiras de sucesso. Sofia
trabalha no Gabinete da Procuradoria de MiamiDade; Sadia se formou
recentemente na Faculdade de Direito de Michigan, onde o marido, mdico,
tambm obteve o diploma. Eles tm uma filha, Hanan, a primeira neta de
Shahida.
Sadia est fazendo a me repensar suas idias sobre o hijab. Ela adotou
a cobertura de cabea, como vrias outras mulheres na grande comunidade
muulmana de Michigan, e tambm a tradicional veste paquistanesa
composta por tnica e cala longas ou por um longo vestido largo.
Shahida percebe como a filha se tornou mais espiritualizada, mais
tranqila, ao retomar as tradies de vesturio. Um dia, ela reflete,
talvez tambm faa isso.
Por hora, Shahida admite, sua vida  to atribulada que nem sempre ela
consegue rezar as requeridas cinco vezes ao dia. Especialmente no
trabalho, encontra dificuldades para acomodar essa exigncia do
islamismo. Shahida no vai regularmente  mesquita, porque a religio
nunca exigiu que as mulheres a freqentassem. Mesmo assim, acredita

148


em sua f, em ler e seguir o Alcoro. E tenta levar uma vida de
bondade e ser generosa com outras pessoas.
Mesmo com toda gratido que sente pela vida na Amrica, foi difcil para
Shahida explicar a poltica de estrangeiros dos Estados Unidos para a
famlia no Paquisto. Pela primeira vez eles vem os Estados Unidos
hostilizarem o islamismo. No compreendem por que os Estados Unidos
invadiram o Iraque e lamentam os mortos daquele pas, tanto soldados
americanos quanto civis iraquianos.
Isso no chega aos noticirios dos Estados Unidos; o nmero de
iraquianos mortos no  divulgado - diz Shahida. Ela e Mohammad tentam
explicar aos demais que a poltica americana no Iraque no reflete a
bondade do povo americano. De fato, Shahida ama a Amrica por seu povo.
Adora a ordem de todas as coisas nesse pas, a maneira como as pessoas
seguem as regras e como os americanos geralmente tratam tdos como
iguais, com respeito. Ela viu essa civilidade sofrer constante eroso ao
longo dos anos, mas, em sua opinio, a Amrica ainda  o melhor lugar
para encontrar gente amiga e respeitosa.
Sua famlia criou razes nos Estados Unidos. A filha freqentou a escola
pblica e absorveu a cultura aberta.
- Minhas filhas so americanas - ela afirma. - Como Mohammad e eu.
Como diversos bons americanos, ela tenta ajudar outras pessoas.
Recentemente, amparou Maria, que sofrera abuso do marido, e providenciou
refeies, remdios e tudo que era necessrio para a recuperao de sua
sade mental.
Mohammad, atualmente diretor-executivo do Conselho Asitico-Americano de
Miami-Dade, est colaborando na criao de um grupo de voluntrios em
Miami para amparar e auxiliar mulheres asiticas e do Oriente Mdio
vtimas de abuso ou que tenham sido abandonadas pelos maridos aps
chegarem aos Estados Unidos. O problema  maior do

149


que ele havia percebido, diz Mohammad. Ele se sente orgulhoso e grato
pela esposa ter ajudado Maria e colaborado para mudar sua vida. Nem
todas as mulheres teriam sido to generosas, ele acredita. Shahida
poderia ter usado a atribulada agenda de trabalho para esquivar-se da
atribuio.
Shahida afirma que est simplesmente seguindo o jeito
americano e islmico de ajudar os outros.
-  isso que somos chamados a fazer.

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17

SABRINA: ME MUULMANA
EM MOVIMENTO

Sabrina Hossain entra com a cabea desnuda em sua mesquita na Virginia,
onde abraa os amigos. Ela se sente 
vontade, confortvel no local de adorao. Ali no existe nenhuma
"guerra das roupas". Muitas das amigas na mesquita usam algum tipo de
leno ou vu sobre os cabelos, mas vrias outras abrem mo disso. E essa
escolha  aceitvel.
Sabrina aponta:
- O hijab no  algo que demonstra minha f como muulmana praticante.
Eu o uso quando quero. Esse  um mandamento. Mas, em outras ocasies, saio
sem ele. O islamismo exige que homens e mulheres se vistam com decoro, e
essa  uma regra que posso cumprir sem o hijab.
Sabrina tem um aliado no marido, Mukit, que tambm no v necessidade de
a mulher manter a cabea coberta o tempo todo. Ele, como outros, diz que
o Alcoro no faz tal exigncia e que, mais exatamente, se trata de um
costume cultural praticado principalmente no Oriente Mdio. Muitas
mulheres em Bangladesh, onde ele nasceu, no adotam o vu.

Sabrina tem 25 anos. A famlia tambm  de Bangladesh, e ela no cresceu
vendo a maioria das mulheres de cabea
coberta.

- Ningum cobria a cabea, exceto minhas avs - ela diz.

No que Sabrina pense que todas as muulmanas devam andar com os cabelos
 mostra, como ela mesma faz. Cada mulher deve ter a escolha de acordo
com a prpria convico. O islamismo permite essa opo, e a Amrica,
felizmente, tambm.
- Admiro mulheres que usam o hijab. Elas tm de enfrentar vrios
preconceitos. Mas usam o vu com base em sua interpretao das leis da
nossa religio. Nesse momento, no vejo necessidade do hijab para mim.
No futuro, se mudar de idia, passarei a us-lo.
Sabrina nasceu no Iraque, mas como o pai  engenheiro petrolfero
cresceu nos pases onde ele ia trabalhar, como Kuwait, Canad,
Bangladesh (basicamente em frias prolongadas) e Estados Unidos. Ela
est habituada a ver mulheres usando algum tipo de vu, particularmente
no Kuwait.
O pai de Sabrina ficou retido no Kuwait por meses, quando o pas foi
invadido pelo Iraque durante a Guerra do Golfo; um mssil scud explodiu
em chamas perto de onde ele trabalhava. Sabrina e o restante da famlia
passavam frias em Bangladesh quando a guerra comeou, e todos viveram
um ms de grande ansiedade esperando pela sada do pai. Hoje ele est
aposentado e vive no Canad, entre as montanhas de Calgary.
Sabrina mora na Virginia, onde o marido trabalha. Ela
se sente grata por estar atualmente nos Estados Unidos, que,
para ela,  o verdadeiro lar.
Ela est em casa alfabetizando a filha mais velha, Maya, de 5 anos. Sua
mesquita mantm um grupo de alfabetizao domstica, no qual os pais
podem se reunir e trocar idias. Sabrina afirma ter aprendido muito com
essas pessoas. Em casa, ela diz, pode acelerar o aprendizado da filha.
- Maya  uma aluna talentosa - conta a me, orgulhosa.

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Porm, como outras mes que instruem os filhos em casa, Sabrina s vezes
se sente cansada com o ritmo frentico, tendo em vista que tambm cuida
da filha mais nova, Hana, de dois anos e meio.
-  muito trabalho ela admite -, mas tudo que  bom exige esforo.  um
teste para minha pacincia. Se eu
agir corretamente, minhas filhas sero beneficiadas.
Sabrina quer que as duas filhas sejam criadas em uma comunidade
religiosa e gosta de sua mesquita, porque  orientada  famlia e mantm
diversos programas voltados s crianas. Suas filhas progridem e se
desenvolvem bem nos grupos ldicos e nas aulas. A mais velha comeou a
aprender um pouco de rabe e noes da cultura muulmana.
- Quero que ela tenha boa formao - Sabrina declara. - Minha filha 
uma muulmana neste pas. Precisa se
orgulhar disso.
As meninas tambm praticam esporte. A mais velha joga
futebol e softball e em breve vai comear as aulas de esqui e
carat.
Toda a nfase na educao e nos esportes, da mesquita
aos campos de futebol, significa que Sabrina dirige muito.
- Vivo no carro - ela brinca.
Mas Sabrina no reclama. Quer que as filhas tenham um
bom comeo. Mais tarde poder pensar na prpria carreira.

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PARTE11I

As convertidas

Houve um tempo em que o islamismo era para imigrantes ou nacionalistas
negros. Hoje a situao  diferente. Mais brancos, hispnicos e
asiticos visitam uma mesquita na vizinhana... e permanecem nela.
Muitos so mulheres. De fato, algumas mesquitas relatam que vrios dos
"revertidos" so mulheres brancas, de acordo com o professor associado
da Universidade de Kentucky, lhsan Bagby.
As novas muslimah entrevistadas para o livro dizem que se tornaram
muulmanas por escolha, no por terem se casado com algum dessa f.
Diversas foram atradas para o islamismo por descobrirem que ele promove
uma famlia forte. Algumas contam que a nova f as fortaleceu para
suportarem vidas difceis. Muitas tambm foram atradas para o islamismo
por ele promover a educao. As muslimah convertidas costumam ser
educadas, com pelo menos um curso superior.
Vrias das mulheres convertidas refletem a diversidade do islamismo na
Amrica. A fotgrafa Zulayka Y. "Zuly" Martinez diz que existe um nmero
crescente de muslimah na regio Texas-Mxico. Ela conta que, quando se
converteu, era uma das poucas latinas muulmanas em Houston.

Ela admite ter sido uma experincia um pouco solitria. Sentia que as
muslimah imigrantes eram distantes, retradas. Tudo isso mudou com uma
enxurrada de novas convertidas hispnicas. Zuly e outras "veteranas" do
aulas e organizam atividades sociais para recm-chegadas. Agora Zuly
sente que a mesquita  mais receptiva.
Zuly e outras convertidas dizem nas entrevistas que tiveram dificuldade
para compreender a f de suas famlias, especialmente o cristianismo e a
Santssima Trindade, O islamismo faz mais sentido para elas.
Afro-americanas convertidas ao islamismo contam ter enfrentado
dificuldade com o cristianismo americanizado, muito ligado ao passado de
racismo do pas. Patricia Salahuddin, de Miami, que cresceu no ento
segregado estado do Mississipi, conta que via o cristianismo com parte
do problema do sul, com ministros brancos pregando a favor das leis de
Jim Crow. Como outras afro-americanas, Patricia passou a integrar o
movimento Negro Muulmano da dcada de 70. O pesquisador Bagby conta que
as converses de afro-americanos ao islamismo teve pice na dcada de
70, declinou na dcada de 80 e recuperou a fora na dcada de 90.
No eram apenas os afro-americanos que tinham problemas com o que
consideravam cristianismo racista. Yuko Davis, nipo-americana que mora
atualmente no subrbio de Phoenix, diz que se afastou da criao crist
fundamentalista na Louisiana quando a igreja deixou de aceitar crianas
negras na escola dominical. Ela conta que desejava uma f que fosse mais
receptiva a todos.
Outras convertidas falam sobre como o islamismo foi libertador para elas
como mulheres. Isso confunde vrias americanas. Ento, no viram na tev
como o islamismo oprime mulheres em todo o mundo?
De fato, diversas muslimah recm-chegadas admitem que
a religio tem sido usada como instrumento de discriminao contra seu
gnero. Mas, elas dizem, isso  mais uma

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reflexo de prticas culturais de um pas predomnantemente muulmano do
que a lei islmica. Elas comentam, por exemplo, que a Arbia Saudita
dita o cdigo de vesturio feminino enquanto a Jordnia no dita regras
nesse sentido.
As novas muslimah lembram um passado em que o islamismo era lder na
promoo dos direitos da mulher.
"A emancipao das mulheres foi um projeto muito importante para o
Profeta", conta a estudiosa da religio Karen Armstrong no livro O Isl.
"O Alcoro deu s mulheres o direito  herana e ao divrcio sculos
antes de as mulheres do ocidente realizarem as mesmas conquistas."
Algumas "revertidas" se desiludiram com a poligamia disfarada que,
dizem, ocorre nos Estados Unidos. Semanas aps o casamento islmico,
Juwayrich diz ter descoberto que o marido j tinha uma esposa. Juwayrich
divorciou-se dele. Desde ento, descobriu que no foi a nica mulher
enganada. Mesmo assim, ela no culpa o islamismo, mas os homens
oportunistas. Ainda  muulmana devota.
Muitas convertidas tambm preservam a deciso da
converso por descobrirem que o islamismo enriquece suas
vidas.
- Procurei pela religio correta para mim desde que era muito jovem -
diz uma recente convertida. Ela se encontrou no islamismo.
- H algo diferente e especial nele.
Nos captulos seguintes voc vai ler sobre a jornada espiritual de dez
mulheres rumo ao islamismo.

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18
A CONVERSO DE CATHY: ME DE
MINIVAN VOLTA-SE AO ISLAMISMO


Cathy Drake poderia ser a me ideal na viso do Partido Republicano ou
de uma grande igreja evanglica.
Ela cursou a faculdade, mas est em casa criando os filhos na
progressista periferia de Virginia. Educa em casa os trs filhos e quer
que eles cresam com uma religio. E, sim, dirige uma minvan.
Cathy tambm  uma das novas convertidas ao islamismo, tendo se tornado
muulmana trs anos depois do 11 de Setembro. Mas, mesmo aps os ataques
terroristas, e apesar das guerras no Afeganisto e no Iraque, Cathy no
desistiu de conhecer o islamismo. Decidiu que essa religio era a melhor
para os trs filhos, embora o mais velho, com 10 anos, no tenha ficado
muito entusiasmado com a idia de se tornar muulmano.
- Crianas no gostam de mudana - ela opina. - Preferem fazer sempre as
mesmas coisas. E meu filho no
sabia nada sobre muulmanos.
Mas Cathy acredita que ele vai aprovar a mudana.
- Sempre me interessei pelo islamismo - ela conta. - Sinto-me bastante
confortvel nessa crena.
No  necessrio dizer que Cathy considera especialmente positiva a
nfase dada pelo islamismo  famlia.

tambm aprecia a mesquita de sua regio, que, como muitas outras igrejas,
mantm diversos programas voltados  famlia. H um grupo de pais que
educam os filhos em casa e se renem na mesquita para trocar idias e
ajuda. Tambm existe uma tropa de Margaridas para a filha mais nova. E,
 claro, h aulas sobre islamismo para adultos e crianas.
-  uma comunidade muito receptiva. Sempre que chego sou recebida por
pelo menos meia dzia de pessoas.
Cathy cresceu em uma famlia crist no-praticante, e eles nunca iam 
igreja. Ela no queria que os filhos tivessem a mesma criao. (O marido
no  partidrio da religio organizada, mas aceita que a esposa e os
filhos freqentem os servios religiosos.) No incio, Cathy escolheu o
catolicismo, porque era essa a religio de alguns membros da famlia
estendida.
- Era a crena com a qual eu mais me familiarizava.
Ela e a famlia comearam a ir  missa. Todos deviam permanecer reunidos
enquanto o padre dava a homilia, e a situao era difcil para Cathy. A
igreja no tinha berrio ou rea especfica para crianas. Cathy no
conseguia ouvir o sermo e conter os filhos pequenos. Tambm se sentia
um pouco desconfortvel, porque a congregao no era exatamente
amistosa. Ela e os filhos iam  igreja e no eram sequer chamados pelo
nome.
- Acho que as pessoas nem sabiam como eu me chamava - ela conta.
A situao chegou a um momento de crise, O filho mais velho freqentava
as aulas da Primeira Eucaristia, e Cathy descobriu que ele no
concordava com muito do que era dito nas aulas. Por exemplo, ele no
aceitava a idia de que os catlicos deviam se confessar, contar os
pecados ao padre.
- Eu tambm tinha dificuldade com isso - ela reconhece. - Sempre pensei
que falvamos com Deus.
Cathy percebeu que estava se tornando uma daquelas
catlicas "seletivas", que ignoram algumas doutrinas da
igreja e adotam outras.

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Tambm ficou desanimada com o escndalo de inmeros casos de abuso sexual
protagonizados por sacerdotes catlicos. Horrorizada, tomou conhecimento
de que centenas de ministros haviam tirado proveito de sua posio para
abusar sexualmente de crianas. Todavia, ficou ainda mais ultrajada com
como a hierarquia tentou esconder e minimizar o escndalo. Em sua
opinio, a igreja deveria ter reagido aberta e imediatamente.
No que o islamismo no tenha problemas, ela acrescenta depressa. Faz
parte da "bagagem cultural" o fato de alguns pases negarem igualdade s
mulheres de algumas mesquitas ainda separarem os sexos, de forma que
maridos, mulheres e filhos no podem participar juntos do servio. Essas
coisas a fazem refletir. Ela se diz capaz de tolerar a segregao dos
sexos por ser parte integrante do Alcoro, mas protesta contra a
desigualdade social imposta s mulheres, porque isso no est no livro
sagrado.
As pessoas acreditam que isso  o islamismo, e no .
- Cathy declara com alegria que sua mesquita trata com igualdade homens
e mulheres.
Foi por essa razo que ela escolheu essa mesquita, que permite que
mulheres orem no salo principal, no em um balco ou em um pequeno
aposento no poro. A mesquita tambm permite que fiis dos dois sexos
entrem pela porta principal, diferente de outras, que relegam as
mulheres  porta dos fundos ou  entrada lateral.
- Eu no me sentiria confortvel com isso - declara.
Certos costumes muulmanos tradicionais foram adotados por ela com
grande facilidade. Hoje ela usa um leno
para cobrir os cabelos.
- Quero que o mundo leigo me identifique como muulmana - explica.
Cathy notou mudana em como as pessoas a tratam,
especialmente as estranhas.
- s vezes sinto olhares mais persistentes e,  claro, quando me viro,
descubro que algum est olhando para

159


mim.  - Ela relata que alguns so hostis.
- Mas, na maioria, o tratamento  sempre amistoso, embora curioso. - Ela tambm tem a sensao de que as
pessoas so mais vigilantes, como se quisessem saber sua reao antes de
entrarem em uma conversa ou mesmo se sentar perto dela. Invariavelmente,
esses desconhecidos relaxam quando Cathy os recebe com um sorriso. -
Descobrem que sou uma pessoa como outra qualquer.
Cathy se diz capaz de lidar com essa curiosidade. Faz parte da vida de
quem integra uma comunidade baseada na f, de um grupo do qual, ela
acredita, pode fazer parte com sua famlia.
- No quero que meus filhos cresam sem uma religio - ela conclui.

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19

SAMIRAH: O ALTO CUSTO DE TORNAR-SE MUULMANA

Samirah Bint Jackie Dean Todd no tem meios de saber onde est a filha.
O ex-marido no telefona, e o antigo
nmero da famlia na Flrida foi desligado. A voz fica embargada quando
ela fala sobre os quinze meses, desde que falou com uma das duas filhas
pela ltima vez. A menina tem quase 10 anos. Talvez esteja na Flrida.
Talvez tenha voltado para Maine.

Samirah tenta manter a calma: foi prevenida sobre a possibilidade de ser
portadora de esclerose mltipla e precisa evitar o estresse para ajudar
a impedir um surto.

Ironicamente,  a f islmica que mantm essa mulher de trinta e poucos
anos equilibrada, exatamente a religio cujas prticas matrimoniais
provocaram a discrdia de um juiz, que a citou como um dos motivos para
dar a guarda da filha mais nova de Samirah ao ex-marido. E essa  a
mesma f que provoca a objeo da filha mais velha, hoje com 13 anos. A
menina pediu para morar com a av.

Samirah no entende as objees ao islamismo: ele a mudou para melhor,
ela afirma.

- Percebi como minha f no islamismo fortificou minha pacincia e f.
No creio que teria sido capaz de suportar

tantas provaes sem minha crena. O islamismo mudou-me como pessoa.
Samirah mora em Nova Jersey, onde existe uma ativa comunidade islmica
em Newark e outra menor em Camden.
- Costumo ir  comunidade na Filadlfia - ela conta.
- L tudo  mais estabelecido e mais prximo da minha casa que Newark.
Samirah comeou a olhar para o islamismo h cerca de
quatro anos.
- Eu estava no momento mais difcil da minha vida e comecei a procurar
meios para melhorar. Sempre tive dificuldade em aceitar o cristianismo.
Ento, quando comecei a estudar o islamismo, encontrei respostas para
minhas dvidas e me surpreendi por constatar que essa religio ensinava
tudo aquilo em que sempre acreditei.
Samirah se tornou muulmana em 5 de julho de 2001, dois meses e seis
dias antes do 11 de Setembro. Tinha 33 anos e se recuperava de uma
fratura na coluna. Durante a mudana, carregava algumas caixas quando
perdeu o equilbrio, caiu de uma escada e sofreu a fratura. Os mdicos
levantaram a hiptese de ela ser portadora de esclerose mltipla, j que
a perda de equilbrio  um dos sintomas.
Samirah se sentiu grata por ter encontrado o islamismo,
que a ajudou a enfrentar aquele momento.
- No se pode enfrentar certas coisas sem a f - ela opina. E Samirah j
viveu vrios problemas.
- Sou americana da nao Cherokee. Sou fruto de um lar desfeito e filha
de pai ausente. Viajvamos muito na poca em que eles foram casados. Ele
pertencia  Fora Area. Na infncia, conheci diversos pases e estava
sempre indo de um lugar para o outro.
A famlia acabou se tornando um pouco militar. Samirah lembra de uma vida
cheia de regras e normas, como se estivessem sempre cumprindo um turno,
servindo. Tudo era controlado. Ela no v o pai desde os 11 anos.

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Como ela mesma coloca:
- Tive uma infncia conturbada e uma vida adulta ainda mais atribulada.
- Ela tinha apenas 20 anos quando foi me pela primeira vez, mas afirma
que era mais madura quando teve a segunda filha, aos 27.
Samirah teve problemas para disciplinar a filha mais velha, que brigava
com outras crianas. Certa vez, chegou a castig-la fisicamente aps uma
dessas brigas. Algum na escola notou as marcas deixadas pelo castigo e
fez perguntas; a filha contou que havia apanhado da me. Era verdade,
mas Samirah afirma que no deixou aquelas marcas. Os hematomas foram
resultados da briga. Mesmo assim, houve acusao formal por agresso.
Ela diz que essa foi a nica vez em que bateu em uma das filhas.
- Exceto por esse episdio, no h mais nenhum registro contra mim - ela
declara.
Ela mesma foi vtima de violncia domstica e teve a
mandbula fraturada em um dos ataques.
Durante cinco anos, esteve sozinha criando as duas meninas, sem nenhum
tipo de auxlio.
O pai da filha mais nova, ento com 7 anos, reapareceu subitamente
exigindo a guarda. Isso ocorreu logo aps a converso de Samirah ao
islamismo, quando ela aceitou o pedido de casamento de seu "guardio",
um homem mais velho da mesquita. Samirah casou-se com o atual marido
depois de ter visto apenas um retrato dele, mas, ironicamente, o
matrimnio, unio que pode parecer ultrapassada e estranha a muitos
americanos, foi o que mais deu certo.
- Tenho um marido maravilhoso e atencioso. Foi realmente uma bno. Ele
tambm  revertido. No dizemos "convertido", porque acreditamos que
todos nascem muulmanos. Meu marido e eu apenas fomos criados em lares
cristos.

163

No entanto, o juiz encarregado do caso de custdia no concordou com
essa alegao. Citou o casamento arranjado
ao dar a guarda da menina ao pai. Samirah recorda:
- Foi uma terrvel batalha na qual, tudo indica, minha religio
desempenhou papel preponderante. Tenho uma enteada de 7 anos. O mesmo
juiz deu a custdia dessa criana ao meu marido, pai dela. Ele nem sabia
que meu marido era muulmano quando deu a sentena na corte.
Com tudo isso, Samirah afirma que sua f permanece forte. Como diversas
outras convertidas, ela gosta de usar o que chama de equipamento
muslimah completo: quando est em pblico, cobre-se da cabea aos ps,
usando inclusive luvas.

- Gosto de estudar outras religies alm da minha - ela conta. - E
tambm fundei uma comunidade eletrnica para muulmanas. Canalizo minhas
provaes em conhecimento para me manter forte. - Em tempo livre, ela
faz prendedores para hijab.
Samirah era supervisora do McDonald's, mas no trabahla mais fora de
casa. Concentra-se em cuidar do marido e da enteada. A vida do ncleo
familiar  afetuosa, mas muitos parentes romperam relacionamento com ela
por conta da nova f. A me, por exemplo, disse que ela no deve voltar
a telefonar at ser crist de novo.
- Ela acha que fui submetida a uma lavagem cerebral. Infelizmente, isso
significa que Samirah no tem contato com a filha mais velha, porque a
menina escolheu morar
com a av e ser criada como crist.
- Com exceo de uma irm, minha famlia me abandonou por eu ter
escolhido o islamismo. No quer nenhuma relao com a "terrorista"
Samirah no aceita a possibilidade de viver sem sua f.
O islamismo a fortaleceu muito para que desista dele, apesar dos
sacrifcios implcitos nessa escolha. Ela tenta lidar

164


com a crise valendo-se de pacincia e f. No final, tem certeza, ser
recompensada.
- Al nos diz: "Quem  voc para pensar que no ser testado quando diz
ter f?". Acredito realmente que a recompensa vir em tempo pela minha
pacincia. Adoro esse pensamento e aprecio muito como o islamismo me
mudou para melhor.

20

EMMA: UM NOVO BEB E UMA
NOVA VIDA ISLMICA

Emma Al-Aghbhary tinha 16 anos quando comeou um
romance on-line. No o iniciou da maneira mais comum, com dois
estudantes conversando em um chat qualquer. Quando enviou um e-mail para
o jovem universitrio, Emma descobriu que os dois tinham muito em comum,
como o valor que davam  famlia e  educao.
Mas eles tambm eram diferentes. Ele era do Jmen, e ela, muulmana.
Emma era a sexta gerao de neozelandeses, gente que havia crescido sem
ter religio definida. A famlia era espiritualizada, mas no praticava
uma f organizada.
Eles decidiram que o amor poderia superar todas as diferenas e se
casaram. Agora, aos 20 anos, Emma espera o primeiro filho. O marido est
concluindo a graduao em uma universidade prxima a Chicago e trabalha
para sustentar a famlia. Ele tambm  muulmano devoto.
- Uso o hijab, roupas recatadas e a abaya desde o incio de 2002 - ela
conta. A reao das pessoas no tem sido ruim em Chicago. Na Nova
Zelndia, muitos nem sabiam como reagir. Alguns faziam gestos e
comentrios rudes. Minha famlia teve, e ainda tem, alguma dificuldade
para compreender e aceitar minha deciso, mas todos esto se


acostumando com a idia lentamente. Aqui na Amrica, as pessoas costumam
cuidar da prpria vida. Alguns olham de maneira mais persistente, mas
muitos nem do ateno. Os muulmanos so mais visveis por aqui. Existe
uma grande comunidade muulmana em Chicago, e no se pode passar muito
tempo sem ver outros muulmanos. As pessoas nessa cidade nos tratam como
a todos os outros.
Emma  grata por ter encontrado o islamismo ainda jovem e por ele a
manter no caminho certo.
- O islamismo d direo, significado e compreenso de ns mesmos, do
mundo  nossa volta e do mundo para
onde iremos aps essa vida.
Ela gosta de estudar o islamismo lendo livros e visitando sites. L
regularmente o Alcoro e o Hadith (coleo de ensinamentos do Profeta
Maom) para reunir tanto conhecimento quanto  possvel.
- Julgo ser importante que todo muulmano leia o Alcoro com
regularidade. H grupos de estudo aqui em Chicago, mas no os freqento,
porque meu marido e eu preferimos que eu fique em casa. No entanto,
pretendo ingressar em um desses grupos aps o nascimento do beb, pois
assim meu filho e eu teremos o apoio e a companhia de outros muulmanos.
Emma cresceu na Nova Zelndia.  a do meio de trs filhas que se
mantiveram sempre muito unidas e prximas da me. Todas so gratas 
matriarca por ela ter proporcionado uma famlia to forte, apesar das
inmeras dificuldades.
- Somos frutos de um lar desfeito e nunca tivemos uma figura masculina
estvel em nossas vidas - diz Emma.
Quando conheceu o marido on-line, logo percebeu que ali havia um tipo
diferente de homem. Cinco anos mais velho que ela, o rapaz tratava com
seriedade sua religio. Emma absorveu essa seriedade: tambm comeou a
estudar o islamismo e descobriu que ali estava o que sempre havia
procurado. Hoje ela acredita que sempre foi religiosa:

167


apenas no foi exposta a nenhuma f organizada na infncia e no incio
da juventude.
- Procuro pela religio adequada desde cedo. No sei ao certo se essa
busca est relacionada ao fato de ter crescido em um lar desfeito. Mas,
para mim, foram realmente a clareza e a simplicidade que me fizeram
decidir que havia algo de especial no islamismo. Foi isso que me atraiu.
O futuro marido de Emma morava nos Estados Unidos desde os 19 anos. Emma
se mudou para l aos 17, logo aps
concluir o ginsio, para estar com ele.
- Infelizmente, tive de retornar a Nova Zelndia por um ano, enquanto
ele se estabilizava e conquistava uma
posio melhor com a qual pudesse sustentar uma famlia.
Hoje, ele est h seis anos em Chicago e Emma, h um
ano. Ela  uma jovem dona de casa. O marido prefere que
seja assim.
- Mas tenho meus objetivos, meus hobbies e minhas idias. Trabalho em
minhas poesias e tenho esperana de publicar um livro. Logo estarei
integrando uma antologia de textos escritos por mulheres muulmanas e j
tive uma histria publicada em um livro na Nova Zelndia. Tambm tenho
meu site, que me mantm ocupada.
Por hora, o principal foco e prioridade de Emma  a
famlia.
Quero ser a melhor esposa possvel e estou me preparando para ser uma
boa me.
Ela e o marido tero a filha Henna aps um ano de infertilidade. Emma se
sente grata por serem muulmanos, pois acredita que a f vai ajud-la a
cuidar do beb e a ensinar os outros filhos que viro e ela pretende ter
muitos
- sobre o motivo de sua presena na Terra, seu propsito na vida e quem
os criou.
- Nossos filhos tero propsito, valores e moral, e no tero de
procurar por a nem de se perguntar quem so,
onde  seu lugar e por que esto aqui. - Emma afirma

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antes de acrescentar: - Sinto-me um pouco preocupada por estar criando
meus filhos na Amrica. Tenho vrias apreenses em relao a eventuais
discriminaes. Planejo educlos em casa, de forma que, assim, possa
mant-los afastados de possveis confuses e das tentaes representadas
pelo mundo no-islmico.
Emma pretende permanecer em casa com os filhos, desde que nada a obrigue
a sair para trabalhar e ajudar no sustento da famlia.
Gosto de dizer que sou esposa e dona de casa em via de promoo. Para
mim, a maior realizao que posso conquistar  criar filhos bons, fortes
e piedosos. Meu marido e eu acreditamos nos papis tradicionais do homem
e da mulher e decidimos que  melhor para ns e para nossa famlia que
eu permanea em casa.
O islamismo apia a idia da famlia em primeiro plano, O Alcoro
decreta que os homens devem assumir a responsabilidade financeira da
famlia, prover o alimento, as roupas, o abrigo e ainda ajudar em casa
sempre que possvel.  mulher cabem as responsabilidades de cuidar da
famlia, aliment-la e cuidar da casa. Mulheres podem trabalhar e, nesse
caso, o dinheiro pertence a elas. No entanto, elas devem colocar em
primeiro plano os deveres com a famlia e a casa.
Por causa dessa nfase, Emma se sente no dever de fazer o melhor nesse
sentido. Por isso pensa em educar e alfabetizar os filhos em casa. Ela
suspeita da cultura pop americana.
- H muitas coisas que contrariam a f e a moral islmica - ela diz -, a
ponto de eu preferir no mandar meus filhos para escolas onde a
influncia de professores e colegas no-muulmanos pode ser mais forte
que a islmica em casa. Alfabetiz-los no lar nos dar a oportunidade de
ensinlos a ler e a lidar com os conceitos da matemtica e de outras
disciplinas, e ainda os faremos entender a moral que

169


adotamos como importante e fundamental. Eles aprendero sobre Al, a
prece e o jejum.
Emma tambm gosta da idia da maior convivncia entre me e filhos.
Educ-los em casa vai dar s crianas a oportunidade de desenvolver
talentos e interesses enquanto aprendem.
- A escola nunca foi o melhor lugar do mundo para mim - Emma acrescenta.
- Eu era muito inteligente, mas o ambiente escolar no era propcio.
Minha me tentou convencer os dirigentes da escola a permitir que eu
estudasse por correspondncia, mas, por ter sido uma "criana
problemtica", eles no permitiram. - Ela concluiu: - Hoje me sinto
segura, feliz e satisfeita por saber que meu marido  um homem bom e
religioso, que respeita e valoriza nossos direitos e deveres islmicos.
Sinto-me absolutamente grata por Al ter dado ao meu beb um pai e uma
me que se amam muito e, em especial, um pai que ama e respeita a me
dele.

170

21

AS LIES DE LESLIE E A LUTA
CONTRA O CNCER

Leslie Sinclair conta com as prprias palavras sua jornada ao islamismo:
- Fui criada em uma casa secular; meu pai era luterano apenas no nome, e
minha me, secular no-batizada. Lembro-me de ter ido  igreja luterana
em Fairbanks (nasci no Alasc a), quando ainda freqentava o
jardim-de-infncia, e fiquei muito assustada com o tom furioso e
retumbante do pastor. Felizmente, nunca retornamos.
"Meu pai lia a Bblia e ocasionalmente cantava, em geral canes
espirituais, e era uma figura formidvel. Mas no me lembro de ter-me
algum dia ensinado como viver uma vida crist. Os pais de minha me eram
cientistas cristos, mas no creio que tenham praticado alguma crena
formal; nunca falavam sobre religio nem me ensinavam nada relacionado a
isso. Minha me tratava com escrnio a maioria das religies.
Curiosamente, ela levou a mim e meus dois irmos  igreja mais prxima
de casa, depois de nos termos mudado para Edmonds, Washington, em 1952.
Ela queria que freqentssemos a escola dominical; no sei por qu. A
melhor parte das aulas na igreja era o ch com torradas de canela que
comamos no final, enquanto jogvamos canastra com uma famlia de amigos
do Alasca."
Ela continua o relato:

- Ocasionalmente, minha me e outra amiga se vestiam com esmero e iam 
igreja. Isso me confundia. Eu freqentava com regularidade a escola
dominical, e mais tarde integrei a Jovem Comunidade Metodista do
ginsio, e nunca adquiri muito conhecimento ou compreenso sobre os
mritos de ser metodista. Como americanos seculares, minha famlia
celebrava com alegria os feriados cristos, como o Natal. No me lembro
de nenhuma prece nessas ocasies, mas nutria carinho especial pelo
Menino Jesus e respeito distante pela religio. Anos mais tarde, um dos
fatores que me atraram em meu primeiro marido foi o fato de ele ser
catlico, algo que, na minha imaginao, impediria um divrcio. A
separao de meus pais aps um casamento de perodos bastante
conturbados trouxe ao mesmo tempo receio e alvio. Diversos pais de
amigos passaram a proibir a convivncia dos filhos comigo, porque minha
me era divorciada. A aparente solidez da igreja catlica e a famlia
intacta de meu futuro marido eram atraentes. Minha me se casou
novamente e deixou bem claro que os filhos do novo parceiro (a quem
aprendi a amar como um pai) estariam em primeiro lugar.
Leslie continua recordando:
- Quando me casei, assinei o contrato de criar nossos futuros filhos
como catlicos. Aps um ano, passei a ter aulas sobre como criar filhos
catlicos sendo me no-catlica. Acreditava em honrar minhas promessas,
mesmo que as tivesse feito sem meu conhecimento. Em meu mundo havia
apenas seculares e cristos; nunca me ocorreu investigar outras
religies. Depois de nos tornarmos pais, meu marido e eu continuamos
indo  missa e observando as prticas e restries da igreja. Raramente
lamos a Bblia, mas nos sentamos satisfeitos com a criao catlica de
nossos filhos. Comemorvamos todas as datas da igreja, pertencamos a
ela, trabalhvamos em suas organizaes e at lideramos um engajado
grupo de casais. Ns nos tornamos Lderes de

172


Equipe do Encontro de Casais e, mais tarde, recebemos o Batismo no
Esprito Santo. Fui batizada na igreja catlica quando tinha 21 anos. A
religio deu estabilidade  minha vida; era uma estrutura que eu
apreciava e acreditava ser benfica  minha famlia. Ensinvamos aqueles
valores aos nossos filhos. Creio que isso foi positivo e nos ajudou a
manter as crianas longe do vcio e da ganncia.
Leslie conta:
- Minha jornada para o islamismo comeou, provavelmente, com meu
afastamento do cristianismo. Testemunhei
uma cena na igreja que ficou gravada para sempre em minha memria. Era
Dia das Mes. Depois disso, nunca mais fui a mesma catlica. Minha filha
fazia parte de um pequeno no coro de crianas que cantava a bela cano
Sim pie Gifts.
Todos tinham os olhos voltados para a imagem da Virgem Maria. Por mais
que tentasse, eu os via cantar para uma esttua e no conseguia pensar
em nada alm de idolatria. Aquele foi um momento devastador para mim. O
desligamento no foi instantneo, mas prorrogado at dois anos mais
tarde, quando voltei  faculdade, apesar da tremenda experincia
emocional vivida em missas campais. O fim do meu casamento me levou a
examinar o compromisso que eu mantinha com o catolicismo. Pouco depois,
meu filho mais velho sofreu leso cerebral traumtica. Pensei que, se
fosse crist, agiria de maneira compatvel nesse momento de crise. O
choque foi to profundo que eu no conseguia rezar; deixei amigos,
famlia e comunidade orando por mim. Durante o pesadelo, continuei
cursando a faculdade. (Sou artista plstica. Passava os finais de semana
no estdio e os dias teis no hospital.) No tinha religio, mas me
considerava uma pessoa de f. Durante a faculdade e depois da formatura,
fui gradualmente tomando conscincia do grande vazio em minha vida,
apesar da bondade que dominava meu corao. Eu interpretava esse
sentimento como o Ser Sagrado.


173



Leslie prossegue relatando as memrias:
- Na primeira noite da operao Tempestade no Deserto, um aluno da
faculdade que no era muulmano entrou no nosso grande estdio e, em voz
alta, proclamou:
"Essa guerra vai ser diferente; eles no so como ns. Acreditam que
morrero por Deus; para eles, trata-se de uma guerra sagrada!".
Espantoso, pensei. Esse comentrio promoveu a escolha do prximo livro
que li: Autobiografia de Malcoim X. Comecei a leitura a bordo de um vo
para o Texas, onde visitaria meu filho em uma instituio em que ele se
recuperava da leso cerebral. No conseguia parar de ler. Fiquei
intrigada com a solidariedade histrica de pessoas religiosas e
assustei-me com a intensidade da converso daquele americano para uma
religio que, na minha opinio, era prpria de mercadores do deserto.
Meu livro de estudos sociais da stima srie apresentava esse estranho
grupo de fiis como maometanos (era assim que o livro se referia a
eles), seguidores do maometismo. Embora tenha conquistado razovel
medida de respeito pelos praticantes da religio, devo dizer que nunca
considerei o islamismo como possvel lar espiritual para mim. Mesmo
assim, o impulso espiritual persistia ao longo de muitas e repetidas
crises que ocorreram relacionadas s necessidades mdicas e de
reabilitao de meu filho.
Leslie prossegue:
- Ento, conheci um imigrante muulmano e me casei com ele. Ainda me
considerava crist, de acordo com lder religioso. Mais uma vez, a
afiliao religiosa de meu novo marido exerceu forte atrao sobre mim.
Mesmo assim, preferi observ-lo na prtica de sua f do que explor-la
eu mesma. Visitava algumas igrejas crists, reafirmava minha averso a
rezar por meio de algum, mesmo que fosse por intermdio de uma figura
sagrada como a de Jesus, e cheguei a buscar uma igreja pentecostal mais
tarde, quando meu segundo casamento entrou em crise. Aceitei at uma

174


nova Bblia quando me tornei membro da congregao. Mas no me esforcei
muito para saciar ali minha fome espiritual. Percebi, entretanto, que a
fundao do casamento era a prfica religiosa de meu marido, por mais
maluco que pudesse parecer. Mas os laos prximos que ele mantinha com
outros homens muulmanos, to atraentes para mim antes do casamento,
acabaram por nos separar. Eu esperava que nossa unio tivesse absoluta
prioridade e que ele participasse de tudo, desde o caf da manh no
domingo s grandes reunies familiares. Esperava que ele supervisionasse
nossos assuntos financeiros. Em vez disso, ele preferia passar o tempo
com outros imigrantes, deixando para mim todas as responsabilidades
domsticas. Acabei pedindo o divrcio. Na primeira audincia, ele disse
ao juiz que no queria se separar.
Durante esse perodo, encontrei uma cpia do Alcoro.
- A leitura me surpreendeu pela simplicidade e pelas verdades nela
contidas, conceitos de fcil compreenso. Eu havia sofrido uma leso no
tornozelo e, apoiada em muletas, no podia ir mais longe do que at a
sala de estar de casa. Por conta disso, tinha tempo de sobra para ler.
Comecei a procurar por outros livros sobre o islamismo, e dividi meu
tempo entre os estudos da Bblia, do Alcoro e de outros textos
religiosos, incluindo a os que tratavam do islamismo, de oraes e do
trabalho artstico. Um manto de certeza me "cobriu! Soube que um dia,
no muito distante, faria minha declarao de f como muulmana.
Compartilhei essa desiso com alguns familiares e amigos ntimos. Minha
filha mais velha me apoiou: ela tambm estava deixando a
Igreja catlica.
Leslie lembra que, tambm nesse perodo, teve de enfrentar problemas.
- Meus amigos cristos e agnsticos ficaram furiosos com minha deciso.
Eu sabia que os perderia em breve, j que
mulheres muulmanas no devem manter amizades

175

individuais com homens que no sejam os maridos, mas no fraquejei em
minha vontade de viver uma vida islmica, embora, francamente, ainda nem
soubesse bem como era isso. Quando tomei a deciso de me tornar
muulmana, pensei que refinava minha prtica de submisso a um nico
Deus, no a um Deus considerado parte de uma Santssima Trindade.
E como reagiram os parentes?
Ela conta:
- Minha famlia , na melhor das hipteses, indiferente  minha
converso ao islamismo. Minha filha apoiou a deciso de me converter,
mas nunca demonstrou nenhum interesse por minha f. Meu filho casado
manifestou claramente seu desinteresse. Ele e a esposa so catlicos e
esto educando os filhos de acordo com os preceitos da igreja. De
maneira interessante, foram as opinies do meu filho mais velho, que at
hoje carrega seqelas da leso sofrida no passado, que maior impacto
causaram em mim. Ele se ope a que eu cubra os cabelos. Em alguns
momentos, fico me perguntando se ele teria opinado to diretamente, no
fosse a mudana profunda e visceral provocada pela leso. De qualquer
forma ele  cuidadoso e respeitoso em relao a certos eventos pessoais
ou polticos, mesmo quando nos chama de "aqueles muulmanos". Raramente
 ele quem inicia o assunto. Mas a ocasional referncia ao meu estilo de
vestir, composto por roupas americanas largas e um leno ou chapu sobre
a cabea, acaba por revelar seus sentimentos sobre ser diferente da
maioria dos americanos, uma vez que a leso interrompeu seu curso
universitrio.
Leslie continua contando sobre as diversas reaes dos
membros da famlia.
- Minha me  mais resistente, mas, depois de um ano, mais ou menos,
quando ficou evidente que minha converso seria definitiva, ela
comentou: "O islamismo no  uma religio.  um estilo de vida!".
Reconheci com entusiasmo a

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preciso de sua concluso. Em poucos meses, experimentei diversas
mudanas em minha vida. Cncer de mama, divrcio, converso ao
islamismo, perda do emprego, morte do meu padrasto, mudana para um
pequeno apartamento e partida de meu irmo mais prximo. Meu imaginrio
artstico se alterou, pois eu incorporava formas abstratas at mesmo aos
meus dirios escritos. Eles se tornaram surpreendentemente significativos
e, no final, emergiram como uma coesa aquarela de desenhos. Dei ao
conjunto o nome de "Dirio de Desenhos da Qumio" e criei um trabalho
dirio em todos os 65 dias de quimioterapia. Eles mesclavam minha
experincia religiosa com o primeiro encontro com o cncer. Mais tarde,
quando recebi o diagnstico de cncer na tireide, transformei aquelas
imagens em peas de argila. O tratamento para esse tipo de cncer
raramente requer quimioterapia do tipo tradicional, limitando-se 
ingesto de um comprimido de iodo radioativo no hospital. O tratamento
exigia uma semana de privao do hormnio da tireide, perodo no qual
todas as minhas capacidades se tornaram mais lentas. Desenhava imagens
inspiradas por minha experincia em pequenos pedaos de papel feito 
mo.
Leslie continua:
- A jornada posterior  remoo da tireide foi longa. Depois de quase
um ano, voltei a me mover e a falar como antes. Perdi finalmente os
quilos extras. Continuei criando minhas cermicas e fiz peas de
ladrilhos que incorporavam versos rabes do Alcoro e as tradues para
o ingls. Houve determinada ocasio em que fui ao hospital em que havia
uma irm muulmana precisando de ajuda. Eu acabara de sair de uma
celebrao religiosa e, tomada pelo esprito da comemorao, tive
certeza de que era domingo. Quando voltei ao carro, encontrei uma multa
por no ter acionado o paqumetro. Mas o islamismo j me havia ensinado
que nada  perdido, e usei aquele pedao de papel

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para criar uma obra de arte que utilizei como exemplo nas aulas que
ministrava para pacientes com cncer.
Ela segue em frente:
- O islamismo coloca grande nfase no calor do casamento, tanto para
homens quanto para mulheres. De fato, o matrimnio  considerado metade
da religio. Passei a entender que conviver com outra pessoa requer
ajustes constantes de atitude, pensamentos, sentimentos e aes, algo
que nunca se faz quando se  solteiro. Pessoalmente, me abstive de
procurar outro marido at identificar o elo partido na minha cadeira de
doenas e acidentes. Antigas prticas culturais (diferentes das
religiosas) entre os muulmanos exigem total separao de gneros em
todos os acontecimentos fora de casa e sempre promovem a recluso
feminina ao lar. Muitos muulmanos americanos contemporneos, homens e
mulheres, tentam remover esses preconceitos culturais das prticas
realizadas nos Estados Unidos. Mas ainda existem barreiras, como aquelas
que impedem as mulheres de ver o Im, embora possam ouvi-lo por um
sistema de som ou v-lo pela tev. Em conseqncia disso, eu e outras
muulmanas igualmente preocupadas com educao e ao criamos o Caucus
das Irms de Seattle. Reconhecemos a sabedoria do conselho islmico
sobre dizer a verdade para fortalecer-se. Reconhecemos que nossas
energias devem ser empregadas com discernimento para no esgotarmos
nossos recursos. Na medida em que nos educamos com o objetivo de
vivermos uma experincia sagrada e renovadora na mesquita, tambm
seguimos adiante no caminho, com a bno de Deus, homens e mulheres
compartilhando uma s voz.

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FTIMA RENASCE: DE FREQENTADORA
DE FESTAS A ME MUULMANA

Em Indianpolis havia uma jovem de 20 e poucos anos
que adorava festas e freqentava bares vestindo minissaias. Ela adorava
ir s boates danar e se exibir. Era o tipo de beleza loura e de olhos
azuis que vivia para a prpria aparncia, exercitando-se para ter abdome
tonificado, comparecendo pontualmente aos encontros semanais com a
manicure e mantendo-se sempre atenta aos ltimos lanamentos do ramo de
cosmticos. E tambm usava biquinis.
Agora, em Chicago, ela usa vestidos longos e largos (sem nenhuma forma)
e mantm as longas madeixas louras ocultas sob um leno. (A jovem chegou
a pensar em cobrir o rosto com um vu, mas o marido a convenceu de que
isso seria ir longe demais.)
Agora ela  Ftima Az Zahra, jovem me muulmana que ainda deseja ser
atraente ao marido. Mas  s isso. No h nada errado em ser sensual...
em casa, com o marido. Afinal, o sexo  um presente de Deus. Mas ela no
est interessada em ser bela para outros homens. Agora  adepta do
recatado cdigo de vesturio das muulmanas.
Ftima adotou legalmente o novo nome (obteve os formulrios legais pela
internet e moveu uma ao civil na corte, em Indiana, pelo custo total
de $300) aps ter ficado profundamente impressionada com Ftima, filha
do Profeta

Maom, esposa e me perfeita. O novo sobrenome tambm reflete o amor por
Ftima: Az Zahra em rabe significa "brilho muito radiante"
- Ftima foi resplandecente - ela diz -, um ser humano maravilhoso.
Duvido que possa existir outra pessoa to generosa e boa quanto ela foi.
Ftima foi boa filha, boa me... ela  meu modelo. Sinto-me muito bem
por usar seu nome.

A nova Ftima nasceu em Ohio, mas posteriormente a famlia se mudou para
Indianpolis, que ela ainda considera seu lar. A me era uma adolescente
cujo namorado se proclamou incapaz de integrar uma nova famlia. Ftima
nuncaconheceu o verdadeiro pai, mas aps um tempo a me conheceu e se
casou com um homem bondoso que adotou a menina. Hoje ela  muito ligada
aos dois. Orgulha-se da me, que voltou a estudar, tornou-se enfermeira
e hoje trabalha com pacientes de cncer no Tennessee, e a considera
especial tambm de outra maneira: teve os filhos mais novos com mais de
40 anos. Os irmos menores de Ftima so 25 e 27 anos mais novos que
ela.
Quando criana, Ftima no entendia o cristianismo, apesar de a av
t-la levado regularmente  igreja. Ftima temia os longos servios e os
interminveis sermes. Considerava-os incompreensveis e tediosos e, em
vez de orar, ficava colorindo desenhos no banco. E sabia que aquela no
era a f que desejava ter.
- No creio que se devam ter dvidas ou desconfianas em relao 
prpria religio, e passei toda minha vida cheia de questes quanto ao
cristianismo - ela conta. -  s um rtulo. Quer dizer, o que  o
cristianismo, afinal? Como Deus pode ter um filho que  tambm o Senhor?
No  Deus nosso Senhor? Ento, isso significa que Ele e Seu filho so
um s? Essa era uma das coisas que me confundiam. Quando era jovem,
questionava minha av sobre essas dvidas, mas a resposta era sempre a
mesma: "Voc


180

tem de acreditar, s isso. No h explicao, voc s tem de acreditar".
E nunca aceitei isso.
Ftima sabia que faltava alguma coisa em sua vida. Por volta dos 20
anos, era como se ela tivesse tudo, inclusive vida social ativa. Mas,
espiritualmente, ainda estava  deriva.
Aos 24 anos, ela descobriu o islamismo. A primeira vez em uma mesquita
foi quase cmica: um colega de trabalho mais velho, rabe-americano, a
convidou para acompanhlo, e ela aceitou o convite sem suspeitar de
nada.
- Eu era muito ingnua - diz agora. Com a cabea coberta por um hijab,
foi levada  presena do Imam, que solicitou que ela repetisse algumas
palavras em rabe. At a, nenhum problema, ela pensou. Mais tarde ela
descobriu que havia repetido os votos de converso. O colega a queria
como esposa. - Ele deveria ter me explicado tudo antes. - Mas no
explicou, e, depois disso, Ftima passou a ignorlo no trabalho. Ele se
revoltou e a tratou de maneira rude, deselegante. Ftima lamenta ter
ferido os sentimentos do colega, mas sustenta que ele jamais explicara
as intenes.
No entanto, a visita  mesquita despertou o interesse pelo islamismo.
Ela comeou a estudar a religio.
- Eu estava lendo o livro VVhat Islam Is Ali About, de Yahya Emerick, e
de repente encontrava respostas para questes muito antigas. Simples
assim. Aquele nico livro sobre o islamismo continha todas as respostas.
Depois disso, soube que o islamismo era a verdade e que eu deveria
segui-lo.
Desde ento, ela acrescenta:
- Sou muito mais espiritual,  incrvel. Sou definitivamente mais
generosa e muito melhor interiormente. Tenho moral e valores que no
possua antes de me tornar muulmana. Agora, nunca deixo de realizar uma
de minhas cinco preces dirias. Nunca.
Como convertida, Ftima teve certeza de que desejava usar todo o
vesturio tradicional das mulheres muulmanas. (Ela tem observado que
convertidas como ela seguem

181


com maior entusiasmo as tradies islmicas comparadas s mulheres que
j nasceram na religio.) Mas foi preciso coragem para realizar o
intento. Havia centenas de funcionrias na HMO em Indianpolis, onde ela
trabalhava, e nenhuma usava vu. Ela se obrigou a adot-lo e descobriu
que usar o hijab no era to difcil quanto imaginava antes. Causou
especial emoo o fato do chefe, judeu devotado, nunca ter dito uma
nica palavra sobre suas novas vestes, deixando-a realizar as preces
dirias, com total privacidade, na sala de reunies.
- Era de esperar que entrssemos em conflito - ela comenta. - Mas houve
respeito. Creio que tive sorte. E certamente passei a respeit-lo mais
por sua f.
Todavia, ela no teve a mesma sorte com a me, pelo menos no incio. Foi
difcil faz-la compreender os motivos de sua converso. Ftima recorda
discusses exaltadas, violentas.

- Aps dois anos, ela entendeu que eu no mudaria de idia e ficou um
pouco aborrecida. Disse que eu iria para o
inferno por no acreditar em Jesus, o filho de Deus.
Depois veio o 11 de Setembro. A vida da me de Ftima mudou. Ela dizia
aos amigos e colegas de trabalho que os terroristas no podiam ser
realmente muulmanos, porque a filha o era e eles no tinham o corao
generoso. No estudavam o Alcoro como ela fazia.
Atualmente, Ftima se sente orgulhosa do apoio da me e de como ela a
defende em pblico. Tambm se considera abenoada por ter se apaixonado
por um muulmano; o islamismo probe as mulheres de se casarem com
homens que no sejam da mesma f.
O marido nasceu muulmano no Lbano. Chegou aos Estados Unidos aos 15
anos, depois do incio da guerra civil no Lbano na dcada de 80. Foi
uma poca de anarquia e violncia, O irmo dele desapareceu e foi
submetido a torturas, como tantos outros jovens libaneses, mas o pai

182


conseguiu localiz-lo e libert-lo. Em seguida, mandou os filhos para a
Amrica, para garantir sua segurana.
Ao chegar no novo pas, o marido de Ftima teve de voltar ao ginsio,
embora j tivesse concludo o curso. Mas ele estava ansiosov para se
adaptar s regras americanas, e s precisou de um ano para completar os
estudos. Depois foi trabalhar e ingressou em um curso superior noturno.

Ftima  grata por ter um marido to devoto e interessado no islamismo
quanto ela. Isso facilita as oraes em
famlia e a preservao das tradies.

-  verdade o que dizem: famlia que reza unida permanece unida - ela
opina.
O marido a ajuda a estudar o Alcoro valendo-se dos anos de estudo na
escola libanesa.
- No Oriente Mdio, as crianas so obrigadas a aprender o Alcoro - ela
conta. - Quando vm para a Amrica, todos sabem muito sobre o livro
sagrado. - Mas diversos imigrantes muulmanos se afastam da religio, j
que nem sempre vivem perto de uma mesquita. Na opinio de Ftima, a
Amrica no facilita a vida dos muulmanos.

Contudo, ela ressalta, isso  esperado em uma nao predominantemente
crist, e os muulmanos devem criar as prprias comunidades, como a de
Chicago, perto de onde ela mora, uma comunidade que, Ftima relata
orgulhosa, prospera rapidamente.

Os amigos dela em Chicago so uma mistura homognea de muulmanos
nascidos na f e convertidos, como ela.
Chicago , sem dvida, o melhor lugar para o povo muulmano. Amo essa
cidade pela diversidade e pela beleza. No quero viver em outro lugar.
Adoro a comunidade muulmana daqui e tudo o que ela tem a nos oferecer.
Mas, como nova muulmana, Ftima conta que teve seus
momentos de reflexo, quando precisou conter o entusiasmo

183

pelo islamismo. Como quando considerou a possibilidade de usar um vu
cobrindo o rosto, deixando apenas os olhos  vista. Amigas da comunidade
discutiam os prs e os contras desse acessrio. O marido reagiu:
- No acha que est ficando um pouco extremista?
Ftima compreendeu o que ele queria dizer.
O "extremismo" foi posto de lado.
Depois, ela conta:
- Cheguei ao ponto em que queria me livrar da televiso e do rdio,
pensando que isso faria de ns muulmanos melhores. Meu marido me
convenceu do contrrio. Ele argumentou que eu no podia fazer isso,
porque em nossa religio no existem extremos. Ento, eu no estaria
melhorando com essa atitude. O Alcoro diz que no se deve tornar
difcil a religio. O islamismo deve ser fcil de seguir. Eu no podia
fazer dele um sacrifcio.
O rdio e a televiso ficaram.
E Ftima aprendeu a seguir um caminho de moderao.
Em sua opinio, o islamismo  uma f que a mantm espiritualmente
enraizada na vida diria. Ela busca Deus em orao cinco vezes ao dia,
independentemente de estar no carro ou na sala de estar.
- Aprendi a amar todas as preces. Elas no so uma obrigao pesada e
tediosa e no devem ser vistas dessa maneira. Rezar nos mantm longe de
encrencas. Quem pensa em Deus cinco vezes ao dia no pode fazer nada de
errado.

184

23
A JORNADA DE JUWAYRIAH

Juwayriah, que no quer divulgar o nome completo por conta do desejo de
falar abertamente, d o seguinte conselho: ame o islamismo, mas tome
cuidado com alguns irmos. Ela quer deixar claro desde o incio que o
que diz no se aplica a todos os homens muulmanos nos Estados Unidos.
- Realmente - ela conta -, h muitos que temem Al e o ltimo Dia,
agindo, portanto, de maneira correta com as esposas e as famlias. No
entanto, existem alguns irmos que tentam tirar proveito da confiana de
mulheres inocentes, que adotam a f sem conhecer totalmente o islamismo.
Essa religio confere muitos direitos s mulheres, em especial s
esposas - ela continua -, mas as novas "revertidas" podem no ter
conhecimento deles. E alguns irmos se aproveitam dessa falta de
conhecimento, principalmente quando a irm  americana e o irmo, no.
Por exemplo, Juwayriah sabe de numerosos casos de homens que imigraram
para os Estados Unidos e se casaram com americanas para obter o green
card e depois desapareceram ou se divorciaram das esposas ao terem em
mos o cobiado carto. Esses homens podem at ter esposa e filhos nos
pases de origem, ela conta, e s esperam pelo green card para trazer as
famlias para a Amrica. Amigas

dela se casaram com imigrantes e mais tarde descobriram que estavam
sendo usadas por esses homens.
Os imigrantes muulmanos tambm podem se sentir tentados pela
oportunidade de um envolvimento romntico, ou at mesmo sexo casual,
coisas que existem nos Estados Unidos, mas no esto disponveis em suas
terras de origem. O namoro no  permitido no islamismo, mas alguns
podem tentar se envolver com americanas, mesmo que sejam convertidas 
religio.
- Um irmo no pode se aproximar de uma irm compatriota como faz
conosco, americanas - Juwayriah conta.
- No Oriente Mdio, as mulheres tm a proteo do pai e dos irmos. Aqui
na Amrica, a menos que uma irm seja muito prxima das masjd, de
outras irms e do Im, pode ser pega desprevenida. Vrias irms
americanas no tm famlias muulmanas e por isso esto vulnerveis. E
no so apenas os irmos estrangeiros.
Juwayriah  muulmana desde 1998 e se casou trs vezes, todas com irmos
afro-americanos.
- Parece que diversos muulmanos levam para o islamismo sua bagagem
cultural - ela opina. - E essa  a maior parte do problema. O islamismo
deve ser para todos os povos e para todos os tempos. O preconceito
cultural e o racismo no cabem nessa religio.
Juwayriah praticava o judasmo quando se casou com um muulmano. Ela 
grata por esse homem a ter apresentado ao islamismo. A "reverso"
ocorreu durante o casamento. Ela leu muitos livros da extensa coleo
islmica do marido e comeou a aprender sobre os direitos das mulheres
de acordo com a religio. E o que aprendeu no coincidia exatamente com
o que ele dizia. As diferenas emergiram, e os conflitos ganharam
contornos de violncia domstica. Quando ela tentou obter a ajuda do
Im, marido a deixou e pediu o divrcio. Juwayriah ficou devastada.
Sabia que a violncia do marido no era certa, mas havia acreditado que

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poderia superar as diferenas e construir um bom casamento, uma unio
pacfica e frutfera. Ela esperava por uma reconciliao, porque o
islamismo, como vrias outras religies, defende o casamento.
- No islamismo aprendemos que, dentre todas as coisas permissveis, o
divrcio  a que Al mais odeia. Isso
abala Seu trono - ela conta.
Juwayriah viu-se em grandes dificuldades financeiras que, no final,
acabaram por lev-la  falncia. Ela adoeceu fisicamente. No tinha
menstruao havia quase um ano, quando, de repente, comeou a sangrar.
Os mdicos suspeitaram de um cncer uterino e a levaram para uma
cirurgia investigativa, porm descobriram que todo o transtorno tinha
origem emocional.
- No havia nenhum cncer, Aihamdulillah (expresso do Alcoro que
significa "graas a Al" ou "graas a Deus").
Juwayriah e o primeiro marido conseguiram conversar e se perdoarem
mutuamente. Isso os ajudou a seguir
adiante.
- Agimos assim porque o islamismo no nos permite causar mgoas - ela
explica. - No precisamos apenas do perdo de Al para os nossos
pecados, mas necessitamos, tambm, do perdo daquele a quem prejudicamos
ou ferimos.
Pouco depois, outro irmo muulmano manifestou a inteno de se casar
com ela. Juwayriah se sentiu atrada pelo que parecia ser uma f
profunda e inabalvel compromisso com o islamismo.
- No incio, ele queria que eu fosse a segunda esposa. Ou melhor, foi a
esposa dele quem me procurou com a proposta de casamento - conta
Juwayriah.
Embora o islamismo permita que um homem tenha at quatro mulheres,
Juwayriah sabia que a situao financeira daquele homem em especial no
era confortvel o bastante para que sustentasse duas famlias e por isso
recusou a oferta.


187

Cerca de um ano mais tarde, ele a procurou dizendo que havia sido
deixado pela esposa e que, por conta disso, vivia sozinho com dois
filhos. Juwayriah aceitou o pedido de casamento. Pouco depois, descobriu
que a primeira esposa no o havia deixado, mas tinha sido expulsa de
casa pelo prprio marido.
- Tive a impresso de que ele havia planejado um jeito de ter duas
esposas, quando no tinha condies para isso
- Juwayriah conta.
Ela o deixou.
Aos 55 anos, ela se casou novamente e diz:
- Apesar de termos problemas de tempos em tempos, meu marido e eu somos
tementes a Al e deixamos esse
temor ser o guia do nosso casamento.
Ela conheceu o terceiro marido pela internet, em um site especializado em
casamentos islmicos. Menos ingnua, tomou o cuidado de verificar as
referncias dele. Todos atestaram sua honestidade e seu carter. Ela
decidiu se casar. Diz que tem esperanas e ora muito pedindo a
orientao de Al para ela e o marido.
Apesar das duas amargas experincias com o casamento, Juwayriah sente-se
feliz por ter encontrado o islamismo. Hoje, olhando para trs, considera
os dois fracassos matrimoniais conseqncia de escolhas erradas e da
prpria ingenuidade.
- No entanto, o mais importante de tudo  que todos esses eventos fazem
parte de um plano de Al para mim - ela acredita. - Eu tinha de aprender
alguma coisa com cada uma dessas experincias, coisas que me ajudaram a
ser uma muslimah melhor. No nasci no islamismo. No no sentido
convencional da expresso. Ns, muulmanos, acreditamos que todos nascem
assim e que, posteriormente, so encaminhados para outras religies
pelos pais. Minha me era catlica, e meu pai, judeu. Meu pai foi o
primeiro da famlia a se casar com algum de outra religio e o mesmo
aconteceu com minha me. Na tentativa de conciliar todas as crenas,

188


celebrvamos os dias sagrados das duas religies. Tnhamos Hanukkah e
Natal. Tnhamos Pscoa e Pessach. amos  igreja e  sinagoga. Quando eu
tinha 11 anos, meus pais se divorciaram. Minha me voltou  sua cidade
natal e nos matriculou em uma escola catlica. Fomos batizados,
crismados, nos confessvamos e aceitamos a Sagrada Eucaristia um ano
depois de ali termos chegado. Foi uma mudana, mas a igreja catlica me
deu algum conforto. Eu gostava da bela igreja e dos rituais. Era uma
criana sofrendo grande dor emocional.
Contudo, aps a adolescncia, quando pde tomar as prprias decises,
ela retornou ao judasmo.
- Apesar do meu amor pela igreja catlica, nunca consegui entender o
conceito de que Jesus era "Deus" ou o "Filho de Deus". - Retomar o
judasmo tambm a reconectou emocionalmente com a famlia judia.
O judasmo, como o islamismo, pode estar relacionado  cultura; ambos
so mais estilos de vida, ela diz. Os dois lados de sua famlia tm
origens na Europa Oriental, mas a poro judia  mais ligada quela
regio e a seus valores, costumes e histria.
- Talvez seja conseqncia da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto,
mas sinto que o judasmo se relaciona  identidade do indivduo - ela
reflete.
Para Juwayriah, a converso ao islamismo unifica seu passado e sua
origem, uma vez que essa religio extrai a riqueza do judasmo e do
cristianismo, em sua opinio.
- Na verdade, judeus e rabes so o mesmo povo. Somos todos descendentes
do Profeta Ibrahim; os rabes descendem da linha de seu filho Ismail, e
os judeus, de seu filho Isaac. O papel de Jesus se relaciona claramente
com as trs fs. Ele foi um Profeta de Al, enviado ao povo judeu para
gui-los de volta ao caminho correto.
O islamismo deu a Juwayriah paz e base slida, e tambm a ajudou a ver,
por exemplo, como se pode viver com simplicidade, mas plenamente.

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- Na Amrica, temos muitos desejos e poucas necessidades reais - ela
pensa.
O islamismo tambm a ajudou a lidar com o passado. Ela teve uma infncia
difcil, que poderia ter devastado vrias pessoas. A me morreu
alcolatra, e o pai era criminoso e usurio de drogas que se casou
diversas vezes. No meio de todo esse tumulto, Juwayriah era vulnervel.
Ela relata ter sido repetidamente molestada por um tio e quatro primos.
Assustada e desconfiada, nunca disse nada a ningum. A me no percebeu,
como ela mesma conta. Pensando bem, Juwayriah acrescenta:
- Ningum queria saber.
Por volta dos 19 anos, ela comeou a usar drogas. Herona. Acabou indo
viver nas ruas, mas no se importava com isso. Ela se sustentava e ao
vcio por meio da prostituio. Juwayriah conta que teve inmeras
experincias negativas nas ruas, incluindo um estupro. Finalmente ela se
livrou das drogas e, aos 30 anos, comeou uma nova vida.
- O que me fez abandonar tudo aquilo? Estava cansada de ir para a
cadeia. E depois de muitas overdoses comecei a sentir medo de morrer.
Cheguei ao fundo do poo, com a graa de Deus.
Um programa de doze passos e a f em um poder superior a ajudaram na
recuperao.
- No uso drogas h 22 anos - ela relata orgulhosa. Depois de 14 anos
afastada das drogas, Juwayriah encontrou o islamismo, reestruturou a
vida trabalhando e cursando a faculdade de psicologia e hoje d
aconselhamento a dependentes qumicos.
Juwayriah  uma mulher satisfeita e orgulhosa de sua f
e continua aprendendo muito sobre o islamismo... e com ele.
- Tudo  um teste e uma lio de Al - ela conclui. - No existem erros
no islamismo. Al  o melhor dos planejadores.

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24

PATRICIA: EXTRAORDINRIA PROFESSORA
MODIFICADA PELO ISLAMISMO

Patricia Salahuddin leva um dedo aos lbios. Shhh. Os alunos, at ento
ruidosos no corredor, tornam-se silenciosos e a acompanham para a sala
de aula no ginsio em Miami. Duas pequenas lanternas so a nica
luminosidade na escurido. H uma suave msica de fundo. As crianas vo
ocupando seus lugares, e  possvel notar nelas certa ansiedade. A sala
no  a mesma onde elas costumam ter aulas de ingls. Em geral, elas
falam bastante, mas a estranheza da situao as faz guardar silncio.
Todos olham curiosos para Patricia.
Ela sorri. Est se preparando para dar uma aula sobre
respirao. Inspirar lentamente, exalar devagar. A classe se
torna ainda mais silenciosa quando segue as instrues.
- Sejam bem-vindos  meditao - ela anuncia.
Mais calmos e tranqilos, os alunos esto prontos para
escrever nos dirios e, mais tarde, redigir relatrio.
Eles esto acostumados a essas abordagens criativas. Patricia  professora
e tem certificado do National Board e se prepara para obter o doutorado
em Currculo e Instruo na Universidade Internacional da Flrida.
Lecionando em uma respeitada escola de Miami, a Design and Architecture
High School, no corao do distrito dos desenhistas da cidade,

Patricia tenta transmitir sua experincia ao crescente nmero de
professores em escolas muulmanas na Flrida. Como lder da Associao
dos Professores Muulmanos, ela tem ajudado a organizar uma conferncia
chamada "Educando a Criana Muulmana: Ingredientes Para o Sucesso".
Ajudar voluntariamente a melhorar as escolas mulumanas  uma
justificativa mais que suficiente para Patricia espremer ainda mais a j
atribulada agenda de professora e aluna do curso de doutorado.
- Durante o primeiro semestre, eu me perguntava: o que estou fazendo
aqui? Por que estou fazendo isso? A resposta  que sempre quis ajudar os
professores muulmanos. Esse foi o caminho que Deus encontrou para mim,
minha forma de difundir conhecimento.
Ela faz uma pausa e ri.
- s vezes penso que sou maluca.  difcil acumular tantas
responsabilidades. Mas acredito que Deus quis que fosse assim. E Deus 
o Nmero Um em minha vida. Atribuo a Ele tudo que tenho, em todos os
aspectos. Sei que tenho escolhas e rezo para ter Sua orientao ao
realiz-las.
E Patricia declara obedecer ao comando: faz do Alcoro
a luz de sua vida
Esse grau de convico religiosa pode causar nervosismo em algumas
pessoas, mas Patricia  sincera ao falar de sua religiosidade. Est
habituada  piedade como parte da vida diria. Afinal, o pai  pregador
Batista atualmente aposentado, uma vez que completou 79 anos. Ela no
cresceu com ele, mas com a me e o padrasto em uma fazenda no
Mississippi. Toda a famlia freqentava a igreja com assiduidade, e
Patricia os acompanhava.
Ela cresceu no extremo da segregao sulista e das leis
Jim Crow. Sabe que tem sorte. A famlia foi relativamente
prspera. Alm da famlia, a me tinha um negcio prprio.
- Trabalhei nas nossas plantaes; trabalhei duro! Mas ganhvamos a vida
na terra. Isso fez uma grande diferena.

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Por causa do relativo conforto financeiro da familia, Patricia diz ter
sido bastante protegida contra o pior da segregao, e no encontrou
muitas pessoas brancas durante a infncia. Um homem branco era
proprietrio das terras vizinhas s de sua famlia, e s vezes eles o
viam em sua caminhonete, mas no trocavam acenos nem reconheciam a
existncia um do outro. Aquele era o sul: pessoas brancas e negras
seguiam caminhos distintos.
Patricia s freqentou escolas segregadas. Hoje se sente feliz: alguns
amigos se ofereceram para ajud-la a integrar as escolas exclusivas para
brancos, conseqncia dos abusos que sofreram, desde ofensas a agresses
fsicas.
- Quando penso nas dificuldades dos meus colegas que foram para as
escolas integradas, no sei ao certo se teria sido capaz de enfrentar
tudo aquilo. Acho que teria desistido de estudar.
Aps concluir o colgio, Patricia foi para a Universidade do Estado do
Mississippi, que j havia sido integrada havia alguns anos. L, comeou
a procurar por respostas espirituais. Ela estava com 18 anos.
- Talvez tenham sido meus anos de rebelio. Prefiro pensar que foi a
idade da conscincia.
A verdade  que Patricia no se sentia confortvel com o cristianismo. A
segregao no sul piedoso era ainda pior nas manhs de domingo. Havia
igrejas brancas e igrejas negras, e ningum se atrevia a atravessar a
fronteira entre elas, embora orassem todos para o mesmo Deus. No havia
necessidade de colocar uma placa. As pessoas sabiam.
Para Patricia, aquilo tudo no fazia sentido. O cristianismo parecia ser
parte do problema do sul,
- Eu via a religio participando da segregao. Para mim, aquilo no era
religio. No queria praticar aquilo.
Os amigos tambm procuravam por uma nova f e, em
1969, eles a incentivaram a comparecer a uma reunio do

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grupo denominado Nao do Isl. O orador era o jovem Louis Farrakhan.
- Ele falava sobre uma auto-identidade positiva para os negros. Fiquei
bastante impressionada com aquela mensagem de auto-ajuda: a de que Deus
nos deu tudo de que necessitamos, e por isso os negros no precisavam
suplicar a ajuda dos brancos. Fiquei to sensibilizada com a linguagem,
com a atitude auto-suficiente, que comecei a freqentar as reunies.
Patricia teve de contar aos pais cristos sobre o novo grupo e
surpreendeu-se com a receptividade dos dois, inclusive do pai pregador.
(A me de Patricia o informara com alguma antecedncia.) Hoje ele
continua freqentando a igreja Batista, mas ela vai  mesquita.
Quando freqentava a faculdade no Mississippi, Patricia conheceu outro
aluno que tambm se interessava pela Nao do Isl. Eles se conheceram
em uma fbrica em Chicago, onde ambos haviam conseguido empregos
temporrios durante as frias de vero, ganhando assim bom dinheiro para
pagar a faculdade. Patricia estava hospedada na casa de parentes. O
jovem, filho de imigrantes panamenhos, era de Chicago, base da Nao do
Isl, e estudava na Southern Illinois, em Carbondale. Ele emprestava
livros a Patricia, obras densas como The Wretched of the Earth, de
Frantz Fanon. Eles se apaixonaram e se casaram em 1971, mesmo ano em que
Patricia se formou em Mississippi. Decidiram mudar o sobrenome para
Salahuddin, que em rabe significa "aquele que protege a f" ou "aquele
que procura pelo bom e certo". (Patricia optou por manter o primeiro
nome, mas escolheu Zahirah como novo nome do meio.) Ela se mudou para
Carbondale para ir viver com o marido, que ainda concluiria os estudos.
Em certo perodo, ele foi trabalhar nas minas de carvo, porque, como
explica a prpria Patricia, "era l que estava o dinheiro".

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Quando ele se formou, o casal decidiu morar em Mississippi. As coisas
haviam mudado para melhor. Naquela poca, o Mississippi havia melhorado
as relaes raciais e se mostrava mais hospitaleiro com os
afro-americanos.
- Eu queria voltar para o Mississippi porque minha famlia estava l. J
havia estado em Chicago e no suportava o frio.
Logo depois da mudana, eles tiveram dois bebs. (Tiveram cinco filhos
em seis anos.) Patricia foi trabalhar em uma creche, enquanto o marido
abria um negcio prprio e se dedicava a obter o mestrado.
Em 1983, a famlia se mudou de novo. Dessa vez, a idia foi do marido de
Patricia. Ele perdia gradualmente o domnio da lngua espanhola, a
lngua materna, e como poucas pessoas falavam espanhol no Mississippi
quis ir para Miami, onde havia diversos hispnicos. L, conseguiu um bom
emprego em um rgo do governo. Hoje,  diretor-assistente da Autoridade
Porturia de Miami.
Patricia e o marido freqentam uma mesquita predominantemente
afro-americana em Miami, que no  afiliada  Nao do Isl. Como muitos
outros afro-americanos hoje em dia, os Salahuddin se afastaram do grupo
Nao do Isl para adotar uma prtica mais ortodoxa do islamismo. Todos
so bem-vindos na mesquita, e ela atrai alguns imigrantes para os
habituais servios religiosos das sextas-feiras, mas so primariamente
afro-amercanos que se renem aos domingos para as aulas e outras
atividades da mesquita. O hbito de ir  igreja aos domingos 
intrnseco  cultura afroamericana, Patricia observa, rindo.
Ela vai aos servios s sextas e aos domingos. O islamismo tem sido um
conforto para ela.
Patricia fez amigos duradouros na mesquita; aprendeu com o Alcoro, e as
cinco oraes dirias a reabastecem. Nem mesmo o hijab, que ela se sente
compelida a usar, representa problema. Ela  uma mulher elegante que usa
belas

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echarpes estampadas para cobrir os cabelos e combinar com as roupas. Em
certo dia de inverno, ela estava particularmente linda em um elegante
conjunto de cala comprida e jaqueta marrons, sapatos altos da mesma cor
e uma echarpe estampada em tons mais claros de castanho.
A f no  um fardo, ela acrescenta, mas uma recompensa.
- Sei que ajuda ela declara. - Com o auxlio de Deus, tenho sido capaz
de realizar muitas coisas.
Ela enumera as realizaes: conseguiu criar cinco filhos muito unidos e
continuar trabalhando. Conseguiu cuidar da me aps a manifestao do
mal de Alzheimer e ficar ao lado dela at o ltimo dia de sua vida. Foi
capaz de focar sua paixo, lecionar, enquanto trabalhava no doutorado e
mantinha o trabalho voluntrio.
- Deus me ajudou a fazer tudo isso - ela conta. - Ele ps pessoas na
minha vida. Tem sido difcil, mas eu teria
feito menos se no tivesse Deus em minha vida.

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25

YUKO ANSEIA POR FAMLIA E F

Foi assim que a nipo-amercana Yuko Davis ia  escola em Louisiana, na
periferia de Nova Orleans: todas as
manhs entrava na sala de aula e se sentava no lado reservado s
meninas. Os meninos se sentavam do outro lado. O playground e o
intervalo tambm eram separados, bem como o horrio do almoo. Ela no
mantinha conversas significativas com os meninos; essa era uma prtica
desencorajada.
As saias eram longas, e as blusas, abotoadas at o pescoo. Jogar cartas
e danar eram atividades consideradas pecaminosas. Ela cresceu sem
colecionar discos de rock. (Mas gostava dos Beatles, como confessou anos
mais tarde.) Tambm no ia ao cinema. (Na turma, uma aluna foi
destituda do posto de oradora dos formandos aps ter sido flagrada
saindo de um cinema local.)
Eram essas as regras da escola da igreja fundamentalista em que Yuko
estudou que deram forma  sua infncia. Ela se sentia confortada por
essa estrutura. At hoje comenta como aceitava automaticamente as regras
em troca de ordem em sua vida. No havia rebeldia para ela.
- Eu era uma tima aluna. S me sentava nas primeiras fileiras da sala
de aula. Adorava o ambiente. Era protetor.
Yuko nunca deixava de ir  igreja aos domingos, suportando com
satisfao as longas horas dedicadas s aulas da
escola dominical e ao servio religioso. At aceitava o orgulho da
congregao por ser estrita. Um lder disse a Yuko:
- Somos intolerantes e nos orgulhamos disso.
Ela concordava com a filosofia da igreja sobre casamento e famlia serem
a prioridade de uma mulher. No havia no repertrio a noo de que a
carreira pudesse ser o objetivo de uma jovem. Apesar de querer ser
professora, Yuko desejava antes criar filhos felizes e bem-sucedidos,
para apenas depois se dedicar ao prprio trabalho. As mes eram seus
modelos de papel. Em ltima anlise, ela acreditava que o sucesso estava
em seguir Deus.
Talvez ela ainda estivesse em lZouisiana hoje, no fossem as mudanas no
regulamento do nibus.
Yuko era uma das dez voluntrias no nibus que pegava as crianas para
assistir ao servio litrgico dominical. Um dia, ela conta que foi
informada de que no iriam mais buscar nenhuma criana negra.
Yuko no conseguia aceitar a nova regra, mas diziam
que seria melhor para todos, inclusive para as crianas negras que no
eram mais bem-vindas  igreja.
- Aquilo no me parecia certo. Fiquei muito incomodada com a notcia.
Os membros da congregao asseguravam que a segregao era uma coisa
boa, mas aquilo no se ajustava aos ensinamentos de Cristo. E, quando
ela fazia perguntas, a resposta era sempre a mesma: temos de obedecer 
liderana da igreja. Sendo educada como era, Yuko no argumentava.
Todavia, pensamentos confusos comearam a dominar sua mente. Pensamentos
rebeldes. Por que, ela se perguntava, era um dogma da igreja o pecado da
mistura entre as raas? Isso significava que a amiga da me, nascida na
sia, iria para o inferno por ter se casado com um negro. E o mesmo
aconteceria com o filho do casal, fruto da unio supostamente
pecaminosa. Nada disso fazia sentido para ela.

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- Aquilo no vinha de Deus. Eram regras feitas pelo homem. - Ela chegou
a essa concluso, porque, como aponta, ela e a me eram aceitas, apesar
de a me, japonesa, ter se casado com um caucasiano. No parecia
incomodar a igreja o fato de Yuko ser fruto de uma unio entre raas.
"Isso  diferente", garantiam os religiosos. "Voc  uma de ns." Mas
Yuko tinha conscincia da pele mais escura, de sua "distino"
O pai, filho de fazendeiros de Louisiana, servia o Exrcito em uma base
no Japo quando conheceu a esposa. Yuko nasceu naquele pas. Quando a
filha tinha um ano, o militar concluiu o perodo de servio no Japo e,
dispensado, roltou para casa acompanhado pela nova famlia. Yuko e a me
logo absorveram o estilo de vida americano. Budista, a me dela passou a
freqentar a igreja Batista do marido. Os trs formavam uma famlia
muito unida, e Yuko poderia ser Batista at hoje, no fosse pela morte
prematura do pai. Buscando refgio, a me comeou a freqentar a igreja
fundamentalista, mais severa, mas cujos membros pareciam ser abertos e
receptivos. Ela matriculou a filha na escola ligada a essa igreja.
Yuko e a me eram sempre recebidas com afeto, apesar da aparncia
oriental. Yuko era orientada a no se importar com essa herana: a
igreja no considerava os ancestrais asiticos uma "minoria". Mas ela
comeou a se sentir forasteira aps a excluso das crianas negras. E
ainda se espanta com a quantidade de membros da igreja que no
conseguiram compreender sua revolta diante da excluso.
A rebelio se estendeu at a doutrina da igreja. Yuko comeou a
questionar a idia de que s Jesus garantia a salvao e que todos
aqueles que no o aceitavam estavam automaticamente excludos do
paraso.
- Isso significava que todos na famlia de minha me iriam para o
inferno - Yuko comenta, pensamento que ela
considerava inquietante.

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Novamente, ela procurou os lderes da igreja em busca de resposta para
suas dvidas. E se a famlia da me no conhecesse o cristianismo? Como
poderiam ter o destino selado se nem conheciam Jesus? Ela perguntou 
me se havia missionrios no Japo e soube que alguns representantes da
igreja crist haviam estado por l muitos anos antes. Era essa a nica
lembrana da me. Incentivada pela confirmao de que a famlia materna
talvez nem conhecesse Jesus, Yuko questionou o jovem lder da comunidade
sobre como eles poderiam estar predestinados ao inferno.
- Basicamente, ele no soube responder - ela recorda. O rapaz apenas
reiterou que as pessoas tinham de aceitar Jesus Cristo em suas vidas
para conquistar o paraso e a
preveniu:

- No faa tantas perguntas. Isso  o diabo em ao.
Yuko aceitou a explicao, pelo menos aparentemente.

Mas diz:

- No fundo, no concordava com ele. Continuei pensando que, se Deus me
havia dado um crebro, no podia
ser proibido us-lo!
Aps a formatura no colgio, ela decidiu deixar a igreja.
Sentiu-se mal, pois ali perdia sua f. E comeou a procurar
por uma nova religio.
Yuko a encontrou em um consultrio mdico.
Ela estava sentada na sala de espera, lendo uma revista,
quando encontrou um artigo sobre o islamismo. Imediatamente, sentiu-se
fascinada pela religio.
-  bvio que aquilo no foi acidente, mas uma resposta s minhas preces
pedindo por orientao - Yuko declara, confiante. Ela se sentiu atrada
pela diversidade, pela maneira como todas as raas e todos os
interessados eram bem recebidos por essa f. - Adorei! O islamismo 
muito mais tolerante. Ainda me surpreendo com tanta diversidade.
Yuko comeou a cobrir os cabelos com um leno e logo
se sentiu fascinada pelos mtodos muulmanos.

200


Conheceu o marido, Ahmad, estudante de engenharia libans, e encantou-se
com sua formao to distinta. A famlia materna era turca; os parentes
por parte de pai eram srios. Alguns membros da famlia pareciam
europeus, outros tinham traos mais orientais.
Na poca ela no sabia, mas Ahmad procurava por uma esposa.  maneira do
Oriente Mdio, ele sentiu que no poderia simplesmente abord-la e
convid-la para sair. Precisava de um intermedirio. Assim, Ahmad pediu
a ajuda de um amigo da mesquita que tambm conhecia Yuko.
- Acha que ele  interessante? - a pessoa perguntou 

pretendida.
Ele usa culos fundo de garrafa - respondeu Yuko.
(Aquela era a dcada de 80. Hoje, graas  avanada tecnologia, ele usa
lentes muito mais finas.)
Os dois no conversaram por um ms. Mas, quando a conversa finalmente
ocorreu, Yuko sentiu-se interessada por ele. Ahmad era um jovem srio
que queria realmente cuidar de uma esposa e dos filhos. Eles iniciaram
um relacionamento formal e s se encontravam acompanhados por outras
pessoas.
- Conversvamos basicamente por telefone. Naquela poca, ainda no se
utilizava a internet.
A me de Yuko aprovou aquela forma to correta de relacionamento, um
namoro que, como ela dizia, era muito parecido com o que se via no
Japo. Ela e a filha ficaram impressionadas com o cavalheirismo e a
gentileza de Ahmad, bem como com a regularidade com que ele freqentava
a mesquita. Os dois se casaram trs meses mais tarde.
Atualmente, Yuko e Ahmad esto casados h 17 anos e tm cinco filhos:
Safiya, a mais velha, tem 16 anos; Malika, a caula, tem 3. Eles deram
ao filho mais velho nome composto por razes rabes e japonesas.
Infelizmente, Osama, cujo significado  "rei" em japons, acabou se
tornando indelevelmente ligado ao terrorismo. O garoto agora atende

201

pelo nome do meio, "mais seguro": John (o nome do pai de Yuko).
Yuko  grata pela famlia to unida. Eles lem juntos,
jogam, vo  mesquita, e a me dela mora com eles.
- Graas a Deus meu marido  do Oriente Mdio, onde a famlia da esposa
ou do marido comumente se instala com
o jovem casal - ela brinca.
A casa  simplesmente impecvel. No h baguna; a famlia deixa os
sapatos sempre inclinados contra a parede. Por enquanto, Yuko ainda
educa Safiya, a filha mais velha, em casa. Mas a menina est ansiosa
para ir ao colgio no prximo ano. Ser a primeira experincia dessa
natureza. Os outros filhos freqentam a escola pblica. Quando a caula
comear a pr-escola, Yuko tambm retomar os estudos.
- Meu marido diz que agora  minha vez. - Provavelmente, ela cursar
psicologia ou estudos religiosos. Como vrias outras americanas, Yuko
planeja ter uma carreira aps mandar todos os filhos para a escola.
Atualmente, eles vivem no subrbio de Phoenix, e ela se sente grata pelo
espao aberto e amplo. Ningum comenta quando ela usa o hijab em
pblico. O Arizona tem sido muito mais tolerante com o vesturio
islmico do que Louisiana, ela relata.
A comunidade muulmana est crescendo em Phoenix, e Yuko e Ahmad
tornaram-se voluntrios na mesquita que freqentam, ajudando na adaptao
dos recm-chegados. Ahmad  lder e divide o tempo na mesquita entre os
ensinamentos do islamismo para no-muulmanos e o trabalho
administrativo do templo. Enquanto isso, Yuko ensina o islamismo para
crianas, em aulas dadas na prpria mesquita. Ansiosa para auxiliar os
americanos a entenderem essa religio, ela recomenda que os visitantes
leiam o Alcoro e oferece a eles um tapete para oraes, alm de
biscoitos caseiros e outras delcias. Ela deseja muito falar sobre a
religio que trouxe tanta paz e renovao espiritual para sua

202

vida. Trata-se de uma f aberta a todos, ela relata. Yuko aprova que a
mesquita abrigue imigrantes e no-imigrantes, convertidos e aqueles que
j nasceram no islamismo. Ela e o marido lem o Alcoro regularmente e
oram cinco vezes ao dia, como requer a prtica de sua crena. Em
particular, Yuko aprecia o que chama de "aspecto fsico" do Salat, as
preces prescritas, "a movimentao fsica dessa adorao". Ela sente que
os movimentos a levam mais perto de Deus.
Yuko acrescenta que o islamismo est muito longe do extremismo que leva
Ims a declarar guerras santas. Para ela, essa  uma minoria mal
orientada, embora seja justamente essa poro que chame mais ateno na
Amrica.
Somos muulmanos da corrente majoritria - ela

declara.

E ela e a famlia se sentem confortveis com o estilo de vida americano.
Ahmad, por exemplo, troca apertos de mo com mulheres; muulmanos mais
tradicionais se negam a ter qualquer contato fsico. Em casa, eles
vestem jeans e camisetas como qualquer outra pessoa.
Para Yuko, o islamismo tornou-se no apenas uma religio, mas um estilo
de vida. Ele a tem ajudado a fortalecer a
famlia e a ampliar o crculo de amizades. Em sua opinio, a
vida no poderia ser melhor.

203


26
ZULY: UMA LATINA ENCONTRA O ISLAMISMO

Depois do 11 de Setembro, a latina e texana Zulayka Y.
Martinez (apelidada Zuly) tem descoberto diferenas culturais e uma
reao adversa em sua mesquita.
- Em 2000, converti-me ao islamismo durante o ms do Ramad, dezembro.
Podemos dizer que sou uma latina tpica. Filha de uma famlia muito
religiosa de Houston, cresci freqentando grupos catlicos. Cheguei a
sonhar com a vocao de freira missionria! Contudo, na juventude,
converti-me para outro destino e outra f: o islamismo. Minha histria
comea com um grupo de amigos da escola. Naquela poca, ningum discutia
religio, e eu nem imaginava que convivia de forma to prxima com
muulmanos. Depois do colgio, mantive contato com alguns desses amigos
e um dia descobri que o primo de um deles havia chegado do Lbano. Fui
dar as boas-vindas ao recm-chegado e oferecer minha amizade, j que era
amiga de seu primo. Ele sorriu e respondeu: "Obrigado, mas no acredito
em amizade entre homens e mulheres".
Zuly faz uma pausa e sorri antes de prosseguir:
- Aquilo me confundiu. Quando perguntei ao meu amigo por que o primo
dele me havia tratado daquela maneira, ele simplesnente sugeriu que eu
no me incomodasse. Passaram-se meses, e como eu sempre me reunia com

aquele grupo de amigos encontrei o tal primo diversas vezes, at que,
certo dia, decidi question-lo. Perguntei por que ele no acreditava que
homens e mulheres pudessem ser amigos. Foi quando ele mencionou o
islamismo. Para ser honesta, nunca havia ouvido falar nessa religio.
Resumindo uma longa histria, decidi que ele e sua religio, sem dvida,
estavam errados. No conseguia entender que havia uma religio que no
aceitava Jesus como Filho de Deus. E decidi provar que ele estava
errado.
Como Zuly tentou provar seu ponto de vista? Ela mesma explica:
- Comecei a pesquisar essa religio para encontrar nela todos os pontos
desfavorveis ou negativos. Um dia, quando estava em um retiro catlico,
levei um Alcoro (que me havia sido dado de present e). Usei os momentos
de silncio e reflexo para ler os textos do islamismo. Aquelas palavras
tocavam meu corao, o que me deixou bastante confusa sobre minha f e
sobre ser realmente crist. Como boa catlica que era, naquela noite fui
me confessar com meu sacerdote. Ainda lembro nitidamente a reao do
religioso: "Li o Alcoro. No vou dizer que os muulmanos so m
pessoas, mas garanto que nossa f est certa. A deles est errada".
Tentei fazer outras perguntas, mas ele me disse: "Nunca duvide de sua f
nem a questione".
A resposta s a deixou ainda mais curiosa, e Zuly comeou a pedir
informaes aos amigos muulmanos. Paralelamente, lia todo o material que encontrava sobre o islamismo.
- Aps mais alguns anos de estudo, segui os passos de milhares de
latinas. Tornei-me muslimah em uma cerimnia na mesquita. Agora, quatro
anos depois, percebo como minha forma de pensar mudou. O islamismo me
fez melhor, mais capaz de compreender a mim mesma e mais prxima de
minha famlia. Posso ter ligao direta com Deus. E a religio me ensina
a amar a todos. Seja voc muulmano, cristo ou judeu, somos todos
amados pelo Poderoso. Sinto

205


que tenho a mente muito aberta. Sou amiga de cristos, judeus e
muulmanos.
Zuly conta que, antes do 11 de Setembro, as pessoas eram muito educadas
quando descobriam que ela era muulmana ou quando notavam o leno
islmico sobre seus cabelos. Em Houston, elas sorriam, cumprimentavam-na
e seguravam a porta para que ela passasse. Ela encontrou alguns
indivduos bem ignorantes, mas, em geral, os texanos tm sido
maravilhosos.
- No incio, foi difcil informar minha famlia. Tenho doze irmos e sou
a caula. Jamais vou esquecer algo que um de meus cunhados disse em uma
reunio familiar (como mexicanos tpicos, eles se renem quase todos os
finais de semana). Ele contou a um amigo da famlia que estava orgulhoso
de mim e que apoiaria minha deciso de ser muulmana. "Eu a vi mudar e
agora ela fez a escolha certa. Que Deus a guie e a todos ns", ele
concluiu.
Zuly  fotgrafa de casamentos. Tambm fotografa famlias e belas
paisagens. Quando est trabalhando, as pessoas se surpreendem ao saber
que  muulmana, pois acreditam que as mulheres dessa religio devem
passar todo o tempo trancadas em casa.
- Alguns colegas de trabalho fazem piadas ou brincam comigo valendo-se
dessa questo religiosa. Eu no me importo, porque sei como algumas
pessoas so intolerantes. Mas a maioria me respeita e no me importuna.
Mas ela ressalva:
- H uma grande diferena em como sou tratada agora, depois do 11 de
Setembro. Antes disso, eu costumava usar o hijab e era simples. Eles no
sabiam quem eu era e no se incomodavam comigo. Imaginavam que eu fosse
uma freira, talvez. Mas,  claro, tudo ficou mais difcil aps os
ataques terroristas. As pessoas comearam a pensar que todo muulmano 
terrorista. A sbita diferena no tratamento foi um grande choque. Sou
uma pessoa muito socivel, no sou

206


 do tipo que fica em casa. Ento, deixei de usar o hijab
- para poder seguir adiante com minha vida sem ser olhada com hostilidade
ou curiosidade na rua. Outra razo  que, quando estou fotografando e
tenho os cabelos cobertos,
olham para mim como se estranhassem, como se quisessem saber por que
estou tirando fotos. Para explodir alguma coisa, talvez? Sinto que corro
certo risco. No uso vestidos longos como algumas rabes e
paquistanesas. Uso roupas ocidentais, porque sou assim. Afinal, sou
mexicana e americana. No que vista minissaia, at porque nunca foi esse
o meu estilo. Visto-me com conforto, mas de maneira conservadora. Acho
que sigo o estilo das turcas. Adoro aquele jeito moderno e ocidental que
elas tm de se vestir.
Zuly lamenta ter encontrado discriminao como mulher muulmana na
Amrica, at mesmo entre os de sua
prpria raa.
- Quando eu usava o hijab, ningum percebia que eu era hispnica. Eu os
ouvia falando em espanhol, dizendo coisas como: "Veja, l vai uma das
esposas de Saddam Hussein" ou "Olhe para aquela mulher Talib". Minha
reao era comear a falar em espanhol, pois assim as pessoas percebiam
que eu era latina. E se afastavam constrangidas.
Agradeo a Deus pelo tipo de mulher que sou. Sinto-me independente e sou
independente!
Ela prossegue o relato:
- Todos deduzem que sou casada com um muulmano do Oriente Mdio. Devem
imaginar que me converti ao islamismo por isso. Mas explico que no me
converti por um homem, mas por Deus. Todos ficam invariavelmente
chocados.
De fato, ela mesma relata ter ficado chocada e desanimada com o processo
de casamento.
- Eu era apresentada a um homem na mesquita ou em um evento muulmano
qualquer e depois de uma conversa
de uma ou duas horas ele dizia: "Voc parece ser uma boa

207


opo. Quer se casar?". Isso me incomodava. Alguns, declaradamente
interessados em me convencer a aceit-los como marido, diziam: "O
casamento  seu deen (estilo de vida)". Quero ter minha famlia algum
dia, mas acredito em meus direitos como mulher. No quero ser
pressionada. E no estou preocupada. Estou muito feliz como estou. Sei
que vou encontrar um marido e uma alma gmea, Inshallah.
Como latina, Zuly no se sentiu muito bem recebida
quando se converteu ao islamismo.
- As mulheres rabes e paquistanesas no foram muito acolhedoras na
mesquita. Ou talvez no sejam to sociveis quanto eu. De qualquer
maneira, fiquei magoada. Sentia-me mais uma intrusa que uma irm. Agora
 diferente, e eu contribuo para que seja assim. Em Houston, h uma
comunidade crescente de hispnicos muulmanos, e hoje em dia organizamos
uma festa para receber as novas irms. Temos aulas em espanhol para
elas. Dizemos a elas que somos as pioneiras e que nos sentimos felizes
por poder ajudlas a entender e descobrir o islamismo. Ns nos
declaramos amigas e irms.
Zuly conclui:
- Sou grata ao islamismo. Ele mudou meu corao. Creio em um Deus e foi
isso que me levou a essa religio. Sempre tive dificuldades para me
ajoelhar diante da Virgem Maria e de outros santos na f catlica.
Vrias meninas se ajoelhavam e choravam. Eu no era capaz disso.
Acredito em adorar um Deus e nada mais. Sendo assim, estou contente com
a f islmica. Ela me trouxe paz e harmonia. Minha recomendao s novas
muulmanas  essa:  preciso ter a mente aberta e ouvir o corao.

208

27

ANISAH: VIVENDO SOB O VU
NA DAKOTA DO SUL

Em alguns mapas, Bushnell, Dakota do Sul, nem existe. Mas, encolhida
perto da Highway, menos de 27 quilmetros a oeste de Minnesota, l
est ela: 4 ruas pavimentadas, 2 semforos e 27 casas!
- Acho que temos tantos animais (ces, gatos e cavalos) quanto pessoas -
especula Anisah David.
Ela no est brincando. A cidade  to pequena que se tornou conhecida
por algumas excentricidades, como um bode branco chamado Schnee (neve,
em alemo). Schnee gostava de descansar no meio de uma das ruas da
cidade. Os residentes de Bushnell precisavam escolher cuidadosamente
quando percorrer essa via: ningum queria buzinar para Schnee. Anisah
conta:
- Quando era contrariado, ele abaixava a cabea e ameaava furar o
radiador com os chifres!
Mas a cidade tolerou o bode, at sua morte por velhice, como tambm o
faz com os habitantes humanos que, reconhecidamente, marcham em ritmo
diferente. Afinal, essa  uma cidade na qual um homem de dois metros de
altura, o maior habitante da regio, veste uma fantasia composta por
asas, cala justa, bon de aviador e culos de nadador, para, no
Halloween, lanar abboras de uma catapulta medieval.

Tambm havia uma mulher que gostava de levar a mula para passear em uma
coleira. Muitos habitantes so artesos:
pintores, escultores e teceles. H tambm os compositores, os danarinos
e os ceramistas.
Aos 42 anos de idade, Anisah est perfeitamente adaptada ao lugar. Ela 
webmaster, casamenteira muulmana, ativista da comunidade, palestrante,
escritora e artista txtil, alm de convertida ao islamismo. Desde 1988,
ela adotou os vestidos longos e os cabelos cobertos. Ningum nota o que,
em outro lugar, poderia ser um traje incomum. Anisah ainda se espanta
com o grau de tolerncia no s em Bushnell, mas em todo o territrio de
Dakota do Sul e, mais largamente, da extenso do meio-oeste. Ela diz que
s recebe um ou outro olhar mais persistente quando vai a Brookings
(cuja populao  de aproximadamente 19 mil habitantes) para cuidar dos
negcios. Ou quando vai a Sioux Falis, um pouco maior, com pouco mais de
100 mil habitantes, ao sul de Brookings.

A populao de Dakota do Sul, ela diz, vive em paz com os grupos
religiosos incomuns do estado, que incluem indgenas americanos e seitas
conservadoras crists de anabatistas.

- Eles so extremamente tolerantes.  surpreendente. Sou to bem
recebida aqui quanto qualquer outra pessoa.
Ou, pelo menos, era o que ela pensava.
Anisah teve de rever sua opinio aps um juiz de Dakota do Sul ter
decidido recentemente contra a filha, Cassy David, em um caso de
custdia. O juiz decretou que o marido egpcio de Cassy, ps-graduado e
fruto de uma famlia numerosa, devia cuidar da filha do casal, alegando
que a famlia de Cassy era "no mnimo questionvel". O juiz apontou
Anisah como influncia negativa, citando seu servio on-lne de
casamentos muulmanos, a viso pr-poligamia (monogmica, ela afirma
aceit-la em teoria, j que o Alcoro tolera a

210

poligamia sob circunstncias estritas), a vestimenta muulnana e as
crticas anteriores contra a ocupao da Palestina por Israel.

Ele usou todos os argumentos difamatrios e caluniosos contra mim,
fazendo-me parecer uma fundamentalista desequilibrada. Fui atacada por
incentivar mulheres
muulmanas a usar o vu e at por promover casamentos. O juiz
reconhece que tenho o direito de me expressar livremente, mas argumenta
que pode usar minhas posies contra minha filha ao tomar a deciso.
Apenas dois outros incidentes a fizeram sentir indesejada, e todos
ocorreram depois do 11 de Setembro. Em certa ocasio, um homem fez um
gesto ameaador ao v-la em um supermercado. Felizmente, o marido, homem
de um metro e oitenta de altura, tambm convertido muulmano, estava por
perto e interveio.
Ao longo dos anos, os vizinhos sempre apoiaram Ariisah e a famlia. Ela
recebeu diversos telefonemas solidrios quando uma professora do colgio
disse a seu filho que ele no deveria ir  mesquita s sextas-feiras,
pois seria melhor ir "aos servios dominicais como qualquer pessoa
normal".
Anisah ficou furiosa, mas a populao local ficou ainda mais revoltada.
A controvrsia chegou ao jornal regional, e vrias pessoas procuraram
Anisah para dizer que a professora estava errada.
Ela tambm descobriu que, como advogada muulmana e fundadora da
organizao sem fins lucrativos Human Interactions for Religious
Understandings, poderia ser ouvida por diversas pessoas, inclusive por
outros juzes. Certa vez, Anisah ajudou uma jovem que se havia
convertido ao islamismo e tentava ir para o Egito encontrar o novo
marido. O nico problema era que o pai dela pedia a guarda do neto de 5
anos de idade, alegando que o menino estaria mais seguro ao lado dele.
De acordo com um relatrio da Associated Press, o av alegava que a
filha "adotava

211

comportamentos bizarros, entre eles o uso de vestimentas muulmanas,
religio da qual dizia ser seguidora". Anisah diz que o homem levou 
corte fotos da prpria filha usando vu na cerimnia em que ela se
convertera ao islamismo.
Mais tarde, um dos advogados desse homem disse a um reprter da
Associated Press que o cliente e a esposa no tinham preconceitos contra
os muulmanos, mas, compreensivelmente, se preocupavam com a ida do neto
para o Egito, porque a me do menino "demonstrava certa inconsistncia
no comportamento"
No incio, a corte concordou com o av e cedeu a custdia temporria a
ele e  esposa, deixando a jovem muulmana sem o filho.
- Ela ficou arrasada - lembra Anisah. - Isso destruiu sua confiana na
justia americana, em nossa liberdade religiosa. Ningum jamais pensaria
em tirar os filhos dos pais por conta das roupas usadas na prtica de
sua religio.
No entanto, o juiz acabou sentenciando em favor da jovem me, ordenando
que o menino fosse devolvido a ela trinta dias mais tarde. A jovem pde
ir encontrar o marido levando o filho, e hoje todos vivem no Egito.
Como diretora do Human Interactions for Religious Understandings, Anisah
ajudou essa mulher sem cobrar honorrios, como faz com outras pessoas
que precisam de auxilio. Ela tambm integra um grupo filantrpico com
sede em Minneapolis, o Sisters Need a Place, que ajuda mulheres
muulmanas e suas famlias em toda a regio do meiooeste, pessoas que
enfrentam violncia domstica, abuso ou problemas de moradia, emprego,
transporte, guarda dos filhos ou divrcio.
Anisah tambm faz palestras sobre o islamismo, inclusive em faculdades.
Por causa de sua converso, muitos acreditam que Anisah tem opinies
conservadoras e se surpreendem quando ela se mostra progressista. Quanto


 212

questo dos direitos dos homossexuais, ela pergunta aos universitrios:
- Por que isso est em questo?
Quando algum aponta que essa unio  pecaminosa ela pede que todos ali
que estejam vivendo com o namorado
ou a namorada levantem as mos. Invariavelmente, mWtoS
se manifestam, e Anisah os declara pecadores tambm.
- Devo dizer que tenho forte senso de justia - eXa confessa. - E uma
boca muito grande. No consigo ficar quieta quando me deparo com alguma
injustia. s vezes me vejo em terrveis encrencas. Mas sou assim.
Acredito que Deus me ps na Terra para ser uma roda que range.
Anisah se habituou a lutar por coisas que muitos tomam por certas.
"Desde cedo aprendi a brigar por aquilo que quero, pois nasci com um
srio impedimento de fala e uma infeco respiratria que, em dado
momento, levou os mdicos a decretarem que eu morreria ainda na
infncia", ela escreve em um de seus sites. Anisah sobreviveu, mas
"durante toda a infncia lutei anualmente contra surtos de infeces
respiratrias e enfermidades crnicas, eventos que interferiam na minha
escolarizao". Ela conta que tambm teve de enfrentar abuso na infncia
e lidar com o horror de ver a me ser espancada.
Entretanto, por volta dos 25 anos, ela se viu sozinha, lutando para
sobreviver ao fim do primeiro casamento. O marido, que havia servido no
Vietn, sofria violentos flashbacks que podiam ser perigosos para quem
convivia com ele. E, como se no bastasse, quando o divrcio  estava
por ser concludo, ela se descobriu grvida.
Anisah recorda:
- Todos tentavam me convencer a abortar, j que em breve eu estaria
divorciada, com uma criana e , claro
para criar sozinha. Enfrentei a presso social e tive minha filha (Cassy).

213

Sozinha em Wyoming com duas crianas pequenas para sustentar, Anisah se
recusou a sentir pena de si mesma, preferindo cuidar dos filhos mediante
a ajuda doo seguro social e se dedicar aos estudos em uma faculdade
local.
- Enfrentei a marginalizao social acarretada por viver do governo
enquanto estudava. Vivamos no ltimo estgio da pobreza e cumpramos
todas as regulamentaes federais impostas s famlias suportadas pelo
programa. Eu me esforava para dar a meus filhos uma infncia "normal",
promovendo atividades de lazer que nos mantinham unidos e proporcionavam
diverso. Ns acampvamos, caminhvamos em trilhas, participvamos de
encenaes histricas...
Foi quando freqentava a faculdade em Wyoming que
Anisah se interessou pelo islamismo.
- Conheci um estudante estrangeiro que fazia intercmbio, um saudita.
Sempre gostei de conversar com pessoas de outras culturas, de aprender
sobre hbitos diferentes dos meus. E, com os sauditas, religio e
cultura so inseparveis. Eu tentava entender sua religio e por isso
perguntei a ele: "Vocs seguem algum tipo de Bblia?". Ele no se
ofendeu. Pelo contrrio, respondeu delicadamente que sim, que seguiam o
Alcoro.
Esse rapaz a ajudou a encontrar uma cpia do Livro
Sagrado na biblioteca, e logo ela se viu imersa na leitura.
O Alcoro mudou sua vida. Anisah sentiu que havia encontrado sua
religio.
- O islamismo  fascinante. Oferece respostas sobre diversidade e
direitos humanos. Fala sobre os direitos dos sem-teto e dos ricos,
sobre os direitos dos aprisionados e dos que os aprisionam. Todos tm
direitos... e responsabilidades. Gosto desse reconhecimento.
Ela tambm se surpreendeu ao descobrir que o Alcoro , em suas
palavras, absolutamente direto, sem preconceito de gnero. Nele, Anisah
encontrou mais informaes sobre Maria, me de Jesus, do que diz ter
visto na Bblia.

214

- Foi revigorante.
Assim, em 1988, Anisah decidiu tornar-se muulmana.
Pouco depois ela se mudou de Wyoming para Portland, Oregon. Quando se
dirigiam para l no carro superlotado, ela e os filhos pequenos passaram
por um grande incndio que havia comeado no Parque Nacional
Yellowstone. Para ela, o incndio foi simblico.
- Passei do cristianismo, antes do fogo, a muulmana, do outro lado das
chamas. Atravessei aquela terra queimada, chamuscada... e ali estava
tudo que eu deixava para trs.
Isso inclua amigos que no apoiavam a converso.
Mas Anisah perseverou, apesar dos esforos da famlia para dissuadi-la
da deciso de tornar-se muulmana. E, sem querer, acabou iniciando uma
tendncia familiar: um dos irmos tambm se converteu e casou-se com uma
muulmana de Cingapura.
Um ano aps a converso, Anisah trocou o Oregon por Nova York, onde
esperava encontrar mais muulmanos. Ela se instalou no Brooklyn, perto
de uma mesquita. Era a poca em que rebeldes afegos lutavam para
expulsar invasores soviticos. Anisah se lembra dos agentes federais
tentando recrutar jovens americanos muulmanos na mesquita, gente que
seria enviada para lutar no Afeganisto contra a Unio Sovitica. Hoje
ela considera amarga ironia que o mesmo governo esteja acusando alguns
desses mesmos homens de possvel envolvimento com o terrorismo.
- Eles foram solicitados a lutar - ela enfatiza. - Fui testemunha ocular
do recrutamento. Para mim, isso  hipocrisia.
Anisah acabou voltando para o Oeste, onde sempre se
sentiu mais em casa, e instalou-se em Bushnell em 1990.
Desde ento vive l.
Afinal, Bushnell tem sido excelente lugar para ela. L,
Anisah conheceu o atual marido, Eric, escultor ruivo que
215

trocou o luteranismo pelo islamismo. Eles se conheceram por causa do
filho dela: o garoto descobriu que a casa de Eric possua o telhado
ideal para servir de tobog durante o inverno, quando havia rampas de
neve de mais de seis metros de altura. Na tolerante Bushnell, o futuro
marido de Anisah no criou problemas, e o telhado ficou conhecido como
rampa de esqui e tren por todos os garotos da cidade. Ele conheceu
Anisah, interessou-se pelo islamismo, e logo a populao local contava
mais um muulmano. Eles se casaram em uma cerimnia islmica.
- No islamismo, no perco meus direitos de nascena quando me caso.
Mantenho meu nome, porque ele  um
direito meu - Anisah explica.
Para ajudar outras pessoas, Anisah criou um servio de promoo de
casamentos, atendendo a pedidos de amigos e familiares. At
desconhecidos j solicitaram sua ajuda, incluindo cristos com
dificuldade para encontrar bons parceiros.
Segundo Anisah, eles esto fartos da falta de locais decentes em que
possam encontrar decentes parceiros de vida.
Muitos dos que receberam a ajuda de Anisah estavam tentando encontrar
companheiros em uma nao predominantemente crist. Vrios se sentiam
isolados, a ponto de nem saberem da existncia de outros muulmanos nas
comunidades do meio-oeste, muito menos muulmanos interessados em
casamento.
- Comecei o servio de promoo de casamentos porque estamos muito
espalhados. Homens e mulheres muulmanos no se socializam, e por isso
um homem solteiro no sabe quando h uma mulher disponvel. - Foi assim
que comeou o servio pela internet.
O servio tornou-se internacional quando muulmanos de todo o mundo se
inscreveram solicitando considerao
para suas propostas.

216


- Fazemos tudo isso de graa. No  um servio pago. Unir casais e
promover o incio de novas famlias no  algo com que eu queira ganhar
dinheiro.
Anisah diz que j promoveu dez casamentos, incluindo o de um
cardiologista da Jordnia que vivia na Costa Leste. Ela conseguiu uni-lo
a uma mulher americana, uma convertida que morava na Jordnia. Hoje em
dia, com mais servios dessa natureza  disposio dos interessados,
Anisah no est mais to envolvida quanto antes. Mesmo assim, orgulha-se
de ter participado da unio de alguns casais.
Anisah reza para que a filha Cassy encontre paz com um bom marido
muulmano e consiga recuperar a custdia da filha. Bushnell  um bom
lugar para receber a visita da neta, ela afirma.
- Trata-se de uma cidade tranqila, onde o tempo parece passar mais
devagar. A populao  amiga e conversa da mesma maneira com conhecidos
e estranhos, mas no se mete na vida alheia. A privacidade  respeitada
e valorizada, bem como a solidariedade.
Anisah acredita ter encontrado um lugar para criar razes.
E  o que est fazendo.

217

PARTE IV

As perseguidas

Muitas muslimah recm-chegadas  Amrica suportaram anos de sordidez em
campos de refugiados superlotados. O que at os mais pobres americanos
consideram garantido, como eletricidade e gua encanada, esses
refugiados esto recebendo pela primeira vez nos Estados Unidos. So
rostos por trs das manchetes que tratam da violncia na Somlia, no
Sudo, na Etipia, na Bsnia, no Afeganisto e no Iraque. Desde a dcada
de 90, mais de 229 mil refugiados muulmanos se asilaram nos Estados
Unidos, influxo dramtico indito nos anos recentes.
Em 1999, 44 por cento de todos os refugiados que chegavam aos Estados
Unidos eram muulmanos, de acordo com o Centro de Recursos e Orientao
Cultural, em Washington, que recebe fundos para auxiliar os refugiados.
Em 2004, a porcentagem estava abaixo dos 33 por cento, mas ainda era
significativamente maior que no final da dcada de 80, quando o
Departamento de Estado reportava que nenhum muulmano havia entrado no
pas. Desde a dcada de 90, entretanto, refugiados muulmanos chegam de
77 pases, de todos os cantos do globo, segundo relatrio publicado pelo
Centro de Recursos para ajudar a informar os assistentes sociais e
outros prestadores de servio. De fato, os novos muulmanos na Amrica
esto mudando cidades


em todo o pas. Por exemplo, com milhares de afegos, iraquianos e
sudaneses instalados em Phoenix, a cidade designou um oficial de polcia
para atuar como elo de ligao com essa comunidade muulmana que cresce
rapidamente.
No to enfatizados pelos noticirios, h tambm aqueles muulmanos que
fogem da perseguio como minoria religiosa. Na ndia, por exemplo,
ocorrem tumultos e confrontos raciais peridicos entre muulmanos e a
maioria hindu. Os muulmanos sempre perdem. Salma, atualmente morando na
Flrida, ainda lembra quando a violncia explodiu na cidade indiana onde
ela cresceu. Fuzilamentos e espancamentos ocorriam em plena luz do dia.
Casas eram incendiadas.
Era como a destruio dos tempos bblicos - ela conta.
As muslimah que solicitam asilo poltico incluem vtimas de violncia
domstica. Tnia conta como agora pede asilo poltico depois de fugir do
noivo violento que a espancava repetidamente antes mesmo do casamento. O
pai havia concordado com o casamento arranjado na sociedade tribal antes
de algum perceber a violncia do noivo. Tnia conseguiu obter uma bolsa
de estudos nos Estados Unidos e, uma vez no pas, recusou-se a voltar.
Diversas muulmanas refugiadas florescem nos Estados Unidos. Elas
ascendem  classe mdia, em especial aquelas que j tinham boa educao.
Senada Alihodzic descreve como ela e o marido chegaram em Erie,
Pensilvnia, levando apenas as roupas do corpo aps ela ter sido
libertada de um campo de concentrao na Bsnia. Antes executivo, o
marido de Senada se viu aceitando todo e qualquer trabalho que surgisse,
enquanto ela cuidava dos dois filhos pequenos do casal em um minsculo
apartamento. Hoje ele atua na rea de alta tecnologia e ela  assistente
social. O casal possui uma casa e dois carros. E esto economizando para
mandar os trs filhos para a universidade.
Refugiados muulmanos dos pases mais pobres do Terceiro Mundo tambm
progridem. As mulheres se beneficiam

220

ainda mais. Incapazes de estudar nos pases de origem, todas esto
aprendendo a ler e a escrever na Amrica.
Mesmo assim, as muslimah refugiadas lidam com o medo constante. Deixam
para trs a violncia dos pases e das casas, mas trazem a ansiedade na
bagagem. Diversas xiitas da perseguida cidade iraquiana de Basra, por
exemplo, tm medo de falar abertamente.
- No Iraque, elas se sentiam constantemente observadas - diz Rosalind
Rivera, do Centro Comunitrio de Refugiados no Arizona. - Elas temem
falar at mesmo diante dos filhos, porque sabem que o que disserem pode
ser repetido na escola (um dos lugares onde se infiltravam os espies de
Saddam).
Um deslize qualquer podia lev-las  priso. Mesmo agora, j nos Estados
Unidos, vrias xiitas de Basra permanecem recolhidas.
Criadas em culturas que enfatizam a submisso feminina, muitas dessas
refugiadas na Amrica aprendem como se colocar pela primeira vez, diz
Rosalind Rivera. Isso pode causar discrdia nas famlias, embora
diversas permaneam unidas.
- Considero minha esposa uma parceira, minha igual
- afirma o detetive Harry Sexton, do departamento de polcia de Phoenix,
designado para trabalhar com os refugiados muulmanos. - Mas no  assim
que pensam os homens de pases como o Afeganisto. Na verdade, as
assistentes sociais americanas foram orientadas quanto a isso no manual
publicado pelo Centro de Recursos e Orientao Cultural: alguns clientes
do sexo masculino reagem desfavoravelmente diante da perspectiva de
trabalhar para uma mulher e precisam de ajuda para essa adaptao.
Mesmo assim, apesar dos considerveis obstculos, as refugiadas muslimah
esto seguindo adiante.

221

28

QUANDO VOTAR  UMA ALEGRIA

Batool Shamil era uma iraquiana orgulhosa exibindo os dedos sujos de
tinta para mostrar que havia votado em
um plebiscito histrico, eleio realizada cerca de 12 mil
quilmetros de sua cidade natal, no sul do Iraque.
Batool mora atualmente nos Estados Unidos, mas queria votar a favor da
tnue e nova democracia no Iraque. Ela j havia realizado a exaustiva
viagem antes, para registrar- se para a histrica eleio de 2005.
Assim, mais uma vez deixava a casa em Phoenix, Arizona, no meio da
noite, para viajar com um grupo de outros refugiados iraquianos, durante
mais de sete horas, para votar em Los Angeles, uma das cidades
designadas para a realizao do plebiscito nos Estados Unidos. Cumprida
a tarefa, todos voltaram ao carro para a viagem de volta.
- No dormimos - ela conta, ressaltando que isso no teve importncia. -
Eu estava muito feliz. No h palavras
para descrever a felicidade que senti.
Batool, que leciona ingls para outros refugiados, no consegue
acreditar que algumas iraquianas que conhece em Phoenix ainda tenham
medo de Saddam Hussein e deixem de votar, apesar de estarem muito longe
de uma possvel retaliao.

- Fiquei bastante perturbada. No sei por que elas no votaram, exceto
por estarem com medo.

Mas elas tambm ficaram envergonhadas, embaraadas, ela aponta, quando a
eleio transcorreu tranqilamente, e a maioria dos iraquianos foi s
urnas, apesar das ameaas de alguns rebeldes.
Batool entende o medo; ele fez parte de sua vida no Iraque. Xiita
muulmana, ela cresceu no sul do Iraque em uma numerosa famlia de nove
irmos e quatro irms. Os xiitas eram maioria que se tornou minoria, ela
diz. Saddam Hussein mantinha ampla rede de espies que observavam os
xiitas para mant-los sob controle.
- No havia casa que no fosse visitada pelos espies de Saddam - ela
conta.
O ento marido enfrentou srias dificuldades. Ele se recusou a lutar com
as foras iraquianas durante a primeira Guerra do Golfo e fugiu do pas.
Acabou em um campo na Arbia Saudita. Depois de a guerra terminar de
maneira desastrosa para o Iraque, ele voltou para casa e teve de
enfrentar intenso escrutnio.
- No tnhamos paz - ela relata. - A situao era to difcil que
decidimos partir. A vida era muito complicada
por l.

Quando chegaram aos Estados Unidos em maro de
1996, Batool tinha 20 e poucos anos. Ela se casou aos 16 com
o primo-irmo e eles tiveram a filha um ano mais tarde.
Quatro anos depois, ela teve um filho.
A vida era difcil na Amrica, e o casamento no sobreviveu. Eles se
divorciaram h cinco anos, e Batool ficou sozinha com os filhos, s
vezes tendo de se dividir entre dois empregos.
Mesmo assim, ela se agarra aos sonhos e conseguiu comprar uma casa de
trs dormitrios e dois banheiros para ela e os filhos. Para Batool, o
lugar  um castelo. Ela se orgulha de poder sustentar os filhos e ainda
acomod-los em quartos prprios. Alm disso, sabe que fez excelente
investimento: segundo estimativas, a casa hoje vale cerca de 110 mil
dlares.

223

Ainda assim, no  fcil ser me divorciada. No vero de 2005, ela foi
demitida do emprego de professora dos refugiados, no Centro Comunitrio
de Refugiados no Arizona, por conta da necessria reduo de custos. Mas
agora o centro est tentando levantar fundos, e ela e outros professores
podem voltar para um novo perodo escolar.
Tambm  um desafio para ela convencer os filhos a aprender sobre duas
culturas. Eles podem viver na Amrica atualmente, mas ela quer que as
crianas tenham conscincia da herana iraquiana.
No entanto, o principal objetivo para os filhos  a universidade. Ela
espera que ambos recebam notas mximas nos boletins. (A filha de Batool
j teve algumas notas regulares, mas at agora o garoto s obteve notas
mximas.) Ela imagina que os dois podero continuar morando em casa
enquanto estiverem cursando a Universidade do Arizona, em Tempe. Batool
j est colhendo informaes sobre bolsas de estudo e outras formas de
ajuda financeira para os filhos.

- Meu sonho  que eles cursem uma faculdade. No Iraque no h nenhuma
chance de as crianas cursarem uma universidade. Estou trabalhando duro.
- Ao mesmo tempo, ela tambm est enviando dinheiro para a famlia no
Iraque, e isso aumenta muito a carga sobre os ombros.
De qualquer forma, ela sabe que tomou a deciso correta quando foi viver
na Amrica: ela e os filhos j vivem melhor na nova casa. Enquanto isso,
a famlia no Iraque enfrenta menos dificuldade graas s contribuies
regulares.
Mais importante, ela diz, os filhos tm chance de progresso e grande
possibilidade de chegar  universidade.

224



29

SENADA: A REFUGIADA QUE
AGORA AJUDA OUTROS


Senada Alihodzic quer ajudar os refugiados recm-chegados e
traumatizados que fugiram da guerra e da perseguio. Atualmente, eles
chegam na Pensilvnia dos cantos mais distantes do globo: Somlia,
Libria, Sudo, Rssia, Ucrnia e Uzbequisto.
Ela sabe que o medo pode ser imenso: voar para os Estados Unidos,
milhares de quilmetros distante de suas casas. Muitos no falam ingls
nem tm qualquer compreenso da cultura americana. Os bens limitam-se s
roupas que vestem. Esto chegando a uma das reas mais frias dos Estados
Unidos: Erie, Pensilvnia, onde as temperaturas mximas durante o
inverno permanecem abaixo do ponto de congelamento, mesmo em meados de
maro.  um choque para muitos refugiados acostumados ao clima do
deserto ou subtropical.
Mas Senada (cuja pronncia  "sonata") est l para dizer; voc vai
conseguir. Eu consegui.
H cerca de 12 anos, ela e a famlia foram removidas de sua cidade, na
Bsnia. Ela estava ento com 20 e poucos anos, era me de uma criana de
4 anos e de outra ainda menor, um beb, quando a guerra comeou em 1992

naquela parte da desintegrada Iugoslvia. Pela televiso, ela j havia visto
a velha Repblica Socialista desmoronar com a exploso da guerra na
Crocia um ano antes. Mas nunca imaginou que o conflito se alastraria e
teria impacto sobre sua famlia.
- Vivamos em paz - ela lembra. - Era uma vida normal. Meu marido,
Nedim, administrava o depsito de um centro de distribuio e eu ficava
em casa, cuidando de nossos filhos. Tnhamos nossa casa completamente
paga, sem nenhuma dvida ou financiamento. Meus sogros construram uma
casa para cada filho. Era uma vida muito boa. E ento, de repente, tudo
mudou. Naquela poca eu no entendi... e ainda no consigo compreender.
Mas a paz s  realmente apreciada quando alguma coisa acontece para
perturb-la. A paz  o padro, um componente da vida diria. Mas quando
a guerra acontece voc comea a pensar em como tinha sorte antes. Com a
paz, no  preciso fugir de todas aquelas bombas.
Senada decidiu voltar para a casa da me na vizinha Eslovnia, rea que
havia escapado da guerra civil. Ela no queria deixar o marido, mas o
beb de um ano estava doente e no havia medicamentos para ele na
Bsnia.
O marido dela ficou para proteger a casa e sua famlia. Mas as foras
srvias comearam a desapropriar muulmanos na Bsnia.
- Eles no escolhiam. Atacavam todos os homens entre 16 e 70 anos -
conta Senada.
Na poca foi um grande choque. Por dcadas, cristos e muulmanos haviam
vivido lado a lado e em paz. Sob Tito, a Iugoslvia comunista banira a
religio, mas os lderes fingiam no saber que o povo freqentava
servios religiosos. (Senada era considerada boa aluna e foi convidada a
integrar um acampamento de jovens que treinava comunistas. Quando
recusou o convite, alegando que ia  mesquita


 226

semanalmente e que, por isso, no poderia se ausentar, os
administradores da escola argumentaram que, de qualquer maneira, ela
poderia ser comunista. Mesmo assim, ela declinou.)
Senada diz que na antiga Iugoslvia cristos e muulmanos se
respeitavam. Ela se lembra de ter aprendido sobre o catolicismo com um
padre na cidade de Sanski Most, na Bsnia, onde a av ainda vivia e onde
ela conheceu Nedim. Na verdade, a av muulmana a incentivou a ir 
igreja: queria que a neta aprendesse sobre o cristianismo como forma de
homenagear amigos e vizinhos cristos.
- Minha av era religiosa. Ela enfatizava o amor, o respeito e a sade e
repudiava a mentira e o roubo.
Cristos e muulmanos no s conviviam, mas se ca savam.

Mesmo depois da guerra, meu irmo se casou com uma catlica. Meu outro
irmo se casou com uma jovem
srvia, crist ortodoxa.
Muulmanos iugoslavos eram mais seculares por conta dos anos passados
sob o domnio comunista. Muulmanos e cristos eram at parecidos
naquela parte da Europa; as mulheres muulmanas no cobriam os cabelos
nem usavam roupas que as distinguissem de outras mulheres.
At hoje, Senada no faz as cinco oraes dirias que a religio requer.
E nem acredita que deva faz-lo. Ela se lembra da av aconselhando-a a
concentrar-se no ponto central do islamismo: ser respeitoso e amoroso
com os outros, em vez de seguir regras sobre como e quando orar.
Por isso, foi um choque para ela e para outras muulmanas iugoslavas
quando os srvios comearam o ataque, supostamente para vingar o domnio
do Imprio Otomano Muulmano centenas de anos antes. Aqueles a quem
consideravam compatriotas e parceiros passaram a ser atacantes,
matadores. Os tanques, as bombas e outros equipamentos


 227

militares pelos quais os bsnios pagaram como parte do sistema de
defesa do pas agora eram utilizados contra eles mesmos.
Seu marido se viu diante de soldados armados. Estava entre aqueles
capturados em maio de 1992. O destino: um campo de concentrao cercado
por arame farpado. A cabea foi raspada. Ele perdeu mais de vinte
quilos.
Quando a Cruz Vermelha internacional encontrou esse campo de
concentrao seis meses mais tarde e exigiu a libertao dos
prisioneiros, ele estava magro e doente. Ele e outros prisioneiros
libertados foram levados para a Crocia. Senada ficou chocada quando o
viu naquele estado. Mal pde reconhec-lo.
Durante o perodo de recuperao, a Cruz Vermelha deu a Nedim a opo de
deixar a Bsnia e recomear a vida em outro pas. Como sentia que no
tinha nada para o que voltar na Bsnia, quis saber que pases o
aceitariam com a famlia. Havia apenas uma alternativa: Estados Unidos.
Senada e a famlia chegaram em Erie em setembro de
1993. Como explica:
- Eles simplesmente nos enviaram para c. Ningum escolhia realmente
para onde ia.
Para piorar a situao, o inverno de 1993-1994 foi um dos mais frios que
Erie jamais enfrentou. Senada, que havia crescido na Eslovnia, onde
nunca nevava, ficou perplexa com o vento gelado e as baixssimas
temperaturas da nova cidade.
- Cheguei a pensar, meu Deus, estou na Sibria!
Alm disso, ainda havia o estresse de comearem uma nova vida. Aos vinte
e poucos anos de idade, ela se sentia constrangida por no falar ingls,
mas estava disposta a aprender. O incio foi simples: lia em voz alta os
anncios dos jornais. Tropeava na pronncia das palavras, mas no
desistia.

228


- Meu marido ria de mim - ela conta. Hoje, Senada tem a recompensa: fala
ingls fluentemente.
Nesse mesmo perodo, Nedim comeava em um novo emprego. O
ex-administrador via-se fazendo pequenos trabalhos em uma fbrica de
plsticos e em uma padaria. Trabalhava muito por pagamento irrisrio.
Cada centavo contava. A famlia precisava mobiliar o apartamento,
comprar comida, roupas e produtos de higiene pessoal.
Voc chega sem nada - relata Senada. Ela e o marido tambm tinham de
economizar preciosos dlares para comprar um carro, veculo que
facilitaria a vida do marido no trabalho. Por um tempo, ele teve de
esperar pelo nibus ou pela carona de outros refugiados que trabalhavam
na mesma fbrica. Um carro daria a ele maior flexibilidade e maiores
chances de encontrar um emprego melhor, mais bem remunerado. Eles
economizaram durante um ano inteiro e, com sacrifcio, conseguiram
financiar um carro usado. Aps certo tempo ele conseguiu encontrar um
emprego que ajudou a coloc-los na confortvel posio de classe mdia.
Hoje, Nedim  um funcionrio tcnico e ajuda a preparar motores
eltricos para uma pequena companhia contratada pela General Electric.
Ao mesmo tempo, o marido de Senada tentava recuperar-se do trauma
causado pela permanncia no campo de
concentrao.
Ento, em 1994, Senada descobriu-se grvida do terceiro filho.
- Fiquei muito deprimida. Havia tanto em que pensar, tantas
preocupaes... E eu engravidei.
O marido a tranqilizou garantindo que tudo ia ficar bem e que no futuro
eles se sentiriam gratos por mais um filho. Ele estava certo. Hoje ambos
adoram a filha caula, agora com 10 anos.
Nedim, trabalhador esforado, encontrou um emprego
melhor, e Senada tambm se dedicou  carreira.

229


Foi sua bondade que a levou ao emprego atual. Depois de se esforar
muito para aprender ingls, ela conseguiu ajudar outros refugiados
bsnios traduzindo em consultrios mdicos, agncias do governo e
escolas. Membros da equipe do Instituto Internacional de Erie, entidade
sem fins lucrativos, notaram seu trabalho voluntrio e a convidaram para
trabalhar em troca de um salrio. A agncia ajuda refugiados a se
adaptar aos Estados Unidos, auxiliando-os na busca por uma casa,
indicando aconselhamento, empregos e at ajudando a comprar alimentos.
- Somos uma agncia de readaptao - Senada explica. - Ajudamos os
refugiados com tudo o que eles precisam para comear uma nova vida. -
Senada comeou trabalhando no Instituto 24 horas por semana, horrio
perfeito para uma me. Atualmente, trabalha l perodo integral.
Ela  grata pelo trabalho. Hoje, com duas fontes de renda, a famlia
garante uma vida confortvel.
Senada julga seu trabalho importante, crucial para aqueles que recebem a
ajuda. Ela sabe como  ser refugiada e quer ajudar os recm-chegados 
Amrica. Sente-se particularmente maternal com um grupo que chama de
"meninos perdidos do Sudo".
So garotos rfos que sobreviveram a bombardeios, tiroteios e at
jacars nas margens dos rios que atravessaram para fugir da violncia do
pas. Os meninos acabaram em campos de refugiados antes de serem levados
a uma nova vida nos Estados Unidos.
- Eles esto indo muito bem. Por serem jovens, aprendem rpido o ingls.
Alguns esto na faculdade; outros comearam a trabalhar, ela conta.
Ajudando os meninos perdidos e outros refugiados, Senada sente que est
dando algum tipo de retribuio ao pas que auxiliou sua famlia.
No que a vida na Amrica no tenha tido momentos
de amargura. Ela nunca mais viu o pai, que faleceu em 1997.

230


- Foi infarto. Ele era jovem, tinha apenas 56 anos quando o perdemos.
E Senada se preocupa com o fato de os filhos estarem deixando de
praticar adequadamente sua f. Erie  muito pequena para ter uma
mesquita que pratique o estilo europeu do islamismo, e a famlia no
comparece s preces da sexta-feira. Senada ensina aos filhos sobre o
islamismo em casa.
A famlia tambm se relaciona com outros bsnios. Senada no quer que os
filhos cresam sem ter conhecimento sobre sua herana. Por isso eles
vo, por exemplo, ao campo de futebol bsnio em Erie. Trata-se de um
evento anual.
- Eles jogam futebol, e depois fazemos uma festa.
Como muitos refugiados, ela est disposta a lutar para sobreviver na
Amrica pelo bem da famlia. O filho mais velho tem 17 anos e estar
pronto para ir  faculdade em mais um ano. O mais novo est concluindo o
ensino fundamental e tem boas notas, e a filha est na quarta srie.
- Posso sustentar meus filhos. Aqui eles podem ter uma vida melhor, em
especial nesse momento em que nosso pas
est destrudo pela guerra.
Senada se sente feliz pelos filhos serem totalmente americanos e
pensarem como americanos. Eles tm aquela atitude
confiante de quem pode realizar os sonhos e as ambies.
Nesse vero, Senada vai levar os filhos  Bsnia e visitar a me na
Eslovnia. Finalmente, vai poder rever a famlia. Ser a primeira vez
que ela voltar aos Blcs desde que a guerra mudou sua vida. Ansiosa,
espera para rever as cidades em que cresceu e quer que os filhos tenham
a oportunidade de experimentar a vida que ela conheceu.
No que Senada queira retomar os anos dourados na
Bsnia, quando podia ficar em casa com os filhos e a vida
parecia ser muito mais fcil.

231


Jamais terei aquele tipo de vida de novo - ela re conhece.

Senada est determinada a permanecer na Amrica.
-  um bom motivo para me sacrificar. Sei que meus filhos tero uma vida
melhor.

232


30
A JORNADA DE FARIDA DE VOLTA
 LIBERDADE

Fanda Azizi devia estar vivendo no novo Afeganisto,
libertado pelos Estados Unidos do opressor Talib. Mas ela se viu
recorrendo ao uso da burca em Cabul e tentando escapar do marido
violento que exigia sua completa submisso e permanncia no Afeganisto.
Ele j lhe havia tomado os dois filhos pequenos antes. Em ltima
anlise, conseguiria uma ordem judicial de uma corte afeg para mant-la
com ele e os filhos. E Farida, que havia aparecido em Washington com o
presidente e a esposa, a sra. Bush, e com a senadora Hillary Rodham
Clinton, estava encurralada. O governo americano no podia ajud-la,
porque ela ainda era cidad afeg e no se mudara definitivamente para
os Estados Unidos. Ento, Farida fez o que havia sido forada a fazer
por quase um quarto de sculo, desde que os russos invadiram o
Afeganisto em 1979. Sobreviveu dos prprios recursos.
Aos 33 anos, ela conseguiu uma carona at a fronteira paquistanesa e
chegou  liberdade com os dois filhos pequenos. A burca que a cobria da
cabea aos ps serviu para alguma coisa, afinal. Com os meninos
escondidos sob o amplo vestido longo e grosso, os guardas da fronteira
no a



reconheceram como a esposa fugitiva que tentava tirar dois filhos do
pas.
Hoje, eles esto seguros em Arlington, Virginia. Os meninos voltaram 
escola e Farida  novamente conselheira especial em Washington para
assuntos do Afeganisto e do Oriente Mdio, servio prestado por meio de
sua filiao ao grupo Vital Voices Global Partnership, entidade sem fins
lucrativos com base na capital americana. Tambm  membro e fundadora do
grupo Policy Group on Afghan Women, que realiza lobbies no Congresso
americano pelo apoio direto s mulheres afegs. E ocupa lugar no
conselho do Tahirih Center Justice, a mesma agncia legal que a ajudou
a obter asilo poltico nos Estados Unidos.
H muito trabalho a ser feito. Como Farida disse recentemente em uma
edio do jornal Voice of America, a melhor maneira de promover a paz e
o progresso econmico no Terceiro Mundo  fortalecer as mulheres desses
pases, educando-as e empregando-as.
- Se voc investe nas mulheres, est investindo na famlia inteira - ela
afirma.
Farida reconhece a necessidade no pas de origem. O
Talib pode ter sido derrubado, mas o Afeganisto ainda 
repressor em relao s mulheres.
- No  s o Talib.  o estilo de vida, a cultura, a vida diria. Tem
sido assim h um sculo. No Afeganisto, as
mudanas ocorrem muito devagar.
Mesmo assim, isso no significa que Farida vai desistir.
De jeito nenhum. Ela est acostumada a lutar.
Filha de proeminente famlia afeg, nos primeiros anos ela teve
riqueza e conforto. O pai era mdico do Exrcito do Afeganisto. Certa
vez, ela descreveu a um reprter do Washington Post como cresceu em
bases militares cercada pela fragrncia de narcisos e flores de
laranjeira. A famlia fazia piqueniques e freqentava os teatros e
concertos. Tudo

234


acabou em 1979, quando a Unio Sovitica invadiu o 1o. Os soviticos
bombardearam o pas. Tanques
tropas inimigas ocupavam as ruas. Apavorada, a famlia
ide Farida fugiu para os campos de refugiados no Paquisto
e acabou morando em barracas.
- Eu tinha 9 anos ela lembra. - Perdemos o ano escolar inteiro. No
incio, tudo era muito estranho. No podamos sair; no podamos falar a
lngua. At a comida era estranha. Tnhamos pouca gua e nenhuma
eletricidade.
Mesmo assim, a famlia teve de se ajustar s duras condies, j que a
estada no pas estranho se estendeu por anos. O pai dela tratava
refugiados gratuitamente, enquanto a me enfatizava a necessidade de
educar as crianas. Um dos irmos de Farida conseguiu um emprego e levou
a famlia para uma casa de um quarto, com piso de concreto.

Pelo menos tnhamos um teto sobre nossas cabeas

- ela conta.
Havia at uma bomba que fornecia gua corrente duas vezes ao dia, quando
a gua era liberada. Melhor ainda, Farida foi  escola e chegou a uma
universidade improvisada para mulheres. Queria estudar medicina, como o
pai.
- Queria ser mdica.  uma profisso bastante honrada. Mdicos e
professores so protegidos pelo povo, porque ajudam a comunidade no
exerccio de suas profisses.
Mas na rstica universidade, ela e outros alunos tinham
muito pouco.
- No havia instalaes. Laboratrios, biblioteca, equipamento para
fotocpias, livros... Para compensar, era preciso tirar proveito mximo
das aulas. - Anotvamos tudo - ela recorda.
Nas nem assim Farida pde ir adiante. Lderes religiosos conservadores
(os Mujahideen) no campo de refugiados decidiram que a universidade no
poderia continuar

235


funcionando. Decretaram que as garotas no deviam ir  escola e que
educar as mulheres no condizia com o islamismo. O pai de Farida tentou
protestar. Sabia que o Alcoro no proibia as mulheres de estudarem e
queria que a filha continuasse freqentando a escola.
A me, que no era educada, mas podia recitar o Alcoro, tambm
protestou.
- Mas a sociedade no os apoiava - Farida comenta com tristeza. - No
campo de refugiados, no se pode controlar o que se quer fazer. - Em
especial depois de o Mujahideen ter invadido a escola, portas e janelas
passaram a ser mantidas fechadas. At os guardas do prdio foram
fuzilados. A universidade logo foi fechada tambm.
Mais tarde Farida se casou com um ex-oficial do Exrcito afego, marido
escolhido pelos pais. Foi um casamento arranjado. Ele era um homem bom,
mas havia sido gravemente ferido por uma bomba e, incapacitado, tinha
poucas habilidades alm das militares. Todos os homens no campo de
refugiados eram desempregados, mas Farida nem pensou em recusar o
casamento. Em sua cultura, as mulheres deviam concordar com tudo, e isso
estava arraigado em seu modo de ser.
- No queremos desrespeitar a famlia. Por isso, as mulheres se
sacrificam.
No entanto, dessa vez, no incio da dcada de 1990, os russos haviam
partido, e o novo marido decidiu que eles voltariam para a capital,
Cabul. Ambos retornaram ao Afeganisto levando grandes esperanas, mas
logo foram desapontados. A guerra havia explodido entre as diversas
tribos e faces que tentavam ocupar o espao deixado pelos soviticos.

- Havia fogo pesado - lembra Farida. - Fiquei apavorada. - Ela chegou a
contar aproximadamente 70 foguetes
perto de sua casa, em Cabul. Havia um buraco na parede

236


da sala de estar, e o cho tremia cada vez que um foguete aterrissava
perto dali.
Como muitos outros, Farida e o marido sobreviveram abrigando-se no
subsolo, em meio ao esgoto aberto. Pessoas adoeciam por conta do frio e
das condies subumanas. O lugar era imundo, ftido. Farida ouviu uma
mulher sendo violentada. Aps uma semana vivendo dessa maneira, ela e o
marido decidiram que no havia alternativa alm de voltar ao Paquisto.
Deixaram o abrigo no meio de uma madrugada menos turbulenta e caminharam
por horas.
- Era inverno, e nos sentamos congelar, ela relata. Por mais de oito
horas, os dois caminharam at alcanarem uma rea nos limites de Cabul,
onde no havia bombardeio. Uma semana mais tarde houve o cessar-fogo, e
eles aproveitaram para embarcar em um nibus para o Paquisto. No foi
fcil, porque havia muitos fugitivos e poucos coletivos, mas finalmente
conseguiram entrar em um veculo com um nico assento vazio. O casal o
dividiu.
- Meu irmo estava procurando por ns. Quando chegamos, ele se mostrou
espantado por ainda estarmos vivos e nos recebeu tomado por uma mistura
de alegria e choque.
Farida trabalhou por algum tempo como professora de ingls. Mas aqueles
eram tempos difceis; o marido no encontrava emprego, e eles mal tinham
o que comer. Ento, Farida descobriu que estava grvida. Como no tinham
dinheiro para custear sua estada no hospital, ela vendeu as jias.
Farida deu  luz o primeiro filho sem nenhuma anestesia.
- Tive de suportar a dor at o beb nascer - ela diz com simplicidade.
Duas semanas mais tarde, ambos retomaram a busca
por um trabalho. O marido conseguiu uma vaga na

237


construo civil, onde esteve por trs dias, e ganhou $6. Mas
eles no tinham comida.

- No comemos durante trs dias. Tomvamos ch com acar. Pelo menos eu
tinha leite para amamentar o beb.
A Norwegian Church Aid (NCA) ofereceu a ela um emprego, que consistia em
orientar e amparar mulheres afegs, e mais uma vez Farida se disps a
voltar ao pas destrudo por sucessivas guerras. O salrio era generoso,
suficiente para sustentar a famlia com conforto. Nunca mais passariam
fome, e ela ainda estaria ajudando as compatriotas, ensinando-as a ler e
orientando-as para que conseguissem trabalho.
Mas novamente o destino interveio. Em 1996, quando
ela retornava a Cabul, o Talib tambm chegava. Houve mais
bombas e minas terrestres, e mais uma vez a famlia se viu

fugindo.

Trs dias e trs noites mais tarde, l estavam eles de novo em solo
paquistans, para alvio do supervisor da NCA. Ele
sabia que Farida conseguiria voltar.

A agncia props uma nova estratgia: Farida retornaria ao Afeganisto
em segredo. Com o Talib banindo os colgios femininos, ela ajudou a
instalar escolas secretas em algumas casas, e os professores eram pagos
pela NCA.
- Nas provncias, a situao no era to estrita, e podamos fazer mais
- ela conta. Farida tambm conseguiu ajudar as mulheres da zona rural
com cuidados relacionados  sade e sugeriu maneiras pelas quais elas
poderiam ganhar dinheiro para sustentar as famlias. Ela recebeu ameaas
de morte, mas seguiu adiante, mesmo depois de breve licena-maternidade
para dar  luz o segundo filho.
Ento, Farida foi mandada para a Universidade Eastern
Mennonite, na Virgnia, para um programa de treinamento
de trs meses sobre construo da paz.

238

- A diferena foi enorme. Cheguei aos Estados Unidos
nenhuma esperana de receber ajuda, mas descobri que
no estvamos sozinhas no nosso sofrimento.
Revigorada, ela retornou primeiro ao Paquisto e depois ao Afeganisto,
onde foi prontamente visitada pelo
J.Zb, que exigia saber o motivo da volta. Ela disse:
- Este  o meu pas e aqui  meu lugar.
Ela se sentia compelida a ajudar.
- Vi como as mulheres precisavam de ns. L, qualquer pequena poro de ajuda significa muito, faz diferena para aquelas
mulheres.
Um evento que sustentou a convico de Farida foi ver uma mulher dar 
luz sozinha, porque no havia mdicos ou clnicas. A mulher era
hipertensa e no conseguiu empurrar o beb para fora.
- Ela morreu diante dos meus olhos. Podia ter sido salva. No consegui
manter a calma. Preciso ter a capacidade
de ajud-la e a outras mulheres como ela.
Mas o Talib no a deixava em paz, e at no Paquisto
os membros a perseguiram e ameaaram. Um oficial disse
a ela:
- Voc sabe que  muito fcil mat-la e a seus filhos. Felizmente,
Farida retornou com os dois filhos pequenos ao Ocidente para mais uma
temporada de treinamento na Universidade Mennorute e dessa vez pediu
asilo poltico. O Tahirih Justice Center, que advoga pelos direitos
humanos de mulheres e crianas fugitivas, vtimas de abuso e violncia,
apresentou uma petio legal em nome dela. Em 2001, o asilo foi
concedido. Foi uma grande vitria, mas logo Farida teve de se preocupar
com a prpria sobrevivncia e a dos filhos.
- Comecei a procurar emprego em qualquer lugar: lojas, restaurantes,
escritrios. Ningum me chamava.

239


Ela conseguiu trabalhar alguns dias em uma clnica de repouso e no se
queixava por ter de limpar banheiros e outras instalaes. Todavia, como
as mulheres muulmanas devem observar o pudor, ela no podia despir e
banhar os pacientes idosos, por isso se sentiu forada a pedir demisso.
Mas o destino interferiu, dessa vez em seu favor, O grupo Vital Voices
Global Partnership a contratou para ajudar
mulheres afegs e de outros pases do Oriente Mdio.
Graas ao salrio fixo, Farida comeou a mandar dinheiro para a famlia
e o marido, que ainda estavam em campos de refugiados. Ela havia
apresentado pedido formal de asilo em nome do marido, mas depois do 11
de Setembro o governo americano congelou o nmero de refugiados aceitos
pelo pas, em especial homens do Oriente

Mdio.

A carreira se desenvolvia bem. Farida ajudou a aconselhar a
primeira-dama, Laura Bush, sobre as condies das mulheres afegs, e a
sra. Bush usou as informaes por ela fornecidas para um pronunciamento
no rdio. Farida apareceu com o presidente e a esposa, a sra. Bush,
quando ele assinava uma doao para ajudar mulheres afegs. Tambm
trabalhou com a senadora Hillary Rodham Clinton e outros lderes no
Congresso.
Por outro lado, o marido ia sendo dominado pela depresso, e Farida
prometeu visit-lo. Com os filhos, ela passou um ms no Paquisto,
aproveitando as frias escolares. No entanto, quando anunciou que
pretendia voltar aos Estados Unidos para que as crianas pudessem ter
uma vida melhor, o marido se rebelou. Queria a famlia a seu lado.
Alegando que a vida era intil, ele dizia que no poderia viver sem a
famlia. Farida pediu pacincia explicando que os documentos para o
asilo poltico nos Estados Unidos tramitavam devagar, que teriam
desfecho favorvel, mas era intil. Ele ficava mais aborrecido a cada
dia e passou a

240


dizer  esposa que as pessoas falavam coisas ruins a seu respeito.
Acusada de ter esquecido a cultura e de no viver de
acordo com as regras islmicas, ela ainda assim tentou argumentar com o
marido.
- Tenho emprego estvel.  um trabalho digno e respeitoso. Estou
ajudando as pessoas e construindo um futuro para os nossos filhos.
Ele se recusava a ouvi-la. Em um gesto extremo, decidiu fugir com os
filhos.
- Ele sentia que tinha de assumir o controle - conta Farida, que voltou
para a Amrica sozinha.
A preocupao com os filhos a dilacerava. Mas ao menos o marido a
deixava conversar com os meninos por telefone e aps trs meses passou a
se queixar de dificuldades para sustent-los. De acordo com seus
relatos, os filhos choravam por cereal e leite, alimentos com que se
haviam habituado na Amrica. S ento ele permitiu que a mulher fosse
busc-los.
Para isso, Farida teve de esperar pelas frias. Infelizmente, no vero,
quando ela teve tempo para ir ao Paquisto, o marido havia mudado de
idia. Recomeariam a vida no novo e livre Afeganisto. Farida
protestou, mas ele confiscou seu passaporte e o dos filhos,
escondendo-os. Sem ter como fugir, ela o acompanhou para Cabul.
O irmo dela tentou interferir, mas o marido estava implacvel. O
momento exigia medida extrema: ela decidiu
que teria de fugir.
Quando reconheceu uma boa oportunidade, Farida saiu de casa levando os
dois filhos, indo refugiar-se na casa do
irmo. Sabia que o marido iria procur-la, o que realmente aconteceu, mas
ela tinha um plano. Quando o marido e alguns amigos foram esmurrar a porta
da casa do irmo de Farida, ela e os filhos saram pela porta dos fundos e pularam


241


o muro lateral. Caram no quintal da casa vizinha, onde conseguiram
abrigo naquela noite. No dia seguinte, Farida e os filhos conseguiram
chegar  casa de um ex-colega da NCA e por fim puderam contar com um
local seguro em que se hospedar.
L, ela adoeceu e, com febre alta, comeou a delirar. Tinha certeza de
que iria morrer. Farida sonhou com um continer cheio de pequenos
pedaos de papel e em cada um deles estava escrito: "Todos os nossos
oradores esto com voc"
- Quando acordei, no havia dor - ela conta. - Rezei agradeci a Al.
Era semana de Ao de Graas, e, por uma feliz coincidncia, a senadora
Clinton estava em Cabul para ajudar as tropas americanas na celebrao
da data. Ela tentou ajudar Farida, que foi obrigada a fugir do
Afeganisto porque o marido havia conseguido uma ordem judicial para
mantla no pas com os filhos.
Rina Amiri, da ONU, e alguns amigos nos Estados Unidos pediram ao
Departamento de Estado americano para que o processo de Farida fosse
agilizado. Mais tarde, ela foi informada por um oficial do Departamento
de Estado que havia tanta gente intercedendo por ela, tantos pedidos
para que o processo fosse agilizado, que lev-la de volta  Amrica com
os filhos havia se tornado prioridade mxima.
Atualmente, Farida vive na Virginia com os filhos. Os meninos perderam
um ano escolar. Ela perdeu todos os bens, porque o senhorio a despejou
por falta de pagamento e se desfez de todas as suas coisas enquanto ela
era mantida cativa no Afeganisto. Mas Farida conseguiu recuperar o
emprego no Vital Voices Global Partnership. Hoje ela possui um novo e
agradvel apartamento na Virginia e se sente abenoada por poder dar uma
vida melhor aos filhos. Ela tambm realiza um trabalho gratificante, que
inclui abrigar em seu apartamento outras muulmanas em dificuldades.

242

E,  claro, continua trabalhando para levar a paz ao Afeganisto.
- Foram 25 anos de guerra - ela observa. - Como se pode ter alguma
estabilidade aps tanto conflito?
Farida relata que muitas pessoas no Afeganisto no sabem mais como
resolver disputas de maneira pacfica.
- Elas se acostumaram a falar empunhando uma arma.

243

31

TNIA, A FUGITIVA

Por anos, a famlia de Tnia manteve uma existncia de sacrifcios em um
campo de refugiados, em um pas
estrangeiro, tentando manter a esperana de um dia ver acabar a
violncia no pas de origem. Fugir das guerras e da brutalidade era uma
condio comum a milhes de africanos e asiticos. Finalmente, a famlia
de Tnia recebeu a notcia de que poderia voltar para casa. A oligarquia
fora derrubada. Havia promessa de paz.
Para chegar em casa, a famlia de Tnia percorreu centenas de
quilmetros por entre montanhas e terras ridas. Reencontraram parentes
que no viam fazia anos. O retorno ao lar foi realmente um blsamo.
Mas logo a reunio se transformou em pesadelo para Tnia, hoje com 23
anos. Um dos irmos do pai, que havia permanecido no pas, recuperou
rapidamente o tempo perdido com o irmo, ausente por tantos anos. Os
dois haviam tido filhos, e um ms aps voltar para casa o pai ouviu do
irmo a sugesto de que as duas famlias fortalecessem seus elos por
meio do casamento: Tnia se casaria com o filho dele, e um de seus
irmos desposaria a filha do tio.
Em boa parte dos Estados Unidos, o casamento entre
primos-irmos  ilegal, mas no pas de Tnia, um dos mais
pobres do planeta, costumes tribais tm grande fora.

famlias se casam entre si h sculos, e a tradio  mantida at hoje.
Dessa forma, a proposta no foi recebida com estranheza. Pelo contrrio,
era uma idia absolutamente plausvel. Ainda hoje, pais como os de Tnia
continuam arranjando casamentos para os filhos, em especial s filhas,
pois  considerado sbio que escolham o marido das filhas, e  uma
desonra para a famlia quando a filha no acata a escolha. O pai de
Tnia pensou na oferta e concordou com ela, certo de que os filhos do
irmo seriam bons para os prprios filhos. Ele j havia conhecido os
sobrinhos e estava impressionado com eles.
Tnia tambm conheceu o futuro marido e teve a impresso de que ele era
aceitvel e at agradvel. E era da
famlia, certo?
- Ele parecia uma boa escolha, mas... - Ela hesita. - Sabe como algumas
pessoas mudam?
Foi o que aconteceu com ela: o homem com quem se casaria se mostrou
completamente diferente aps acertado o compromisso. Cerca de doze anos
mais velho que ela, de repente ele trocou a polidez pela arrogncia e
passou a adotar atitudes abusivas e controladoras to logo o compromisso
foi tornado pblico. Na opinio do noivo, antes mesmo do casamento, a
mulher era sua propriedade, para administrar como achasse melhor, e isso
inclua castigos fsicos.
- Ele me bateu vrias vezes - admite Tnia.
Na primeira vez, ela ficou aturdida. A agresso foi acarretada por algo
to pequeno que ela nem consegue se lembrar. Os tapas foram progredindo
para surras e ameaas de morte contra ela e famlia caso Tnia no
atendesse s exigncias dele. Por tradio do pas, a opinio pblica
estaria do lado dele. Havia casos anteriores de mortes em defesa da
honra, quando membros de uma famlia julgavam ter sido desonrados.
Tnia estava perplexa com o homem em quem havia
confiado.

245

- Nunca pensamos que a famlia fosse daquele jeito, to violenta - ela
conta. Afinal, eram parentes de verdade,
e a famlia de Tnia no era violenta.
Ele tambm vivia dando ordens.
- Ele me dizia: "Voc  minha propriedade. Tem de fazer o que mando"
Quando Tnia decidiu que no poderia ir adiante com os planos de
casamento, o irmo, noivo da irm desse homem, comeou a ter dvidas
sobre seu futuro. Ela tambm no era exatamente como ele havia
imaginado, O desconforto dos dois irmos em relao aos futuros esposos
s piorava com o passar dos dias e das semanas, at que, de repente,
ambos se deram conta de que aquela era uma situao da qual no podiam
sair. O rompimento de um compromisso de casamento  sinal de desgraa, e
a outra famlia fazia ameaas caso as unies no acontecessem.
Tnia no se imaginava casada com aquele homem. Afinal, havia concludo
o colgio, uma raridade em um pas em que as mulheres ainda hoje
permanecem analfabetas, e estava ansiosa para comear a universidade.
Tivera a oportunidade rara de estudar agricultura nos Estados Unidos e
poderia aprender sobre tcnicas agrcolas em um seminrio de trs
semanas. O programa havia sido criado de forma que, mais tarde, ela
pudesse transmitir a outras pessoas do pas tudo que nele aprendesse.
Era uma grande oportunidade para ela, o incio de uma boa educao e de
virtual garantia de emprego para quando voltasse para casa. Mas havia um
grande problema: o noivo se recusava a deix-la sair de seu campo de
viso e no queria nem ouvir falar em eventual viagem  Amrica.
Nesse ponto do relato, Tnia revela:
- Eu o odiava.
Tnia decidiu que no poderia mais suportar a violncia fsica e o
autoritarismo. Diria a ele que no podia se casar,

246

romperia o compromisso e depois seguiria adiante com os planos de
vida.
Mas ela no se sentia segura. E estava amedrontada. E se ele se vingasse
na famlia? Tinha de haver uma maneira melhor de se livrar dele sem pr
em risco a segurana da famlia.
Foi ento que ela teve a idia de pedir desculpas ao noivo e declarar-se
confusa. Tnia alegou que seria melhor para ela ir para a Amrica, ter
um tempo para pensar em tudo e dirimir as dvidas.
- Dessa forma, eu poderia fingir que sentia saudade
dele.

Ela acrescentou ainda que ambos teriam tempo e privacidade para pensar
no que queriam com o casamento. Seriam apenas trs semanas, e depois ela
voltaria.
Foi um alvio quando ele concordou com o plano.
Quando Tnia procurou a famlia para informar o que pretendia fazer, o
irmo concordou com ela. Tambm havia tomado uma deciso parecida e, em
breve, "desapareceria" para no ter de se casar.
Finalmente, Tnia embarcou em um avio para os Estados Unidos para
apresentar-se no curso. Foi em uma dessas aulas que ela conheceu a
ativista de direitos humanos Farida Azizi, uma mulher que havia
enfrentado inmeras e terrveis dificuldades no Afeganisto. Farida deu
esperana a Tnia.

Aps ouvir sua histria, Farida deu uma sugesto que mudou a vida de
Tnia: por que no ficar nos Estados Unidos e pedir asilo poltico?
Tnia estaria livre de qualquer abuso. Na poca, Farida integrava o
conselho do Tahirih Center, grupo de direitos civis com sede em Virginia
que representava mulheres refugiadas e pobres. Ela levou o caso de Tnia
ao conselho e o centro aceitou defend-la.
Tnia est ansiosa para construir a nova vida nos Estados Unidos e
procura por um emprego.


247



Fao qualquer coisa - ela diz.
Seu ingls  bom, bem como as perspectivas. Ela acredita que vai acabar
encontrando alguma colocao.
Mas  com a famlia que Tnia se preocupa. Por essa razo, no quis usar
o verdadeiro nome neste livro. Ela teme que a publicao de sua histria
enfurea ainda mais o noivo e a famlia. O medo no  injustificado.
Depois da fuga e do desaparecimento do irmo, a famlia e os amigos do
tio estiveram na casa do pai dela. Eles exigiam saber sobre o paradeiro
de Tnia e do irmo. O noivo de Tnia e outros homens vasculharam a casa
e ameaaram violncia maior caso os dois no retornassem.
- Quando telefonei para casa, minha me estava chorando. Foi horrvel -
ela conta.
O ex-noivo ainda exige seu retorno. s vezes, Tnia se sente tentada, s
para ajudar a famlia, mas logo decide que
no pode voltar.
- Acredito que seria morta. Alm disso, j sofri demais. No quero mais
sofrimento.

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32
DEMAN: SALVA DOS BOMBARDEIOS -
E DE SADDAM

Deman Zubar, uma curda do norte do Iraque, tinha apenas 11 anos quando
os bombardeios comearam. Os avies passavam muito perto do vilarejo
curdo e jogavam bombas em uma cidade prxima, onde viviam familiares de
sua me. Ela nunca mais os viu.
Morreram - diz. Como vrios outros tambm morreram. Homens, mulheres e
crianas. Nas ruas, nas lojas e nas casas. Foram mortos por serem
curdos, minoria que representa 20 por cento da populao do Iraque,
gente que Saddam Hussein perseguiu de maneira implacvel.
O vilarejo pode ter sido alvo de ataque qumico. Documentos do exrcito
e da polcia secreta do Iraque, capturados em 1990, revelaram como o
pas lanava gases sobre vilarejos curdos em retaliao pelo apoio dado
ao Ir durante a guerra com o Iraque e tambm por terem comeado a
prpria rebelio. Grupos de direitos humanos documentaram como o
exrcito iraquiano usou avies para lanar bombas contendo gs mostarda
sobre vilarejos curdos.
- Saddam nos tratou de forma diferente - diz Deman. E essa colocao 
um eufemismo. S em 1988, o exrcito do Iraque matou 200 mil curdos em
uma campanha de limpeza tnica.

Deman cresceu temendo Saddam Hussein e seu exrcito, pois a violncia
continuou. Em 1991, Saddam enviou de novo tropas para suprimir
brutalmente outra rebelio curda. Os lderes curdos esperavam poder
contar com o apoio dos Estados Unidos depois de tropas americanas terem
banido foras iraquianas do Kuwait durante a primeira Guerra do Golfo,
em 1991. Mas o presidente Bush no mandou tropas nem promoveu qualquer
ataque para ajudar os desafortunados curdos. Mais uma vez, Saddam
destruiu vilarejos inteiros enquanto tentava sufocar a rebelio. Dezenas
de milhares de curdos morreram e outros fugiram para a Turquia.
Em meio a anos de bombardeios e invases militares, a famlia de Deman
tentou levar vida normal. Deman foi para a escola e conseguiu o diploma
de enfermagem na comunidade prxima da fronteira com a Turquia. Ela se
casou, ficou grvida e teve uma filha em 1996. Mas dias aps o parto
Saddam Hussein iniciou outra ofensiva militar contra os curdos. Dessa
vez, Deman e o marido decidiram que estavam fartos. Com a recm-nascida
nos braos, fugiram para a Turquia, onde pediram asilo poltico aos
Estados Unidos. O beb tinha quarenta dias de vida quando eles foram
levados a um campo de refugiados em Guam, territrio americano no
Pacfico oeste. Viveram l por dois meses e meio, at que puderam se
mudar para a nova casa em Phoenix.
O marido de Deman conseguiu um emprego, e eles tiveram outro filho. Mas
o estresse de se ajustar  Amrica foi demais. Deman e o marido se
divorciaram em 1999, e desde ento ela est sozinha.
Apesar de outros terem muito medo, ela, implacvel no ressentimento
contra Saddam, se dispe a falar abertamente sobre o Iraque e a nova
vida na Amrica. Uma amiga dela, xiita de Basra, perto do Golfo Prsico,
diz ter medo de falar francamente.
- Ele foi um ditador terrvel - conta. - Prejudicou minha famlia.
Forou meu irmo e meus primos a lutar

250


nas guerras. - A bem da exatido, foram trs: a guerra contra o Ir, a
primeira Guerra do Golfo e a invaso americana, em 2003.
A famlia de Deman tambm foi prejudica da por Saddam.
Deman  uma das mais confiantes entre as refugiadas muulmanas, diz
Rosalind Rivera, diretora do Centro Comunitrio de Refugiados no
Arizona. De fato, Deman est se habituando aos Estados Unidos, inclusive
 sua poltica.
- Gosto de George Bush. Muitos de ns gostamos dele
por uma razo. Chega de Saddam Hussein.
Ela confirma que existe violenta revolta contra as tropas americanas,
pois o povo iraquiano e o pas tentam estabelecer um novo governo. Mas
reconhece o valor do presidente
Bush na transformao do pas, nessa nova oportunidade
de fazer dele uma democracia.
Deman  grata por estar na Amrica. Ela e a famlia esto mais seguras
agora. Os dois filhos, hoje com 7 e 9 anos,
esto na escola, e ela atua como voluntria nas aulas e ajuda
um centro de refugiados, onde comparece uma vez por
semana. L ela tem muitos amigos. Deman espera comear
breve um curso avanado de ingls, pois assim poder
atuar como enfermeira no novo pas.
No tem sido fcil. Deman tem lutado muito para cuidar dos filhos e de
si mesma. O ex-marido se casou novamente e tem um filho com a nova esposa. Ela tambm quase se casou, mas
amigos a aconselharam a ir com calma e
superar velhas feridas emocionais.
Agora, Deman se concentra inteiramente em criar razes
naAmrica.

251


33

O MILAGRE DE SAKINA: DO CAMPO DE
REFUGIADOS AO SUBRBIO AMERICANO

Sakina Ghulam costumava ficar em casa, em um vilarejo
isolado nas montanhas do Afeganisto. Era perigoso demais se aventurar
do lado de fora. Ela temia que a burca escorregasse e revelasse seu
rosto por alguns poucos segundos, mesmo que fosse apenas o nariz ou uma
mecha de cabelos.
Havia punies terrveis para as mulheres que desobedeciam s leis
draconianas do Talib sobre s aparecerem em pblico cobertas da cabea
aos ps. Desde que o Talib assumiu o controle no Afeganisto, as
mulheres tiveram a vida determinada por um governo fundamentalista que
as tornou prisioneiras nas prprias casas. Apesar da crtica mundial, o
Talib impunha uma interpretao severa do mandamento do Alcoro sobre o
recato feminino, proibindo inclusive que mdicos do sexo masculino
tivessem pacientes do sexo feminino. Sakina conta que as mulheres no
podiam sequer dar  luz na presena de um mdico, e que algumas acabavam
tendo os filhos nos quintais.
Todas as mulheres e meninas em seu vilarejo eram analfabetas. E, acima
de tudo, viviam com medo. O Talib mantinha espies que ajudavam a
controlar rigidamente a populao.

- Os seguidores estavam em todos os lugares - diz Sakina. E o Talib era
conhecido por impor justia rpida e severa sobre mulheres "ms". Uma
punio "amena" era o corte pblico dos cabelos, para humilhar a mulher
pela burca fora do lugar. Uma acusada de adultrio corria o risco de ser
fuzilada. Quando os Estados Unidos invadiram o Afeganisto, vrias
mulheres temiam sair de suas casas.
A famlia de Sakina conseguiu sobreviver com grande dificuldade at o
Talib prender o marido e o filho mais velho. Eles foram levados sem
nenhuma explicao, e Sakina no soube o que fazer. Mesmo na melhor das
hipteses, de ainda estarem vivos, sem dvida seriam torturados. E no
havia como saber quando deixariam a priso.
Em casa, ela e os trs filhos menores enfrentavam circunstncias
desesperadas. Sakina no tinha meios de sustent-los. Comida e gua j
eram escassas.
Pessoas desesperadas tomam atitudes desesperadas, e certa noite Sakina
reuniu coragem para deixar a casa e fugir com os trs filhos. Na
escurido noturna, comearam a se afastar de casa e, por cinco noites e
cinco dias, subiram e desceram montanhas, arriscando-se em terreno
desconhecido, temendo usar as estradas.
E ento aconteceu o primeiro milagre.
De alguma forma, um afego dirigindo um trator os viu. Em vez de
denunci-los, ele se apiedou da pequena famlia e os levou no trator at
a fronteira mais prxima. Sakina e os filhos chegaram em segurana a uma
rea j no Paquisto, onde os Estados Unidos e rgos de caridade de
todo mundo cuidavam dos refugiados.
Sakina ainda fala em um sussurro espantado sobre o segundo milagre. A
famlia encontrou pessoas que, naquele momento, ela acreditava serem da
ONU. Ansiosa para alimentar os filhos, foi informada de que deveria
assinar documentos com um "x" para receber os alimentos. Os servidores
fizeram diversas perguntas; ela respondeu a todas com

253


pacincia e recebeu os documentos para assinar. Com cuidado, fez seu
"x". Mas aquela no era uma petio de alimentos. Era o socorro
americano para refugiados, e por pura sorte Sakina estava dando entrada
na papelada para inscrever-se com os filhos em um programa de emergncia
federal de amparo aos refugiados. Apesar de centenas de milhares ainda
sofrerem nos campos de refugiados da sia e da frica, situao que se
estendia por vrios anos, ela estava ali, a um passo da redeno. Uma
lista de espera crescia diariamente em todo o mundo, relao de nomes de
refugiados que esperavam reencontrar a vida nos Estados Unidos, e a
espera se tornou ainda mais longa depois do 11 de Setembro, pois os
recm-chegados passaram a ser analisados com cautela ainda maior.
Todavia, a extraordinria sorte de Sakina persistia. H dois anos, ela e
os filhos foram retirados de um passado lamentvel e levados a uma nova
vida em Phoenix, onde se instalaram em um minsculo apartamento. Em
seguida, ela encontrou moradia melhor em Glendale, regio de classe
mdia e mais prxima do Centro Comunitrio de Refugiados no Arizona,
onde a famlia tinha aulas de ingls e integrava outros programas
sociais. Eles se sentiram  vontade em Glendale: o lugar era um enclave
para refugiados muulmanos. Em alguns bairros de Glendale,  comum ver
muulmanas caminhando ou dirigindo carros e usando o hijab.

No incio, a vida no foi fcil. No Arizona, a sade de Sakina comeou a
ficar ameaada. Ela no conseguia caminhar muito ou subr escadas. Para
piorar, tambm teve de enfrentar o trauma deixado pelo passado. Por
isso, inscreveu-se em um grupo de aconselhamento da Caridade Catlica
para vtimas ou parentes de vtimas de tortura ou da guerra.
O nico problema era logstico. As sesses de terapia aconteciam no
segundo andar de um prdio sem elevador.

254


Isso no deteve Sakina, que, quando no podia subir a escada, ia
engatinhando pelos degraus.
Sakjna e os filhos comearam a se adaptar e logo floresciam na nova vida
em solo americano. Pela primeira vez, tinham algo que muitos americanos
consideram certo: gua encanada. Havia uma impressionante variedade de
alimentos nos supermercados, e o governo americano fornecia selos para a
compra de comida. A sade da famlia melhorou simplesmente pela
alimentao regular. Outras amenidades das quais desfrutaram pela
primeira vez foram luz eltrica, aquecimento, ar condicionado e
banheiros internos.
Melhor de tudo, diz Sakina,  a paz do novo lar e todas as
oportunidades. Ela e os filhos vivem em uma rea tranqila e no temem
mais a chegada repentina do Talib. Os americanos so bondosos, ela
acrescenta. Valendo-se de um intrprete, relata:
- Eles esto ajudando as pessoas. Ajudaram-nos a ir para a escola, o que
 importante para meus filhos. - E Sakina considera a educao crucial.
Sua persistncia  admirvel. Aos quarenta e poucos anos, ela freqenta
regularmente as aulas no Centro Comunitrio de Refugiados no Arizona,
demonstrando assiduidade impecvel. O esforo para aprender o alfabeto
romano e a letra cursiva  louvvel.
Hoje, Sakina se orgulha de ter se formado na primeira turma de leitura e
seguido adiante, estudando ingls avanado. Ela no  mais analfabeta e
hoje assina o nome com alguns floreios.
A prpria Sakina est surpresa com sua resistncia: para uma mulher de
meia-idade, aprender a ler e escrever, e ainda aprender a circular em um
pas desconhecido e complicado,
de linguagem e cultura diferentes,  um grande desafio.
Sakina tambm se orgulha das realizaes dos filhos. dois tm bom
rendimento escolar e ainda a ajudam explicando as regras e os costumes
americanos.

255


Hoje, Sakina valoriza especialmente a nova liberdade da famlia. A burca
 coisa do passado.
- No conseguamos nem andar - ela revela, referindo-se  indumentria
que restringia os movimentos. - No enxergvamos, no podamos falar...
- Agora ela pode ir s compras  vontade ou at sair para dar um passeio
no final de tarde.
No que tenha abandonado os mandamentos islmicos de pudor. Ela ainda
usa blusas de mangas longas e saias que cobrem as pernas completamente,
alm de envolver a cabea e o pescoo com um fino leno de chiffon, pea
que ela chama de xador.
Sakina afirma gostar do xador e desejar manter a f islmica. Durante o
Ramad, ela se mostra ansiosa para chegar em casa e preparar o jantar
que quebra o jejum do dia todo.
Recentemente, recebeu boas notcias. O marido e o filho presos pelo
Talib esto vivos; ambos fugiram para o Ir. Ela conversou com o pai,
que garantiu que os dois esto bem e em segurana. Quando Sakina escapou
para o Paquisto, o marido conseguiu alcanar e atravessar a fronteira
com o Ir. Atualmente, ele e o filho tentam retornar ao Afeganisto para
obter a ajuda de agncias americanas e assim irem se reunir  famlia.
Sakina espera que todos possam estar juntos novamente. Quando isso
acontecer, o marido e o filho mais velho podero recomear a vida nos
Estados Unidos, como ela e os outros trs garotos j fizeram. Eles
tambm merecem o que Sakina e os filhos menores conseguiram conquistar.
- Temos liberdade - ela encerra, com simplicidade

256

34

SHAIMA: RECUPERANDO-SE DO

ASSASSINATO DO MARIDO

Shaima Shiffati queria ir trabalhar nos Estados Unidos
aps fugir do Afeganisto, onde o marido foi assassinado. Ela e os
quatro filhos haviam permanecido em um campo de refugiados em que no
havia nenhuma esperana, pelo menos aparentemente.
To logo foram levados para Phoenix, ela se candidatou
a todas as vagas de emprego que encontrou pela frente. A
primeira oportunidade surgiu em uma fbrica de doces, e
ela no hesitou em agarr-la.
Mas no deu certo. Logo depois da chegada  Amrica, Shaima comeou a
manifestar uma variedade de sintomas fsicos, entre eles fortes dores de
cabea e no corpo. Eram sintomas da sndrome do estresse ps-traumtico,
e o quadro piorou quando ela se viu diante de novas e terrveis
dificuldades em um pas estranho. Ainda chorava a morte do marido,
cuidava de quatro filhos e tentava se adaptar ao idioma,  cultura e ao
clima do pas estranho.
Doente, teve de se demitir da fbrica, e s agora, dois anos mais tarde,
sente-se melhor. Shaima conta que teve esgotamento nervoso. Mas o que se
manifestou aps sua chegada nos Estados Unidos comeou ainda no
Afeganisto. Ela recorda que estava arrumando a casa perto de Cabul,


quando, incrdula, viu dois homens do vilarejo carregarem o corpo do
marido para dentro da casa. Ele havia sido alvejado por um tiro na
cabea, dentro da loja que possuam na cidade. Shaima desmaiou por conta
do choque.
Hoje, cinco anos mais tarde, ela relata que no suportava toda aquela
presso. Durante os meses seguintes ao assassinato, teve de lutar contra
a dor e a depresso que ameaavam domin-la, consciente de que tinha de
manter o equilbrio. Afinal, estava sozinha para criar os quatro filhos.
Alm disso, sentia-se exausta, esgotada pela violncia extrema e pelo
luto causado pela situao em seu pas.
- Foram trinta anos de guerra - ela conta por intermdio de um
intrprete. - Eles destruram tudo. - E, para
piorar, ela nunca soube por que o marido foi morto.
Viva, Shaima passou a ser vtima constante do medo. Sentia-se confinada
 casa sob o regime Talib, cujo principal mandamento para as mulheres
era a completa cobertura em pblico. Incapaz de organizar os prprios
pensamentos, privada da capacidade de raciocnio normal, Shaima tinha
pesadelos e tremores recorrentes.
- Tinha medo de viver no Afeganisto sem meu marido - ela diz. E no era
s o medo de um tiro. Como sustentaria a famlia? Sendo mulher, no
poderia administrar a loja que havia pertencido  famlia; o Talib as
proibia de manter qualquer contato com homens que no fossem parentes ou
maridos. Ento, como poderia ser comerciante? Como poderia se movimentar
ou at enxergar as mercadorias e o dinheiro usando burca, pea que cobre
da cabea aos ps e tem apenas duas frestas para os olhos?
E isso no foi tudo.
- Tive problemas cardacos aps a morte do meu marido - ela conta.
Tomada pelo desespero, Shaima decidiu abandonar a
casa da famlia. Iria se juntar a tantos outros afegos no Paquisto. Um
amigo do falecido marido deu a ela algum dinheiro

258


e a ajudou a atravessar a fronteira com os dois filhos e as duas
filhas. As crianas conseguiram trabalhar fazendo tapetes ao estilo
persa, executando a tediosa tarefa de tecer manualmente os complicados
padres que tornaram conhecidos esses tapetes. Era um trabalho bastante
duro, mas, por dois anos, como milhares de outros refugiados afegos,
foi assim que eles sobreviveram no Paquisto.
Ento, o presidente Clinton entrou em sua vida.
- Ele queria salvar vivas do Afeganisto - ela conta. Shaima procurou o
programa de recolocao de refugiados
e se inscreveu nele.
Hoje, ela adora o clima do Arizona, especialmente no
inverno. Gosta de poder ver montanhas na nova casa, relevo parecido com
aquele em que ela cresceu no Afeganisto.
Shaima est bem perto do centro de refugiados, onde estuda para aprender
a ler e a escrever. Um dos filhos economizou dinheiro suficiente para
comprar um carro. Ele a leva ao supermercado para fazer as compras. Do
contrrio, ela prefere caminhar pela vizinhana.  to seguro!
Shaima e os filhos esto esperanosos. Todos estudam e
se esforam de verdade. Os filhos sabem que  importante
aprender.
- Educao para os garotos - Shaima declara. - Esse  o fator
prioritrio, na minha opinio. Aqui eles tm oportunidades. No
Afeganisto, no tinham futuro.

259


35
A JORNADA DE SALMA

Muitos americanos orgulham-se da prpria tolerncia.
Esto isolados do conflito religioso que domina outras partes do mundo.
De fato, nem tm conscincia de contnuos embates entre grupos
religiosos que, em alguns casos, se estendem h sculos. Minorias
muulmanas tm sido perseguidas. Na ndia, multides hindus tm atacado
e assassinado muulmanos todos os dias, em particular aps o Paquisto,
pas predominantemente muulmano, ter sido arrancado da ndia na dcada
de 40. Organizaes de direitos humanos tm detalhado essa violncia
antimuulmana h dcadas. Mas poucos americanos sabem da tenso
constante. Com exceo de um ou outro artigo no The New York Times ou em
algum programa de notcias do rdio ou da tev, a violncia ainda 
ignorada nos Estados Unidos.
Na adolescncia, Salma viveu o terror de alguns ataques hindus na ndia,
em dezembro de 1992. O Im da famlia e o rapaz que o ajudava na
mesquita foram esquartejados a poucos quarteires da casa dela.
Horrorizada, a congregao descobriu as partes destroadas dos corpos ao
chegar para as oraes da sexta-feira. Em toda a ndia, multides hindus
se atiraram a um frenesi de violncia aps militantes hindus terem
criado tumulto e destruio em Babri, mesquita construda no sculo XVI.
Extremistas hindus

odiavam intensamente a mesquita histrica, convencidos da alegao
secular de que um templo hindu havia sido destrudo para dar lugar 
mesquita.
At o pai de Salma, prspero e respeitado comerciante, ficou
aterrorizado em meio  repentina violncia. Os muulmanos viviam em
paz havia dcadas naquela cidade dominada por hindus. A famlia de Salma
nunca tivera prolemas com os vizinhos hindus. Pelo contrrio, at os
convidavam para banquetes de celebrao e jantares familiares. Os vizinhos
apreciavam os pratos de galinha e carneiro servidos nas festividades
muulmanas. Salma ainda se lembra de como teve amigos hindus na infncia e como
se incomodava com isso.
Mas a exploso sbita ps fim a esse tempo harmonioso. A brutalidade
indiscriminada dizimava muulmanos, e
a polcia no fazia nada. Pela primeira vez, a famlia de Salma
se viu isolada como forasteiros na prpria terra.

Salma ainda recorda o amargo gosto da traio. Depois
dos conflitos, ela no podia mais ir a lugar nenhum. O pai a
proibiu at de visitar os vizinhos. Era perigoso demais, ele explicou.
Como jovem muulmana, ela era especialmente vulnervel quando caminhava pelas ruas usando o hijab. Assim, dia aps
dia, Salma permanecia em casa. Comearam os assassinatos. Em toda a
cidade, pessoas eram mortas em nome da religio.

Foi um tempo de sofrimento e medo. Um dos assassinos do Im da famlia
de Salma era amigo ntimo do irmo
dela.

- Ele foi criado em minha casa - ela conta. - Era um irmo para ns. - O
envolvimento com o crime brbaro era algo que a famlia no conseguia
compreender. - Como ele foi capaz? - Salma ainda se pergunta, perplexa.
Apesar de conhecer a identidade dos assassinos, a polcia no prendeu
nenhum deles.

261


Hoje, Salma se sente grata pela nova vida em um tranqilo subrbio da
Flrida, rea repleta de palmeiras e vizinhos amistosos. Os filhos
brincam na rua com outras crianas; ela troca bolos e receitas com as
vizinhas. Salma  muito bem recebida na escola primria do filho, onde
presta servio voluntrio. Est fascinada com a flexibilidade e a
simpatia do povo americano.
Ela se diz abenoada: casou-se com um indiano, executivo da rea de
telecomunicaes, e conseguiram emigrar primeiro para Londres, depois
para os Estados Unidos.  com grande alvio que ela v os dois filhos
crescendo em um ambiente pacfico.
No entanto, as lembranas ainda so vvidas e repletas de dor. H um
ano, quando voltou  ndia com os dois filhos pequenos para visitar a
famlia, Salma encontrou hostilidade no aeroporto de Bombaim. Foi retida
na imigrao porque o oficial de alfndega no acreditava que, sendo
muulmana e tendo a cabea coberta por um hijab, ela portasse passaporte
indiano. O oficial perguntou se ela estava certa de ter nascido na
ndia. Para provar a nacionalidade, ela disse:
- Posso falar as dezessete lnguas da ndia.
Mais tarde, quando ainda estava na fila com os filhos,
um oficial indiano a encarou e resmungou:
- Devamos chutar todos vocs para fora da ndia.
Aps o vo que os levou de volta a Londres, Salma descobriu, ainda no
aeroporto, que uma de suas malas havia sido violada. As jias tinham
desaparecido, e peas de roupa foram rasgadas. Ela chorou muito. O
aeroporto prometeu reembols-la pelos itens perdidos, mas at hoje nada
foi feito.
Desde que se mudou para os Estados Unidos, Salma no se cansa de
admirar a capacidade de convivncia e compreenso do povo americano. 
maravilhoso poder viver com a famlia em uma comunidade em que os
vizinhos a

262

recebem bem. Ali no existe a ignorncia e o analfabetismo que alimentam
a violncia, ela conta. No entanto, quando visitava Atlanta, foi
abordada por um homem em uma caminhonete. Aparentemente, ele no
aprovava o fato de Salma estar usando um hijab. Quando gritou e a
ofendeu com gestos obscenos, Salma limitou-se a rir. Esse  um exemplo
de como se sente segura na Amrica. Na ndia, a atitude certamente teria
sido diferente.

Porm, depois do 11 de Setembro, Salma entrou em
depresso.

- Chorei muito. Tinha esperana de que no houvesse muulmanos
envolvidos naquilo tudo. - Traumatizada pela experincia na ndia, ela
teve medo de que ocorresse uma exploso de violncia contra os
muulmanos. Mas, exceto por alguns relatos isolados de ataques pessoais,
no houve nenhuma ameaa sria  segurana dos muulmanos. Foi
reconfortante ver o presidente Bush comparecendo  mesquita para
demonstrar solidariedade ao povo muulmano, como tambm fizeram outros
lderes. Salma admira a maturidade do povo americano durante aquele
perodo em que todos estavam perplexos e revoltados com os atentados de
11 de Setembro.

Quando ela e o marido se mudaram para o novo bairro na Flrida, onde as
escolas esto entre as melhores da regio, Salma teve certo receio de
usar o hijab em pblico. No entanto, nas primeiras aparies, foi
recebida com indiferena; ningum jamais a excluiu por sua f. E se a
olham de maneira um pouco mais insistente  porque esto curiosos em
relao  sua crena.
Para celebrar a nova vizinhana, Salma fez bolos para
os vizinhos.

- Foi meu jeito de dizer "ol". - Ela ficou emocionada ao receber
bilhetes de agradecimento e at uma torta de
pssego, retribuio de uma vizinha mais afetuosa.

263

- Agora, todos nos conhecemos por aqui. Somos muulmanos, cristos, judeus...
Salma tambm quis informar os filhos sobre o Ramad, mas de um jeito
divertido. Por isso, fez bolos, e os filhos escreveram breves mensagens
sobre sua f. Depois foram levar os presentes. Salma foi recompensada
pela reao grata e simptica de todas aquelas pessoas.
Como qualquer outra me americana, ela  voluntria na escola dos
filhos. Foi ajudante na sala da pr-escola do caula, onde comparecia
uma vez por semana, e  bastante apreciada pelas crianas pelo senso de
humor e pela disposio sempre to alegre. Quando um dos pequenos
perguntou o que era aquilo que ela usava na cabea, Salma respondeu
sorrindo:
- Isso aqui me faz mais bonita e atende a um mandamento da minha
religio.
As crianas perguntaram se poderiam experimentar o
hijab, e ela colocou o leno na cabea de cada uma delas,
fazendo-as rir.
No dia da reunio de pais, Salma se surpreendeu com a
forma como as crianas corriam para cumpriment-la e apresent-la 
famlia.
- Eles me abraaram e me beijaram - ela conta.
Os pais tambm ficaram espantados, mas apenas uma mulher se recusou a
apertar a mo dela. Salma no se importa com esse evento isolado. A
mulher devia ser uma esnobe, especula. Alm disso, ela no est
interessada em atribuir culpas. As pessoas da regio so boas,
agradveis, e ela est muito ocupada para perder tempo com tolices.
Mesmo assim, percebe que alguns pais seguram os filhos mais perto deles
quando a vem passar com seu hijab. Salma mantm a serenidade. Ocupa-se
com o trabalho voluntrio na escola, e os professores a adoram. Dizem
que seria timo se outros pais fossem igualmente diligentes e atentos.

264

De qualquer maneira, o momento  de inquietao. Algumas famlias
muulmanas da mesquita que Salma freqenta se mudaram para outros
pases, alegando no se sentirem mais bem-vindas nos Estados Unidos
depois do 11 de Setembro. Um imigrante palestino que ela conheceu na
mesquita foi preso de repente, e ningum nunca mais voltou a v-lo.
Posteriormente, ele foi citado nos jornais como suspeito de terrorismo e
acusado de usar dinheiro de caridade para sustentar essa prtica em
vrios lugares do mundo. Tudo isso confunde Salma. Sim, ele falava muito
e dizia o que no devia, em especial sobre a causa palestina, mas nunca
deu nenhuma indicao de ser perigoso. Aps a sua priso, a mesquita
ajudou a sustentar a famlia do homem, uma esposa e trs filhos
pequenos. Todavia, meses depois da deteno, a mulher desistiu e voltou
para o Oriente Mdio com os filhos.
Salma gostaria de ver a Amrica como era antes do 11 de Setembro:
serena. Sonha com o pas retomando o que chama de era melhor, tempo
entre as dcadas de 50 e 60, quando os valores familiares eram mais
firmes, e a piedade era bem recebida.
Contudo, mesmo hoje, com valores mais flexveis, os Estados Unidos tm
grande vantagem sobre outros pases:
a tradio de tolerncia. Grata por viver nesse tipo de atmosfera, Salma
recompensa a Amrica pela generosidade, oferecendo inteira lealdade ao
pas que a acolheu. Afinal, ela argumenta,  isso que orienta o Alcoro:
- Ser leal e seguir as regras. Do contrrio, seu islamismo no 
completo, e voc no  um bom muulmano.

265


36
HAWA: A RAINHA SAI PARA CAMINHAR

Hawa Khamis usa longo robe branco e leno com brilhante acabamento azul. Habilidosa, vai empurrando o carrinho de
beb. Os dois filhos em idade pr-escolar
caminham a seu lado, agarrados ao seu vestido.
Ela  alta, tem mais de um metro e oitenta, talvez, e aos 31 anos  uma
mulher impressionante, com sorriso largo, de dentes muito brancos. Sua
postura causaria inveja a qualquer rainha, e  com altivez que ela
caminha para o centro de refugiados em Glendale, Arizona. L, aprende
ingls e l pela primeira vez. L tambm encontra pessoas que falam
rabe e podem servir de ligao com o que agora parece ser um passado
distante.
Hawa tinha apenas 25 anos, mais ou menos, e era me de dois bebs
(atualmente so cinco filhos) quando chegou aos Estados Unidos com o
marido, fugindo da violncia no Sudo, pas onde nasceu. Hoje os
americanos sabem do genocdio que ocorre l, em especial contra os
cristos no sul. Mas Hawa, muulmana devota, reporta que pessoas de sua
f tambm tm sido alvos da brutalidade. Grupos humanitrios tm
documentado como o regime rabe predominantemente muulmano ataca tribos
nativas, muulmanas ou no. H relatos de milcias rabes invadindo
vilarejos  noite, queimando todas as casas e fuzilando os que tentam
fugir. O Sudo tambm sofreu com as secas e com racionamentos

de comida, o que fez diversas pessoas deixarem suas casas e
terras, buscando apenas a sobrevivncia. A guerra, que existe desde
1983, desabrigou milhes de pessoas. Mais de dez por cento da populao
expatriada no mundo  de sudaneses.
- Foi muito difcil. Havia vrios problemas Hawa conta antes de
acrescentar com serenidade: - Um de meus
irmos foi morto no Sudo.
Uma irm ainda vive naquele pas, mas Hawa e o marido decidiram que eles
tinham de sair. Levando os dois filhos, fugiram para o leste,
atravessaram a fronteira com a Etipia e l ficaram em um campo de
refugiados. Hawa no fala muito sobre as condies no campo. Apenas
relata que a famlia conseguiu sobreviver at poder ir para os Estados
Unidos. Eles tiveram sorte: muitos ainda perecem nos campos
improvisados.
Como vrias outras mulheres refugiadas do Terceiro Mundo, Hawa era
analfabeta quando chegou ao Arizona. O governo americano estima que
cerca de metade das mulheres do Sudo no sabe ler ou escrever. Em
geral, o ndice de alfabetizao  de pouco mais de 60 por cento, com
mais homens que mulheres alfabetizados. Mas Hawa sabe que agora tem
oportunidades de aprendizado que jamais teve antes, apesar de estar
restrita pelas demandas de ser uma jovem me, pelo menos por enquanto.
Com o marido estudando e trabalhando, ela precisa estar em casa para
cuidar das crianas. No entanto, mesmo ocupada com o beb e com as
demais obrigaes de me e esposa, ela est aprendendo, embora no
freqente nenhuma escola.
Hawa se sente feliz pela famlia poder ter uma vida normal novamente e
seguir uma rotina. Ela  grata por poder caminhar e ir aonde quiser, sem
temer pela segurana dos filhos. No era assim no Sudo.
No entanto, no  porque vive atualmente nos Estados
Unidos, onde poucas mulheres usam roupas tradicionais


267

muulmanas, que ela vai abrir mo dos vestidos amplos
e da echarpe que emoldura seu rosto e cobre os cabelos.
Hawa se veste como uma mulher muulmana se vestiria
no Sudo. Nesse sentido, a Amrica no a modificou nem
a modificar.
- Minha religio  muito importante - Hawa declara. Mas ela no vai 
mesquita. Em sua opinio, isso  para os
homens. - S meu marido vai.
De sua parte, est ocupada cuidando dos filhos. O mais velho tem 10
anos. Mesmo ela j considera o Sudo e a violncia uma lembrana
distante. Os trs filhos mais novos de Hawa nasceram na Amrica e so
cidados americanos.
Hawa e o marido gostam do sudoeste, onde o clima 
semelhante ao de sua terra natal. Mas as semelhanas terminam a: o
Arizona  pacfico, e l eles se sentem seguros.
- Gostamos daqui porque somos livres.
Hawa acredita que a educao  o maior benefcio da vida na Amrica. Os
filhos esto aprendendo a ler e a escrever. Ela ainda tem de sacrificar
as aulas de ingls para cuidar dos mais novos, em idade pr-escolar, mas
logo eles tambm iro  escola, e Hawa se anima ao pensar que todos
tero uma boa educao. Ela vive muito ocupada, mas  a rainha: tudo que
precisa fazer  um gesto, ou dizer algumas poucas palavras em tom suave,
e as crianas a obedecem.

268


PARTE V

As modificadoras

Se vem algo errado, elas querem mudar. So as modificadoras: mulheres
muulmanas na Amrica atuando em
organizaes polticas, religiosas, jurdicas, acadmicas e de
direitos humanos.
Uma delas segue um caminho pouco ortodoxo: W. L. Cati  ex-muulmana e
ministra evanglica, e sua principal proposta  ajudar muulmanas
vtimas de abuso. Ela conhece a dor por experincia prpria: tambm
sofreu abusos em nome do islamismo.
Todavia, a grande maioria das modificadoras permanecem em sua f, mesmo
com todos os problemas. Clareen Menzies descreve como tambm foi esposa
agredida. Porm, ela continuou no islamismo e tornou-se lder muulmana
em Minneapolis-St. Paul.
Muitas outras modificadoras realizaram incurses em mais de uma
profisso ou causa. Zakia Mahasa,  considerada a primeira mulher
muulmana indicada a uma posio legal nos Estados Unidos. Ela  juza
do Supremo Tribunal de Justia na Diviso de Famlia da Corte da Cidade
de Baltimore. A juza Mahasa tambm lidera a entidade de caridade
muulmana Mercy USA, em Michigan, como presidente voluntria.

-  preciso ter equilbrio - ela diz. - No se pode viver apenas para a
carreira. - De fato, Sarah Eltantawi fez um intervalo na futura
carreira acadmica (ela se dedica ao doutorado em Harvard) para ajudar a
fundar a Unio Muulmana Progressista da Amrica do Norte. Ela afirma
que h necessidade de outra "voz" na comunidade muulmana como
alternativa aos imans conservadores nos Estados Unidos.
Reformas so inevitveis, declara Ingrd Mattson. Como vice-presidente da
Sociedade Islmica da Amrica do Norte, ela  uma das mais altas
lideranas muulmanas no pas. Lutando por tratamento igualitrio para
as mulheres, ela diz que no quer que ningum se sinta excludo de uma
f que enriqueceu sua vida.
Outras mulheres tm contribudo para a reinterpretao do Alcoro, como
Azizjh al-Hibrj, professora den direito na Universidade de Richmond,
Virginia. Ela analisou o status das mulheres nas leis familiares
islmicas e descobriu que se beneficiam do mandamento que determina que
os homens devem sustentar esposa e filhos. No entanto, afirma que o
islamismo tem sido mal interpretado por lderes religiosos do sexo
masculino, que usam seu poder para manter a mulher no papel de
subservincia. Em Washington, ela fundou um grupo de direitos humanos
para ajudar as mulheres no mundo todo. O grupo recebeu o nome de
Karamah, referncia rabe a um verso do Alcoro que diz: "Demos
dignidade aos filhos de Ado". O grupo chamou a ateno do presidente
Bush e da secretria de Estado Condoleezza Rice (que era conselheira de
segurana nacional do pas quando falou em uma reunio do Karama h).
Vrias modificadoras dizem que os muulmanos na
Amrica enfrentam questes prementes, como defender os
direitos civis. Os muulmanos esto sob ataque com o Ato
Patriota dos Estados Unidos e diversas novas leis, diz Dalia
Hashad, lder da Unio Americana de Liberdades Civis. Ela

270

descreve como est ajudando a liderar o esforo nacional para proteger
as liberdades civis dos muulmanos.
Outras muslimah modificadoras sentem a maior tenso da guerra contra o
terrorismo e tentam informar no-muulmanos sobre como o islamismo
promove a paz. Sarwat Husain, vtima de crime de dio, fundou um jornal
para ajudar a informar as crianas sobre o islamismo, publicao voltada
tanto para muulmanos quanto para no-muulmanos. Ela tambm 
voluntria em San Antonio, Texas, no Conselho de Relaes
Islmico-Americanas, e organiza constantes coletivas de imprensa para
denunciar o terrorismo e outros atos de violncia. Sua lealdade e suas
responsabilidades esto com os Estados Unidos e o islamismo.
Ela diz:
- A Amrica  meu lar, e farei tudo que puder para servir "essa terra
dos livres e esse lar dos bravos".
Sarwat est entre as lderes dinmicas retratadas nos
captulos seguintes como modificadoras da Amrica e do
islamismo.

271

37

SARAH: PROGRESSISTA COM
MUITO ORGULHO

 inverno. Janeiro  muito frio, e a californiana Sarah Eltantawi est a
caminho de uma das reas mais frias
dos Estados Unidos: Chicago. Mas  importante. A jovem de 28 anos quer
falar para um grupo de muulmanos e corrigir o que chama de "grande
mal-entendido". Ela quer explicar que a recm-fundada Unio Muulmana
Progressista da Amrica do Norte, ou PMU, como ela mesma abrevia, no 
a confuso to temida por muitos muulmanos conservadores. Visite o
site, por exemplo, ela sugere, e verifique como a PMU incentiva a
leitura do Alcoro.
Mas no se engane: os progressistas querem mudanas
estruturais, o que Sarah chama de "novas instituies que
reflitam os valores e a vida dos muulmanos"
Essas modificaes incluem aceitar homossexuais como iguais, mulheres
como clrigas e permitir que homens e mulheres rezem lado a lado, em vez
de mant-los nos servios segregados atualmente realizados em quase
todas as mesquitas dos Estados Unidos. Eles querem que os fiis leiam e
interpretem o Alcoro eles mesmos, em vez de confiarem em algum
estudioso do islamismo, muitos dos quais, ao longo dos sculos, tm
interpretado passagens do Alcoro

de maneira a tratar as mulheres como cidads de segunda classe.
- Viajo a todos os lugares respondendo perguntas - ela diz antes de
acrescentar entusiasmada: - Foi um comeo difcil, mas a PMU vai
sobreviver.
Sarah ainda se surpreende um pouco em como chegou
ao lugar onde est agora: no centro de uma ferrenha controvrsia.
Por outro lado, sabe como  debater assuntos controversos. J defendeu
os palestinos em programas de televiso transmitidos em rede nacional,
entrou pela porta da frente em uma mesquita exclusiva para homens e
defendeu o direito da mulher de escolher se deseja ou no usar o vu.

Tais posies renderam a ela inimizades de todos os lados, desde
muulmanos conservadores at os que a acusam de ser anti-semita.
"Preciso de um inimigo e o encontrei. Seu nome  Sarah Eltantawi, uma
americana atrevida de ascendncia egpcia que racionaliza o terrorismo
24 horas por dia, sete dias por semana", escreveu na internet um homem
que se autodenomina Andrew. Ele estava furioso aps ter visto Sarah no
Hannity & Colmes, da Fox em 2002, criticando Israel por "ocupar trs
milhes de pessoas, humilh-las, criar pontos de vista e transformar
suas vidas em um inferno"
Mas Sarah  veemente - estava na Margem Oeste Palestina antes do incio
da Intifada. Afirma ter visto as humilhaes dirias e a violncia que
os palestinos tiveram de suportar e permanece preocupada com o que chama
de continuo abuso fsico e psicolgico contra esse povo. Para ela,  um
apartheid como os negros tiveram de enfrentar na frica do Sul.

- Essas pessoas (como Andrew) que me acusam de apoiar o terrorismo so
como crianas fazendo birra no

273

playground, cobrindo as orelhas com as mos, mostrando a lngua e
gritando, recusando-se a enxergar e aceitar o bvio dessa situao. Sei
que um dia o racismo ser exposto, e ento poderemos percorrer a estrada
da cura e da paz.
Sarah tambm acredita que a reforma deve vir de dentro da mesquita. Por
isso se uniu a outros jovens muulmanos para formar a Unio Muulmana
Progressista.
No incio, a reprter da Associated Press, Carol Eisenberg, no se
interessou muito. Era outono de 2004, e Sarah e
os outros comeavam a formar o grupo.
- Eles pareciam ser como qualquer outro grupo de jovens nova-iorquinos
reunidos no Starlight Diner, na rua West 34th. Mas aquele no era um
simples encontro social. Unidos e espremidos em torno de uma mesa
retangular cobertas por xcaras de caf havia dezoito homens e mulheres,
a maioria em jeans e camisetas. Eram completamente muulmanos e
ocidentais. E trocavam idias para transformar o islamismo na Amrica.
As crticas foram inevitveis. A Unio no inclua muitas vozes, como a
dos Muulmanos Republicanos. A PMU tinha diversas posies lberais.
Sarah foi at chamada de "radical"
Clyde Haberman, do The New York Tirnes, especulou sobre a "conspcua
ausncia" de qualquer discusso sobre o
terrorismo.
Ele comentou:
- O terrorismo no era mencionado em nenhum local da declarao de
misso do grupo ou nos comentrios dos
membros. Por qu?
Sarah tentou explicar a Haberman:
- No vamos equiparar islamismo a terrorismo. - Pelo confrrio, a PMU
tenta estabelecer um caminho positivo para
mudar o islamismo internamente.
Depois vieram as crticas sobre a Unio Muulmana Progressista ser
americana demais, afastada de outros muulmanos

274


espalhados pelo mundo. Sarah fica irritada quando outros
muulmanos nascidos na Amrica dizem a ela que reformar a partir da
mesquita  ruim e reflete "sua atitude americana neocolonialista".
- Relativismo cultural no  desculpa. Abuso  abuso
- ela responde diretamente.
Outros muulmanos no Terceiro Mundo "so muito mais
crticos" e, em sua opinio, clamam com a mesma veemncia por reformas.
Considere a proibio do hijab e de outros smbolos religiosos nas
escolas francesas. Uma ativista egpcia menosprezou a controvrsia em
torno do veto, especulando que as mulheres que se opunham  nova lei
podiam estar ajudando involuntariamente a promover o patriarcado e a
faco conservadora do islamismo, que obriga as mulheres a usar algum
tipo de vu.
Como ativista que , Sarah quer que as mulheres possam escolher sem
sofrer presses. Ela no usa hijab. No v ligao entre cobrir os
cabelos e ser religiosa. Erroneamente, ela diz, o vu se tornou "quase
um fetiche para os muulmanos em todo o mundo". Sarah sente que h
"frgil evidncia teolgica" que leva as mulheres a deduzirem que devem
cobrir os cabelos em pblico.
- No est no Alcoro - ela acrescenta. O verso do Livro Sagrado que
supostamente exige a cobertura refere-se ao pano que as mulheres devem
pr sobre o peito. No sculo sete, quando o Alcoro foi escrito, vrias
mulheres rabes andavam com os seios nus. Mas no h nenhuma exigncia
real sobre cobrir os cabelos, ela afirma.
Hoje em dia, muitas muulmanas nos Estados Unidos e
at em pases predominantemente muulmanos do Terceiro Mundo no usam
hijab, como aponta Sarah.
Ela est convencida de que os membros da PMU e outros muulmanos desejam
que a mudana na mesquita reflita

275

como os muulmanos vivem no mundo de hoje. Por isso muitos deixam
de ir aos servios religiosos; sentem-se desconectados da mesquita
local.
- As pessoas querem ver mudana - Sarah enfatiza.
- Querem abertura, mudanas crticas.
Como eventual modificadora, Sarah sabe disso por experincia prpria. E
como poderia ser diferente, ela mesma
pergunta, se  uma mulher educada e informada?
Em maro de 2005, Sarah uniu-se a outros homens e mulheres em Nova York,
orando lado a lado, o que  considerado tabu, e ouviu Amina Wadud,
especialista em islamismo na Universidade Commonwealth da Virginia,
liderar homens e mulheres em orao, outra atitude controvertida. Os
participantes tiveram de enfrentar ameaas de morte e gritos furiosos
enquanto se dirigiam ao servio da sexta-feira.
- Foi espantoso - ela lembra.
No vero anterior, em uma conferncia na Virginia, ela se integrou a um
movimento para protestar contra o tratamento segregado e desigual das
mulheres nas mesquitas. Ela e quatro outras muulmanas quebraram outro
tabu entrando em uma mesquita restrita para homens e orando no salo
principal. (Um homem se uniu a elas em solidariedade.)
Normalmente, as mulheres devem entrar pela porta dos fundos e rezar no
balco segregado para mulheres. Mas Sarah e as ativistas decidiram dar
um basta na situao. Diversas mulheres na Amrica afirmam no se
incomodar com o fato de terem de entrar pelas portas dos fundos, mas
Sarah e as demais se disseram fartas de serem tratadas como cidads de
segunda classe.
- Quando entrei na mesquita, no senti medo, mas no posso afirmar que
no tenha experimentado sentimentos ambguos. Nossa atitude atraiu a
ateno da mdia, e  claro que a mesquita e os membros foram submetidos

276

a grande estresse naquele dia. Em geral, considerando meu trabalho nos ltimos
anos, tenho estado do outro lado da cmera, por assim dizer, ajudando a
mesquita a se defender de acusaes e ameaas. Dessa vez, a ao da qual
eu participava causava problemas e revolta na mesquita, e foi difcil
ver homens idosos, gente que me lembrava meu pai e meus tios, com aquele
ar preocupado, ansioso, e talvez temendo pelas famlias e pela mesquita.
Conheo de perto o medo que os muulmanos experimentam neste pas
recentemente, e por isso no poderia ter evitado essa resposta
emocional.
Mas, ela acrescenta, as mulheres tinham de agir dessa
maneira para promover o incio das reformas.
- Sei que a cortesia e a delicadeza no foram suficientes para mobilizar
os poderes que podem priorizar nossos direitos - ela diz. - Na melhor
das hipteses, imams vo dizer que a questo  "muito explosiva" e que
"agora no  o momento", ou no querem ofender os superiores no Golfo;
na pior das hipteses, ns, mulheres, seguiremos sendo chamadas de
tentadoras, e a "sade espiritual" dos homens continuar sendo
prioridade indiscutvel. Por isso no me arrependo do que fiz e continuo
admirando, respeitando e mantendo relaes de amizade com as mulheres
que conheci naquele dia, bem como com o homem muulmano que nos apoiou.
Sarah  filha de imigrantes egpcios. O pai chegou aos Estados Unidos em
1973, e a me, em 1975. Eles se instalaram na Califrnia, onde Sarah
cresceu. Ela se lembra da infncia em um bairro de classe mdia-alta no
subrbio de Los Angeles.
Em alguns aspectos, foi um tempo idlico. Ela cresceu
em uma rea multicultural onde hindus, cristos, judeus e
ela, muulmana, iam juntos para a escola.


277


- Eu me identificava com todos - ela conta. - S no me identificava com
ser uma muulmana.
Quando perguntou ao pai sobre sua identidade, ele explicou que ela era
etnicamente egpcia, de nacionalidade
americana, e sua religio era o islamismo.
- Para mim isso foi suficiente.
Agora que pensa no passado, ela percebe que cresceu
em uma poca de grande tolerncia civil. Ela e os amigos se
socializavam sem pensar nas diferenas religiosas.
- Lembro-me de ir  igreja com amigos porque aquela era uma atividade
social - ela diz, rindo. Os amigos retribuam acompanhando-a aos eventos
muulmanos.
Como vrios outros americanos, a famlia ia aos servios religiosos, mas
sem constncia. s vezes, decidiam que iriam  mesquita todos os finais
de semana; em outras pocas, passavam anos comparecendo apenas s
celebraes religiosas.
Mesmo assim, Sarah lembra que os pais sempre se retiravam para as preces
dirias; ambos a incentivavam a ler e memorizar o Alcoro. E ela  grata
pela educao religiosa prematura.
O que s vezes a deixava desconfortvel como filha de imigrantes era a
aplicao estrita das tradies culturais que os pais importaram do
Egito. De vez em quando, ela protestava contra as restries.
- Eu nunca podia dormir na casa de outras pessoas - ela conta. - Usava
shorts e saias curtas, mas tinha de brigar por isso.
Namorar? Sarah nem pensava nisso.
Mas agora reconhece como o conservadorismo dos pais a ajudou, e como foi
sbia essa deciso de proteg-la. E eles at permitiam algumas
concesses. Ela podia ter amigos e amigas, por exemplo. E podia ir a
muitos servios sociais com eles.

278


- Sei que h um esteretipo sobre os homens rabes, mas meu pai me criou
para ser franca, expressiva. Fui incentivada a ter opinies, a ler.
Sentia que podia falar com qualquer homem da famlia sobre assuntos
importantes, e isso era normal.
Os pais de Sarah sempre enfatizaram a importncia da boa educao. No
queriam que ela se preocupasse com rapazes; encontrar um parceiro era
algo para o futuro. Isso deu a ela certa vantagem. Enquanto outras
garotas pareciam pensar excessivamente em rapazes e sexo, Sarah no
tinha de lidar com a presso para ser sexualmente ativa.
Algumas das minhas amigas eram realmente obcecadas por rapazes e sexo, e
isso as distraa do desenvolvimento intelectual. O tempo que se pode
perder com esses assuntos  impressionante. Fui poupada desse tipo de
estresse e sinto-me abenoada por isso.
Sarah s ficou realmente sozinha quando foi cursar a
universidade em Berkeley, onde havia milhares de outros
liberais como ela.
- Era utopia - ela diz. - E eu era uma aluna muito idealista, bastante
determinada.
Sarah se formou em retrica e literatura inglesa. Depois da formatura,
trabalhou durante um ano como coordenadora da creche na priso de San
Quentin, ajudando a programar atividades para os filhos de detentos
enquanto estes recebiam a visita das esposas. Foi ali, ela diz, que
aprendeu a canalizar os recursos de outras entidades sem fins lucrativos
para prover ainda mais servios. A Sociedade Humana local levava animais
de estimao para divertir as crianas; outros voluntrios forneciam
outras atividades.
Aps esse perodo, ela foi para Harvard cursar mestrado em Estudos sobre
o Oriente Mdio. Em Massachusetts, a californiana no s teve de
enfrentar a neve e as temperaturas baixssimas, com o que demorou a se
habituar, mas

279

tambm teve de lidar com um campus emocionalmente mais frio e, em suas
palavras, mais conservador. Mesmo assim, ela aprecia tudo que conseguiu
em Harvard. Sarah aprendeu a ser uma acadmica objetiva, a no deixar as
opinies interferirem no discurso.
- L constru melhores habilidades - ela conclui. - O trabalho deve ser
objetivo, sempre.
O curso em Harvard tambm proporcionou uma experincia que mudou sua
vida. Ela foi para a Margem Oeste estudar rabe em uma escola palestina,
pouco antes da erupo da Intifada.
- Adorei a Margem Oeste - ela conta. Era lindo.
No entanto, agora ela lamenta sua "destruio", com os israelitas
instalando assentamentos em todos os lugares. Antes mesmo de partir, ela
viu, para seu espanto e ultraje, o crescente nmero de israelitas
armados patrulhando e causando mais tumulto aos palestinos comuns.
- At os assentados israelitas portavam Uzis - ela lembra. Era o
apartheid. Poucos americanos sabem como os palestinos foram humilhados
rotineiramente. Sarah viu jovens soldados israelitas empurrando homens
idosos e desarmados, suprema indignidade aos palestinos, que honram os
mais velhos. -  horrvel ver um av sendo espancado - ela acrescenta.
Os americanos no sabem como os palestinos so tratados, porque a mdia
no revela o verdadeiro cenrio. - Senti uma raiva que nunca havia
experimentado antes - ela confessa.
Sarah levou essa ira para casa e falava no assunto 24 horas por dia com
os pais, os parentes e os amigos. Por fim, eles sugeriram que, j que
esse sentimento a incomodava tanto, ela devia oferecer seus servios
como voluntria no escritrio de Los Angeles do Conselho de Assuntos
Pblicos Muulmanos.
No incio, ela refutou a sugesto.

280

- Acreditava que teria de usar o vu e no queria lidar com isso. Estava
interessada na poltica.
Mas Sarah sentia grande respeito pelo diretor-executivo, Saiam
Al-Marayati, e por isso acabou procurando pelo Conselho em Los Angeles.
Logo ela se viu envolvida no monitoramento da cobertura da mdia sobre a
Iritifada, usando os dados para preparar um relatrio. Era agosto de
2001.
Sarah recebeu uma proposta de emprego como diretora de comunicaes do
grupo em Washington. Mais uma vez, foi para a Costa Leste, onde chegou
um ms depois dos ataques terroristas.
A mdia a assediava constantemente com perguntas sobre todos os
assuntos, desde a condio dos palestinos at a opinio dos muulmanos
americanos sobre os terroristas. Sarah tentava falar com toda franqueza
e honestidade. Isso causou problemas para ela, como o e-mau furioso de
Andrew, uma reao que, na opinio dela, reflete medo, ignorncia e
esteretipos. Sarah diz que isso pode ser assustador, mas que no vai
recuar.
- Eu me sinto ameaada e tenho medo, mas conto com a ajuda de amigos e
colegas que j sofreram abusos parecidos ou piores. O altrusmo dessas
pessoas me inspira.
Ela tambm no quer ser levada a crer que dar uma entrevista para a CNN
 a soluo final para resolver os problemas dos muulmanos nos Estados
Unidos. No. Sarah sente que os muulmanos precisam de outras vozes. Por
isso est ajudando a promover a Unio Muulmana Progressista, viajando
pelo pas para encorajar outras pessoas a se levantar contra Imarns
conservadores que, ela est convencida, tentam dominar a f.
Sarah tambm cuida da prpria vida, e para isso voltou a Harvard em
busca de seu sonho, o doutorado. Quer estudar as contrapartes dos
muulmanos progressistas, os cristos liberais e os integrantes do
movimento de reforma do judasmo.

281

Pessoalmente, Sarah acredita estar testemunhando o despertar espiritual
justamente em Nova York, onde v
diversas raas e vrios grupos tnicos.
"Deus criou uma surpreendente diversidade de pessoas, e quando voc as
pe juntas e as deixa em paz por algum tempo", ela escreveu em um ensaio
literrio, "o resultado   uma envolvente sensao de paz e
tranqilidade."

282


38
INGRID: LDER DAS MESQUITAS


Ingrid Mattson no quer que as mulheres se sintam indesejadas em uma
casa de f que deu a ela tanto enriquecimento espiritual. Como primeira
mulher a se tornar vice-presidente da Sociedade Islmica da Amrica do
Norte, ela acredita ter carta branca para exigir reformas. Pode parecer
uma questo trivial, mas se algumas mulheres se sentem ofendidas por
algumas mesquitas exigirem que entrem pela porta dos fundos, enquanto os
homens utilizam a porta da frente, ela acredita que isso deve mudar. Se
algumas mulheres se sentem vitimadas por serem relegadas a um balco
superlotado ou a um poro, enquanto os homens tm todo o espao do salo
principal da mesquita, isso tambm deve mudar. Em sua opinio, a recente
resistncia a mudanas  sinal de que uma reforma substancial est a
caminho.
- Estamos em uma luta - ela diz. - Acredito que agora a batalha  aberta
e logo tudo ser melhor. Considere a questo do ponto de vsta
histrico: os conflitos aumentam imediatamente antes de um acontecimento
maior. Breve estaremos testemunhando esse acontecimento. Sempre haver
mesquitas conservadoras, mas essas sero marginalizadas com o passar dos
anos.
Sua mesquita em Hartford, Connecticut, est sendo reformada, e o novo
prdio ter entrada principal disponvel
a todos.

Em outras culturas, reformas em mesquitas podem no ser to importantes.
De fato, em alguns pases predominantemente muulmanos, as mulheres nem
vo s mesquitas.
- Elas rezam em casa; formam grupos femininos - Ingrid conta. - E no
acham que isso  to relevante.
Mas na Amrica . A mesquita tornou-se um centro comunitrio, como h
muito tempo tem acontecido com sinagogas e igrejas. Agora as mesquitas
abrigam todo tipo de programa, de aconselhamento matrimonial a grupos de
jovens. Tambm  um local de reunio para muulmanos que no dispem de
outro ponto de encontro.
- A mesquita  um lugar muito importante - Ingrid insiste. - Tanto que
as mulheres precisam ser representadas em todas as decises.
Ela conhece pessoalmente a dor da excluso. Quando estava na estrada,
atuando como voluntria para ajudar mulheres afegs refugiadas no
Paquisto, havia sempre aquele momento do dia em que ela parava para
fazer as oraes. Mas, sendo mulher, Ingrid no podia ir a certas
mesquitas. Em uma delas, um homem ficava andando de um lado para o
outro diante da porta, pronto para impedir sua enfrada e a de outras
mulheres.
- Senti imediata revolta e pensei: "Quem  voc para me impedir de
rezar?". Foi muito frustrante.
Certa vez, Ingrid e o marido viajavam pelo Paquisto e,
em um momento de orao, procuraram por uma mesquita. Encontraram uma
exclusiva para homens.
- Meu marido e eu decidimos que eu ia entrar - ela relata. - No queria
rezar na calada suja. Os guardies da porta no ficaram muito felizes.
- Mesmo assim, ela e o marido puderam rezar em paz.
Se algum dissesse a Ingrid na adolescncia que um dia ela se
preocuparia tanto com as oraes, a ponto de desafiar regras (em geral,
ela  quieta e contida), a reao teria sido de incredulidade. Ingrid
nasceu em uma famlia catlica em

284


Ontrio. O pai era advogado, a me, dona de casa que dedicava todo o
tempo aos cuidados com os sete filhos. Ingrid deixou de ir  igreja aos
16 anos.
- Eu no tinha nenhuma convico - diz. - No tinha f. Na adolescncia,
a religio j era algo que no tinha espao em minha vida. Eu no me
interessava. No era exatamente revolta. Era desinteresse mesmo.
Na Universidade de Waterloo, no Canad, ela comeou a estudar
engenharia, mas logo se interessou por filosofia e mudou de direo.
Estudar filosofia a ajudou a pensar com maior clareza.
- Sempre fui adepta do pensamento. Sempre pensei muito e li muito.
Queria ter uma vida de integridade. Mas acho que era insatisfeita.
Sentia falta de algumas coisas... Observava como as pessoas se
comportavam, como viviam  minha volta... Sentia que a vida devia ter um
significado maior do que a simples busca por prazer e diverso.
Ingrid encontrou o que procurava quando, em certo vero, foi para Paris
estudar a histria do cinema. L, conheceu alguns estudantes da frica
Ocidental que mudaram sua vida.
- Foram as pessoas mais generosas, boas e equilibradas que jamais
conheci. E tambm eram muulmanos. No eram pessoas abertamente
religiosas, mas praticantes discretos, tranqilos.
Ingrid ficou intrigada e comeou a ench-los de perguntas enquanto lia
sobre o islamismo. Prosseguiu com as leituras aps voltar ao Canad e,
no ano seguinte, leu e pensou, leu e pensou.
- Com o tempo, para minha completa surpresa, senti que era muulmana.
Foi realmente uma grande surpresa para mim. Nunca antes eu havia
conseguido abraar uma religio.
Mas o islamismo oferecia um caminho para a vida tica
que ela sempre quis ter.

285



Esses sentimentos se intensificaram no vero de 1987, quando Ingrid foi
trabalhar na Columbia Britnica plantando rvores e leu O Islamismo, de
Faziur Rahman, enquanto percorria os campos canadenses. Ela se sentiu
to imersa nas descries da teologia e da lei islmicas que escreveu
para Rahman, professor na Universidade de Chicago, para perguntar se
poderia estudar com ele.
Para seu espanto, Ingrid encontrou uma resposta manuscrita ao voltar
para casa em Ontrio, e na mensagem Rahman a convidava para ir a Chicago
estudar. O convite foi aceito, mas antes Ingrid queria passar um ano
ajudando as mulheres afegs nos campos de refugiados do Paquisto.
Aquele ano foi, como ela mesma conta, o melhor tempo
de sua vida, uma inesquecvel experincia de aprendizado.
- Voc comea com a inteno de ajudar as pessoas, mas o que descobre 
que elas o ajudam. Situaes difceis despertam o que h de pior em
muita gente, mas tambm pode acontecer o contrrio, o melhor vir  tona.
As mulheres refugiadas me ensinaram muito sobre generosidade e graa sob
presso. Foram simplesmente maravilhosas e muito hospitaleiras.
L ela tambm conheceu o marido, Amer Aetak, engenheiro egpcio que
ajudava a construir casas e encanamentos para refugiados, cem mil deles,
instalados em uma parte quase desrtica do Paquisto, regio onde no
havia rvores ou abrigo. Fazia anos que eles viviam naquelas condies
terrveis. Amer era como Ingrid: queria fazer a diferena. Eles se
apaixonaram e se casaram sem alarde (Ingrid nem usou vestido de noiva).
Quando as famlias dos refugiados descobriram sobre o casamento, fizeram
algo que Ingrid lembra at hoje.
- Ficaram muito tristes - ela contou em uma entrevista para a Christian
Science Monitor. - Reuniram o pouco dinheiro que tinham e me
presentearam com um conjunto

286


de cala e vestido de cetim vermelho com pompons. Foi incrvel!
Ingrid trabalhou para ajudar a educar mulheres e meninas no acampamento,
alm de providenciar cuidados mdicos, centros femininos e projetos de
trabalho. Apenas um minsculo nmero de assentados, menos de um por
cento, no queria que as meninas fossem educadas, e estes eram
basicamente de uma tribo cujos membros mais velhos alegavam que no
havia necessidade de ensinar as mulheres.
Aps estender sua estada, Ingrid decidiu que havia chegado a hora de ela
e Amer voltarem para Chicago. Ela j havia adiado o ingresso na
universidade daquela cidade a fim de concluir projetos no campo de
refugiados. Infelizmente, nesse nterim, o professor Rahman faleceu aps
uma cirurgia do corao.
- Eu me vi l sem o mentor que imaginava que teria. - Mas Ingrid se
sente igualmente agradecida e disse: - Foram seu livro e incentivo que
me inspiraram a comear a trilhar o caminho acadmico que considero to
compensador.
Na Universidade de Chicago, Ingrid encontrou colegas acolhedores, aulas
estimulantes e professores distintos. Mas a vida era difcil. Ela teve
uma filha em 1989 e um filho em 1991. Considerando todas as exigncias
de um curso superior, Ingrid era obrigada a contar com a ajuda do
marido. Ele no a desapontou, dividindo o tempo entre o trabalho de
engenheiro e os cuidados com as crianas, permitindo assim que Ingrid se
dedicasse aos estudos.
- Foi um perodo de grande turbulncia. Eu no dormia quase nada - ela
recorda.
Todavia, a recompensa a esperava. Ingrid concluiu o doutorado e foi
contratada pelo Hartford Seminary's Duncari Black Macdonald Center para
o Estudo do Islamismo e das Relaes entre Islamismo e Cristianismo.
Concluiu a dissertao enquanto j comeava a lecionar. Em 1995, foi
feita conselheira para a delegao afeg na Comisso das Naes

287


Unidas sobre o Status das Mulheres. Isso foi antes de o Talib
assumir o poder e impor restries draconianas contra as mulheres.
Aps o 11 de Setembro, Ingrid se viu sobrecarregada pelas inmeras
entrevistas com jornalistas que queriam ouvi-la falar sobre o islamismo.
At passou a integrar um chat na CNN.com para discutir o islamismo um
ms aps os ataques. Um participante perguntou rispidamente: "Que
possvel justificativa pode haver no islamismo para o devastador
massacre de civis?"
A resposta de Ingrid foi igualmente direta: "No h justjficativa. Isso
 proibido pela lei islmica.  um grande pecado na teologia islmica. E
isso j foi estabelecido por proeminentes estudiosos do islamismo, antes
e depois do 11 de Setembro. Osama bin Laden e seu grupo no so
considerados estudiosos ou legtimos intrpretes da religio. No pela
grande maioria de muulmanos no mundo"
Posteriormente, ela diria a outros entrevistadores que era
responsabilidade dos muulmanos denunciar atos terroristas. Mesmo assim,
reconhece que pode ser estressante para os muulmanos estar sempre
reagindo a todas as aes.
-  mais que um emprego em tempo integral - ela
conta.

Apesar de no ser seguidora de Wahhabi, ela o defende contra todas as
crticas provocadas pelo terrorismo. O movimento Wahhabi (cujo nome
deriva do de seu fundador, Muharnmad Wahha b) comeou h mais de duzentos
anos na Arbia Saudita como seita Sunni puritanista, Ingrid explica,
para livrar as sociedades islmicas de prticas culturais e de
interpretaes rgidas adquiridas ao longo dos sculos. Era anlogo 
Reforma Protestante na Europa. Ela acredita que no seria preciso
definir o movimento como seita de extrema direita fundada e patrocinada
pela famlia real saudita e liderada por Osama bin Laden, como alegam

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alguns. Ingrid aponta que estudiosos sauditas Wahhabi denunciaram o
terrorismo publicamente.
Por outro lado, diversas feministas muulmanas nos Estados Unidos
denunciam o movimento Wahhabi por restringir as mulheres. Na Arbia
Saudita, elas ainda no podem votar, dirigir carros ou aparecer em
pblico sem o vu.
Contudo, Ingrid acredita que as mulheres muulmanas continuam fazendo
progressos no s na Arbia Saudita, onde um nmero cada vez maior delas
se aventura pela primeira vez no mercado de trabalho, mas globalmente.
Uma de suas melhores amigas tem lutado h anos pelos direitos das
mulheres no Afeganisto, recebendo ameaas de morte durante o regime
Talib. Hoje, sob o novo governo do pas, mulheres e meninas esto sendo
educadas, como conta Ingrid. Mulheres esto sendo indicadas at mesmo
para posies no alto escalo do governo.
Na Amrica, Ingrid tambm v as mulheres muulmanas progredindo. Embora
seja uma pessoa pacfica, em alguns momentos  necessrio lutar para que
haja mudana significativa, como, por exemplo, a que vai fazer todos se
sentirem bem-vindos na f.
Ingrid no quer ver ningum excludo do islamismo. Homens e mulheres
muulmanos devem se sentir igualmente  vontade quando estiverem em
adorao. Por isso ela defende e apia reformas nas mesquitas
americanas.
- Eu jamais teria aceitado a posio de vice-presidente da Sociedade
Islmica da Amrica do Norte se no estivesse disposta a ser defensora
atuante.

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SARWAT: DIVULGANDO A PALAVRA

Sarwat Husain pensou que fossem adolescentes. Ignorou os gritos e as
vaias enquanto dirigia para casa voltando de uma conferncia usando o
novo hijab.
- Cada vez que eu parava no farol, eles paravam ao meu lado e me
chamavam de coisas horrveis - diz Sarwat,
empresria e ativista comunitria.
Ela os ignorou, mas foi seguida at em casa e ainda ouvia os gritos
quando entrou na garagem. Nesse instante, Sarwat decidiu que havia
suportado demais. Iria mostrar aos garotos que eles estavam
ultrapassando os limites com aquela brincadeira estpida. Determinada e
irritada, caminhou at o carro desconhecido, mas parou de repente.
Eram trs homens adultos e de aparncia assustadora. Virei-me
rapidamente para entrar em casa. Eles voltaram a gritar e comearam a
atirar. Acho que era uma arma de verdade. Consegui entrar em casa e
apaguei todas as luzes. Meu marido estava trabalhando no escritrio. No
disse nada a ele, temendo que sasse e fosse alvejado por um tiro.
Esperei por meia hora, mais ou menos, e tudo estava quieto.
Certifiquei-me de que no havia mais nenhum perigo antes de sair para
buscar minhas coisas no carro. Mas assim que abri a porta do automvel
eles voltaram. E novamente comearam a atirar. Quase fui atingida por
uma bala.

Corri de volta para casa, liguei para a polcia e contei ao meu marido
sobre o que estava acontecendo.
A polcia chegou e descobriu que os homens haviam realmente atirado
contra mim, mas com pistolas de bolas de tinta. Meu carro ficou coberto
de manchas. Nosso gramado tambm foi colorido. A polcia fez o relatrio
e concluiu que o ataque havia sido motivado por intolerncia. dio.
Os oficiais nunca encontraram os culpados, mas isso no impediu Sarwat
de continuar cobrindo os cabelos. Antes de 11 de Setembro, ela nunca
havia usado o hijab em pblico. Mas depois dos ataques terroristas, em
uma atmosfera de crescente sentimento antimuulmano, vrias de suas
amigas tradicionalmente vestidas foram molestadas. Sarwat diz que a
deciso de adotar o hijab foi motivada pela solidariedade. Ela pensou
que assim estaria ajudando a informar os americanos, sendo empresria de
sucesso, e colaborando para mudar o esteretipo da mulher muulmana
"retrgrada, dominada e ignorante", como ela mesma colocou.
O que no esperava era que ela tambm passasse pelo processo de
informao. Sarwat aprendeu como era ser encarada na rua e provocar
reaes de hostilidade em locais pblicos. Nunca havia imaginado que
passaria pela situao de terror daquela noite no carro. Mas hoje ela
tem todas essas coisas nos devidos lugares.
- O incidente me fortaleceu, Alhurndolillah (pela graa de Deus). Agora
estou acostumada a cobrir meus cabelos e me sinto muito confortvel. O
hijah me d segurana. - Alm disso, ela no precisa perder tempo
explicando quem : a echarpe a identifica como muslimah.
Mas Sarwat no  de onde muitas pessoas imaginam que seja: do Oriente
Mdio. Tambm no  rabe. Ela cresceu em Carachi, a maior cidade do
Paquisto, centro urbano que ela descreve como "muito cosmopolita".

291


A famlia era prxima, mas o pai viajava bastante e no passava muito
tempo em casa. A me de Sarwat cuidava de
tudo.
- Minha me e minhas irms mais velhas estavam sempre atentas aos meus
passos, bem como meu irmo, onze meses mais novo que eu. Crescemos
acatando a mais estrita tradio muulmana. Na infncia, eu era
inquisitiva por natureza, por isso sempre fazia muitas perguntas
relacionadas  prtica religiosa. Por exemplo, queria saber por que
tnhamos de rezar cinco vezes ao dia de determinada maneira. Por que no
podamos rezar na posio que quisssemos e na hora que julgssemos
melhor? Para dizer a verda de

muitas vezes me senti obrigada a seguir uma religio, a fazer coisas
porque todo mundo as fazia, apenas. S depois de vir para os Estados
Unidos, quando tive privacidade e tempo para fazer minhas escolhas, sem
ser forada
a nada, nem mesmo pelo meu marido, comecei a estudar
o islamismo mais profundamente e tambm o judasmo e
o cristianismo.

Hoje ela se orgulha de dizer que no s nasceu muulmana, mas tambm 
muulmana por opo.

Sarwat sempre quis estudar nos Estados Unidos, mas os pais no queriam
que ela fosse sozinha para um pas estranho. Ela continuou insistindo.
Eles se negavam a concordar. Finalmente, os pais deram a ela um
ultimato: Sarwat poderia ir... mas s se tivesse um marido para
proteg-la.

- Concordei com o casamento sem pensar duas vezes.
No Paquisto, casamentos arranjados so uma tradio puramente cultural
e integram o legado do pas h centenas de anos. O futuro marido de
Sarwat estava no pas em frias apenas para se casar, porque trabalhava
nos Estados Unidos e se dedicava aos estudos do curso de doutorado em
uma universidade americana.

292


- Nossos pais foram apresentados por um amigo comum - conta Sarwat. - S
nos conhecemos no dia do casamento.


No Paquisto, ela relata, cabe aos pais encontrar o parceiro ideal para
os filhos. Com essa finalidade, consideram muitos aspectos do futuro
casal, a educao, o nvel de maturidade e o temperamento e at as
preferncias e averses.
- Como os casamentos no so baseados em paixo, aparncia ou dinheiro,
o ndice de divrcio  muito baixo naquela parte do mundo. Meu marido e
eu nos entendemos muito bem. Costumo dizer que sou uma pessoa
hiperativa, e ele  muito calmo e maduro. Est sempre disponvel para me
ouvir e incentivar nas coisas que desejo fazer.
Depois do casamento no Paquisto, eles se mudaram para Eau Claire,
Wisconsin, onde o marido era professor- assistente da Universidade de
Wisconsin. Tambm conclua o doutorado na Universidade de North Texas,
em Denton.
- Naquela poca, Eau Claire era uma sociedade de brancos da classe
mdia, onde no existiam afro-americanos ou latinos. Quando chegamos,
havia poucos muulmanos estudando na universidade e, depois de certo
tempo, alguns mdicos muulmanos se mudaram para l. ramos cerca de
sete ou oito famlias, e foi assim por dezoito anos. No havia masjid
(mesquita), mas ns nos reunamos regularmente, primeiro em nossas
casas, depois em uma das faculdades. As famlias muulmanas fundaram uma
pequena escola dominical para nossos filhos.
Nessa poca, Sarwat e o marido tinham um casal de filhos. Ela estava
ocupada cuidando das crianas e estudando. Apesar de sentir saudade do
Paquisto e da famlia, encontrava conforto na bondade do pessoal da
universidade, gente que estava sempre se esforando para que ela se
sentisse em casa.
- Alguns deles pareciam ter me adotado.

293


Sarwat descobriu que educar os filhos nos Estados Unidos era um desafio.
Ela recorda o primeiro dia da filha na
escola em Eau Claire.
- Fui busc-la. O sinal soou, e todas as crianas comearam a correr
para fora das salas, gritando e rindo, sem nenhum respeito pelo
professor ou pelo diretor, que estava no corredor supervisionando a
sada. - Aquele comportamento a chocou. Ela estava acostumada a
procedimentos mais estruturados. As crianas de uma escola paquistanesa
teriam se perfilado e se despedido educadamente dos professores antes de
sarem. Era um comportamento considerado respeitoso. Por isso, Sarwat
decidiu que os filhos no freqentariam escolas pblicas americanas. Em
vez disso, ela os matriculou em escolas catlicas, onde, em sua opinio,
a moral e os valores so ensinados de maneira semelhante quela das
escolas de base islmica. Ela e o marido tambm ensinaram sua f aos
filhos em casa. Aos domingos, eles os levavam  escola muulmana em
Minneapolis, perto dali.

- As Cidades Gmeas ficavam a cerca de 150 quilmetros de Eau Claire,
mas pegvamos a estrada todos os finais de semana. Queramos que nossos
filhos tivessem a chance de conhecer outras crianas muulmanas e
aprender a religio em um ambiente escolar.
Durante aqueles anos, Sarwat sentia-se muito solitria na poca do
Natal, com poucas famlias muulmanas em Eau Claire. As ruas ficavam
desertas, e muita gente permanecia em casa depois do servio religioso.
Sarwat e a famlia adquiriram o hbito de aproveitar o feriado de Natal
para viajar. Mas, antes de partirem, sempre ofereciam uma festa para o
corpo docente e os amigos.
Apesar da agenda atribulada, Sarwat fazia questo de
organizar a festa todos os anos. Queria compartilhar a tradio
americana do Natal, e no era difcil: ela se descreve

294


como "ativista inata" que precisava sempre estar envolvida em muitas
coisas ao mesmo tempo.
- Acho que sou inquieta; tenho de ter alguma coisa a fazer. Alm de
trabalhar, sempre tive hobbies: ler, esrever, cozinhar, costurar,
pintar, esculpir, decorar, ouvir
msica e entreter. Vinte e quatro horas no dia no so sufi cientes
Preciso de mais trabalho do que h tempo para realiz-lo!
Aps concluir a faculdade em Wisconsin, ela conciliou
trabalho e filhos e tornou-se orientadora nutricional para
nove asilos da regio.
- Foi meu primeiro contato com idosos institucionalizados. Em nossa
cultura, o respeito pelos mais velhos  inerente. No islamismo, os pais
so responsabilidade dos filhos, e  uma forma de adorao cuidar bem
deles. Ver todas aquelas pessoas abrigadas em um lar coletivo foi uma
experincia inusitada, algo que jamais imaginei viver. Quando trabalhava
naquelas instituies, senti necessidade de criar lares grupais onde
pudesse haver pelo menos um ambiente mais domstico, mais aconchegante.
Contei a meu marido sobre minhas pretenses, e ele me apoiou
inteiramente. Naqueles dias, no existia nenhum lar ou instalao
comunitria de cuidados e abrigo para idosos. Abrimos trs, um aps o
outro. Administrei esses abrigos por vrios anos, mas sempre tive em
mente uma questo inquietante: como os filhos conseguem deixar os pais
em instituies?
De qualquer maneira, Sarwat se sentiu muito recompensada pelo trabalho
com idosos americanos.
- Sentia que estava fazendo alguma diferena.
Em 1989, os sogros de Sarwat se mudaram do Paquisto para o Texas. Como
os outros trs filhos do casal j viviam no Estado da Estrela Solitria,
queriam promover a reunio de toda a famlia. Foi uma dura deciso para
Sarwat e o marido, que viviam em Wisconsin havia anos. O marido foi
convidado para lecionar na Universidade Sul Ross State,

295

em Uvalde, Texas, onde seria professor e presidente do Departamento de
Negcios.
Sarwat gostou de Uvalde, mas achou o lugar pequeno. Depois de viver l
por dois anos, eles se mudaram para San Antonio, onde acabaram comprando
um centro de desenvolvimento infantil.
- Eu administrava o centro enquanto meu marido prestava consultoria para
pequenos empresrios. - Assim, a vida e a carreira de Sarwat seguiram
estveis... at o 11 de Setembro. Aquele momento simplesmente me virou
pelo avesso. Meu primeiro sentimento foi de ultraje, indignao. Como
algum se atrevia a cometer tamanho absurdo em nosso pas? Experimentei
um forte sentimento de responsabilidade, um impulso de fazer mais do que
j fazia como americana e muulmana, alguma coisa que pudesse construir
pontes, por assim dizer, mostrar como somos todos parecidos.
Ela tambm queria desfazer esteretipos sobre as mulheres muulmanas.
Mesmo antes do 11 de Setembro, Sarwat j escrevia artigos opcionais para
um jornal local e fazia palestras sobre o islamismo em igrejas, escolas,
universidades e outras organizaes. Depois do ataque terrorista, ela
decidiu que isso no era o suficiente.
- Queria oferecer uma alternativa para aquele embate dirio sobre o
islamismo e os muulmanos na mdia americana. Sei que tudo aquilo
favorecia as emissoras na constante busca por audincia, mas tambm
prejudicava os americanos muulmanos e dividia nosso belo pas.

Ao mesmo tempo, ela relata, o nmero de crimes por intolerncia e dio
contra muulmanos continuava crescendo no s no estado, mas em todo o
pas, apesar de seus artigos e das aparies pblicas. Sarwat decidiu
tentar algo novo: comeou a publicar um jornal prprio, Al-Ittihaad
Monthly, que significa "Unidade". No incio, ele circulava

296

apenas em San Antonio, mas dois meses aps a fundao comeou a ser
distribudo por todo o Texas.
- Temos grande nmero de leitores no-muulmanos. Creio que meu jornal 
popular porque os muulmanos precisam ter voz prpria e diversos
no-muulmanos querem saber mais sobre o islamismo. O momento de lanar
o jornal foi preciso.
No Texas, ela indica, h outros jornais muulmanos, mas
todos so especializados.
- Existem jornais rabes para rabes, paquistaneses para leitores
paquistaneses ou pequenos jornais direcionados  rea local. - Sarwat
queria publicar um jornal para todo mundo. Ele  gratuito. - Tentamos
cobrir o custo com publicidade. Comeamos com um tablide, mas agora ele
tem o tamanho normal.
O jornal est em operao h mais de dois anos e passou a circular em
todo o pas, em setembro de 2004, graas a assinaturas e distribuio em
mesquitas e em outras organizaes islmicas.
- Minha pretenso com o Al-Ittihaad  reconstruir pontes derrubadas
entre americanos muulmanos e no-muulmanos. Quando comecei o jornal,
lidava basicamente com assuntos religiosos. Mas logo senti necessidade
de abordar
questes, de relatar outras verses de histrias que
sendo veiculadas do ponto de vista da mdia ou do
americano. Escrevemos sobre questes e eventos do
islamismo que no so vistos em outros lugares, como o envolvimento dos
muulmanos na poltica, nos direitos civis e nos direitos humanos.
Cobrimos histrias sobre crianas muulmanas, discriminao e detenes
de muulmanos inocentes em todo o pas. Publicamos qualquer coisa que
deva ser dita e que ainda no tenha sido expressa em nenhum outro lugar.
Isso se tornou minha misso de vida!
Sarwat tambm trabalhou com outras pessoas para comear um captulo do
Conselho de Relaes Islmico-Americanas

297

em San Antonio, sendo este o maior grupo de defesa de direitos
civis dos muulmanos nos Estados Unidos, e tornou-se a presidente.
Tambm trabalha com hispnicos e outros grupos para certificar-se de que
os imigrantes sejam tratados com justia.  claro, ela continua
contribuindo para informar americanos no-muulmanos sobre a f
islmica.
Sarwat sente que agora  parte das duas culturas e orgulha-se de ser
muulmana e americana. A lealdade e as
responsabilidades pertencem aos dois, ela afirma.
- A Amrica  meu lar, e farei tudo que puder para servir a "essa terra
dos livres e esse lar dos bravos".

298

40
A PESADA MALETA DE LAILA:
MDICA COM UMA CAUSA

Nesse momento, a dra. Laila Al-Marayati, ginecologista e obstetra, est
preocupada com uma das pacientes, uma jovem de Los Angeles que
desenvolveu complicaes ao longo da gravidez. Trata-se de uma gestao
de alto risco, e ela no conta com um sistema de apoio. O namorado est
fora do pas, servindo ao Exrcito americano, e no consegue obter
licena para voltar e ajud-la, simplesmente porque no so casados.
So essas coisas que deixam Laila maluca: regras que impedem as pessoas
de ajudar outras em momento de necessidade. Mas no  s com o sistema
de sade americano que essa mdica de 42 anos est preocupada. Ativista
de direitos humanos internacionais e ex-designada presidencial, ela se
inquieta com a crescente limitao pelos Estados Unidos dos direitos de
rabe-americanos e outros injustamente acusados por conta de sua f ou
ascendncia.
Laila nasceu na Amrica. A me  americana e se casou com um mdico
palestino, hoje cidado naturalizado. Apesar de no ser a primeira
gerao de imigrantes palestinos, Laila conta que enfrenta obstculos
que outros americanos no conhecem. Quando viaja, no tem liberdade para
ir aonde quer. Em 2004, Israel proibiu sua entrada na fronteira
jordaniana, onde ela visitaria membros da famlia que vivem na Faixa
de Gaza. Ela e a irm fizeram a viagem especificamente para ver o tio
enfermo, um palestino que hoje reside em Israel. Para os americanos,
circular entre Israel e a Jordnia no costuma ser problema. Muitos
turistas dos Estados Unidos desejam visitar os dois pases, conhecer os
pontos histricos e religiosos ali existentes.
Mas os israelitas da fronteira no a deixaram entrar.
- Eles nem revelaram a razo do veto. Apenas nos enviaram de volta 
Jordnia. Foi um choque! Ento, no podia visitar minha famlia? O
oficial da patrulha na fronteira israelita gritou conosco. Foi
desagradvel e rspido.
Laila no sabe quando voltar l. Ela quer ver a famlia, mas, por outro
lado, no deseja percorrer toda a distncia s para ter de voltar do
aeroporto de Israel, como aconteceu nos ltimos anos com outros
palestinos americanos.
- Meus parentes esto na Faixa de Gaza, no na Margem Oeste, e  mais
difcil entrar naquela rea.
A famlia do pai est em Gaza h muitas geraes, mas
perdeu inmeras propriedades ao longo dos anos.
- Desde o final da Guerra dos Seis Dias, em 1967, tudo tem sido bastante
difcil.
Vrios americanos nem sabem dessas complicaes, ela diz. Tambm no tm
conscincia de que, se ela falar publicamente em defesa dos ancestrais
ou em nome de outros palestinos ou muulmanos, provavelmente ser
rotulada como "extremista" e "contra Israel". E ela diz que no  nada
disso.
- Algumas coisas ditas sobre mim so horrveis, realmente. No entendo.
Quando o presidente Clinton nomeou Laila para a Comisso de Liberdade
Religiosa Internacional do Departamento de Estado dos Estados Unidos, em
1999, ela foi imediatamente atacada. A Organizao Sionista da Amrica,
por exemplo, emitiu um comunicado  imprensa chamando-a

300

de "extremista muulmana ligada aos que odeiam Israel". O grupo no
mencionou nenhuma declarao anti-semita de Laila ou quaisquer palavras
que ela tenha dito contra Israel. O que usaram foram comentrios feitos
em 1997, trechos de um discurso proferido na posio de integrante
muulmana do Comit de Aconselhamento sobre Liberdade Religiosa do
Departamento de Estado. Nesse discurso, ela pretendia introduzir o
"sentimento de equilbrio", promovendo assim um olhar atento para toda e
qualquer perseguio religiosa. A Organizao Sionista tambm a acusou
de dizer que israelitas negavam acesso a muulmanos palestinos e
cristos aos locais de adorao, o que, segundo a mesma Organizao, era
mentira. Mesmo assim, apesar dos protestos, o presidente Clinton manteve
a indicao, e Laila serviu na Comisso durante dois anos. (A
Organizao Sionista esfriou sua retrica contra Laila, mas, em 2001,
pressionou a administrao Bush para substitu-la por algum que "no
estivesse to cheio de dio por Israel, o aliado da Amrica".)
O marido iraquiano de Laila, Saiam Ai-Marayati, no teve a mesma sorte.
Ex-engenheiro,  agora diretor-executivo do Conselho de Assuntos
Pblicos Muulmanos em Los Angeles. Quando em 1999 o ento congressista
americano Dick Gephardt indicou Saiam, que na poca servia na Comisso
de Relaes Humanas de Los Angeles e desempenhava importante papel nos
esforos nacionais intercrenas, para integrar a Comisso Nacional sobre
o Terrorismo, certos grupos judeus americanos protestaram com veemncia,
incluindo a Organizao Sionista. Gephardt desistiu rapidamente de
Saiam, alegando que seria necessrio muito tempo para obter sua
liberao pela segurana, sendo ele iraquiano. (Saiam deixou Bagd em
idade pr-escolar.) O recuo de Gephardt indignou at alguns lderes
judeus, e um deles, rabino de Los Angeles, identificou seu comportamento
como ato de "impressionante ignorncia".

301

Posteriormente, Laila disse a um reprter da PBS:
- Creio que o que vemos nesse momento  uma indisponibilidade de ouvir um
ponto de vista contrrio.  fcil conversar com pessoas com as quais
concordamos e difcil sentar e ouvir algum que tem opinio diferente.
No entanto, a menos que possamos fazer tal coisa, jamais chegaremos
perto da real compreenso do outro.
Todo o estresse de assumir uma posio tica, porm
controvertida, ela diz, pode fazer as pessoas adoecerem fisicamente e
no desejarem aparecer em pblico.
-  algo que cria ansiedade, depresso e at medo.
A discrdia que Laila experimentou diferia muito da atmosfera calorosa e
solidria do lar onde ela crescera, na Califrnia. A famlia sempre foi
muito unida. O pai, j falecido, foi superativo no Centro Islmico, no
sul da Califrnia.
- Ele queria fazer do lugar um ponto de convergncia, apesar de nossa
famlia no ser religiosa. - A me se manteve crist at Laila ir para a
faculdade. Depois teve um despertar espiritual e se converteu ao
islamismo.
At hoje, Laila ainda  bastante prxima da famlia. Viaja com os irmos
e pode contar com eles para cuidar dos filhos caso esteja muito
atribulada. A me, viva, hoje mora com ela e a famlia, e Laila  grata
pela ajuda. Quando fica estressada e nervosa demais para lidar com as
crianas, a me interfere para amenizar a tenso e resolver a situao.
Laila j tentou diminuir o ritmo de vida, mas  uma mulher muito
ocupada. Em determinado perodo, ela manteve o consultrio enquanto
lecionava na faculdade de medicina da Universidade do Sul da Califrnia.
Desde ento, passou a clinicar em regime de meio perodo, atendeu em
duas clnicas e agora faz plantes apenas em dois finais de semana por
ms para realizar partos.
E, apesar de tudo, ela no pensa em parar; sabe que 
necessria. Ao longo dos anos, j trouxe ao mundo centenas de bebs,
atuando em um campo da medicina que se

302

tem tornado de alto risco e cada vez menos procurado. Outros obstetras
da Califrnia esto abandonando a rea, e recm-formados no esto
preenchendo os lugares. Laila comenta que 60 por cento das vagas para
ginecologistas e obstetras ainda no esto preenchidas.
Para realizar seu trabalho, ela fala fluentemente espanhol, instrumento
que utiliza para ajudar as pacientes que no falam ingls. Ela mesma se
espanta por no falar rabe, mas ser capaz de conversar e entender
imigrantes latinas.
O tempo de Laila tambm  ocupado pelo papel de porta-voz da Liga de
Mulheres Muulmanas, com base em Los Angeles, e por outros trabalhos
voluntrios humanitrios. Ela ajudou a fundar a Liga e j foi a
presidente.
Por anos, em conjuno com o trabalho na Liga, Laila pesquisou e
escreveu sobre o islamismo e as mulheres, as violaes de direitos
humanos e a perseguio religiosa. Os artigos abordam assuntos como
poligamia, vesturio feminino, sexualidade e maternidade. Como ativista,
ajudou a persuadir mais de vinte grupos civis e religiosos a fundar a
Coalizo das Mulheres Contra a Limpeza tnica, a fim de ajudar
muulmanos na Bsnia dilacerada pela guerra. Em 1993, Laila liderou uma
delegao da Coalizo em Zagreb, Crocia, para ajudar a determinar a
melhor maneira de auxiliar sobreviventes de estupro e oUtros refugiados
da Bsnia. Dois anos mais tarde, integrou a delegao dos Estados Unidos
na Quarta Conferncia das Naes Unidas sobre Mulheres em Beijing,
China. Depois, em 1997, testemunhou diante de um Comit do Senado
americano sobre intolerncia religiosa contra muulmanos na Europa,
atuando como membro do Comit de Aconselhamento do Departamento de
Estado no Conselho de Liberdade Religiosa.
Mais perto de casa, Laila ajudou a fundar um campo de esportes para
meninas muulmanas e desenvolveu um programa de educao sexual para
todas as crianas muulmanas.

303

Tudo isso pode ser exaustivo at para uma Supermulher, e Laila aprendeu
a estabelecer prioridades. Assim, apesar da solidariedade s mulheres
que desejam tratamento igualitrio nas mesquitas, ela diz que deve se
concentrar em questes maiores. Muitas mulheres muulmanas em todo o
mundo ainda tm negados os direitos bsicos. Se os maridos as deixam,
ficam sozinhas e sem instruo, sem preparo para ganhar a vida, e
enfrentam abuso. Laila tratou refugiadas muulmanas africanas que
desenvolveram complicaes mdicas por conta de primitivas operaes de
circunciso realizadas pelas tribos quando ainda eram meninas,
procedimento que hoje  denominado mutilao genital feminina. E ainda
h os assassinatos em nome da honra, cometidos quando um patriarca sente
que deve matar uma filha ou outra familiar que, na opinio, levou
desgraa  famlia sendo sexualmente ativa fora do casamento.
- Felizmente, isso no acontece nos Estados Unidos - diz Laila. - Mas
ocorre em vrios outros lugares.
O extensivo ativismo de Laila seria impossvel sem o apoio da famlia e
do marido. Ela conheceu Saiam na adolescncia, durante uma aula no
Centro Islmico na Califrnia. Ele tambm se interessou pelo ativismo,
tanto que mudou de carreira aps ter estudado engenharia. Eles se
casaram depois de Laila concluir o curso de graduao na Uda.
O que salvou o casamento, ela diz atualmente em tom de brincadeira, foi
a deciso de contratar uma empregada
domstica para ajudar na limpeza e na arrumao da casa.
- A idia de Saiam sobre o que  uma casa limpa  muito diferente da
minha. Contratei uma domstica que j havia trabalhado para meus pais.
Foi pesado para o nosso oramento, mas nos ajudou muito. - A criada
ainda trabalha para a famlia.
Laila reconhece como o marido a ajudou a superar todas as dificuldades
da faculdade de medicina e do treinamento

304

como um todo. Quando ela era estagiria e tinha de cumprir
plantes noturnos, Saiam ficava em casa cuidando do primeiro filho do
casal.
- Ele ficava sozinho com o beb - Laila conta.
E eles ainda dividem as tarefas. "Trabalho penoso da
vida", como ela chama certas tarefas, como pagar contas.
Vamos resolvendo um problema de cada vez. Felizmente, fomos abenoados
por uma atitude aberta e positiva.
Laila gostaria que todos no pas tivessem atitude semelhante. Em sua
opinio, o governo americano no trata todas as pessoas, ou todas as
naes, com igualdade. Pases predominantemente muulmanos e os nativos
dessa religio so julgados de maneira mais severa. A maioria dos
americanos tambm no percebe como ela e outros muulmanos do pas
passaram a se sentir indesejados, at ameaados, aps o 11 de Setembro,
e isso no prprio pas.
Laila cita sua experincia com o uso do hijab. Ela j usou o leno que
cobria os cabelos. Foi durante a dcada de 80, quando o uso do hijab era
adotado principalmente por mes e donas de casa muulmanas. Como
estudante de medicina, ela no estava preparada para as reaes
provocadas pela simples pea de vesturio. Vrios alunos do sexo
masculino a desprezavam  primeira vista. Outros, incluindo mdicos e
professores a quem ela reverenciava, fizeram comentrios inconvenientes
como: "Por que est se escondendo embaixo de tudo isso? S fica mais
sexy".
- Estava ficando cansada de chamar tanta ateno. Sentia que me tornava
uma pessoa irada. At aqueles com quem eu pegava o elevador faziam
comentrios. Descobri que passava todo o tempo dando explicaes. Isso
me fazia sentir vulnervel.
Laila removeu o hijab, e a recompensa imediata foi a reao de outros
alunos, que a procuraram para dizer que antes temiam conversar com ela
por causa do hijab. Ela se tornou amiga de vrios deles. E tambm
aprendeu uma lio

305


valiosa sobre adaptao: apesar da declarada paixo da Amrica por
individualidade, diversas pessoas querem que os amigos sejam corno eles,
fato da vida que Laila considera "bastante triste"
Embora os tempos estejam mudando, e mais mulheres muulmanas adotem o
hijab, que nem  mais considerado to estranho assim, Laila no pensa em
retom-lo. De qualquer modo, consjdera-se 'mujto observadora". Ela se
veste com decoro, faz as oraes cinco vezes ao dia e jejua durante o
Ramad. E segue as instrues do Alcoro sobre ser generosa com os
pobres. Com tantas pessoas carentes no mundo, ela acredita que h muito
por fazer.
-  preciso continuar tentando ser uma fora positiva
- Laila opina.

306


41

PAIXES DE AFEEFA: POLTICA E EDUCAO

Ela afirma que foi prevenida: como mulher muulmana
e adepta do hijab, s encontraria portas fechadas. Mesmo assim, Afeefa
decidiu se candidatar.
Como antiga residente de Loudoun County, Virginia, uma das reas que mais
rpido crescem na nao, Afeefa estava cansada da confuso, dos
congestionamentos crescentes, das escolas superlotadas. Queria fazer da
comunidade um lugar mais habitvel. Como disse ao Washington Post: "Sou
muulmana, mas meus assuntos so americanos"
Assim, no ltimo minuto, ela se candidatou ao Conselho de Supervisores
de Loudoun County do Distrito de Potomac. Apesar de ter conquistado
surpreendente vitria nas primrias do Partido Democrata em junho de
2003, superando inclusive os escolhidos do partido, no final Afeefa
acabou perdendo para o concorrente Republicano. rea tpica da periferia
perto de Washington, Loudoun County  reduto Republicano. Toda a eleio
foi "terrvel para os Democratas", como ela mesma conta.
Tambm foi um incio para os muulmanos daquela regio, que se tornaram
mais ativos politicamente. Afeefa diz que foi recrutada para concorrer a
um Comit de Aes Polticas recm-formado, grupo denominado Plataforma
para o Fortalecimento Civil Ativo, o qual a ajudou na surpreendente
vitria pelas primrias. O Comit foi fundado aps


vrios lares e estabelecimentos comerciais muulmanos terem sido
invadidos e revistados em 2002, com base em suspeitas de elos
financeiros com terroristas, embora nenhuma deteno tenha sido feita. O
fundador do Comit, Mukit Hossain, achava que os muulmanos deviam se
tornar mais ativos politicamente para adquirir voz na maneira como a
regio era administrada.

- Se pudssemos nos expressar, talvez as pessoas entendessem um pouco
mais sobre o islamismo e os muulmanos - disse uma muulmana a uma
reprter na poca da fundao do grupo.

Afeefa conta que a disputa a revigorou e incentivou outros muulmanos a
se candidatar. Mesmo assim, ela quer enfatizar que defende questes de
interesse geral, no s dos muulmanos. A experincia a ensinou que uma
mulher muulmana pode ser levada a srio quando fala sobre questes
srias. Mesmo usando hijab, ela relata no ter enfrentado assdio ou
ameaas contra os quais foi prevenida.

Quando comeou a fazer a campanha porta a porta, Afeefa antecipava
alguns incidentes. Em determinada ocasio, quando um homem coberto por
tatuagens atendeu ao seu chamado e abriu a porta, ela chegou a temer
pelo pior. Havia na sala dele uma enorme bandeira da Confederao, e ele
mantinha em casa um grande co pastor. Afeefa deduziu que o morador
seria to agressivo quanto o cachorro.

- Tive medo de ser agredida - ela recorda.

Todavia, quando explicou que era candidata a supervisora do condado e
perguntou quais eram as principais preocupaes dele, o homem a levou a
srio e quis saber o que ela pretendia fazer em relao ao rio Potomac.
O trecho que passava por aquela regio era to poludo, queixou-se o
morador, que no se podia pescar em suas guas.
- Essa  uma das minhas preocupaes - ela respondeu, animada. Tambm
queria tornar o rio mais limpo e

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prprio para uso da populao. A conversa foi a comprovao de que seu
programa de intenes derrubaria quaisquer preconceitos que as pessoas
pudessem ter.
Afeefa levou a mesma atitude confiante ao sistema educacional. Queria
que os trs filhos tivessem educao islmica, mas no havia nenhuma
escola muulmana perto de casa. Ento, ela fundou a primeira.
- Queramos criar um lugar de formao para as crianas - conta. Ela 
diretora-fundadora do Ai Fatih Academy, que tem atualmente 95 alunos da
pr-escola  quarta srie. (A escola acrescenta uma srie a cada ano,
acompanhando a turma.)
Ao mesmo tempo, Afeefa tambm iniciou o Programa de Lderes da Paz, que
ensina formas de resoluo pacfica de conflitos para crianas a partir
dos trs anos de idade. O programa  voltado especificamente  superao
de obstculos criados por diferenas culturais.
- s vezes, os programas que existem nas escolas no levam em conta a
diversidade.
Afeefa descreve a Ai Fatih como uma escola espantosamente diversa, cujos alunos e pais provm de todas as partes do mundo.
- Temos alunos cujas famlias viviam no Iraque durante a guerra e tambm
crianas cujos parentes, integrantes
do Exrcito americano, lutavam naquele pas.
Ela tenta enfatizar s crianas o conceito de doao. Para tanto, a
escola estabeleceu parceria com igrejas locais para enviar pacotes de
ajuda aos iraquianos. Alm disso, Afeefa fundou o Kids Giving Salaam,
grupo cuja finalidade  despertar e alimentar nas crianas o amor pelo
servio comunitrio.
Afeefa  filha de indianos. Os pais so do estado politicamente dividido
da Caxemira. Paquisto e ndia travaram duas guerras por essa regio, e
um movimento separatista iniciado h quinze anos luta pela independncia
da Caxemira.

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O pai de Afeefa foi prisioneiro poltico na ndia. Mais
tarde, quando ele e a esposa viajaram aos Estados Unidos
para obter diplomas de doutorado, decidiram ficar.
Afeefa cresceu no corao da terra; o pai e a me estuda ra na
Universidade de Indiana, em Bloomington. Depois,
mudaram-se para a Virgnia, onde o pai de Afeefa  hoje
secretrio-geral da Sociedade Islmica da Amrica do Norte. Afeefa
estudou na Virgnia, onde conquistou o mestrado
em antropologia.
O interesse por variadas culturas a incentivou a ensinar  sobre o islamismo e os muulmanos a outras pessoas. E,
como consultora em diversidade e instrutora multicultural,
ela j esteve em um programa da PBS discutindo ensina mento islmicos e
datas sagradas, como o Ramad. Tam b esteve em escolas pblicas para
falar aos estudantes
sobre sua f, atividade que, s vezes, provoca controvrsia.
Em artigo de uma revista, uma escritora alegou que a
presena de Afeefa em escolas pblicas para falar sobre o
islamismo era exemplo da "divulgao de propaganda islmica em escolas
pblicas americanas". A escritora contou
sobre como Afeefa carregava um globo "para apontar as
reas do mundo habitadas por muulmanos, quase todas,
considerando a propenso desse povo para deixar os pases
de origem". Acrescentou ainda que Afeefa levava consigo
crianas muulmanas e seus tapetes de orao para falar
ainda mais sobre o islamismo.
Em uma carta ao editor, Afeefa protestou contra o arti go alegando que
suas atitudes eram completamente isen ta de qualquer inteno de
propaganda. Era convidada
pelos professores para dar informaes a crianas que, na
maioria das vezes, no sabiam muito sobre o islamismo.
"As apresentaes celebram tradies culturais e enfati za o que h de
comum entre todos ns", ela tentou expli ca na carta. "Ningum afirma
que o islamismo  uma religio

 310

melhor; ningum  chamado ou convencido a aceit-lo como caminho da
verdade."
Afeefa aponta que s vai a lugares para os quais  convidada e se
apressa em elaborar:
- Como me de trs meninos, compreendo a importncia de dar s crianas
mais de um ponto de vista alm
do meu.
Apesar da controvrsia, ela est bastante entusiasmada com o progresso
alcanado pelos muulmanos na poltica da Amrica. Mais muulmanos se
candidatam a cargos pblicos,  encorajadas por Afeefa na
regio.
- Decidimos que podemos fazer a diferena.

311

42

CLAREEN NO FRONT

Quando Clareen Menzies era entrevistada recentemente para um emprego na
organizao Socorro Islmico
na Amrica, fez duas solicitaes: poder contratar mais mulheres e
utilizar os fundos angariados para estabelecer mais programas mantidos
por mulheres para ajudar mulheres. Os dois pedidos foram atendidos, e
ela foi contratada.
Clareen divide o tempo entre a regio de Minneapolis e St. Paul, onde
mora h bastante tempo, e a de Los Angeles, onde fica a sede do Socorro
Islmico na Amrica. Para ela,  importante manter as razes do
meio-oeste. Ela  lder islmica na regio de Minneapolis-St. Paul e foi
a primeira mulher a servir entre todos os homens nas Organizaes
Muulmanas de Minnesota. Tambm atuou em uma mesquita e no conselho da
Tarek ibn Ziyad Academy, escola que serve predominantemente alunos
muulmanos. Atua ainda no conselho de outro grupo de servios sociais
que oferece aconselhamento e estabelece um programa para que muulmanos
se tornem pais temporrios para crianas muulmanas aos cuidados do
Estado. E, em 1999, Clareen fundou a Sisters Need a Place (SNAP), grupo
sem fins lucrativos que ajuda muulmanas do meio-oeste submetidas a
abuso domstico ou com problemas de moradia, emprego, transporte, guarda
dos filhos e divrcio. A SNAP  um esforo voluntrio: Clareen, por
exemplo, ajuda cinco mulheres
carentes, enquanto outras voluntrias cuidam de casos de vtimas de
abuso. Como ex-vtima, ela sabe por experincia prpria como um pouco de
bondade pode auxiliar pessoas nessas circunstncias a mudar suas vidas.
- Aprendemos muito para podermos ajudar as mulheres - ela conta. - Fizemos
vrios amigos, tanto na comunidade muulmana quanto na comunidade em
geral.
Anisah David, integrante do conselho diretor do SNAP, diz que Clareen 
uma "geradora de fora muulmana" que j ajudou outras mulheres
muulmanas em todo o meio-oeste.
Ela se transformou em um valioso bem na indstria de servios
humanitrios (como casas de caridade e fundaes) e sua histria ilustra
como o islamismo desempenha um papel na vida dos americanos - diz
Anisah. - Eu a considero um modelo.
Clareen foi uma das primeiras mulheres brancas a se tornar muulmana em
Minnesota, na dcada de 70. Ela se interessou pelo islamismo quando uma
famlia se mudou para a casa vizinha  dela. Muulmanos, eles praticavam
a f em sigilo.
- Eram de Uganda e deixaram o pas quando Idi Amin chegou ao poder -
conta ela. O famoso ditador Amin, responsvel por cerca de 400 mil
assassinatos ou desaparecimentos no pas, emitiu um ultimato para todos
os asiticos que possuam bens e terras em Uganda: ir embora ou morrer.
Ento, Roshan e Abdul Osman, vizinhos de Clareen, decidiram deixar o
pas. O casal chegou a Minneapolis-St. Paul com uma igreja como
patrocinador.
- Para receber o patrocnio, como era chamada essa ajuda especfica,
eles tinham de ser cristos, por isso fingiam ser e at iam  igreja aos
domingos - conta Clareen. - Em seguida, realizavam os servios
muulmanos em casa. - Quando a filha de Clareen se tornou amiga da filha
dos novos vizinhos, ela tambm conheceu o restante da


313



famlia... e o islamismo. - Eu enfrentava problemas de racionalizao com a
religio luterana em que fui criada. As perguntas que eu fazia me
causavam problemas. Em conversa com os novos vizinhos, fiz perguntas
sobre o islamismo e obtive respostas claras e diretas.
Mas ela era improvvel candidata ao islamismo. Na poca, muitos
convertidos eram afro-americanos, especialmente detentos atrados pela
f pela Nao do Isl. Ruiva de olhos azuis, Clareen era secretria e
criava a filha sozinha. A famlia lhe havia dado formao protestante.
Mesmo assim, Clareen se sentia confortvel com a nova relgio. Para
ela, fazia mais sentido.
- O islamismo aceitou minha inteligncia, ensinou-me disciplina e me fez
curiosa.
Clareen recorda a solido que sentiu na infncia. Luterana, tinha de
ficar em casa e quieta aps o servio aos domingos, passando o restante
do dia com a famlia.
- No tinha irmos - ela lembra. - No havia ningum com quem eu pudesse
brincar.
Ela se tornou muulmana aos 28 anos, em 15 de julho de 1977, em uma
cerimnia na qual simplesmente repetiu as seguintes palavras: "No h
nenhum Deus alm de Deus e Maom  o Profeta".
Os primeiros anos aps a converso no foram fceis. Havia apenas duas
mesquitas em todo o estado de Minnesota, ambas em Minneapolis, e ela no
se sentia confortvel em nenhuma. Uma delas era para afro-americanos
que, na poca, no eram exatamente receptivos aos brancos nos servios.
A outra era freqentada basicamente por imigrantes que j haviam nascido
na f.
- Poucos falavam ingls - ela lembra, referindo-se aos problemas de
comunicao. - Eu no me enquadrava.
Mas Clareen continuou estudando o islamismo. Afinal,
estava habituada a ser diferente. Antes mesmo de se tornar

314

muulmana, era inquieta e estava sempre assumindo riscos, apesar das
dificuldades acarretadas por essa conduta.
No final da dcada de 60, ainda jovem e recm-formada no colgio,
Clareen comeou a namorar um homem negro, um escndalo aos olhos dos
pais. A famlia no estava preparada para aceitar um negro. Ameaaram
deserd-la se insistisse no namoro... e cumpriram a ameaa.
- A histria  assim: fui demitida do meu emprego na quinta-feira,
deserdada na sexta e engravidei no domingo.
O que aconteceu em seguida foi quase uma comdia: a me ia visit-la e
tentava convenc-la a no contar nada ao pai. Horas depois, o pai
aparecia e tentava persuadi-la a no dizer nada  me. Os dois atribuam
a culpa de toda aquela situao e da deciso de deserd-la  famlia do
outro, mais conservadora e escandalizada.
Aos 19 anos, me solteira, Clareen foi incentivada a abrir
mo de Naomi, a filha. Todos diziam que ela viveria melhor
se fosse adotada.
- Sofri a terrvel presso para entreg-la  adoo, mas resisti.
Clareen sabia que enfrentaria anos de dificuldade e trabalho duro, mas
no desistiria da filha. O pai da menina ajudava eventualmente, apesar
de nunca terem se casado. s vezes, ele se tornava violento e agredia
Clareen fisicamente. Clareen e Naomi fizeram as pazes com esse homem
antes de sua morte.
O homem com quem Clareen se casou foi outro afroamericano que ela
conheceu durante o curso noturno na universidade, onde estudou
organizao comunitria e humanidades. Ele integrava o programa de
reabilitao para ex-agressores por intermdio da educao. Na priso,
tornara-se membro de um grupo muulmano exclusivo para negros denominado
Moors Science (Cincia dos Mouros). Clareen sabia sobre sua f
muulmana, mas no era incentivada a aprender mais sobre ela.

315

Ele tambm acabou se mostrando violento, e a separao ocorreu aps 12
anos de casamento. Na maior parte do tempo, ele esteve na priso.
Clareen relata que todo o perodo de convivncia do casal foi de 22
meses. Ele tambm faleceu.

Clareen conheceu o terceiro homem que pensou ser "aquele", mas ele
tambm comeou a agredi-la. Ela o expulsou de casa aps 3 anos.
A essa altura, ela j estava farta. Por que atraa sempre esse tipo de
homem? Era muulmana devota havia anos e a incomodava no poder
encontrar um marido que partilhasse de sua f e a tratasse como merecia
ser tratada.
Uma amiga querida, outra mulher espancada que ela chamava carinhosamente
de "batista radical", disse a Clareen algo que ela recorda at hoje: ela
- no estava encarando a realidade. Havia passado 12 anos com um marido
agressivo, mas no suportara mais de 3 com o que vivera depois

dele.

- Est melhorando - a amiga apontou.
O comentrio a ajudou a encontrar o caminho, e nunca mais Clareen se
envolveu com homens que a agredissem.
Pensando bem, ela e a amiga "batista radical" se haviam
enganado no passado, pensando que poderiam reformar os
"garotos maus". Como ela mesma admite agora:
- Todas as mulheres se julgam capazes de mudar homens maus. Quando se
chega aos 50 anos, voc s quer
encontrar algum que no tenha de ser mudado.
Mais sbias, as duas mulheres passaram a contar uma
com a outra para contrapor  realidade os homens que conheciam.

Conseguimos escapar daquele ciclo vicioso de autoenganao e no mais
nos contentamos com menos do que
merecemos.
Ao mesmo tempo, Clareen progredia profissionalmente.  executiva de
desenvolvimento e planejamento de fundos

 316

para diversas entidades de caridade h 20 anos, desde que foi
demitida do emprego de secretria em uma companhia de Minneapolis, na
qual seu departamento foi eliminado. Logo depois, encontrou emprego de
assistente administrativa no Fundo de Mulheres de Minnesota, uma das
primeiras fundaes para mulheres no pas.
- Estava l havia vinte minutos e j redigia uma solicitao - ela
lembra. Com o tempo, Clareen tornou-se diretora de desenvolvimento. - Eu
me dei muito bem com esse trabalho - diz. Se o grupo queria pedir doao
a uma mulher muito rica, mandavam outra mulher para defender a causa. A
mesma tcnica era empregada com executivas, afroamericanas, americanas
nativas e outras. Era o clube da nova mulher, e a entidade atraa
grandes doadores. Uma delas contou mais tarde em tom brincalho:
- Decidi doar um milho e ia perguntar a opinio do marido, mas ento
pensei: "Por que perguntar? O dinheiro
 meu!"
Clareen descobriu que tinha talento para angariar fundos e gostava da
atividade. Ela ajudou a somar milhes de dlares para o Fundo, sempre
supervisionando grupos com mais de 500 voluntrias.
No entanto, com o passar do tempo, ela ficou farta da
"poltica dos grupos femininos" e se desligou de repente.
Horas depois de saber que Clareen se havia demitido, uma americana
nativa a convenceu a angariar fundos para os ndios. Ela acreditava que
Clareen entenderia a cultura nativa e poderia se comunicar com doadores
potenciais, fazendo-os entender a causa. A mulher j havia considerado
todos os detalhes.
A estratgia rendeu frutos.
- Nunca recebemos um no - conta Clareen.
Depois dessa experincia, ela passou a atuar de maneira autnoma,
servindo como consultora para esses grupos.

317

- Enlouqueci - ela diz. - Lembro-me de ter ido para a cama com o
despertador programado para as quatro da manh, porque precisava
formular dez propostas para a Fundao Minneapolis at as quatro da
tarde. Ao meio-dia eu tinha tudo pronto, tomava banho e ia apresentar
minhas idias.

Clareen tambm foi recrutada para trabalhar meio perodo para o comit
de planejamento para mulheres criminosas do Departamento de Correes de
Minneapolis. Uma das misses: descobrir por que tantas negras acabavam
no isolamento, excedendo sobremaneira o nmero de contrapartes brancas.

- Eu disse a eles que no poderiam mandar uma branca ao presdio para
descobrir o que estava acontecendo. Eles responderam que no queriam
argumentos. Queriam ao. Assim, eu fui.
Como j era costume, Clareen importunou alguns funcionrios da
penitenciria com sua atitude no-conformista. Convidou uma prisioneira
recm-libertada para jantar com ela, desrespeitando a regra que proibia
a confraternizao com detentas. Mas, ela protestou, como poderia
descobrir o que estava errado se nem podia conversar com privacidade e
intimidade com as mulheres que mais sabiam sobre o tratamento dado na
penitenciria?
Clareen acabou concluindo que brancas e negras eram tratadas de forma
diferente, porque os guardas tendiam a acreditar no que as prisioneiras
brancas contavam a eles. Conseqentemente, as brancas recebiam mais
privilgios e menos punio que as contrapartes negras.
- Se voc  negra e comete um crime, vai para o buraco
- ela conta. - Se  negra, talvez possa ver os filhos na hora da visita,
enquanto as brancas vo automaticamente v-los.
Clareen obteve sucesso ajudando algumas prisioneiras.
Uma nativa americana que finalmente conseguiu a liberdade
318

condicional aps ter sido condenada por colocar veneno de rato na
comida do marido que a agredia telefonou posteriormente para ela para
agradecer. Orgulhosa, contou como havia concludo os estudos e
conseguido um emprego com que sempre sonhara: decoradora de interiores.
Clareen transmitiu a notcia ao ento senador Paul Wellstone, que havia
ajudado a mulher suportando as peties e garantindo as audincias para
a obteno da condicional.
Pouco depois disso, Clareen foi trabalhar para o City mc., grupo sem
fins lucrativos em Minneapolis que oferece passagem familiar e programa
de defesa em uma escola alternativa. Ela chegou ao conselho primeiro
como consultora, depois como diretora de desenvolvimento. Atualmente,
atua nessa agncia h seis anos.
-  muito tempo. Preciso seguir adiante - diz com a expresso imutvel.
Clareen estava brincando, mas no demorou muito para
que o Socorro Islmico da Amrica passasse a assedi-la.
Ela tambm se casou, dessa vez com um muulmano gentil e agradvel, que
a convenceu a assumir mais esse risco. Como ela, o marido tambm 
convertido ao islamismo, e a converso ocorreu poucos meses antes da de
Clareen. Eles moram em uma vizinhana tranqila de St. Paul.
No entanto, quando recebeu o pedido de casamento, Clareen sabia que ele
era casado com outra mulher. Mesmo conhecendo a viso do islamismo sobre
a poligamia, ela no a aceitaria jamais. E disse claramente ao
proponente:
- Sou filha nica. No aprendi a dividir. - E o esqueceu. - Mas ele me
mandava cartes todas as semanas. Eu
os jogava no lixo.
Em vez de desistir de Clareen, ele se divorciou da esposa. De novo,
repetiu a proposta de casamento, e dessa vez amigas a convenceram a
consider-la. Uma delas chegou a dizer:

319

- Voc j sofreu por homens que a machucaram. Por que no tenta algum
que a ama?
Clareen decidiu confront-lo.
- Por que, perguntou, ele a
queria por esposa?
A resposta foi direta:
- Quero me casar com voc porque a amo e desejo cuidar de voc. E porque
quero ser entretido at o fim da minha vida.

Como ela poderia resistir a um pedido dessa natureza?
- Ele  bastante divertido - conta Clareen. Um dos seres mais divertidos
com quem j convivi.
Mas ela tambm tem senso de humor. Como rnahr, presente que os
muulmanos do s esposas em sinal de compromisso eterno, Clareen pediu
dez quilos de gros de caf verde. Ela ama seu caf... e o homem que
agora faz parte de sua vida.
De fato, a vida foi boa com Clareen, muslimah pioneira. Ela diz ter
recebido grande apoio dos amigos, da famlia e dos colegas de trabalho
aps o 11 de Setembro. Todos se mostraram solidrios a ela e  sua f.
Como a prpria Clareen coloca:

- Antes do 11 de Setembro, as pessoas me amavam apesar do islamismo;
agora, elas me amam por causa dele.
Com a nova carreira, Clareen teve de se desligar da liderana muulmana
em Minnesota. Como secretria do grupo, era a nica mulher em meio a 29
homens, incluindo os irnans que chefiavam as mesquitas.
- Uma vez por ms, eu ia registrar as reunies para fazer as atas. - E
sempre se espantava com o tratamento
que recebia, respeitoso e deferente, para dizer o mnimo.
Clareen freqenta uma mesquita na qual homens e mulheres rezam em
andares distintos. As mulheres ouvem o servio por um alto-falante (a
traduo do rabe  feita por meio de fones de ouvido). Em outras
mesquitas da regio,

320

homens e mulheres permanecem no mesmo andar, porm separados, ou os
homens ficam no salo enquanto as mulheres rezam em um balco.
Atualmente, Clareen est feliz por poder fazer a diferena para as
mulheres no Socorro Islmico. Tambm se sente satisfeita por outras
mulheres estarem se juntando  SNAP para amparar as irms em
dificuldade. Elas esto percebendo que a violncia domstica existe em
todas as culturas. Um estudo preliminar mostra que lares muulmanos nos
Estados Unidos tm o mesmo ndice de violncia domstica que os
no-muulmanos: 12 por cento. Essa brutalidade pode ocorrer de maneiras
variadas. Uma mulher que Clareen est auxiliando, refugiada africana,
tem sido tratada como criada pelo marido e a sogra.
Seu voluntariado  parte de um trabalho diversificado, que pode incluir
acompanhar outras muulmanas aos escritrios do FBI em Minnesota, onde
exigem que os federais parem de espionar muulmanos como possveis
terroristas. Tambm pode incluir uma demonstrao sobre como amarrar o
hijab, por exemplo. Em Minneapolis-St. Paul, Clareen  conhecida como a
mulher dos cinqenta hijabs. Ela gosta de combinar a cor dos lenos 
das roupas que usa. s vezes, as pessoas ficam curiosas e querem
experimentar um deles. E Clareen, sempre simptica e prestativa
no-conformista, as atende prontamente, tirando o hijab da cabea para
oferec-lo a quem quiser prov-lo.
- Sirva-se! - ela diz.

321

43
A MISSO DE W, L. CATI: SALVAR
MUULMANAS VTIMAS DE ABUSO

Precisa de um plano de fuga? W. L. Cati tem uma relao
deles em seu website.
Ela no afirma que todo homem muulmano espanca a esposa, mas sabe, por
experincia prpria, que a violncia ocorre e dedica a vida a ajudar
outras muulmanas a escapar dela.
W. L. completou o crculo: outrora muslimah adepta do vu, retomou ao
cristianismo, e como autora e evanglica sua misso se concentra em
mulheres muulmanas vtimas de abuso.
- A vida que eu vivia no valia nada - ela diz. - Literalmente, sa do
meu casamento sem nada.
Mas no foi bem assim: ela levou uma lcera supurada.
- Tudo se desenvolvia em uma escalada; era muito intenso. Nada nunca era
suficientemente bom.
W. L. recebe e-mails de mulheres agradecendo por terem encontrado nela a
fora para partir. Tambm recebe outros tantos e-mails furiosos de
muulmanos que a acusam de blasfemar contra a religio. Um deles era to
irado que a mensagem no tinha capitalizao, acentuao, pontuao ou
coerncia: "Que vergonha para vocs que se chamam seguidores do Cristo.
Se Jesus voltar hoje e vir voc
obtendo ganhos mundanos pela venda de doutrina suja, ele lhe dir que
voc no tem mais nada a ver com seus ensinamentos, que se desligou
deles h muito tempo. Eu a convido em nome de Al a estudar o verdadeiro
jeito de viver que  o islamismo, para que possa, por sua misericrdia,
ir para o paraso".
W. L. responde pacientemente a todos os e-mails e cartas, mesmo os mais
ofensivos. Tenta usar a lgica e o conhecimento para provar seu ponto de
vista.
"Fui muulmana por muitos anos", escreveu em uma
mensagem. "Sei tanto ou mais sobre o islamismo do que a
mdia dos muulmanos".
De fato, houve um tempo em que W. L. vivia em uma casa de sete
dormitrios em Atlanta, tinha duas casas de veraneio na Flrida e
viajava ao Egito para fazer cruzeiros pelo Nilo, cortesia do rendimento
anual de um milho de dlares do marido, proprietrio de uma cadeia de
vinte lojas de mveis espalhadas pela Gergia e pela Flrida. As
comemoraes de aniversrio incluam passeios de limusine que terminavam
em um requintado restaurante indiano, fechado para receber apenas os
convidados de W. L.
Ela tambm parecia ter bens espirituais. Era devota muulmana convertida
que usava o hijab, freqentava aulas sobre o Alcoro e at viajou ao
Oriente Mdio para declarar oficialmente a converso na mesquita
freqentada pela famlia do marido.
No entanto, por trs de todo glamour e religiosidade, havia
infelicidade. Seu elegante e empreendedor marido Muhammed podia se tornar
violento; a sogra explodia em crises temperamentais durante as quais
cuspia em W. L. e a empurrava e puxava com fria assustadora. E W. L. se
sentia violada e humilhada cada vez que o marido insistia para que ela
aceitasse a poligamia. Apesar da recusa, ele era mulherengo e passava
muito tempo fora de casa, ocupado com

323

os negcios e as amantes. (O irmo dele chegou a se casar com duas
mulheres nos Estados Unidos.)
W. L poderia ter aceitado tudo isso, no fosse pelo evento ocorrido na
festa de aniversrio da sobrinha. Ela queria levar os filhos gmeos para
casa, para descansar. Era um pedido simples, e ela foi falar com o
marido, como mandavam os ensinamentos especficos sobre o comportamento
de uma boa esposa muulmana. Mas ele reagiu com fria inesperada.
- Vai ficar aqui - ele ordenou quando as crianas comearam a chorar.
Foi a gota d'gua. W. L. se rebelou. Quando se levantou para partir, viu
o marido com o rosto vermelho de raiva lanando-se em sua direo. A
prxima coisa de que teve conscincia foi de estar despertando do
desmaio. Estava no banco de trs do carro da famlia com os quatro
filhos.
Para ela, aquela situao representou o fundo do poo. Apesar do medo e
da incerteza, ela decidiu deix-lo. Como sustentaria os filhos? Como
viveria sem um homem que, havia pensado, era sua alma gmea? Como
poderia dar as costas ao islamismo, depois de t-lo abraado com tanto
entusiasmo?
Foi uma longa e rdua jornada. Cinco anos s para conseguir o divrcio.
Durante esse perodo ocorreram reunies temperadas por lgrimas,
promessas apaixonadas de mudana... e mais violncia e abuso.
Hoje, no h mais o luxo de antes. Ela mora em um apartamento duplex de
170 metros quadrados e dirige uma velha van. Mas, relata, possui uma
riqueza muito maior: liberdade e f. Voltou ao cristianismo da infncia.
 ministra ordenada e escreveu o livro Married to Muhammed. Criou o
Zennah Ministries para auxiliar outras muulmanas vtimas de abuso.
- Deus as abenoe. Existem muitas por a - diz.

324

W. L. Cati  um pseudnimo; ela pediu para que o verdadeiro nome no
fosse usado. Por criticar no livro o que considera incentivo  violncia
contra as mulheres por parte da cultura islmica e do Alcoro, ela
recebe vrias ameaas. Os ttulos dos captulos estabelecem claramente
sua repulsa por tal conduta: "O Dele Antes do Seu", "O Direito do Marido
de Espancar a Esposa" e "Poligamia", onde ela cita o Alcoro: "Podereis
desposar duas, trs ou quatro das que vos aprouver, entre as mulheres
(Surata 4,3)".
W. L. diz saber da existncia de diversas mulheres muulmanas na Amrica
felizes com o islamismo e bem tratadas por seus maridos. Por outro lado,
muitas muulmanas nos Estados Unidos desejam ansiosamente provar o que
outras mulheres americanas tomam por certo: ir aonde quiserem, vestir o
que desejarem e no temer um marido violento.
"De maneira nenhuma responsabilizo o islamismo pelas aes de meu
marido", ela escreve em seu website. "No creio que todos os homens
muulmanos espanquem, abusem ou maltratem as esposas, nem imagino que
todos os homens cristos e judeus tratam as esposas com o amor que
deveriam ter por elas."
Mesmo assim, ela teme que esses homens abusivos e
controladores usem o Alcoro para justificar a violncia
mental e fsica contra as esposas.
Por isso o site de W. L. Cati relaciona planos de fuga
para casos de abuso.
Ela deu a seu ministrio o nome muulmano que ela mesma adotou, Zennah.
Esse tambm  o nome da primeira filha. Zennah  o termo rabe para
"perfeito" ou "bom". Em farsi, significa "embelezamento, arranjo ou
providncia para melhorar a aparncia". Ironicamente, foi para agradar
ao marido que W. L. adotou o nome Zennah e, em vrios outros aspectos,
tentou se tornar a esposa muulmana ideal.

325

O esforo a afastou da famlia e do lar no Alabama.
W. L. nasceu em uma famlia calorosa e amorosa.
- Tive uma vida bastante protegida -  conta. A famlia no era muito sria
em relao  religio, embora sempre se apresentasse respeitosamente na
igreja em datas como Pscoa e Natal, at a me de W. L. comear a
freqentar os servios com regularidade. W. L. ficou impressionada com a
transformao da me.
- Vi nela uma mudana to intensa em to pouco tempo, que decidi ir 
igreja s para descobrir como aquilo
acontecia.
W. L. foi uma adolescente muito bonita, que atuou como modelo e venceu
vrios concursos de beleza, entre eles o Miss Alabama Hemisfrio. Sob os
cuidados do pastor, ela se casou cedo, aos dezessete anos, com um rapaz
de vinte e dois anos que tambm freqentava a igreja. W. L. descobriu
que eles no poderiam ter filhos, por isso adotaram rapidamente trs
crianas, incluindo uma brasileira. A vida parecia estar estabelecida, e
de fato esteve por doze anos. Ela continuou vencendo concursos de
beleza, mas nunca superou a frustrao de no poder ter filhos naturais.
O casamento fracassou, e ela havia conquistado o ttulo de Miss Alabama
quando se divorciou. W. L. voltou ao Alabama para recomear e, como diz
agora, rindo, "buscar fama e fortuna". L encontrou rpido muitos
trabalhos como modelo e, em determinada noite, quando foi pela primeira
vez a uma boate com uma colega de profisso que ajudava a promover a
inaugurao da casa, conheceu Muhammed.
Ele se aproximou e a tirou para danar. Encantador e
excelente danarino, ele a enfeitiou com sua conversa interessante e
animada.
- Ele no me disse que era rabe. Falou que era italiano. Disse que seu
nome era Jamie. Mas algo no soava correto, e por isso, durante a
conversa, perguntei novamente

326

de onde ele era. Muhammed respondeu que era srio. Na poca, eu nem
sabia ao certo onde ficava a Sria. Ele me contou que era muulmano. Eu
nem imaginava o que era isso. Achava que fosse algo como ser metodista
ou batista. Ele explicou que era apenas mais uma religio; todos
acreditamos em um Deus. No falamos mais sobre o assunto. Ele me
encantou. Jamais havia conhecido algum como ele antes, um homem to
atraente e fascinante.
W. L. estava divorciada havia seis semanas. Ele tambm tinha sido
deixado recentemente pela esposa. Na verdade, Muhammed se casara duas
vezes, O primeiro casamento, que a me ajudara a arranjar, foi com uma
mulher mais velha, artifcio para obter o green card e poder ficar nos
Estados Unidos em carter permanente. Na poca ele era um jovem de
dezoito anos. Mais tarde, ele se casou com uma jovem de sua idade, mas,
de acordo com a verso dele dos fatos, ela era dependente qumica, que
fugiu da cidade em seu carro.

Aos 22 anos, o rapaz atraente e sedutor tambm estava disponvel. Como
W. L., que tinha pouco menos de trinta anos. Apesar da diferena de
idade, o entendimento foi imediato, e eles se casaram um ano depois.
- Vivemos momentos maravilhosos - lembra ela.
Muhammed, formado em engenharia, era muito bom na rea de vendas, razo
pela qual ele e a nova esposa decidiram atuar como corretores de
imveis. Notando o influxo de pessoas para Sunbelt, Muhammed adquiriu
uma franquia de uma loja de colches, que logo se transformou em uma
cadeia de lojas de mveis alimentada por uma fbrica prpria.

W. L. reconhece que sua histria foi fantstica. De pobre a milionria.
Ela trabalhou em uma das lojas at o nascimento do segundo filho, quando
decidiu ficar em casa. Acompanhada pelos filhos, passou longos perodos
no

327

Oriente Mdio com a famlia do marido, aprendendo rabe e estudando o
islamismo. Na terceira visita, ela se converteu na Sria. Na casa em
Atlanta, formava pequenos grupos de estudo do islamismo e tornou-se
ativa na mesquita, onde ajudava a receber os convertidos. Mas, ao mesmo
tempo, sabia que o casamento no ia bem. Os negcios consumiam Muhammed.
- Havia muito a ser feito. Ele comeou a beber. Sempre tivera o hbito
de sair  noite, mas isso tambm piorou.
Ela descobriu que o marido mantinha nmeros de telefone de outras
mulheres.
- Quando o interroguei, ele me espancou. Chamei a polcia.
Muhammed pediu desculpas e prometeu que aquilo nunca mais voltaria a
acontecer. W. L acreditou nas promessas. Todavia, a violncia no acabou
a. Havia um ou dois meses de paz, mas ento alguma coisa o perturbava e
ele explodia.
- Ele dizia que a culpa era minha, que eu o obrigava a agir daquela
maneira. Ou seja, eu apanhava por minha
culpa.
Mais uma surra, mais uma separao, novas reunies
emocionadas, outras promessas de mudana e, em uma dessas ocasies, um
bracelete de diamantes de nove quilates.
W. L tambm tinha de lidar com a sugesto de Muhammed sobre tomar outra
esposa.
- Ao longo do nosso casamento, o assunto sempre surgia. Ele me
perguntava como eu me sentiria. Dizia que o segundo casamento seria
legal e que fazia parte de seus costumes. Eu sempre dizia no; poligamia
no fazia parte dos meus costumes.
W. L. diz que devia ter percebido os sinais de perigo na prpria famlia
de Muhammed. Todo o cl tinha dificuldade para controlar a raiva. As
brigas nas reunies familiares

328

eram comuns. A me de Muhammed considerava-se a matriarca e acabou se
mudando da Sria para a casa de W. L.
- Ela se sentia dona de tudo o que eu tinha. Podia pegar o que bem
entendesse, porque o filho era o provedor. Chegou a me dizer que eu no
tinha direito a nada, porque tudo vai para a me.
Me e filho tambm se desentendiam. Certa vez, comearam a discutir na
cozinha, ao lado da cafeteira.
- Ela usou o caf quente para queim-lo - lembra W. L.
- Depois o agarrou pelo pescoo, e tive de me pr no meio dos dois para
separ-los. No foi nada engraado.
Na poca da fatdica festa de aniversrio, W. L. tambm
comeava a ter dvidas sobre o islamismo. Como uma religio pacfica
podia criar tanto caos? Ela no suportava mais.
Na segunda-feira aps a festa e o espancamento, quando o marido saiu
para trabalhar, ela entrou em ao. Trocou as fechaduras da casa e sacou
todo o dinheiro das contas bancrias. Um juiz compreensivo e solidrio
concedeu a ela uma ordem de restrio e tambm determinou que Muhammed
deveria prover o sustento da esposa e dos filhos.
O juiz me deu tudo.
Quando retornou da viagem de negcios, Muhammed
descobriu-se sem dinheiro e sem casa.
Mas a histria no terminou a. Outras reconciliaes ainda ocorreriam,
seguidas por mais brigas. Quando W. L. decidiu retornar ao cristianismo,
o marido ficou furioso e repetiu trs vezes: "Eu te repudio". W. L.
tomou a reao como pedido formal de divrcio  maneira islmica. Aps
batalhas judiciais que pareciam interminveis, finalmente o casamento
foi dissolvido.
Desde que voltou ao cristianismo, com sua filosofia de perdo, ela reza
pelo ex-marido e at o visitou no hospital quando ele sofreu uma
enfermidade cardaca. W. L. se casou novamente e continuou os estudos
sobre o cristianismo.

329

E ainda tem o website para manter. W. L. tambm fala em reunies
organizadas nas mesquitas, ocasies em que relata sobre suas
experincias. Ela responde a perguntas. Muitos, diz, se mostram
espantados com sua coragem.
- O islamismo prospera basicamente por conta do medo
- ela acredita.

330

44
ANEESAH: ASSISTENTE SOCIAL
E ACADMICA

Deus sabe das batalhas e dos triunfos de Aneesah Nadir.
Ela  a primeira na famlia a conquistar o doutorado enquanto
trabalhava, cuidava da famlia, ajudava na comunidade e atuava como
presidente da Associao Islmica de Servios Sociais. Ela sabe que no
devia fazer tudo isso, mas fez. A agenda frentica se estendeu por sete
anos. No ltimo, aos 48 anos, aps mais de duas dcadas entrando e
saindo da escola, ela finalmente conseguiu o doutorado. Hoje est a
caminho da estabilidade na Universidade do Arizona, em Phoenix, enquanto
lidera esforos nacionais para ajudar a levar necessrios servios
sociais  crescente populao muulmana nos Estados Unidos.
- Devo dizer que a f  o alicerce. Nada disso teria acontecido sem a
graa de Deus - ela afirma. - Houve momentos em que pensei que no ia
conseguir, e Ele me sustentou e levou adiante.
Aneesah no foi uma tpica candidata ao doutorado. Me e profissional,
ainda usava hijab de cores brilhantes. No  de famlia de acadmicos;
ningum na famlia jamais sonhou ir to longe. Os pais tinham de
trabalhar muito apenas para pr comida na mesa.


Em uma entrevista para um website muulmano ela

contou:

- Quando crescia em Nova York, vi a disparidade entre ricos e pobres e
senti que, de alguma maneira, era importante tentar fazer a diferena e
promover a mudana, de forma que houvesse maior grau de justia para
todos os envolvidos.
Os pais a incentivaram. Oriundos de famlias humildes,
queriam que os filhos progredissem e tivessem uma vida
melhor.

- Lembro-me claramente de minha me levando-me  biblioteca pblica de
Queens e retirando toneladas de livros para mim. Ela no era capaz de me
ajudar com o dever de casa, mas estava sempre por perto para me
incentivar.
A famlia tambm cuidou para que ela tivesse uma religio. Aneesah ia 
igreja regularmente. No entanto, foi o tempo na Universidade Adelphi,
onde concluiu o bacharelado em servio social em 1978, que a transformou
para sempre: as aulas na universidade a apresentaram  Nao do Isl,
que promovia o nacionalismo negro, o desenvolvimento espiritual e o
fortalecimento.
Aneesah se sentiu atrada pelo islamismo, e nunca se arrependeu disso.
Hoje, freqenta uma mesquita no subrbio de Phoenix, onde encontra
basicamente imigrantes muulmanos.
- Cresci no cristianismo e por isso sentia que o islamismo era o
restante da histria - ela explica. - Ele me deu moldura para viver,
clareza de propsito, conexo. E tambm me deu vida familiar muito
forte. O islamismo deu significado moral  minha vida.
A famlia no ficou imediatamente eufrica com a converso, em especial
o pai.
- Meu pai ficou bastante preocupado comigo, porque s levava em conta o
retrato que a mdia faz do islamismo.

332


- Agora, aps dcadas testemunhando como a religio fortaleceu a filha,
ele a apia.
Aneesah teve de contar com essa fora para superar alguns momentos
difceis.
Como a mudana para o Arizona em 1981.
- Para mim, foi um choque cultural - ela diz agora, rindo. Eu, uma
afro-americana, me mudei para uma parte do pas onde existem poucos
afro-americanos, apenas 3
ou 5 por cento da populao, e um nmero ainda menor de
muulmanos. Eu ainda era muito jovem, mas j tinha dois
filhos. A mudana foi um grande passo para mim.
A primeira concluso aps se instalar em Phoenix foi:
- No posso ficar aqui.
No entanto, ela ficou. Inscreveu-se no programa de mestrado para
assistentes sociais e, como ela mesma coloca, criou
conexes. Ajustou-se ao Arizona, mas enfrentou grandes
desafios na escola.
- O programa era muito rigoroso. Exigia estgios cujas
cargas horrias eram semelhantes s de um emprego em
perodo integral. E eu ainda tinha filhos pequenos.
O estresse de conciliar casa e escola causou tenso no
casamento. (Mas ela diz que os dois aprenderam e amadureceram. Por
causa desses problemas no incio do matri mnio ela conhece por
experincia prpria as dificuldades
encontradas por vrios jovens casais americanos nos dias
de hoje. Aneesah acredita que todo casal deve procurar algum
tipo de aconselhamento antes de efetivar a unio, e os
muulmanos no so exceo. Como outros americanos, tm
alto ndice de divrcio. Estima-se que nos Estados Unidos
mais de 40 por cento dos casamentos terminem em divrcio. O
aconselhamento pr-nupcial ajuda os casais a deter mina se so
compatveis e os auxilia a resolver as inevitveis dificuldades.

333


- Casar  uma das coisas mais importantes que fazemos na vida.
Estabelecemos e desenvolvemos uma famlia. Tambm  uma das coisas para
as quais estamos menos preparados. Muitos no esto preparados nem para
ser marido ou mulher, muito menos pai ou me.
- Mas Al  seu Mensageiro (que ele seja abenoado) puseram diante de
ns diretrizes, lies e ensinamentos que nos faro mais bem preparados.
Infelizmente, muitos de ns nem estamos buscando essa orientao.
Considero importante que aqueles que vo se casar, sejam maduros ou
jovens, se preparem e entendam seus direitos, seus papis e suas
responsabilidades.
Ter algum tipo de f ajuda muito em um casamento, ela acrescenta. O
islamismo enfatiza o casamento e a famlia, e o matrimnio  uma forma
de servir a Deus. De fato, imams podem ajudar a promover casamentos
fortes e saudveis discutindo-os e indicando grupos de discusses pr-
matrimoniais e outras formas de aconselhamento. No passado, porm,
imams no eram treinados para aconselhar, especialmente se fossem
imigrantes. Diversos imams comeam a perceber o valor do aconselhamento,
e se aproximam mais dos muulmanos, dos quais muitos esto lidando com a
vida em uma terra estranha e se deparando com o enfraquecimento dos
laos familiares,  medida que os filhos buscam a companhia dos amigos
americanos e no-muulmanos. Em todo o pas, vrios muulmanos lutam
contra algum tipo de dependncia qumica, apesar de o islamismo proibir
o consumo de lcool e de outras drogas. Alguns convivem com a violncia
domstica, e muitas mulheres tm medo de denunci-la.
Durante algum tempo, os muulmanos nem discutiam a violncia domstica.
- A idia - diz Aneesah - era de que essa tragdia no afetava famlias
muulmanas. Mas afeta muulmanos da mesma maneira que afeta cristos,
judeus e outros grupos religiosos e culturais.

334


Aneesah tenta divulgar na comunidade muulmana da Amrica a idia de que
as famlias podem ajudar, de que a violncia fsica e mental no precisa
ser tolerada. Ela se refere aos ensinamentos islmicos que condenam a
violncia domstica:

- O Profeta Maom (que ele seja abenoado) instruiu os muulmanos em
relao s mulheres: "Eu os conclamo a
tratar as mulheres com bondade", ele disse.
Quando ajudou a fundar a Associao Islmica de Servios Sociais nos
Estados Unidos e a organizao co-irm no Canad, ela pretendia que
servissem como uma rede de discusso sobre as questes do servio social
e fonte de educao e treinamento para que os assistentes sociais
pudessem se aproximar mais dos muulmanos. A associao realiza uma
conferncia anual para reciclar profissionais acerca das ltimas
tendncias e das melhores prticas no fornecimento de servios sociais e
de sade mental aos muulmanos.
O grupo afiliado no Canad produziu o manual de educao pblica,
"Muulmanos, sua F e sua Cultura", material que foi revisado para os
Estados Unidos com outorga da Conferncia Nacional para a Justia
Comunitria e da Chevron Texaco. O manual pretende informar policiais,
assistentes sociais, jornalistas e administradores de escolas sobre o
islamismo.
Essa informao  particularmente necessria agora. Desde 11 de
Setembro, muulmanos do pas todo tm sido alvo de vandalismo e de
violncias ainda piores. A dez minutos da casa de Aneesah, um homem que
reagiu histericamente aos ataques terroristas daquele dia matou a tiros
Balbir Singh Sodhi, sikh e proprietrio de um posto de gasolina
confundido com um muulmano por usar turbante. Em 2004, a mesquita de
Aneesah foi pichada com uma sustica. Outra mesquita perto dali, em
Clendale, foi incendiada.
Mesmo assim, onde alguns enxergam problemas, Aneesah v oportunidades
para ajudar.

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- Considero-me construtora de pontes.
Para Aneesah, ela s est fazendo o que outras mulheres muulmanas tm
feito.
- A histria do incio do islamismo  repleta de mulheres fortes, que
eram estudiosas, corajosas e agentes de mudana. Elas no tinham medo de
se expressar. - E Aneesah tambm no tem.

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45
JUZA ZAKIA MAHASA:
A CORTE EST EM SESSO!

Aadolescente se apresentava  corte para ouvir a deciso da juza Zakia
Mahasa.
- No quero v-la mais aqui, ouviu bem?
Nos quase oito anos desde que a juza Mahasa foi indicada para o
tribunal de Baltimore, tem tido a misso no s de servir  justia, mas
de assegurar que menores no sejam julgados novamente pelo sistema. Ela
 juza em Chancelaria na Diviso de Famlia da Corte da Cidade de
Baltimore.
A juza Mahasa foi, provavelmente, a primeira mulher muulmana a ser
indicada a um posto judicial na Amrica. Ela acredita que sua f a
ajudou a chegar onde est hoje e que ela ameniza o estresse de lidar com
o grande nmero de casos levados  corte.
Em apenas quarenta minutos de uma tarde de sesso, ela presidiu cinco
casos. Em um deles, concedeu um ano de condicional a um ru primrio
condenado por envolvimento com drogas, rapaz cuja me havia morrido de
cncer e que, durante a condicional, seria levado para a casa do irmo
mais velho. Tambm designou um mentor para o garoto e o indicou para
integrar programas sociais que poderiam modificar sua vida, O estado
havia sugerido uma



condicional mais breve, apenas seis meses, mas a juza Mahasa temia que
o rapaz no tivesse tempo para a efetiva reabilitao. Inclusive temia
que ele recasse e no respeitasse o irmo que o sustentaria
financeiramente.
- Ele  o irmo, mas ocupa o papel de pai - disse a juza ao ru em tom
severo, exigindo que ele apagasse do rosto o sorriso satisfeito. A
inteno era faz-lo entender a seriedade de sua condio. - Ele no tem
nenhuma obrigao de acolh-lo. No seja um fardo, mas um benefcio na
casa de seu irmo.
Srio, o rapaz se comprometeu a seguir todos os conselhos que recebera
na corte.
Em outro caso, ela concedeu liberdade condicional a um ru primrio,
garoto de treze anos cuja me confessou  juza o temor sobre o filho
estar vendendo crack, tentando angariar dinheiro para fugir e morar com
a av. Mais uma vez, a juza designou um mentor e direcionou o
adolescente a programas sociais que reformulariam sua atitude. Ela o
queria na escola, todos os dias e pontualmente no horrio, e a me
garantiu que ele era aluno regular.
A juza Mahasa recorda que, quando se formou na faculdade, em 1980,
podia contar nos dedos de uma das mos as advogadas muulmanas que
atuavam nos Estados Unidos, e ainda sobrariam muitos dedos.
- Eu s conhecia duas - ela resume.
Hoje, a comunidade muulmana percorreu longo caminho, algo que a juza
v de perto. O filho  advogado criminalista e mantm a prtica em
Baltimore. H tambm jovens muulmanas praticando a advocacia em todo o
territrio americano. Ela quer ser modelo para esses jovens, dar exemplo
como muulmana e americana que, mesmo usando hijab, ainda pode ser
bem-sucedida. Certo dia, quando se sentou para presidir uma sesso na
corte, usava uma bela echarpe negra que combinava com o tailleur
elegante.

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- H diferentes maneiras de cobrir os cabelos - ela diz. -  possvel
ter estilo.
A juza Mahasa nunca foi prejudicada profissionalmente pelo hijab,
apesar de a famlia ter se preocupado com essa possibilidade. Ela
descobriu que, por ter orgulho de sua f e de seus smbolos, conquista o
respeito dos outros.
- Posso progredir profissionalmente - ela diz. - No foi to difcil
quanto muitos imaginavam.

Ela tambm conseguiu decorar o gabinete de juza em estilo que garante
conforto. Velas suavemente perfumadas so mantidas acesas enquanto ela
trabalha. Os pesos para papel e os globos de cristal, que coleciona
como hobby, cintilam em uma prateleira perto de janela. H obras de
arte, luminrias e um tapete persa.

A juza Mahasa quer que a nova gerao saiba que uma mulher pode
equilibrar trabalho e famlia e ainda prestar servio  comunidade.
Apesar da carreira e da maternidade, ela tambm conseguiu prestar
servios voluntrios durante vrios anos. Atualmente,  presidente da
Mercy USA em Michigan, organizao de caridade predominantemente
muulmana que contribui com pases subdesenvolvidos para ajudar o povo a
se tornar auto-suficiente, independentemente da religio. (A Mercy
auxiliou as vtimas de terremotos e da tsunami no Sul da sia, por
exemplo.)

A juza Mahasa se alegra por fazer parte desse grupo.
Ela tambm contribuiu com a comunidade servindo no comit de melhorias
da corte, atuando especificamente na comisso que procura encontrar
mtodos para melhorar a permanncia de crianas em instituies e lares
provisrios ligados ao sistema. Dessa e de outras maneiras, a juza pode
exercer profunda influncia, colocando crianas sob os mais adequados
cuidados provisrios e determinando quando os pas podem t-las de
volta, se for o caso. Pela extensiva experincia acumulada presidindo a
corte de famlia, ela sabe

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como  importante melhorar o sistema de abrigo e os cuidados
provisrios.
Tambm tem conscincia de que no  fcil para as mulheres conciliarem
tantas tarefas. Ela mesma passou anos lutando sozinha, como me
divorciada que , e trabalhando o dia todo no escritrio da
Administrao de Seguro Social em Baltimore, enquanto ainda estudava e
cuidava do filho pequeno. s vezes chegava a odiar o trabalho; processar
solicitaes de invalidez, ela diz, era a pior parte. Mas  grata 
agncia, que pagou boa parte do curso universitrio.
Toda ajuda era necessria. Zakia Mahasa foi me aos dezessete anos,
ainda adolescente, tendo sonhado com a profisso de advogada desde os
quatro anos de idade. Mas l estava ela: uma menina com um beb nos
braos. Mesmo ento, o foco era inabalvel. Primeiro o trmino do
colgio, depois a faculdade de direito.
Ter objetivos ajuda a manter o foco e, InshaAllah, tudo
acaba dando certo.
Deu certo, mas foram necessrios onze anos. Durante
esse tempo, ela diz que nunca perdeu uma reunio de professores ou
evento esportivo da escola do filho.
- Acho que vivia no piloto automtico. Eu simplesmente fazia tudo.
Zakia Mahasa  abenoada, afirma, por ter contado com a ajuda dos pais,
que cuidaram bem do filho enquanto ela trabalhava e estudava. Graas a
eles, nunca teve de contratar uma bab.
Foi justamente na juventude, quando era me de um
menino ainda pequeno, que ela comeou a pensar em uma
nova religio.
- Nasci no cristianismo, mas no acreditava na Santssima Trindade.
Ela sentia necessidade de uma f que fizesse sentido.
- Percebi que era uma pessoa espiritual.

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Zakia no concordava com a filosofia do movimento nacionalista negro
denominado Nao do Isl, mas pesquisava o islamismo mais ortodoxo.
Sentia-se em paz com aqueles ensinamentos, e eles respondiam s suas
questes.
- Era intelectualmente estimulante - lembra.
E tambm dava a ela um sentimento de segurana: com
Al no controle no mundo, tudo daria certo.
- Nada jamais ser garantido ou fcil - ela observa, mas sabe que, com
um ser superior no comando, tem um destino, uma razo para estar aqui. -
Isso me faz sentir vontade de dar o melhor de mim.
Quando considerava a converso ao islamismo, refletiu por muito tempo e
finalmente pediu a Deus um sinal sobre Sua concordncia com a idia de
tornar-se muulmana. Um dia, quando atravessava a rua, ela viu um raio
de luz brilhando sobre alguma coisa reluzente. Curiosa, aproximou-se do
objeto para examin-lo. A descoberta foi surpreendente! Ali estava um
brinco que ela havia perdido, presente de aniversrio que desaparecera
exatamente um ano atrs, um dia antes de seu aniversrio. A juza
considerou o fato um sinal afirmativo, uma confirmao de que havia
encontrado sua f.
A luz misteriosa voltou  a aparecer mais de vinte anos depois, quando
ela realizou a Hajj, a peregrinao anual a Meca. Zakia juntou-se a
dezenas de milhares de pessoas que caminhavam ou embarcavam em nibus.
- Toda aquela gente tinha o mesmo objetivo - ela lembra. - Tnhamos
aquele sentimento de que Al estava cofosco. Era muito agradvel a
sensao de ser protegida por Al.
A caminhada era longa e exaustiva, mas ver pessoas em cadeiras de rodas
a fez seguir em frente. Chegou o momento de subir o Monte Arafat para
orar, e, quando comeou a recitar as preces, ela sentiu um raio de luz
voltado em sua direo. A luminosidade era radiante, como havia sido
anos

341

antes, no dia em que encontrara o brinco desaparecido. L, na montanha
saudita, Zakia chorou.
- Aquela luz me abriu. Tive um sentimento muito forte da minha
impotncia e da providncia. Senti Sua magnificncia, Seu inesgotvel
poder. E comecei a chorar.
Zakia nunca se arrependeu da converso ao islamismo. Os pais,
entretanto, protestaram contra a mudana de nome. Em rabe, Mahasa
significa "examinar de perto" ou "ser justo", e Zakia quer dizer pureza.
Ela adora o prprio nome e seu significado.
Zakia aceita as regras do islamismo, inclusive a determinao de se
casar com outro muulmano. Porm, at agora, continua sozinha aps o
divrcio. Gosta de brincar afirmando ter tido vrias oportunidades, mas
nenhuma possibilidade real de escolha.
Outras experincias tambm foram marcantes, como as viagens  Amrica do
Sul, ao Qunia e ao Egito. E,  claro, h o trabalho. Concludo o curso
de direito, ela abriu um escritrio que aceitava causas variadas, desde
divrcios a processos por injria. A prtica foi mantida por dois anos,
at que ela passou a integrar o Bureau de Amparo Legal para representar
crianas negligenciadas ou vtimas de abuso. Finalmente, Zakia
encontrava seu nicho. Mais tarde, tambm serviu como conselheira
jurdica para uma organizao sem fins lucrativos que trabalhava com
mulheres e filhos vtimas de abuso, tornando-se advogada responsvel na
clnica dessa entidade antes de ser indicada ao posto de juza em
Chancelaria.
- Adoro ajudar os adolescentes. Tem sido muito gratificante.
Zakia solicita a boa parte dos jovens que se apresentam no tribunal para
redigirem uma carta relacionando quais servios consideram necessrios
e, mais importante, o que sentem que devem fazer para permanecer longe
de futuros problemas. Eles tambm so orientados a escrever sobre os

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planos de carreira para o futuro. Essa  a primeira solicitao, e
normalmente a juza insiste na necessidade de concluso do texto no
prazo mximo de duas semanas aps a apresentao do jovem na corte.
- No me incomodo com gramtica ou ortografia - ela disse recentemente a
um desses jovens. - O que me
interessa  o pensamento.
Se a carta no fornece dados suficientes, ela solicita outra. Ou, como
disse a um dos adolescentes:
- Se eu concluir que voc ainda no pensou o bastante no assunto, ter
de redigir outra carta.
As cartas so a primeira atividade do dia.
Ela gostaria que os jovens que passam pelo tribunal recebessem melhor
orientao. Muitos esto crescendo sem nada, sem diretrizes ou
parmetros. No tm as regras proporcionadas por uma forma de vida
estruturada.
-  necessria fora orientadora - ela opina. Em seu caso, o islamismo a
ajudou com o senso de compromisso e
o estabelecimento de prioridades.

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46

AZIZAH AL-HIBRI: DEFENSORA
DOS DIREITOS HUMANOS

Azizah al-Hibri foi estudante estrangeira de um programa de intercmbio,
e os antigos professores chegaram a perguntar por que ela perdia tempo
com o curso de graduao. No outono de 2002, ela se viu sentada em um
pdio ao lado de uma das mulheres mais poderosas da Amrica, a ento
Conselheira de Segurana Nacional Condoleezza Rice. A dra. Al-Hibri
conheceu o tempo em que as estudantes universitrias eram olhadas com
desprezo, mas se esforou e conquistou distino no pas que adotou como
seu. Ela  professora de filosofia, editora feminista, advogada em Wall
Street, professora de direito e advogada internacional de direitos
humanos. Como fundadora do Karamah, grupo de defesa dos direitos humanos
composto por advogadas muulmanas com base em Washington, ela 
considerada importante liderana muulmana em territrio americano. J
esteve com Sandra Day O'Connor, juza associada da Suprema Corte, em um
frum para discutir questes das mulheres, e aconselhou o presidente
George W. Bush sobre como proteger melhor muulmanos americanos da
perseguio aps o 11 de Setembro e traar linhas e diretrizes para que
muulmanos na Amrica pudessem contribuir

para entidades de caridade sem ser erroneamente ligados
a terroristas.
Condoleezza elogiou a dra. Al-Hibri e o Karamah pelo
trabalho essencial.
- Vamos trabalhar por um mundo no qual todas as
mulheres e meninas, de Kansas a Kandahar, possam reali za seus sonhos e
desenvolver todo seu potencial - disse
Rice. - Lembrem-se, a democracia  uma jornada, no um
destino.  algo que voc constri diariamente, tijolo a tijolo.
Essa  uma mensagem que a dra. Al-Hibri acata com
seriedade. Da difcil jornada rumo ao secularismo e ao retorno entusiasmado ao islamismo, ela tirou a viso da
religio como poderosa
fora para ajudar as mulheres e trazer
paz a um mundo perturbado, amargurado.
Como ela mesma disse:
- Deus deu s mulheres muulmanas todos os direi tos e  apenas o
Jahiliyyah (pensamento patriarcal) de ou tra pessoas que os restringe.
Quando a dra. Al-Hibri chegou do Lbano, pas de ori gem para estudar
nos Estados Unidos no incio da dcada
de 70, estava pronta para aceitar o feminismo. Farta das tradies
patriarcais que eram a tnica em seu pas, ela sentia que apenas os homens se beneficiavam delas. Foi ento que
sofreu o grande choque de sua vida: os professores americanos eram ainda
piores. Eles a enchiam de perguntas: Por
que estava estudando se um rapaz podia ocupar aquela vaga
e melhorar de vida para sustentar a famlia? Por que no ia
 para casa e se tornava boa dona de casa? Eles no a levavam
a srio.
 - Fui tratada com mais respeito em meu pas - ela
revela.
- Mas Azizah acreditava em si mesma, e  medida que o
movimento feminista ganhava fora ela se tornou parte desse
quadro geral. Isso mudou sua vida.

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Azizah fez amizade com outras feministas americanas, mulheres com as
quais ainda mantm contato depois de dcadas. So idealistas dispostas a
melhorar as condies de todas as mulheres, inclusive das religiosas que
tentavam associar o feminismo s crenas espirituais, apesar do que
outras feministas viam como sculos de discriminao imposta pelos
lderes religiosos s mulheres, fossem eles cristos, judeus ou
muulmanos. Algumas feministas eram abertamente hostis  religio. -
Mesmo assim - diz a dra. Al-Hibri -, queramos abrir espao para essas
mulheres religiosas. Aprendi a ser inclusiva.
Azizah concluiu o doutorado na Universidade da Pensilvnia em 1975. Em
um tempo em que as faculdades deixavam de contratar professores com
formao liberal e artstica, ela conquistou posio estvel na
Universidade A & M do Texas. Enquanto lecionava, publicava artigos em
jornais acadmicos, e at fundou uma dessas publicaes:
Hypatia: A Journal of Feminist Philosophy. logo conquistou respeito em
seu campo.
A vida pessoal tambm florescia. Amigos a apresentaram a um estudante
saudita do curso de graduao, um rapaz que a cortejou por cinco anos.
Ela  grata por sua persistncia.
- Somos casados e felizes h 20 anos.
Apesar do sucesso pessoal e acadmico, Azizah  inquieta. Sempre quis
agir de acordo com suas crenas, realizlas, lutar pelos direitos das
mulheres.
- Em um dado momento, decidi que seria melhor promover mudanas em vez
de escrever sobre elas. - Azizah desistiu de lecionar e se dedicou a uma
carreira completamente diferente: direito. Foi aceita na faculdade de
direito da Universidade da Pensilvnia e voltou para a Filadlfia.
- Deixei um emprego excelente. Foi a atitude mais difcil que tomei em
toda a vida.

346

A lei, em sua opinio, era uma das ltimas fronteiras para as mulheres,
em especial o campo de direito corporativo. Ela se voltou para Wall
Street. Depois de ter voltado  escola e passado pelo Centro para o
Estudo da Religio no Mundo, em 1986 ela se instalou em um escritrio de
direito em Nova York e, mais tarde, foi para Wall Street como advogada
especializada em regulamentao de seguros. Azizah exalava confiana e
polidez enquanto cumpria a maratona representada pelas necessrias horas
de dedicao ao trabalho. Mais uma vez, contou com o apoio emocional de
outras muulmanas, tambm advogadas, que tentavam entrar em um ramo
basicamente masculino. A vida era boa, mas a dra. Azizah ainda se
perguntava se havia mais ou se era s aquilo. Afinal, no trabalhava
pelo dinheiro. Aps seis anos em Wall Street, concluiu que sentia falta
de lecionar e pesquisar. Em 1992, diante da oportunidade de retomar a
vida acadmica, dessa vez em uma escola de direito, ela aceitou o cargo
de professora associada na Escola de Direito T. C. Williams, da
Universidade de Richmond, Virgnia, e mais tarde conquistou cadeira
permanente na mesma instituio. Foi em Richmond que ela reacendeu a
chama da paixo pela lei islmica e pelos direitos das mulheres.
Em 1992, Azizah abriu caminho em um novo campo
acadmico, escrevendo um artigo sobre o islamismo e a democracia para um
jornal erudito.
- As pessoas diziam que eu devia escrever sobre esse assunto, mas no
tinha idia do que dizer. Ningum havia estudado a questo, ento
basicamente tive de inventar a roda. - Ela mergulhou em textos rabes de
centenas de anos. O que encontrou provocou perplexidade em diversos
membros da comunidade acadmica. De acordo com o material, os primeiros
lderes islmicos enfatizavam o livre pensamento e movimento, o que hoje
 considerado essencial em uma sociedade democrtica.

347


- A primeira coisa que o Profeta fez foi reunir uma relao de direitos.
Como chefe da cidade e com a ajuda do povo, muulmanos e judeus, ele
criou uma espcie de Constituio. - Todos deviam ser tratados com
respeito, ter assegurados os direitos individuais e defender a cidade. A
Constituio, ela conta,  muito semelhante  dos Estados Unidos. Ao
mesmo tempo, o documento destoa das polticas de regimes autoritrios do
Oriente Mdio e de outros pases de predominncia muulmana na sia e na
frica. A dra. Azizah acredita que poderosos corromperam a f, e que
vrios clrigos, eles mesmos pouco versados na Escritura islmica,
ajudaram a perpetuar por sculos um status quo que no tem base nos
ensinamentos do Alcoro. Esse uso errneo da Escritura, ela indica,
serviu para justificar a represso.
O artigo demonstrou como o islamismo promovia a democracia h vrios
sculos.
- O que eu tinha a dizer sobre o assunto era to incomum e to novo que
o artigo provocou comoo. - O material foi lido e amplamente divulgado,
embora muitos eruditos tenham duvidado de que o islamismo tenha sido um
dia como ela o descrevia no texto. - Na comunidade muulmana, o artigo
foi um grande sucesso.
Outros estudiosos seguiram o caminho desbravado pela
dra. Al-Hibrj, escrevendo diversos outros artigos e livros
sobre o assunto.
- E agora todos acreditam que islamismo e democracia so compatveis -
ela concluiu, rindo. - Tive de fazer o
trabalho duro.
No artigo seguinte, ela descobriu a paixo pela anlise
do status da mulher como era estabelecido pelas leis islmicas
sobre a famlia. Mais uma vez, o assunto era bastante novo.
Escrever deu a Azizah o espao necessrio para refletir
sobre a prpria vida, rever o islamismo e receb-lo novamente, dessa vez
de forma mais profunda. Ela estivera

348

lendo o Alcoro todos os dias e descobrira no texto sagrado grande fonte de
fora. Azizah compreendeu que o Profeta Maom estivera adiante de seu
tempo na promoo do tratamento das mulheres, exatamente o oposto do que
fazem diversos lderes religiosos que, de fora intencional, interpretam
mal o Alcoro, a fim de amealhar mais poder e manter as mulheres em
posio de subservincia.
- Os direitos humanos fluem de Deus, e nenhum indivduo ou governo pode
tir-los de ns - diz a dra. Por isso ela deu ao grupo de
direitos humanos o nome de Karamah, de acordo com uma referncia rabe a
um verso do Alcoro que significa "Demos dignidade aos filhos de Ado".
Todavia, ela sabe que a mudana no acontece rapidamente.
- O que foi bastante difcil na infncia e na juventude foi a
interpretao que eu recebia do islamismo em minha
sociedade.
Ler o Alcoro a modificou.
- Descobri que tenho todos os direitos que sempre quis. No havia razo
para alienao; no havia motivo algum para pensar que o Alcoro d s
mulheres lugar subordinado na sociedade.
Azizah reconhece que se surpreendeu com o novo conhecimento sobre o
islamismo e com o modo como ele fortalece as mulheres. A descoberta
tambm a fez refletir de maneira mais favorvel sobre a prpria
educao, sobre como a famlia a incentivou e a orientou para ser uma
mulher de formao e de grande capacitao em uma sociedade dominada por
homens.
- A cultura islmica era patriarcal, mas tambm dava muito suporte e
proteo. Do contrrio, eu no estaria onde
estou hoje.
Azizah nasceu em uma famlia distinta em Beirute, onde
o av era bastante estimado por outros lderes religiosos

349

libaneses do lugar. Ele e o pai de Azizah enfatizavam a educao e
cuidaram para que ela freqentasse as melhores escolas do Lbano.
- Eu era muito pequena quando fui  escola pela primeira vez. Acho que
tinha trs anos, mais ou menos. - Ela passou dois anos na pr-escola e
no jardim-de-infncia de um estabelecimento de orientao francesa, mas,
quando o pai decidiu que ela devia aprender ingls em vez de francs, a
transferiu para a Escola Americana para Meninas. - Passei doze anos
maravilhosos l - ela diz. Mais tarde, concluiria o primeiro curso
superior na Universidade Americana em Beirute, de onde saiu como
bacharel em filosofia.
Ao mesmo tempo, Azizah recebia em casa slida educao sobre o
islamismo. Era a queridinha do av e sua confidente para pensamentos
religiosos, e o resultado foi que ela, ainda jovem, conhecia mais sobre
o islamismo do que muitos imams de formao questionvel. Esse
conhecimento seria til para sua pesquisa acadmica nos Estados Unidos.
Mas a famlia deu a ela mais do que simples instruo sobre as
Escrituras. Tambm enfatizou uma vida de servios, de ajuda ao prximo e
de atitudes condizentes com a f muulmana. Azizah sempre foi bastante
ativa no trabalho de caridade e na assistncia social.
Ela reconhece que hoje muitas muulmanas no recebem o mesmo incentivo.
Essa percepo tem sido reforada pelas viagens que faz pelo mundo
muulmano, onde tem visto as diferenas na forma de tratar as mulheres.
Mesmo assim, Azizah  otimista. Acredita que as mulheres tero mais
direitos... trabalhando dentro da cultura dos prprios pases. Por
exemplo, ela  consultora do Conselho Supremo para Assuntos da Famlia
no Qatar, para o desenvolvimento do esboo do cdigo da famlia. Mas
sabe que o que funciona na Jordnia, por exemplo, pode no ser adequado
a pases mais conservadores, como a Arbia Saudita. Contudo, a mudana
vir. Em diversos pases do

350

Oriente Mdio, incluindo o conservador Ir, mais mulheres ocupam mais
espao nas salas de aula se compararmos os nmeros aos dos homens.
Na opinio da dra. Al-Hibri, as feministas americanas so
bem-intencionadas nos esforos para ajudar as mulheres em todo o mundo,
tentando acabar com a mutilao genital na frica Sub-Saara, por
exemplo. Mas elas precisam compreender que as mulheres nos pases
muulmanos tm prioridades prprias, que podem ser diferentes daquelas a
elas atribudas pelas feministas americanas. Azizah afirma que as
mulheres nos pases muulmanos esto preocupadas, acima de tudo, com o
bem-estar das famlias. No artigo "Introduo aos Direitos das Mulheres
Muulmanas", ela estabeleceu: "Apesar de ser frustrante, a mudana
gradual , ainda assim, mais estvel e menos destrutiva para a sociedade
do que uma mudana radical e coerciva".
Ela diz ainda que no  s no Oriente Mdio ou na frica que ocorre a
supresso do potencial de mulheres muulmanas. Nos Estados Unidos,
algumas mulheres so prejudicadas por no conhecerem seus direitos.
Afastadas das famlias e sem saber falar o idioma local, podem ser
vtimas de abuso dos maridos. Na verdade, uma das misses do Karamah 
ajudar muulmanas nos Estados Unidos a conhecer seus direitos.
- Existe entre as muulmanas americanas real necessidade de desenvolver
o que chamamos de conhecimento legal Azizah disse em um seminrio sobre
os desafios enfrentados pelas muulmanas americanas. - No h muito
conhecimento entre a populao muulmana nos Estados Unidos sobre a lei
nesse pas. E, conseqentemente, situaes de injustia so inevitveis,
o que no ocorreria se essas pessoas conhecessem melhor a lei americana.
Ela cita o exemplo de uma mulher muulmana que decidiu se separar do
marido sob a lei islmica, mas descobriu
que no poderia arcar com o custo do divrcio na corte civil

351

americana. De acordo com esse raciocnio, ela se divorciou aos olhos de
Deus e, mais tarde, casou-se novamente em uma cerimnia islmica. Mas, 
claro, essa no foi uma unio legal, j que ainda era casada com o
primeiro marido. Assim, quando a segunda unio fracassou, a mulher no
pde pleitear nenhum bem ou assegurar seus direitos na corte, porque no
era legalmente casada nos Estados Unidos.
- Ela poderia ter evitado tudo isso - diz a dra. Azizah - S precisava
ter encontrado um caminho, talvez pela Assistncia Legal, ou por
algum outro rgo de amparo  comunidade, para concluir o divrcio
civil. No havia motivo nenhum para se ter colocado em tal posio de
desvantagem.
Algumas imigrantes muulmanas tambm podem sofrer abuso
desnecessariamente, porque os maridos dizem que elas no tm nenhum
direito nos Estados Unidos. Elas acreditam nisso. Alguns maridos so to
ardilosos que obtm cidadania e residncia permanente para si mesmos e
para os filhos, mas no para as esposas. Esses homens exigem total
obedincia das mulheres, ameaando-as com a deportao caso os desafiem.
Algumas vezes, divorciam-se das esposas imigrantes e alegam que elas no
tm direito a nenhum bem familiar. Podem tentar obter a guarda dos
filhos.  comum que ex-esposas sejam deixadas destitudas, sem nenhum
dinheiro ou capacidade de trabalho, foradas a contar com a famlia nos
Estados Unidos ou com a ajuda de algum grupo de caridade. Essa  uma
injustia que, Azizah defende, pode ser reparada nos tribunais. Mulheres
imigrantes tm direito s mesmas leis de proteo em caso de divrcio
que as nascidas na Amrica. Tambm podem solicitar residncia legal sob
a alegao de sofrerem abusos dos maridos.
A corte americana no tem sido muito protetora com as
mulheres muulmanas, em especial no caso de imigrantes
que se casam nos pases de origem. Quando se divorciam

352


em solo americano, a corte nem sempre d a elas tudo a que
tm direito, como o dote atrasado, chamado mahr, e os bens
e valores acertados antes do casamento como parte do kitab,
contrato de casamento muulmano. Nos pases muulma nos o mahr atrasado,
em geral dinheiro ou propriedades, 
automaticamente concedido  esposa em casos de divrcio
(a menos, como estabelece o Profeta, que no haja motivo
para o divrcio). Mas, a dra. Al-Hibri explica, algumas cortes
americanas, contando com testemunhos imprecisos de peritos, tm relutado
em conceder  mulher esse direito. Em um caso especfico, o juiz foi
informado por "peritos" que uma mulher perde o dote caso pea o
divrcio, algo que a dra. Al-Hibri refuta. As regras no so assim to
simples. Infelizmente, a mulher do caso citado acabou perdendo o mahr
e teve de sofrer as conseqncias do raciocnio da corte: qualquer
contrato de casamento muulmano no qual  estabelecido que a mulher
receber o mahr em caso de separao tem "o propsito de facilitar o
divrcio" e  considerado "nulo por contrariar a poltica pblica".
- Em outras palavras, se voc tem um acordo que a incentiva a pedir o
divrcio, isso contraria a poltica pblica. A corte alega que o kitab
incentiva a mulher a divorciar-se. Por qu? Porque o kitab diz que, em
caso de divrcio, ela receber dinheiro. Assim, em outras palavras, para
obter dinheiro, ela se sentir motivada a se divorciar. Concordo que,
segundo essa lgica, o kitab tambm encoraja a mulher a matar, porque
tambm receber dinheiro em caso de morte do marido, desde que no seja
desmascarada. Isso  ridculo.
Em seus esforos para proteger as mulheres muulmanas, o Karamah comeou
a organizar seminrios na Universidade de Richmond para informar
mulheres muulmanas que atuam como lderes comunitrias sobre a lei
americana, em especial as que tratam de divrcio e imigrao. A prpria
dra. Al-Hibri  palestrante ativa e busca informar praticantes e
estudiosos da lei americana sobre o assunto.

353


Tambm est se esforando para mostrar como o Alcoro pode ser usado para
resolver disputas pacificamente. Em diversas passagens, ele promove a
paz pelo dilogo e pela resoluo dos problemas, como ela mesma coloca.
Azizah tem utilizado essas passagens quando defende os direitos humanos.
E a mensagem  ouvida. Ela ficou impressionada com a reao favorvel de
alguns lderes americanos quando ela e outros lderes muulmanos pediram
sua ajuda, tentando salvaguardar os direitos dos muulmanos durante o
perodo de tenso que se seguiu ao 11 de Setembro.
O dilogo d resultado - ela conclui.
Azizah tambm se dispe a falar com grupos cristos e
judeus sobre as origens que suas religies compartilham com
o islamismo.
- Quero falar sobre a minha religio e a sua - ela anuncia ao comear a
palestra. - Porque vocs tambm pertencem  religio de Abrao, f que
defende o amor at mesmo pelos inimigos.
Por meio desse compromisso de promover os direitos humanos no mundo
muulmano, Azizah encontrou sua terra e sua f. E descobriu que o tempo
passa. Agora ela  americana, enriquecida pela cultura libanesa e pela
f muulmana, mas  americana.
Todavia, a doutora se apressa em apontar que sua "americanizao" foi
gradual.
- Quando vim estudar aqui, no queria me tornar americana. Eu pensava,
 sou libanesa. Quando concluir os estudos, voltarei para minha casa no
Lbano. O que voc logo descobre  que sua percepo dos Estados Unidos
est mudando e que tambm est se tornando americana.

354

47
O DE VER DE DEEDRA

Deedra Abboud, radiante e graciosa enquanto circula,
rene-se com empresrios e lderes polticos de Phoenix, cumprimenta as
pessoas pelo nome e no hesita em usar o encantador sotaque do sul.
Veste um tailleur muito elegante e o hijab, que se tornou sua marca
registrada. Elegante, mas simples e discreta. Ela quer que as pessoas se
sintam  vontade em sua companhia, e  isso que acontece.
Sua misso atual  inserir o islamismo e seus seguidores no fluxo da
vida americana. At recentemente, ela cumpria essa misso como diretora
do Conselho de Relaes Islmico-Americanas, no Arizona, o maior grupo
muulmano de direitos civis nos Estados Unidos. Agora atua como diretora
da Fundao Liberdade da Sociedade Muulmana Americana no Arizona,
organizao educacional, social e religiosa de alcance nacional.
Vrios imigrantes muulmanos nos Estados Unidos j esto integrados, diz
Deedra. Aceitaram os mtodos americanos e, quando foi necessrio,
mudaram alguns hbitos, como o aperto de mos entre pessoas de sexos
opostos, por exemplo. No Ocidente,  comum apertar a mo de algum para
demonstrar amizade ou selar um acordo de negcios. Mas os muulmanos, em
especial os imigrantes recm-chegados ou alunos de intercmbio,
acreditam que no devem tocar membros do sexo oposto, exceto aqueles da
famlia.




Deedra garante a eles que no h nenhum problema nisso, caso seja
necessrio. Um aperto de mo pode impedir maiores mal-entendidos. Ela
tem observado que os homens muulmanos no querem parecer chauvinistas
se recusando a apertar a mo de uma colega de trabalho, cliente ou
parceira comercial. Nesse aspecto, as mulheres muulmanas pisam em
terreno mais seguro, j que a etiqueta ocidental determina que  a
mulher quem detm a possibilidade de escolha do aperto de mo. E algumas
muulmanas no querem apertar a mo de um estranho. Pessoalmente, Deedra
acredita que deve faz-lo, e faz; quer causar boa impresso como lder
da comunidade muulmana no Arizona.
Tambm  sua inteno projetar uma imagem segura ao pblico. Ela
acredita que o islamismo aprofundou o feminismo j antes incentivado
nela pela me, uma das primeiras mulheres no Arkansas a se tornar
policial.
Nascida em Pine Bluff, Arkansas, Deedra, hoje com 33
anos, cresceu em Little Rock.
- Minha me se casou muito jovem, aos 18 anos. Fui a caula de quatro
meninas. Meu pai era violento e tambm a traa e enganava. Crescemos em
uma famlia e em uma sociedade chauvinistas.
Esperava-se que a me ignorasse as transgresses do marido, as amantes,
as exploses de ira, as agresses fsicas. s vezes,  intil chamar a
polcia com uma denncia de violncia domstica. Nem sempre o chamado 
atendido. Finalmente, a me reuniu coragem e deixou o marido, apesar da
desaprovao da famlia.
- Eu tinha dois anos - conta Deedra. - Nunca senti muita falta dele, mas
minhas irms diziam ter saudade. - Apesar de a me ter conseguido o
divrcio e obtido penso alimentcia, o dinheiro nunca chegava s mos
dela. A av de Deedra teve de assumir a responsabilidade pelas meninas.

356

Foi isso que levou a me de Deedra tornar-se assistente de xerife em
Little Rock. Alm do salrio estvel e bom, havia no cargo a
possibilidade de fazer a dferena e ajudar a realizar mudanas para
beneficiar outras mulheres divorciadas e os filhos. A me de Deedra
liderou a criao e a implementao de uma poltica estadual de elevar o
valor da penso de pais que no cumpriam a ordem de pagar penso aos
filhos.
- Minha me nos criou para sermos independentes. Ela sempre disse que
no devamos esperar pelo prncipe
no cavalo branco, porque ele nunca viria.
A me de Deedra promovia o feminismo. Incentivava as filhas a
trabalharem juntas e a se ajudarem. Como resultado dessa educao, as
quatro irms so bastante unidas desde a infncia.
A introduo de Deedra no islamismo no foi uma boa experincia. Seu
livro da quinta srie discutia o islamismo no contexto do Oriente Mdio,
e um dos textos mencionava a posio de subservincia das mulheres e
como as esposas apanhavam dos maridos.
- Ler tudo aquilo me deixou super-revoltada.
Como ajudante de xerife, a me havia escutado histrias sobre
muulmanos, basicamente detentos negros que se haviam filiado ao grupo
Nao do Isl na cadeia. Esses homens eram violentos, cheios de dio e,
na opinio dela, perigosos. Ela no via nada de positivo na religio que
considerava estranha. Nem Deedra.
A escola reforou essa impresso. Na sexta srie, outro texto chamava o
islamismo de "maometjsmo" e descrevia como os seguidores adoravam o
Profeta e as mulheres eram obrigadas a usar preto e andar um passo atrs
dos homens. A professora informou que essa gente "ia para o inferno".
Deedra acreditou nela.
Durante o ltimo ano do colgio, enquanto ainda freqentava a
tradicional igreja Pentecostal, Deedra conheceu

357


alguns estudantes da Malsia que eram muulmanos. Decidiu tentar
"ajud-los", explicando como a religio deles era ruim.
- Eu vivia dizendo que eles iriam para o inferno, que as mulheres eram
maltratadas... Eles respondiam: no, o islamismo maltrata as mulheres.
Talvez alguns indivduos o faam, mas no esto praticando o islamismo.
Deedra comeou a refletir, comprou um livro sobre a religio e,
posteriormente, uma cpia do Alcoro. Para surpresa, descobriu que
apreciava aquela f e tudo que ela defendia.
Ela sabia que queria ser muulmana, mas no conseguia se imaginar
convertida em Arkansas. Para comear, como poderia ter um emprego e usar
o hijab? Por uma feliz coincidncia, a me a convidou a acompanh-la a
uma conveno em Phoenix, e Deedra apaixonou-se pelo sudoeste. Sentiu
que poderia viver l e recomear, que aquele era o lugar onde ela se
tornaria muulmana praticante e, confortavelmente, usaria as roupas e o
vu tradicionais. Em 1998, Deedra arrumou suas coisas em um carro e,
acompanhada por uma amiga e pela irm mais velha, seguiu para Phoenix.
L, conseguiu um emprego imediatamente como administradora de colees.
Em pouco tempo, encontrou uma mesquita, um lugar que havia organizado
uma exposio para desfazer esteretipos antirabes exibidos no filme
The Siege.
L, Deedra conheceu Yuko Davis, que se tornou a melhor amiga. Naquele
ano, Deedra converteu-se formalmente ao islamismo, passando pela
cerimnia de shahada. Comeou a ir  mesquita com mais freqncia e a
usar as roupas tradicionais em outras ocasies.
- Eu usava o hijab, mas no para trabalhar. Ia a todos os lugares com
ele, menos ao trabalho - ela conta.
Quando foi demitida, Deedra disse a Yuko que aquela
era uma boa oportunidade para encontrar uma empresa em
que pudesse se sentir confortvel usando o hijab. Por

358


coincidncia, uma construtora que pertencia a uma famlia de
muulmanos precisava de uma secretria. Os proprietrios,
dois irmos, preferiam contratar uma mulher que usasse o
hijab. Deedra foi entrevistada e admitida.
Ela comeou a trabalhar com um dos irmos, Ali Asim
 Abboud Al-Janabi, que era polido, porm distante. O homem falava
muito pouco com Deedra, mas o silncio no a
incomodava. Pelo contrrio. O local quieto e tranqilo a ajudava
a realizar mais tarefas. Ali devia ser um homem de
famlia. Afinal, mantinha sobre a mesa de trabalho fotos dos
filhos.
- Ele era to respeitoso que eu no tinha base para ten ta decifr-lo.
Mas Ali se havia interessado pela secretria alta e de
olhos azuis. E era solteiro. As fotos sobre a mesa eram de
irmos menores.
Ele procurou o marido de Yuko para pedir sugestes
sobre como cortejar Deedra e foi aconselhado a agir pela
maneira tradicional: conhec-la melhor em ambiente em que
houvesse companhia. Yuko e o marido o convidaram para
conhecer Deedra em sua casa. Enquanto isso, a famlia de
Ali incentivava o possvel romance. A cunhada o descrevia
como excelente sujeito. Deedra ouvia com educao.
No estava entendendo - ela ri, hoje. - E era de
esperar que eu somasse dois e dois.
Quando finalmente Yuko a informou sobre o que estava
acontecendo, minutos antes de Ali chegar para "conhec la fora do local
de trabalho, Deedra entrou em pnico. Havia
atendido ao convite da amiga usando cala de moletom, certa
de que seriam apenas as duas em uma conversa informal.
Mas Yuko emprestou a ela as roupas adequadas, e Deedra
conheceu Ali de acordo com o planejado. Ela tambm passou a v-lo de
outra maneira, como marido potencial. O
entendimento ocorreu logo no primeiro encontro, mas
Deedra considerou um dado importante. Ali era muulmano

 359

secular. No era religioso. Como vrios outros nascidos na f, ele
no praticava o islamismo. No rezava.
Ela foi delicada, mas direta: no se casaria com um muulmano
no-praticante. O Alcoro proibia. Assim, desistiu
imediatamente da idia do casamento.
Naquela mesma noite, algum tempo mais tarde, Ali telefonou para a casa
dela e contou que havia rezado pela primeira vez, O relacionamento
decolou. No final, ambos foram transformados por essa relao. Ali
descobriu o islamismo e passou a pratic-lo com o entusiasmo de um
convertido. Aps o casamento, Deedra comeou a sentir necessidade de
encontrar trabalho distinto do do marido e da famlia. Na poca,
participava da criao do Conselho de Relaes Islmico-Americanas,
atuando no conselho de diretores. Quando o grupo decidiu contratar
funcionrios, Deedra candidatou-se e foi admitida como diretora.
Apesar de acreditar que o Arizona  um bom lugar para os muulmanos,
Deedra no ignora os espordicos episdios de violncia que passaram a
ocorrer aps o 11 de Setembro. A tenso continua progredindo depois das
guerras no Afeganisto e no Iraque.
Em 2003, Deedra escreveu para a governadora do Arizona, Janet
Napolitano, pedindo a ela para "denunciar todos os tipos de crimes
raciais, discriminao, violncia, morte, roubo e outras formas de
intimidao". A carta foi uma espcie de premonio sombria: no mesmo
dia em que foi entregue no gabinete da governadora, quatro explosivos de
gelo seco foram jogados no quintal de uma famlia iraquiana em Phoenix.
A populao local investigou o caso como possvel crime de dio, e a
governadora denunciou o ataque. Mais incidentes tm ocorrido, entre eles
a pichao de uma mesquita em Tempe, com o desenho de uma sustica e um
"SS" em forma de raio. Deedra esteve em uma coletiva de imprensa com
outros muulmanos e o chefe da polcia de Tempe, Ralph Tranter, para
protestar contra o vandalismo.


 360

Pouco depois, a polcia prendeu um suspeito perto da mesquita. As
investigaes o relacionaram ao crime.
O chefe Tranter elogiou Deedra por trabalhar com a polcia e se empenhar
em informar o pblico sobre os muulmanos. Mesmo assim, ela relata que
ainda recebe no escritrio muita correspondncia contendo ameaas e
ofensas.
Mas Deedra v o lado melhor da Amrica, e  isso que a faz seguir em
frente. No novo trabalho, Deedra incentiva os muulmanos a se envolver
mais com o governo americano e com os grupos de caridade do pas. Ela
acredita que  importante que os muulmanos passem a fazer parte do
sistema.

- Estou por a conhecendo pessoas novas todos os dias e descubro que os
opositores so minoria.

361


48
DALIA: LUTANDO POR DIREITOS CIVIS

Muitos americanos esqueceram ou nunca souberam
que, em 2002, centenas de homens e garotos do Oriente Mdio foram presos
de uma s vez, na Califrnia, por agentes federais da imigrao. Dalia
Hashad, 29 anos, moradora da Califrnia,  hoje advogada em Nova York e
defende rabes, muulmanos e sul-asiticos pela Unio Americana de
Liberdades Civis. Ela  atormentada pela lembrana daqueles que foram
detidos, bem como pela conscincia da existncia de vrios outros que
tambm foram detidos, deportados ou tiveram seus negcios ou casas
vasculhados desde que o Ato Patriota americano permitiu mais acirradas
polticas e prticas de segurana.
- Aconteceu com muita gente - ela conta. - Diversos muulmanos esto
sofrendo em silncio.
Dalia no acredita que estejamos protegidos contra a represso. No. Ela
sente que a Amrica est enfraquecida por
ela, graas  elevao no desconforto racial e tnico.
- Essa tcnica de rede utilizada pelo FBI  simples identificao racial
e viola as mais valiosas e fundamentais liberdades.
Executivos da Aclu contrataram Dalia para ajudar a combater o que
acreditam ser um ataque  liberdade que muitos americanos tomam por
certa. Dalia elogia o novo diretor nacional da organizao, Anthony
Romero, a quem se

reporta, por lutar agressivamente contra as polticas de restrio em um
tempo em que a discrdia  sempre caracterizada como falta de
patriotismo.
Dalia tem viajado por todo o pas dirigindo a campanha nacional da Aclu
contra a identificao racial e respondendo aos ataques ps-11 de
Setembro contra muulmanos, rabes e sul-asiticos. De costa a costa,
ela fala para platias sobre os riscos das polticas e prticas adotadas
recentemente no pas, incluindo a o Ato Patriota, que incentiva
tratamento negativo de grupos tnicos do Oriente Mdio. Tambm ajuda a
recrutar e treinar advogados para prestar servios legais pr-bono
queles pegos em investigaes federais.
- Esse  um problema srio, e no acontece apenas com o homem que veio
da Jordnia e est trabalhando em uma loja da Dunkin' Donuts com visto
de turista. Trata-se da idia de que podemos resolver o crime
perseguindo pessoas por causa de sua etnia ou religio.
O trabalho como advogada consiste em assegurar que rabes, muulmanos e
sul-asiticos tenham os mesmos direitos que todos os outros nos Estados
Unidos. No entanto, nem todo mundo apia os esforos de Dalia ou
concorda com a nova nfase da Aclu em proteger imigrantes e muulmanos
de segunda gerao. Em um artigo de 2003 intitulado "A Guerra da Aclu
Contra a Segurana Domstica", a revista conservadora Front Page disse:
"Muitos desses visitantes "inesperados" j violavam sua condio de
imigrao quando o governo americano emitiu as ordens de registro". O
artigo continua dizendo: "A Aclu no est interessada em informar os
leitores e seguidores de que muitos muulmanos e imigrantes do Oriente
Mdio que, segundo a instituio, o governo insiste em perseguir por
conta da raa, religio ou etnia, foram deportados pelo governo como
parte de um ano de represso que atingiu pelo menos 5.900 estrangeiros
ilegais, originrios de pases onde a Al-Qaeda  ativa. Vrios foram
atingidos por essa ao por ignorar as

363

ordens de deportao... Portanto, como demonstra a realidade, os agentes
federais que combatem o terrorismo devem agora combater tambm a Aclu a
cada passo que do".
Dalia acredita que o governo americano seria mais eficiente na caada
aos terroristas se no jogasse uma rede to ampla, que acaba
aprisionando diversos inocentes cujos casos congestionam o sistema.
A identificao racial  pior que nunca, ela acrescenta. O medo deixado
pelo 11 de Setembro s contribuiu para um clima j bastante doentio. Em
sua opinio, o racismo ainda est entre ns, porm de forma mais sutil.
O Senado dos Estados Unidos no tem mais gente como Strom Thurmond
clamando por segregao, mas muitos americanos passaram a desconfiar de
grupos inteiros de pessoas.
- A discriminao contra os muulmanos  intensa - ela diz. - Eu a vejo
diariamente.
Como filha de imigrantes egpcios, Dalia considera-se americana
"marrom". Cresceu na Califrnia, entre San Francisco Bay e Orange
County. A me  enfermeira; o pai, engenheiro. Eles se conheceram no
Kuwait, casaram-se e emigraram para Nova York antes de se instalarem na
Califrnia.
- Meus pais nunca tentaram me alienar de idias. Minha irm e eu
crescemos em um ambiente domstico extremamente poltico, onde
assistamos e discutamos os jornais da televiso todas as noites.
Lembro-me de ter sido a nica criana na minha sala de stima srie que
sabia quem era o secretrio de Estado. Na infncia, minha irm e eu
ramos postas diante da tev para assistirmos a programas sobre a fome
na Etipia. Crescemos informadas sobre o mundo em que vivamos, sentindo
que devamos ajudar.
Ela diz que o pai  "o indivduo mais bem informado
que ela conhece", e a me, "a mais astuta e simptica".
- Quando eu era criana, pensava sempre que meus pais eram os melhores
de todos que eu conhecia na comunidade muulmana.

364


Ela e o pai sempre se interessaram por poltica. Enquanto ele comparecia
 reunio do conselho de cidados para discutir uma questo qualquer,
como um posto de gasolina sendo construdo em uma rea residencial, ela
se dirigia a outra reunio, de outra entidade, onde seria discutida uma
questo ambiental, por exemplo.
Como cabia a uma liberal da Califrnia, Dalia estudou na UC Berkeley e
foi eleita presidente do Grupo de Pesquisa e Interesses Pblicos da
Califrnia, grupo de defesa do consumidor, sem fins lucrativos, composto
por 600 mil membros. Durante certo vero, ela chegou a trabalhar oito
horas por dia para angariar fundos para uma campanha de leis de sade
pblica e ambiental perante o Congresso americano.
Vrios anos mais tarde, ela ingressou na faculdade de direito da
Universidade de Nova York, outro pilar de valores liberais. Dalia brinca
dizendo que Berkeley  uma das maiores fornecedoras de alunos para a
faculdade de direito da Universidade de Nova York.
Com sua energia tpica, ao final do primeiro ano do curso de direito,
ela se candidatou a um estgio de vero na Margem Oeste. Essa foi uma de
suas mais memorveis experincias. Dalia integrou o Projeto de Paz
Palestino, grupo formado por advogados, estudantes de direito e
professores, e se dedicou a pesquisar e escrever sobre o programa
controvertido pelo qual o governo israelita atribua lares antes
palestinos a residentes judeus.
- Aquele vero foi inesquecvel e sofrido - ela lembra.
Dalia recorda uma visita feita a uma famlia que havia sido expulsa de
parte da prpria casa, incluindo a cozinha, parte essa tomada por uma
famlia de judeus nascidos nos Estados Unidos. Dalia e outros setenta
integrantes do grupo, que estavam na rea para participar de uma
conferncia, dirigiram-se  casa para prestar solidariedade  famlia
palestina, mas foram recebidos do lado de fora pela famlia judia que,
portando armas, no escondia a hostilidade.

365

Dalia estava bem perto de alguns rapazes armados e, vendo a determinao
nos olhos deles chegou a acreditar
que morreria ali.
Mas novamente se viu agradecendo ao islamismo. Calma e controlada, sabia
que no estava fazendo nada errado, que consolar a outra famlia,
expulsa da prpria casa, era a atitude correta a tomar. Apesar das
armas, ela se sentou na entrada da garagem da casa.
- Com o islamismo, voc faz o que  certo - diz. - Ele lhe d a
liberdade de no ter de se preocupar com as conseqncias.
A Fora de Defesa Israelita chegou, e logo depois vieram as equipes da
mdia internacional. De repente, o evento ganhou porte, com a Fora
agindo rpido para desarmar os israelitas. Em seguida, foi a vez dos
visitantes, com quem agiram violentamente para remov-los de cena.
- Aqueles homens sacudiram uma mulher como se fosse uma boneca de pano.
Eles arrastavam as pessoas.
Um dos principais oradores na conferncia, importante professor judeu e
americano, teve o tornozelo fraturado. Outros sofreram ferimentos
variados. Dalia foi abordada por um soldado israelita que comeou
falando em hebraico. Trilnge, ela fala francs e rabe, mas no
conhece o hebraico.
- Tudo bem - ele disse, irritado. - Que seja em ingls, ento. Ningum
quer machucar vocs. Vo embora
daqui.
Dalia no se moveu. Ele a carregou para longe da casa, mas com
delicadeza. Mais tarde, ela soube que o incidente havia sido mostrado
por diversas emissoras de tev, e com grande preciso.
Depois da Margem Oeste, ela se dedicou a outro estgio, este mais
seguro, na cidade de Nova York. Formada
pela Universidade de Nova York, trabalhou durante algum

366


tempo como associada em um escritrio de direito em Los Angeles, mas
logo descobriu que queria um emprego relacionado  defesa da lei. A vaga
na Aclu era a resposta aos seus anseios. Dalia j tem a sensao de
estar fazendo alguma diferena.
O chefe na instituio foi o portador de uma recompensa valiosssima e
inesperada: ele a apresentou ao futuro marido, um marroquino que chegou
aos Estados Unidos aos dez anos de idade. Ele tambm trabalha para uma
agncia sem fins lucrativos. E, sim,  muulmano.
Dalia se lembra de um amigo ter ficado muito zangado quando ela disse
que s se casaria com um muulmano, idia que ele considerava restritiva
demais. O mesmo amigo estava se casando com algum que no compartilhava
de sua f. Ele  judeu; a noiva era crist. Dalia aceita a deciso do
amigo e no o condena por isso, mas sabe que no poderia se casar com
algum que no fosse da sua religio. O islamismo no s requer que ela
se case com um muulmano, mas ela tambm sente que esse  um fator muito
importante na unio.
Para mim, ser muulmana no  uma religio - ela
diz. -  uma maneira de pensar, um estilo de vida.
Dalia queria uma alma gmea que tivesse o mesmo sentimento e sente-se
abenoada por t-la encontrado.
- O islamismo criou a melhor parte da pessoa que sou

- conclui.

367

49
A ODISSIA DE OKOLO: FUNDAR
O PRIMEIRO MUSEU MUULMANO
DOS ESTADOS UNIDOS

Okolo Rashid  co-fundadora e diretora executiva do
primeiro museu muulmano na Amrica, o Museu Internacional de Culturas
Muulmanas, em Jackson, Mississippi. Ela conta como isso aconteceu:
- Eu tinha minha prpria consultoria em Jackson, promovendo projetos de
desenvolvimento da comunidade e preservao histrica, quando ouvi a
notcia de que uma exposio grandiosa de dez milhes de dlares,
chamada "A Majestade da Espanha" seria realizada em um museu local.
Alguns artefatos a serem exibidos jamais haviam deixado a Espanha antes,
e muitos foram emprestados pelo palcio real. De fato, os reis da
Espanha planejavam estar presentes na inaugurao. Aquela era uma
notcia excitante... mas meu entusiasmo se perdeu quando soube que a
exposio ignorava quase mil anos de domnio mouro na Espanha, mostrando
apenas a Frana crist. Decidi que um espetculo parecido teria de ser
montado para contar a histria da Espanha islmica.
Okolo continua relatando:
- Meu scio, Emad Al-Turk, ento membro da diretoria da nossa mesquita e
presidente de sua equipe de desenvolvimento

econmico, ficou to entusiasmado com a idia quanto o
restante da comunidade islmica. Queramos que a exposio mostrasse
como, sob o domnio muulmano, a Espanha havia sido, por sculos, um
osis de paz a todos os grupos tnicos e religiosos. Diversas pessoas
no sabem que, quando usamos o termo "mouro", estamos falando sobre o
povo africano. A exposio seria sobre como africanos e rabes haviam
comandado um pas europeu. Decidimos chamla "Espanha Moura Islmica -
Seu Legado para a Europa e o Ocidente". Inicialmente, pretendamos criar
algo modesto de 30 ou 40 mil dlares. Mas, no final, apesar do
considervel trabalho voluntrio, o projeto acabou alcanando a casa dos
500 mil dlares e foi apresentado em um prdio prximo de onde acontecia
a exposio espanhola.
Okolo lembra que recebeu muita ajuda.
- Um de nossos principais colaboradores foi Don Simmons, ento diretor
auxiliar do Conselho de Humanidades em Mississippi. Como havia realizado
sua dissertao de doutorado na Pennsula Ibrica e conhecia a histria,
ficou bastante aborrecido ao saber que "A Majestade da Espanha" nem
mencionaria o legado islmico do pas. Em nosso primeiro encontro, ele
disse que seria impossvel falar sobre a Espanha sem mencionar essa
influncia e por isso trataramos dela. Don nos ajudou a conseguir o
primeiro patrocnio federal. Inauguramos nossa exposio em cerca de
quatro meses, e por isso a chamamos de projeto milagroso. A exposio se
transformou no atual Museu de Culturas Muulmanas, aberto em abril de
2001. No primeiro ano, o museu atraiu 25 mil visitantes. O ento
governador do Mississippi, dois ex-governadores e o prefeito de Jackson,
Harvey Johnson, estiveram no museu. Tivemos convidados internacionais de
45 pases, mais ou menos. O governo federal usa o museu como plo
cultural; muulmanos e no-muulmanos de todo o mundo vm visit-lo a
convite do governo americano, para aprender mais sobre a

369




tolerncia religiosa do pas e a cultura muulmana. H artigos sobre o
museu nos sites de embaixadas americanas em pases como a Nigria e a
Indonsia, por exemplo.
Okolo conta que a exposio foi um grande sucesso, mas
teria sido encerrada, conforme o plano original, em 31 de
outubro de 2001.
- No entanto, algum tempo depois do 11 de Setembro, algum atirou um
tijolo contra a janela principal dianteira do museu, que era de vidro.
Na manh seguinte, encontramos o resultado do ato de vandalismo e
comeamos a nos preocupar. A exposio ainda se estenderia por seis
semanas, e havamos planejado uma necessria campanha de levantamento de
fundos entre corporaes, movimento liderado pelo prefeito e por outros
colaboradores. O ex-governador Ray Mabus seria o grande orador. Mas ele
e o prefeito alegaram que no seria sensato prosseguir com a campanha.
Enfatizamos que era importante nos unirmos para apoiar a educao da
comunidade e a pluralidade de culturas em um tempo em que esse apoio era
to necessrio. Eles concordaram, e o evento foi realizado.
- Durante esse mesmo perodo, pessoas de todas as crenas apareceram
manifestando apoio, incentivando-nos a manter as portas abertas, j que
o museu era to necessrio em Jackson. Foi o que fizemos. Hoje o museu 
um sucesso.
Okolo conta que ela e o scio ficaram bastante surpresos com o apoio que
receberam.
- Cerca de 80 por cento dos nossos visitantes so cristos. Ento,
acredito que uma instituio islmica pode prosperar no chamado Cinturo
Bblico. Pelo que tenho observado, os americanos so curiosos e gostam
de aprender, em especial quando so desafiados, como foram aps o 11 de
Setembro.  claro que tambm vi o pior de Mississippi. Justificadamente,
o estado era um constrangimento ao restante do pas, relacionado entre
os ltimos a abolir as leis Jim

370

Crow. Foi to ruim quanto mostram filmes e livros; pior, provavelmente.
Okolo nasceu em 1949, em uma famlia pobre de agricultores, em uma
pequena cidade chamada Flora, cerca de
trinta quilmetros alm dos limites de Jackson.
- Fui a quinta de onze filhos. Isto , onze filhos vivos, porque quatro
no sobreviveram. Minha me tinha um beb por ano em uma poca em que
no havia controle de natalidade. A morte de bebs era um triste
componente daquele perodo, em especial em famlias pobres de
afro-americanos. Minha me chorou a morte dos filhos perdidos, mas
procurou fazer o melhor por ns, os sobreviventes. Ela trabalhava muito.
 uma mulher bastante inteligente, apesar da educao limitada. E tambm
 uma pessoa muito espiritual. A me dela era religiosa, verdadeiro
pilar da comunidade, graas  fora de suas convices religiosas e de
seu carter. Meu pai, por outro lado, no era nada espiritual, e no
quero dar a esse comentrio nenhuma conotao negativa. Ele teve uma
infncia difcil e um pai abusivo. Fugiu de casa ainda jovem, tornou-se
alcolatra funcional e foi, por sua vez, fisicamente agressivo com minha
me.
As lembranas continuam.
Contudo, quando no bebia, meu pai mostrava ser uma pessoa completamente
diferente. Lembro-me de sua integridade. Ele era honesto, tinha forte
tica profissional e insistia em alimentar as mesmas caractersticas nos
filhos. Era igualmente respeitado por brancos e afro-americanos.
Trabalhou como motorista de caminho para uma rica famlia branca em
Flora, em um tempo em que poucos afroamericanos tinham empregos desse
tipo. Apesar de ganhar bem, a famlia no via muito desse dinheiro,
porque ele saa nos finais de semana e voltava para casa sem nada.
Okolo recorda que os pais foram meeiros.
- Na infncia, no tnhamos alternativa seno ajudar no trabalho no
campo, mesmo quando devamos estar na

371

escola. Trabalhvamos no Natal e amos para a escola em janeiro. Isso
significava que raramente amos  escola. Minha me odiava essa
situao, mas meu pai decidia tudo sozinho. Essa foi uma das principais
razes pela qual ela o abandonou, levando consigo os nove filhos que
ainda viviam em casa. Para prover nosso sustento, ela trabalhava em dois
empregos em Jackson. E sempre dizia que os filhos teriam estudo,
educao. Eu tinha dez anos e estava na quarta srie quando nos mudamos.
Apesar de ter perdido muitas aulas, nunca fui reprovada. Mas devo dizer
que trago cicatrizes por conta dessas desvantagens na escolarizao. Eu
me esforava bastante durante o ensino fundamental e melhorei muito
quando cheguei ao colgio. Tornei-me aluna exemplar. Sentia-me motivada:
finalmente podia ir  escola todos os dias, o ano todo. Depois da quarta
srie, nunca mais perdi um dia de aula.
As lembranas de Okolo no param por a. Ela recorda
que o pai se juntou  famlia em Jackson algum tempo depois, e a me o
aceitou de volta.
- Para viver conosco, meu pai teve de desistir do trabalho de motorista
de caminho. Ele no conseguiu encontrar posio similar nem qualquer
outra funo que pagasse to bem. Ficou limitado a trabalhos menores,
como o de frentista em um posto de gasolina, e odiava essa situao. Por
isso voltou a beber. At hoje penso como era triste tudo isso e como a
segregao o prejudicou. No foi fcil ver meu pai se transformar de
homem forte, com firme tica profissional, em um homem que odiava ir
trabalhar, humilhado e sem opes. Ele no conseguia nos ajudar. Quando
penso no passado, compreendo como foi difcil para mim, uma criana, ver
meu pai, um homem to orgulhoso, ser reduzido a essas humilhaes
dirias. Aps mais alguns anos de convivncia, meus pais se divorciaram.
Mais velho, meu pai parou de beber e nos contou como lamentava todos os
enganos de sua vida. Ele morreu com quase setenta anos,

372

sob os cuidados de minha me, a quem elogiava pelo esforo, pela
dedicao ao trabalho e pelo carter e dedicao  famlia.
Quanto  prpria juventude, Okolo relata:
- Conclu o colgio em 1968, no auge do movimento pelos direitos civis.
Envolvi-me no movimento quando tentava ingressar na faculdade em
Mississippi. ramos apenas seis ou sete afro-americanos que haviam
escolhido a Hinds como faculdade. Formada em cincias secretariais, fui
trabalhar e permaneci na rea por vrios anos, ainda morando com minha
me e tentando ajud-la. Aps um tempo, fui contratada pela Tougaloo,
escola de artes liberais particular e historicamente negra. Ela 
conhecida como o "bero" do movimento dos direitos civis em Mississippi
e tem sido includa entre as dez melhores faculdades dos Estados Unidos.
Tougaloo foi excelente para mim, porque eu podia trabalhar l em perodo
integral e ainda estudar de graa.
A dcada de 70 foi muito importante para Okolo.
- Eu me casei e, com meu marido, Sababu, converti- me ao islamismo.
Sababu era ativista de direitos civis e se envolveu no movimento bem
antes de mim. Foi um daqueles estudantes que participava de passeatas
pelos direitos civis com Medgar Evers. Foi preso, dominado pelos ces
dos policiais e, com outros detidos, jogado em caminhes de lixo para
ser levado  delegacia para identificao. O islamismo tem sido a fora
diretriz em nossas vidas, o fator que nos mantm unido. O islamismo nos
mantm fortes como casal e como pais. Os ensinamentos morais bsicos de
nossa religio e sua abordagem pragmtica da vida, como a bondade e a
dignidade com todos, fortaleceram nossa relao.
Okolo faz questo de contar como foi a primeira experincia com o
islamismo.
- Foi por meio da Nao do Isl, de Elijah Muhammad. Mas nosso
envolvimento resultou de estudos dos ensinamentos


373

do filho de Elijah Muhammad, o imam Warith Deen Mohammed. A Nao
do Isl foi estabelecida sobre uma slida base moral, e ns nos
sentamos  vontade nela. Tambm nos sentimos atrados pela perspectiva
do imam Mohammed, que apresentava o islamismo como uma religio que
enfatizava o forte sentimento de dignidade para todos os seres humanos.
Na opinio dele, muulmanos americanos deviam se considerar unidos aos
muulmanos de todo o mundo. O princpio bsico do islamismo  a
unicidade de Deus e da humanidade, todos os homens e mulheres gozando da
mesma liberdade individual e de igualdade perante Deus. Essas idias
eram bastante atraentes para mim e Sababu.  justamente esse esprito de
fraternidade universal que permeia o meu trabalho e o de Sababu, a fim
de que se construa uma comunidade islmica mais diversa em Jackson.
Outra coisa que Okolo aprecia muito no islamismo 
como ele promove o aprendizado.
- Quero aprender sempre, contemplar e repassar meu conhecimento a outras
pessoas. Isso faz de mim um ser humano melhor. Para ser honesta, no me
vejo atuando indefinidamente como diretora executiva do museu, pois
imagino me tornar palestrante em tempo integral. (Como diretora
executiva, j fiz diversas palestras.) Para isso, quero me tornar mais
fluente em rabe e viajar mais a pases islmicos na sia, frica e
Oriente Mdio, para compartilhar com outros o que aprendi. Doar e se
importar com o prximo  crucial. Afinal, Deus foi a Maom no por sua
inteligncia, mas pelo corao.

374


50
RIFFAT: A VIDA COM UM PROPSITO

Aos 61 anos, a dra. Riffat Hassan at poderia diminuir o
ritmo. Pioneira na pesquisa da teologia feminista islmica, lecionou por
dcadas em duas grandes instituies de Kentucky: a Universidade de
Louisville e o Seminrio Teolgico Presbiteriano de Louisville.
No entanto, em vez de reduzir o ritmo, ela est mais ocupada que nunca,
e apenas com muito esforo conseguiu encaixar na agenda uma entrevista
por telefone antes de viajar para liderar estudiosos americanos
apreensivos em uma turn pelo Oriente Mdio. (No final da viagem, ela
prev, todos estaro relaxados e felizes por terem participado da
experincia de descobrimento de fatos que, com alguma sorte, ser tambm
uma misso de boa vontade.) Como fundadora da Rede Internacional para os
Direitos das Mulheres Vtimas de Violncia no Paquisto, a dra. Riffat
tambm encontra tempo para defender as mulheres de assassinatos em nome
da honra, "tradio" que rejeita com paixo.
- Trabalho dezoito horas por dia. H muito a ser feito
- diz Riffat.
O mundo muulmano  territrio familiar para Riffat, que nasceu em uma
famlia de classe alta no Paquisto e  neta de um conhecido escritor e
erudito. Mas o pai era conservador em suas opinies. Ele adorava as
filhas e achou melhor cas-las aos dezesseis anos. Os casamentos foram


arranjados pela famlia. Duas irms mais velhas de Riffat foram
realmente casadas na adolescncia.
- Meu pai era um homem muito bom, mas integrava uma sociedade
patriarcal. - E ela teria tido o mesmo destino, no fosse a rebeldia. A
me, feminista, a apoiou.
Aps concluir os estudos em uma escola anglicana no Paquisto, Riffat
foi estudar na Universidade de Durham, na Inglaterra. Aos 24 anos,
concluiu o doutorado e comeou a lecionar na Universidade de Punjab, no
Paquisto, carreira incomum para uma mulher nos Estados Unidos. E ela se
casou em meados da dcada de 60.
- Por escolha prpria - explica.
Ela e o marido tiveram uma filha e se mudaram para os Estados Unidos no
incio da dcada de 70, mas era difcil ganhar a vida na Amrica. Riffat
passou a aceitar qualquer trabalho para sobreviver, inclusive como
repositora de mercadorias em um supermercado. Esse emprego no durou
muito: um dia. No entanto, no final, ela teve sorte e conseguiu uma vaga
na Universidade de Oklahoma, onde lecionou por dois anos antes de ir
para a Universidade de Louisville.
Nessa poca, o casamento desmoronava aps ter sobrevivido por alguns
anos.
- Eu me conhecia pouco e tambm no sabia muito sobre minha cultura. No
podia dar certo. No vi razo para permanecer em um casamento ruim. A
famlia no precisa ter necessariamente uma figura masculina.
Mas Riffat  grata pelo breve casamento lhe ter dado uma filha, apesar
de ter enfrentado momentos difceis como me divorciada. Riffat seguiu o
caminho conhecido de diversas mulheres e profissionais americanas: bab
quando a filha era pequena, seguida por creches e pr-escolas.  noite,
estava exausta.
- Hoje penso que tudo isso me fez mais forte. E fortaleceu minha filha
tambm. Mas, no incio, foi bastante difcil.
Eu ganhava muito pouco.

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Me e filha so unidas e permanecem prximas at hoje, apesar de viverem
separadas por milhares de quilmetros. Atualmente, a sua filha  atriz e
trabalha na ndia e no Paquisto. (Riffat mantm uma casa no Paquisto.)
Nesse nterim, ela encontrou o trabalho de sua vida: a
teoria feminista e o islamismo.
- Esse tem sido meu maior trabalho como teloga por mais de trinta anos.
A partir da minha pesquisa, comecei a perceber que o Alcoro no
discrimina; as mulheres  que precisam de mais estudo e educao. O
Alcoro sempre foi interpretado por homens para as mulheres. A maior
misso do meu trabalho  educ-las.
Riffat discute algumas passagens traduzidas do texto do Alcoro nas
quais as mulheres so denegridas. Uma, a Surata 4, fala dos homens como
"administradores dos assuntos das mulheres" e diz que a mulher deve ser
"obediente". Ao ler essa mesma passagem em rabe, Riffat descobriu que
qawwarnun foi lingisticamente mal interpretado. De acordo com sua
opinio abalizada, o termo se refere "queles que provm um meio de
sustento ou sobrevivncia". De forma coerente, ela interpreta esse verso
como uma exortao para que os homens sustentem financeiramente as
esposas e mes de seus filhos.
Ela compara a m interpretao  descaracterizao dos conselhos de
Paulo s mulheres no Novo Testamento da 13- blia, resultado de
sucessivas geraes de lderes cristos interessados em promover o ponto
de vista patriarcal.
- Na minha opinio,  muito importante que se desenvolva hoje o que o
Ocidente chama de "teologia feminista" no s para as mulheres, mas
tambm para os homens muulmanos. Estruturas sociais e sistemas de
pensamento injustos impossibilitam o relacionamento de igualdade entre
homens e mulheres.  extremamente relevante que ativistas muulmanas
percebam que, no mundo muulmano contemporneo, leis institudas em nome
do islamismo no

377

suposto propsito era salvar a "honra" da famlia. Vrias daquelas
mulheres no haviam feito nada para merecer to brutal punio. Riffat
conta que esse  um costume tribal de sculos, perpetuado por habitantes
de vilarejos rurais onde imperam a misria e a ignorncia. Entre elas,
existem at mulheres que pensam que filhas e noras devem ser mortas,
caso sejam pegas em adultrio ou olhando para outro homem. Mais horrvel
ainda  o fato de alguns homens fabricarem provas para poder se livrar
de uma esposa, irm ou filha que no querem mais.
- Depois de participar do Nightline, recebi e-mails de pessoas de todo o
mundo me perguntando sobre como poderiam ajudar a deter esses crimes.
Comeamos a formar uma rede internacional e um grupo de apoio, cujo
maior objetivo  ressaltar a natureza desses crimes. Os paquistaneses
vivem em estado de negao.
Desde ento, ela conta, o grupo tem documentado milhares de casos.
Riffat encontrou o presidente paquistans Musharraf, que se mostrou
solidrio e disposto a ajudar nos casos de morte pela honra. Ele comeou
a denunciar a prtica publicamente e, em janeiro de 2005, assinou uma
lei para condenar como crime os assassinatos em nome da honra, fazendo
deles crime passvel de pena de morte.
Riffat comenta:
- A violncia domstica  um problema em todo o mundo, inclusive nos
Estados Unidos. Vrias pessoas do
pouco valor  vida das mulheres.
A soluo, ela diz,  fortalecer as vtimas. E  por isso que Riffat,
entrando em sua stima dcada de vida, no pensa em se aposentar para
viver uma vida mais fcil. No, ela est a bordo de um avio para o
Paquisto ou lecionando para uma nova gerao em Louisville, j que sua
f a leva a trabalhar to duro quanto antes, quando era jovem estudiosa.
- A f d certa estrutura e significado  vida. Existe um propsito para
a vida humana. E esse  um assunto srio.

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GLOSSARIO
Aqui esto algumas palavras, a maioria rabes, que costumam ser usadas
em conexo com o islamismo americano e as muslimah. Vale observar que a
grafia de algumas
delas pode variar.
Abaya - Pea de vesturio usado pela mulher
muulmana sobre as roupas ou vestido longo, largo e recatado.
Al - Deus, em rabe.
Alcoro - Livro sagrado do islamismo, escrito
pelo Profeta.
Burca - Pea de roupa muito austera, que cobre completamente a mulher,
da cabea aos ps, com exceo dos olhos.
Co-esposa - Mulher muulmana nos Estados Unidos que divide o marido com
outra mulher (ou com duas). O islamismo permite que um homem tenha at
quatro esposas, desde que possa sustentar igualmente a todas.
Deen - Estilo de vida, destino.
Eid - Refere-se a dois festivais islmicos: Eid ul-Fitr, que marca o
final do Ramad, e Eid ul-Adha, que celebra a predisposio do Profeta
Ibrahim em sacrificar o filho Ismael por Al.

Hadith - Coleo dos ensinamentos do Profeta Maom.
Haram - O que  ilegal, proibido pelo islamismo.
Hijab - Vu ou cobertura que uma muulmana usa sobre a cabea,
escondendo o cabelo completamente. As mulheres so obrigadas a cobrir a
cabea durante os servios litrgicos, mas muitas relatam que tambm so
obrigadas a faz-lo em locais pblicos onde houver homens presentes.

Imam Tem diferentes significados em diversos grupos islmicos, mas, em
geral,  conhecido como lder da congregao de uma mesquita, aquele que
aconselha os membros sobre assuntos religiosos e lidera as preces da
sexta-feira.
Inam - Lder feminina nas preces, em especial em uma reunio s para
mulheres. No entanto, no  um termo usualmente reconhecido, uma vez que
os homens consideram que apenas a eles  atribudo o direito de se
tornar imams,
Jilbaab - Vestimenta exterior folgada, como um
manto ou casaco largo que cobre todo
o corpo, exceto os olhos.

Khimar - Palavra rabe para qualquer pea de roupa que seja usada para a
mulher se cobrir. Pode ser um vestido, um xale, uma blusa ou outra pea
que cubra o busto, como  determinado pelo Alcoro. Designa tambm a
pea usada para cobrir a cabea.
Khuta - Principal sermo nas preces de sextafeira.

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Mas jid - Casa islmica para adorao; mesquita onde as preces da sexta-feira so
conduzidas.

Mesquita - Casa islmica de adorao onde as preces da sexta-feira so conduzidas.
Nos Estados Unidos, as mesquitas esto se tornando mais parecidas com
igrejas, abrigando cursos e outras atividades. Algumas congregaes
predominantemente afro-americanas podem se reunir aos domingos para
aulas, alm das preces da sexta-feira.


Muslimah - Mulher muulmana; seguidora do islamismo.

Xador - Espcie de burca da Arbia Saudita que cobre completamente a mulher, da
cabea aos ps.
Profeta  Maom - Considerado "fundador" do islamismo; Al foi at ele para transmitir
seus ensinamentos.

383
